A história de nós dois
6 Estágio
Notas iniciais
A semana do intensivo havia acabado de começar e os alunos do terceiro ano, pela primeira vez, se encaminhariam para lugares diferentes depois do café da manhã. O clima geral era de ansiedade. Vestidos com os uniformes da escola, despediram-se dos colegas conforme cada um foi deixando o lugar.
O escritório onde Midoriya estagiava não ficava muitas estações distantes dos alojamentos da U.A., por isso podiam se deslocar sem muita pressa, então saíram em um último grupo junto com Koda e Sero, que iriam na mesma direção.
Enquanto o outro garoto ponderava algo, Shoto olhou para a cidade pela janela do trem, imaginando se todas as manhãs seguintes seriam feitas de pequenas e animadas conversas. Ainda perguntava-se o real motivo de ter aceitado o convite de Midoriya tão prontamente daquela forma. É claro que seria uma ótima oportunidade para conhecer um escritório diferente e adquirir experiência, mas havia outra coisa que já o estava preocupando há um tempo, em relação a si mesmo e ao rapaz, a qual talvez só fosse possível de compreender ao trabalharem juntos.
No momento em que entraram em um túnel, pôde ver seus reflexos de pé e instintivamente começou a reparar nas bochechas dele e em como as quatro pintinhas de cada lado eram, de certo modo, assimétricas. Desde atrás de sua orelha, um pequeno cacho verde se formava e Shoto imaginou como seria a sensação de enrolá-lo nos dedos.
Depois de um instante, viu-o levantar o rosto em sua direção, pelo vidro, e então desviar os olhos, para depois encará-lo novamente com uma expressão curiosa. Já fazia um certo tempo que sentia-se inclinado a observá-lo sempre que tinha a oportunidade, mas quando Midoriya esboçou um pequeno sorriso em sua direção, foi como se houvesse perdido o ar dos pulmões. Apertou a barra de ferro um pouco antes da luz de fora ofuscar suas imagens refletidas, anunciando que seu destino havia chegado.
Caminharam em silêncio até o prédio do escritório. Shoto sentia o coração bater como se houvesse acabado de fazer alguma atividade física, assim que a lembrança recente do sorriso do garoto voltava à sua cabeça. Cogitou a possibilidade de que pudesse estar ficando doente. Precisava colocar os pensamentos no lugar em relação à tudo aquilo o quanto antes.
Apresentou-se novamente a todos assim que entraram pela porta de correr metálica, que precedia uma sala de tamanho mediano, onde haviam duas escrivaninhas com monitores, quadros por toda a parede dos fundos, alguns armários e uma mesa redonda no centro, cercada por cadeiras simples. Era um lugar que parecia aconchegante até demais para a função que desempenhava.
De um dos computadores, Lemillion chamou a atenção de Midoriya e, que praticamente correu até o local enquanto tirava da mochila um caderno. Escutou-os discutir alguma coisa sobre estatísticas enquanto dividiam a atenção entre o monitor e as anotações do rapaz. Aquilo era diferente do que estava acostumado a fazer com Endeavor, por isso se ateve a prestar atenção no máximo possível. Ao deixar o caderno na mesa com o colega, Midoriya voltou até onde Shoto estava parado, desculpando-se pela pressa anterior e explicou que antes de começarem as atividades, fariam uma pequena reunião.
Sentados em volta da mesa de centro, olhando para uma maquete eletrônica projetada, três heróis e agora dois estagiários discutiam sobre a nova área de atuação e as funções atribuídas a cada um a partir daquele mês. Era um escritório pequeno formado por jovens, afinal.
Soube que precisaria entregar um relatório a cada dia de trabalho. Midoriya, que provavelmente já estava habituado a fazer isso, anotava várias coisas na medida em que a conversa avançava, e também era bastante requisitado quanto à estratégias e planos de ação, já que tinha detalhes importantes sobre possíveis vilões por escrito e uma boa memória. Todos pareciam contar com ele de uma forma instigante.
— O que acha, Shoto-kun? — Kuroko, uma heroína alta e esguia, cuja individualidade, escuridão, podia cegar temporariamente quem a ouvisse cantar em um raio de mais ou menos vinte metros, chamou-o com uma expressão amena, enquanto apontava para o mapa. — Como vocês fazem lá no Endeavor em relação à patrulhas?
— Isso! — Lemillion apoiou as mãos na beirada da mesa e se debruçou para frente sorrindo. — Como o atual herói número um mantém seu status de heroísmo tão grande?
— Ele mantém o foco onde existe o maior número de pessoas ou pontos críticos na cidade que possam ser alvos de vilão. — Shoto ignorou todas as ressalvas que teria para fazer quanto ao status de heroísmo do pai e continuou, tentando não deixar o desconforto transparecer. — Mas no geral, costuma ser mais instintivo da parte dele.
Por um minuto, todos se entreolharam até que Raindrop interrompeu o silêncio com uma gargalhada. Shoto desconhecia a expressão da pessoa pequena cujo rosto estava coberto por uma capa de chuva amarela, mas sabia sobre seu constante humor sarcástico e que sua individualidade consistia em poder fazer qualquer tipo de vinha crescer no solo onde gotejava através da pele. Também ouvira dizer que dentre todos ali era a pessoa mais experiente por ter entrado e se formado na U.A. dois anos adiantada.
— Como esperado dos adultos há mais tempo! — Ao levantar-se, revelou que sua altura não passava muitos centímetros do tampo da mesa. Estava usando galochas e apenas as mãos apareciam por baixo das roupas — Certo, reunião acabada. Assim que as crianças se trocarem, nós três vamos sair para dar uma voltinha. Lemillion, eu preciso daquele gráfico pronto até a hora do almoço.
Ao se dispersarem, seguiu Midoriya até o vestiário único. Recebeu uma chave para o armário mais abaixo à esquerda, onde poderia guardar as coisas durante a ronda. Vestiu seu traje enquanto o colega lhe falava dos acontecimentos da semana passada e sobre como se manteriam próximos ao shopping graças a eles. Raindrop os esperava do lado de fora e pôs as mãos na cintura ao vê-los.
— Vocês são muito bonitinhos. — Comentou apontando para a direção onde iriam. — Eu nem acredito que esse ano nos deixaram até ter estagiários! E pensar que há apenas alguns anos eu e Kuroko estávamos lutando para conseguir abrir nosso próprio lugarzinho. Imagino se ano que vem vão nos deixar contratar algum tipo de suporte também, não seria ótimo, Deku-kun?
— Seria bom se tivéssemos algum técnico. — Midoriya respondeu pensativo. — Por mais que Kuroko-san seja muito habilidosa com eletrônicos, acredito que alguém mais especializado tiraria essa responsabilidade dos ombros dela.
Shoto observou-os enquanto conversavam sobre futuro do escritório, percebendo que no próximo ano já era esperado que Midoriya começasse a trabalhar ali. Era estranho não estar em um ambiente em que as pessoas se esforçavam mais para competir do que para cooperar, o que combinava bastante com o outro garoto, mas não tanto consigo. Seu objetivo era superá-lo, no fim das contas.
— Eu espero que essa semana seja bem atarefada para que vocês possam extrair bastante da experiência. — Raindrop continuou, enquanto viravam uma esquina para uma rua mais movimentada. — É para isso que estão aqui, não é mesmo?
No fim do dia, porém, a única ocorrência relevante foi terem retirado um carro de dentro de um buraco em um acidente estranho e encontrar os pais de uma criança perdida.
Foi colocado em uma mesa de frente para Midoriya com objetivo de fazer o relatório, enquanto os adultos faziam a ronda noturna. Ele já estava escrevendo qualquer coisa, enquanto Shoto precisou recapitular desde a reunião até todas as dicas e informações que os profissionais tinham para dar.
— Não é todo dia que tem muita ação, não é mesmo? — Midoriya puxou assunto enquanto coçava o queixo ao encarar o papel sobre a mesa. — Está desapontado?
— Não, eu aprendi bastante hoje. — Viu a expressão do outro se iluminar ao levantar o rosto em sua direção. — Vocês são uma equipe interessante, eu desconhecia a possibilidade dessa forma de organização sem muita hierarquia.
O riso de satisfação de Midoriya ecoou pela sala. Imediatamente, voltou a sentir aquele aperto no coração, ainda que estivesse empolgado o suficiente para sorrir de volta. Era notável o quanto o rapaz estava em casa naquele ambiente e isso o fazia saltar ainda mais aos olhos. Abaixou a cabeça, confuso. Naquele momento, era como se estivesse sentado junto a uma versão mais jovem e bagunçada do próprio All Might, que inspirava a sensação de que poderiam contar com ele para tudo, ele brilhava.
Levantou os olhos para ver que o rapaz à sua frente havia voltado ao texto, murmurando incessantemente alguma coisa inaudível enquanto pensava. Shoto apertou os lábios, lembrando-se de como as pessoas acenavam na rua e pediam autógrafos para o queridinho Deku, finalmente compreendendo aquilo que sentia em relação a ele: admiração.
Fale com o autor