A história de nós dois

23 Treinamento matinal


O treinamentos matutinos com All Might nos quais Izuku tinha conseguido incluí-lo após algumas negociações com o herói, eram um tanto quanto diferentes do que Shoto estava habituado a receber na U.A. Principalmente porque em vez de focar em situações específicas, parecia ser mais direcionado para um ajuste fino de habilidades físicas, incluindo uma série de repetições em um ritmo bastante mais pesado a um ponto em que os rapazes precisavam muitas vezes ultrapassar o próprio limite de cansaço e mesmo assim continuar sendo extremamente precisos.

Shoto conseguia ver como isso seria de grande ajuda para o outro, mas também agradecia por estar ali, uma vez que uma das tarefas passou a ser sobre manter a postura confiante e animada a todo momento, coisa que o fazia levar puxões de orelha quase todos os dias do seu maior herói. Izuku, ao contrário, não parecia ter tanta dificuldade com essa parte.

Nesse dia em específico, All Might os tinha posto para atacar um ao outro usando a energia gerada por sua chama contra a da individualidade de Izuku. Não era como o festival esportivo, porém, onde realmente acontecia um embate até alguém perder. Dessa vez, eles deveriam se atingir na mesma proporção e aguentar o impacto da força produzida. Um treinamento de autocontrole e resistência.

Na oitava vez que sua perna em chamas encontrou o chute do colega, uma onda quente de energia os empurrou para trás ao mesmo tempo. Não havia sido tão forte, mas o cansaço fez com que Shoto se desequilibrasse no ar e caísse meio da lado, sendo obrigado a usar o braço para proteger a cabeça do impacto com o chão gramado. Levantou atordoado e a primeira coisa que viu foi um par de olhos verdes brilhando atrás da cortina de fumaça se dissipando. Não pode deixar de se sentir um pouco intimidado por ele, não exatamente como adversário, mas em relação a sua capacidade de continuar. Admirável. Levantou, sentindo dor em quase todos os músculos e se pôs em posição para outro embate, mas a voz de All Might os interrompeu.

— Todoroki-shounen! — O rapaz chamado voltou a atenção para a figura do homem que já havia sido um símbolo de força e poder, mas agora tinha uma aparência frágil e magricela que não deixava, em hipótese alguma, de ser respeitável. Ouviu-o prosseguir: — Não apenas reaja às investidas! Eu quero de vocês dois o maior poder que conseguirem por hora. Isso significa aqueles 80%!

Um movimento súbito de garoto a frente capturou o olhar de Shoto. Com uma expressão quase que de súplica, ele encarava o adulto como se estivesse assustado sobre o que havia escutado. Todos ali sabiam que 80% da força era algo que Izuku já não controlava direito. A despeito de não entender o motivo daquilo estar sendo pedido, Shoto se colocou na posição de ataque previamente definida e assistiu Izuku fazer o mesmo com uma expressão tensa no rosto.

Quando o sinal foi dado, correram em direção um ao outro. Pôde ver a energia fluindo pelo corpo do rapaz e preparou também suas chamas, que aumentavam-lhe a temperatura corporal o suficiente para empurrar o ar a volta, impulsionando-o para um chute onde liberaria completamente essa energia.

Em uma fração de segundo, porém, Izuku recolheu a perna, se deixando completamente vulnerável. Havia claramente desistido. Com um reflexo a fim de não acertá-lo com um golpe possivemente fatal, Shoto jogou-se para o lado e chutou o ar na direção do jardim, gerando uma explosão de fogo que se alastrou pelas árvores.

Os dois corpos chocaram-se um instante antes de despecarem de uma pequena altura, mas de um jeito estranho suficiente para derrubá-los sem jeito.

Depois que sentou e conferiu se não havia se machucado de maneira mais grave, olhou para o colega com a sobrancelha franzida. Não havia sido o próprio Izuku a incentivá-lo a não se conter desde o primeiro momento em que sua amizade começou? O que ele estava pensando ao se pôr em risco daquela forma desnecessária?

Por um instante, sentiu um pouco de raiva misturada ao cansaço e dor no corpo, o suficiente para querer chamar a atenção do outro pelo que tinha acabado de fazer. No entanto, freiou-se no instante em que sua expressão endureceu, sentindo o coração apertar. O outro rapaz estava chorando. Viu-o cobrir o rosto com as duas mãos para abafar os soluços cada vez mais altos a alguns centímetros de distância.

Permaneceu imóvel e confuso quando a bronca anterior lhe sumiu completamente da cabeça. Não sabia o que fazer ou dizer e era como se o sofrimento de Izuku o tivesse atingido como um soco no peito. All Might subitamente apareceu próximo ao rapaz ao lado e ajoelhou, pondo uma mão no ombro dele com uma expressão preocupada. Ainda desconcertado, Shoto apertou os dentes quando ele começou a falar em uma voz fina. Sentia a garganta mais seca que o normal, mesmo para a ocasião.

— Eu não posso… Não posso… Eu não sei como controlar isso…

— Izuku, — A voz de All Might soou mais serena do que o normal, mais do que Shoto jamais havia escutado. — Se não tentar, você não vai avançar. Você já sabe o que fazer nesse ponto.

— Mas e se eu… E se eu machucar alguém? Eu… não posso… Você escolheu a pessoa errada...

— Tsc… — All Might chiou antes de colocar a outra mão no ombro do rapaz e balançá-lo para que o encarasse. — Eu não escolhi você pela sua capacidade física ou suas habilidades motoras. Eu te escolhi por sua determinação em superar os próprios limites e desafios. E você já fez isso tantas vezes, olha só como está agora. Eu sei que está com medo, a pressão que tenho colocado em você é enorme, mas se eu venci esse obstáculo, você também é capaz de vencer. Só precisa encará-lo como tal. E nós estamos aqui para te ajudar.

— Isso. — Shoto se pegou falando antes que pudesse elaborar o que queria dizer exatamente. A verdade era que a visão do rapaz se despedaçando a sua frente era estranhamente dolorosa. Em um segundo, inclinou-se para o lado e colocou a mão em cima da dele da forma como havia feito no restaurante, sem se importar com o que o professor iria pensar, então continuou. — Como eu te disse naquele dia, sua determinação é inspiradora para mim. Vem com tudo, lembra? Vamos tentar de novo até dar certo.

— Agora não. — All Might o cortou um tanto quanto esbaforido. — Vocês acabaram de destruir o jardim outra vez e além disso a aula já está para começar. Vão se trocar e lavar os rostos pelo menos, e amanhã nós começamos outra vez.

Após se despedirem do herói, que ficou responsável por apagar o fogo, os meninos seguiram até o vestiário para colocar os uniformes. O lugar vazio estava excepcionalmente quieto aquele dia, já que a tensão no ar entre os dois estava maior do que a de costume e não era por um bom motivo.

Assim que terminou de se arrumar, ajudou o colega com a gravata, o que fez com que ficassem de frente um para o outro. Izuku lhe dirigiu um olhar carregado com decepção e um pouco de apatia, fazendo com que Shoto respirasse fundo e mordesse o lábio, antes de ser envolvido por um abraço apertado, porém carinhoso. Nunca havia pensado em ver Izuku naquela situação e gostaria de saber o que fazer para ajudá-lo. A sensação de impotência frente ao outro era algo que lhe frustrava há um tempo, na verdade, mas Shoto não sabia direito nem de onde vinha e nem como resolver isso.

— Quer matar a primeira aula? — Sugeriu, movido também pela vontade que sentia de ficar sozinho com Izuku por um tempo maior.

— Não podemos. — Ouviu a resposta enquanto se separavam, e ele limpava as lágrimas com o pulso. — Uma das condições para que eu tivesse permissão para fazer um treinamento extra como esse todos os dias foi nunca faltar ou me atrasar na primeira aula.

— Entendo… — Shoto encarou a gola da camisa, levemente torta, do seu namorado e perguntou despresunçoso, ao ajeitá-lo. — Izuku, o que quis dizer com “você escolheu a pessoa errada” naquela hora com All Might?

— E… — O rapaz se afastou um pouco, fazendo Shoto soltar o pedaço de pano. Tinha um semblante estranhamente assustado de repente. — Eu… Ele me escolheu para treinar… você sabe, como alguém para seguir seus passos no futuro…

Shoto assentiu pensativo. Não podia deixar de perceber que havia alguma coisa que ele estava perdendo nessa história. De fato, a predileção de All Might por Izuku era algo que ele nunca tinha compreendido muito bem, já que não havia laços familiares e aparentemente eles não se conheciam desde muito antes da U.A.. No entanto, mais uma vez a ideia de que aquilo não lhe dizia respeito o fez parar de fazer perguntas e deixar o assunto de lado, não sem sentir uma certa chateação.

— Posso passar no seu quarto hoje à noite? — Pediu, ignorando o fato de que estavam numa quarta-feira ainda. — Nós podemos adiantar um pouco os exercícios das férias de verão.

Assim que o garoto concordou, seguiram para a sala, conseguindo chegar poucos minutos antes do professor Aizawa entrar anunciando a proximidade com o período de férias e o fato de que esse ano haveria uma viagem para longe e também que depois disso os estágios estariam de volta. Passada a empolgação inicial dos alunos, o resto do dia seguiu um ritmo normal, tirando apenas o fato de que todos os músculos do seu corpo não paravam de doer.

À noite, depois da janta, pegou o elevador junto com Izuku quase depois que todos os alunos já tinham saído do refeitório. Não era como se não estivesse acostumado com descer em pisos diferentes do seu, contudo, apertar o botão do segundo andar lhe enchia com uma certa ansiedade positiva, como se pudesse beijar o rapaz ali mesmo. Ao notar que o corredor estava vazio, fez com que sua mão encontrasse com a dele, para andarem assim até o quarto.

Sentiu o rapaz apertá-la com mais força daquela vez.

Notas finais
Eventualmente eu me atrasei um pouco com esse capítulo... To tendo um bloqueio criativo, help! Não sobre o que vai acontecer, mas sobre como ligar uma coisa na outra, que acaba sendo o que vai acontecer a curto prazo... enfim. Espero que vocês gostem de histórias grandes, porque as coisas não param de precisar ficar maiores do que o previsto aqui na tododeku land hehehe. Comenta aí pra eu saber o que achou.