A história de nós dois

40 Sonho e realidade


Notas iniciais
AVISO DE HIATUS mês de outubro não vai ter atualização devido ao desafio de drabbles do nyah, do qual participo todo ano. Próximo capítulo sai na primeira semana de novembro. Boa leitura ❤

— Midoriya-san…

Izuku escutou a voz distante do professor de química, provavelmente vinda do lado de fora do restaurante. No momento, porém, ele e Shoto estavam sentados de frente um para o outro na pequena confeitaria próxima ao local onde estivera estagiando no último semestre. Os dois rapazes tinham pedido uma única fatia e dividiam também os mesmos talheres. Era o encontro romântico que estavam adiando por tanto tempo, não iriam prestar atenção em mais ninguém naquele dia. Levantou os olhos na direção do namorado e sorriu, pensando no quanto ele parecia um príncipe enquanto abria a boca para que o outro lhe desse um morango espetado na ponta do garfo, depois se virou outra vez para a mesa e pegou o último pedaço, raspando um pouco o prato, preparado para colocar na própria boca. Uma mão grande pesou em seu ombro, porém.

— Midoriya-san!

Dessa vez, a voz do professor soou bem do lado e Izuku se virou para cima assustado. Piscou algumas vezes para o rosto bem próximo ao seu antes de praticamente pular da carteira da sala de aula. É verdade, ele estava na sala de aula! Em volta, todos os olhos da turma estavam focados nele com expressões complicadas.

Quando foi que tinha dormido? Mais importante, com o que estivera sonhando?! Imediatamente, todo o seu rosto e nuca começaram a queimar em um rubor que não permitiu que nenhuma palavra lhe saísse da boca.

— Vai lavar o rosto. — A voz do professor soou irritada, apesar do tom sóbrio. — Se não estiver se sentindo bem, pode passar o resto da manhã na enfermaria.

Izuku respirou fundo, tentando se acalmar, apesar de ainda ter toda a atenção dos colegas. Concordou com a cabeça de forma agitada e juntou o material de qualquer jeito para enfiar na mochila e sair logo dali. Se segurou para não começar a correr de nervoso e só conseguiu relaxar os ombros quando a água gelada tocou suas bochechas. Suspirou e se encarou no espelho. Estava uma bagunça, com o cabelo amassado e duas grandes olheiras escuras embaixo dos olhos.

Não era nenhuma surpresa que uma hora isso fosse acabar acontecendo, já que, desde que All Might foi internado há pouco menos de um mês, Izuku estivera treinando em praticamente todos os tempos livres e ainda tentava conciliar isso com a proximidade com as provas finais e também com o namoro. Mas precisava ser bem na aula de química? Naquele ponto, parecia que nada ia dar certo no final. Abaixou a cabeça e não pode deixar de pensar naquele pedaço de bolo de morango dos sonhos, na calmaria do encontro... Se pudesse pedir alguma coisa agora, seria um pouco do calor de Shoto.

Falando nele, Izuku pôs a mão no queixo, quando tinha acabado de acordar daquele jeito infame, podia jurar que as orelhas de Shoto estavam um pouco vermelhas… Seria possível que ele tivesse dito algo embaraçoso em sono? Definitivamente seria. Principalmente pela forma que os outros o olhavam. Izuku se apressou para lavar o rosto novamente e tomou o rumo da enfermaria, envergonhado demais para voltar para a aula naquele ponto. Não faltava muito tempo para o almoço, contudo, e o rapaz foi novamente acordado, dessa vez pela médica, que o aconselhou a comer alguma coisa.

Sentou com os amigos e todos ficaram comendo em silêncio por um tempo, até que Kirishima e Kaminari colocaram os pratos na mesa ao lado e se viraram ao mesmo tempo em sua direção com sorrisos estranhos.

— Ei, Deku… — Foi Kaminari que falou primeiro, atraindo a atenção da mesa inteira. — Agora pouco em química, você tava tendo um sonho erótico?

— Que?! — Izuku praticamente bateu na mesa, sentindo todo o sangue abandonar sua face. — C-c-c-como assim?

— Você tava falando algo como "que gostoso" e "abre a boca"...

— Cara, claro que não! — Kirishima interrompeu. — Ele falou o nome do Todoroki umas duas vezes. Só se tava sonhando com uma suru..

— BOLO! — Izuku juntou as últimas forças vitais que conseguiu, mal conseguindo acreditar na situação em que tinha se metido. — Eu sonhei que estava em uma confeitaria com o p-pessoal… comendo bolo de morango…

— Bolo...? — Kaminari parecia decepcionado.

— Não falei que não era erótico? — Kirishima, por outro lado, soou confiante. — Você me deve um almoço, Denki!

.

À tarde, Izuku resolveu tirar o dia de folga do treinamento. Em parte porque o incidente da manhã o fez perceber que estava se sentindo fraco demais e nada de bom poderia sair disso, mas principalmente para não ter que encontrar ninguém, devido à vergonha que ainda o assombrava. Respirou fundo, concordando consigo mesmo que não havia mentido sobre o sonho, afinal. Não muito, pelo menos. Mesmo assim, para ter sido interpretado dessa maneira, ainda significava que todo o cuidado a mais que ele e Shoto estiveram tentando tomar podia ir embora em um simples deslize agora.

Uma batida na porta o tirou de seus pensamentos. Pelo jeito de bater, não parecia ser Shoto, ainda que uma visita do namorado não parecesse má ideia agora. Puxou a maçaneta apressado e encarou Yuga com uma sacola preta familiar nas mãos e um sorriso que ainda transparecia o quão machucado o garoto estava.

— Eu trouxe salgadinhos. Posso entrar?

Sem pensar duas vezes, Izuku abriu espaço com o corpo e fechou a porta atrás dos dois assim que o outro sentou-se na beirada da cama e pegou uma figura de ação do All Might para mexer com cuidado. Izuku anunciou que tinha suco de pêssego e os dois passaram um tempo servindo os copos e abrindo as embalagens em silêncio.

— Esse com salame é gostoso. — disse casualmente e esperou a expressão de aprovação de Yuga, que o entregou mais um do mesmo sabor, de um jeito que o rapaz sabia ser a maneira dele de demonstrar amizade. Assim que terminou de mastigar, tomou um gole do suco e suspirou, antes de perguntar. — como você está?

— Me recuperando. — Yuga girou o copo em cima da mesa de cabeceira. Dava para notar que o assunto era delicado, mas ele tinha vindo aqui para desabafar sobre isso. — Ainda é um pouco difícil de acreditar, não acha? Bom, um término de relacionamento é um término de relacionamento… Só me resta aceitar.

— Não tem mesmo nenhum jeito, vocês dois? — Izuku colocou outro pedaço de salgadinho na boca e continuou falando. — Não seria melhor conversar com ele?

— O que há para conversar? — Yuga apoiou as duas mãos no colchão e jogou a cabeça para trás, fazendo os cabelos loiros penderem para baixo. Ficou assim por um tempo até virar para o colega outra vez, com uma resposta pronta. — Um relacionamento se baseia em confiança. Algo que nasce já com uma mentira tão grande, você acha que tem como dar certo?

Izuku parou de mastigar por um instante. Aquelas palavras faziam sentido, mas em um paralelo com o próprio relacionamento, foi praticamente uma agulha a lhe espetar bem no peito. Não era como se ele quisesse mentir para Shoto sobre o One for All, afinal, mas havia feito voto de silêncio sobre isso para o All Might. Além do mais, não tinha certeza se contar tudo seria bom para o psicológico de Shoto, uma vez que o rapaz também tinha uma pressão enorme sobre os ombros devido à rivalidade entre os três melhores alunos da escola e todo o problema dele com a família… O que de bom poderia vir de jogar mais algo como isso nas costas do namorado?

Mesmo assim, um sentimento de culpa e medo misturados o preenchiam toda vez que esse assunto lhe vinha à mente, fazendo-o abaixar os olhos para o copo que segurava entre os joelhos. No fim das contas, ele não tinha ideia de como começar esse tipo de assunto.

— Você acha que toda mentira é imperdoável, mesmo que seja para proteger a pessoa que se gosta? Qualquer segredo precisa mesmo terminar mal?

Por um instante, Yuga chupou cada uma das pontas dos dedos sujos de salgadinho, parecendo mais pensativo do que surpreso com a pergunta. Um balanço leve no colchão aconteceu quando o rapaz deitou de lado, com os pés para fora, ficando com a cabeça bem próxima das pernas de Izuku, então ele olhou para cima na direção do garoto, com as sobrancelhas levantadas, mas sem seu sorriso habitual.

— Sabe, no primeiro ano eu tinha um pouco de crush em você.

— Em mim?

Izuku quase pulou de pé, mas acabou fazendo apenas um movimento pequeno que o colocou mais longe do colega, sentado em cima do travesseiro, com as bochechas coradas. Sem se mexer, Yuga apenas esticou o pescoço para encará-lo de ponta-cabeça.

— Claro, por que não? Eu já tive um pouco de crush em vários meninos dessa escola, na verdade, mas você foi o primeiro que me chamou a atenção e acabou sendo meu amigo… enfim, onde eu quero chegar é que eu te conheço. Deku-kun sempre pensa demais no bem-estar dos outros, mas você precisa também considerar qual é o conceito de bem-estar dos outros nessas situações… Te ajudei com o seu dilema romântico?

Izuku concordou com a cabeça e abaixou os olhos, matutando aquelas palavras, mas sem saber o que fazer com elas. De repente, piscou algumas vezes, dando-se conta da última pergunta. Olhou na direção do outro, determinado a negar o fato de que tinha mesmo um dilema, mas não teve tempo de dizer nada, pois Yuga se colocou de pé em um salto, terminou o copo de suco bem na sua frente e bateu-o em cima da escrivaninha, antes de apontar para o colega.

— Eu vim aqui para você me consolar e acabei te dando conselhos, que vai ser de mim? — Ao contrário do teor do que dizia, porém, Yuga se abaixou casualmente, pegou os dois últimos salgadinhos e colocou na boca de Izuku, sem ligar para o semblante culpado do menino. Então deixou escapar um longo suspiro. — Acho que vou pedir colo para Yaomomo da próxima vez…

— Eu tenho videogame… — Izuku sugeriu com a mão na frente da boca, enquanto mastigava ainda. Os dois ficaram se encarando até que Yuga se deu por vencido.

— Videogame é melhor que chorar, de qualquer jeito… mas hoje você precisa me deixar ganhar um pouco.

Notas finais
AVISO DE HIATUS mês de outubro não vai ter atualização devido ao desafio de drabbles do nyah, do qual participo todo ano. Próximo capítulo sai na primeira semana de novembro.