A história de nós dois
33 Sobre a primeira impressão
Izuku estava esperando na estação. Encontraram-se brevemente e logo seguiram por ruas estreitas, em silêncio, caminhando lado a lado sem dar as mãos. Shoto olhou em volta, memorizando o caminho. Algumas casas e prédios formavam uma vizinhança tranquila que, de certa forma, condizia com o modo de ser do outro. Depois de talvez uns 10 minutos, passaram por baixo de um viaduto, em uma viela pequena e chegaram à visão de um conjunto de apartamentos, para onde o rapaz ao lado apontou como destino.
Subiram alguns lances de escada, ocasionalmente topando com vizinhos, que cumprimentavam-nos, às vezes seguido de algum comentário ou pequena conversa aleatória, aos quais Izuku naturalmente respondia enquanto Shoto apenas observava. Para ele, o processo de chegar e sair de casa sempre havia sido bem menos agitado. Enfim, dobraram para uma varanda mais ou menos estreita, de onde se via apenas o prédio da frente, e andaram poucos metros até o apartamento de Izuku.
Não era como se não estivesse nervoso durante todo o percurso até ali, mas ao ver a pequena placa ao lado da porta escrito "Midoriya", o coração de Shoto disparou, fazendo-o segurar com força a alça da mochila. Casualmente, Izuku abriu a porta, revelando o lugar onde deixaram os sapatos. À direita ficava a sala de estar, na qual a mãe do menino os esperava de pé ao lado do sofá. Por um segundo, os olhos dela se fixaram nos dois com uma expressão exasperada, mas de quem já esperava visitas.
— Bem vindos. — Ouviu-a por fim. Shoto não sabia o que responder e sua garganta estava seca demais para arriscar. — Pode ficar à vontade. É… é a p-primeira vez que Izuku traz um amigo para dormir... Imagino que queiram deixar as coisas no quarto. Eu fiz um bolo e comprei uns biscoitos. Se quiser também tem algumas frutas, não precisa ficar com vergonha de pedir...
— Mãe! — Izuku a cortou de súbito, fazendo até Shoto se assustar.
— Certo. — Ela mudou um pouco de tom depois de respirar fundo. — Eu me atropelei e pulei as apresentações. Muito prazer em te conhecer.
— Prazer, Todoroki...
— Shoto-kun! — Izuku o interrompeu com outro susto, e então emendou, sem olhar para o lado: — Shoto-kun é meu… ele e eu… q-q-quer dizer, eu preciso te contar... a gente… b-bem...
— Namorando.
Shoto se pegou completando a frase por puro reflexo, mas se arrependeu logo depois da última sílaba sair de sua boca, quando os olhos da mulher se fixaram nele redondos, por um curto espaço de tempo. Então ela franziu o cenho e alternou a visão entre os dois meninos, finalmente parando no próprio filho, para quem se dirigiu.
— Perdão, como é?
— N-nós estamos namorando… — Izuku suspirou e acertou o tom de voz para repetir com mais clareza. — Nós estamos namorando há alguns meses e eu queria te apresentar o Shoto-kun, como meu namorado.
— Namorando… — Ela pôs a mão no queixo, olhando para o chão, e repetiu a palavra mais para si do que para eles. — Eu nunca imaginaria. Uau… — Então levantou os olhos na direção Shoto, que precisou se segurar para não soltar uma exclamação, mas continuou falando com Izuku. — Ele é bonito, né?
— Mãe! — Dessa vez a voz do garoto saiu mais fina e arranhada.
— B-bem, de qualquer forma, é um prazer te conhecer, Shoto-kun. — Ela fez uma pequena reverência, a qual Shoto repetiu da forma mais formal que conseguiu, e então a sala ficou em silêncio por alguns segundos até que finalmente prosseguiu, — acho que agora vocês podem ir colocar as coisas lá no quarto. Meu filho sabe onde ficam os lençóis, não? Se precisarem de ajuda eu vou estar aqui na sala pensando no que fazer…
Em seguida, Shoto se viu sendo arrastado rapidamente por um corredor desconhecido até que uma porta se fechou atrás deles. O quarto de Izuku não era muito diferente do que estava acostumado a ver nos dormitórios. De fato, uma mesa de computador vazia e alguns buracos na estante indicavam que ele tinha levado o que existia antes ali para a U.A.. Para onde quer que olhasse, havia uma certa familiaridade no ambiente abarrotado de informação. Foi instruído a colocar a mochila em cima de uma cadeira e então os dois meninos sentaram na cama, encontrando os dedos um do outro apressadamente para acalmar os nervos ainda a flor da pele.
— O que acabamos de fazer... — Izuku usou a outra mão para coçar a testa. — Foi meio incrível, não foi?
Depois de pensar um pouco, o rapaz assentiu com a cabeça, suspirando. "Incrível" era o adjetivo mais correto para aquela situação, na verdade, dado que havia sido a primeira vez que ativamente contavam para alguém sobre o fato de estarem juntos. E tudo tinha corrido bem. E rápido. De certa forma, uma sensação de leveza se espalhou pelo corpo de Shoto, fazendo-o ter o ímpeto de se inclinar para beijar a bochecha do namorado. Izuku sorriu, e então colocou uma mecha branca de cabelo para trás da orelha do outro para encostar os lábios nos seus de um jeito carinhoso.
Antes que pudessem aprofundar o beijo, porém, Izuku levantou de súbito e foi mexer na parte de cima do armário. Ajudou-o a tirar e estender o colchão extra no chão e depois forrá-lo com lençóis e um edredom temático do All Might. Em pouco tempo, o lugar onde iria dormir durante a próxima semana estava pronto. Deitou ali mesmo, sob as pernas cruzadas de Izuku, incerto sobre o que deveriam fazer a seguir para matar o tempo.
— Izuku. — Quebrou o silêncio, depois de pensar um pouco sobre aquela tarde. — Como é o nome da sua mãe?
— Ela não te disse? — A mão que estava afagando a parte vermelha de seus cabelos parou pelo instante que Shoto negou com a cabeça. Izuku encarou-o de cima. — Inko… O da sua é Rei, certo?
— Sim. — Shoto se pôs sentado e olhou para a barra da própria bermuda, sentindo-se um pouco estranho. Desde o primeiro momento em que os dois se conheceram, Izuku conhecia, ainda que por relatos, a dinâmica de sua família. No entanto, ao se tratar do contrário, estava completamente no escuro. Mesmo há algumas horas, quando desembarcou na estação, não tinha a menor ideia de para onde iriam e do que aconteceria quando chegassem. Ainda sem levantar a cabeça, arriscou em voz baixa: — O All Might não é realmente seu pai, é?
— Oh não! — Izuku fez um gesto grande, parecendo ao mesmo tempo alarmado e divertido pela pergunta. — Eu conheci o All Might no último ano do primário e ele me ajudou a treinar a individualidade, só isso… S-sobre meu pai, bem… Não o vejo desde que era pequeno. Não tenho certeza se lembro direito do rosto dele.
— Oh. — Shoto levantou os olhos. — Me desculpa.
— Tudo bem. — Izuku sorriu de forma sincera. — Já faz muito tempo e eu me acostumei a ser só eu e minha mãe, de verdade… E bem, ele manda dinheiro. O suficiente para nós vivermos. Pelo menos até quando eu me formar e conseguir nos sustentar também.
Shoto assentiu em silêncio. Era uma realidade muito diferente da dele, mas ao mesmo tempo conseguia se identificar com algumas partes. Durante aquela estadia, provavelmente aprenderia sobre o outro muitas coisas novas, que não tinha condições de saber na escola, e aquilo o animava. Nunca antes havia tido tanta vontade de conhecer profundamente alguém assim.
Encostou-se na cama ao lado de Izuku e passou-lhe um dos braços ao redor dos ombros, deixando-se ser beijado novamente. Algumas horas se passaram, nas quais os dois meninos não fizeram nada além de namorar um pouco, até que uma batida na porta os interrompeu, seguida por um "posso entrar?" na voz da senhora Midoriya. Izuku confirmou, mas mesmo assim eles não se desgrudaram completamente, como estavam habituados a fazer na presença de outras pessoas. O olhar dela ainda era um pouco desconfiado enquanto avisava que o jantar estava pronto.
Poucos assuntos surgiram durante a refeição, considerando que os três ainda estavam um pouco sem graça. Mas assim que terminaram de comer e foram passar um tempo no sofá, a Senhora Midoriya os perguntou como haviam chegado àquele ponto do relacionamento e os rapazes se revezaram nas explicações.
Era natural que ela estivesse um pouco receosa sobre seu filho, por isso Shoto respondia cada pergunta com sinceridade, buscando reforçar bastante o fato de que gostava muito dele, o que fez as bochechas de Izuku ficarem vermelhas algumas vezes. Mesmo assim, Shoto se pegou ansioso pela aprovação da mulher de uma forma que nunca havia pensado que iria querer. E por mais angustiante que fosse, a aura que ela emanava era tão gentil e atenciosa que o estimulava a se sentir confiança. Com certeza dava para perceber a quem Izuku tinha puxado.
No fim do dia, os rapazes voltaram ao quarto e se arrumaram para dormir, quando Izuku indicou que ficaria no colchão, deixando a cama para a visita. Houve um momento em que argumentaram sobre isso, mas Shoto acabou cedendo e deitou na cama do namorado. O cheiro de Izuku estava por toda parte daquele lugar, mas o travesseiro era ainda mais intenso. No escuro, esticou o pescoço, tentando espiar a cama de baixo, e encontrou o brilho esverdeado dos olhos o encarando de volta com uma expressão difícil de decifrar. Sorriu e deixou o braço pender para baixo de forma a darem as mãos até finalmente poder pegar no sono com qualidade durante aquelas férias de verão.
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