A história de nós dois
16 Conflito e responsabilidade
Notas iniciais
As luzes das estrelas iam ficando cada vez mais fortes conforme as da cidade se afastavam. Até a última estação, era uma jornada de mais que uma hora, na qual não conseguiram ficar sentados mesmo o vagão estando já vazio. Izuku se perguntava como o colega ao lado podia manter um semblante tão sólido depois de todo o acontecido durante aquele dia. Apesar da figura dele próprio e a de Shoto serem as únicas visíveis através do espelho que a janela formava, sabia que não estavam sozinhos, por isso lutou para não corar quando seus olhos se cruzaram pela já agora quinta vez.
Respirou fundo e focou-se no que estava por vir. Tudo o que tinham de informação prática era o destino enviado por mensagem e uma foto do colega em um lugar escuro com chão de cimento. Estavam se jogando diretamente para uma armadilha com a única esperança de conseguirem derrotar o mesmo homem que quase os havia matado há menos de duas semanas.
Suspirou. Talvez ter trazido Hakagure não havia sido má ideia, afinal, considerando que qualquer plano que poderia imaginar contava com esse elemento surpresa. No entanto, alguma coisa dentro de si parecia pesada. A noção de que aquilo tudo era sua culpa por ser o alvo primário do vilão e que estava arrastando cada vez mais colegas para essa bagunça o incomodava. A essa altura, Izuku sentia que já deveria ser capaz de estar mais próximo aos feitos de All Might e resolver seus próprios problemas.
Desceram em uma estação pequena e quase vazia, procurando não atrair olhares curiosos, e se dirigiram para a única saída. Assim que colocaram os pés na calçada, os celulares vibraram ao mesmo tempo. Com o coração acelerado, o rapaz alcançou o bolso da calça e o desbloqueou o mais rápido que pôde para ver apenas uma localização marcada não muito longe de onde estavam.
Buscou por uma confirmação de Shoto, que acenou com a cabeça indicando que estava pronto para o que viria, seja lá o que fosse. Nunca havia lidado com um vilão que o assustasse daquela forma antes, era como se cada parte do seu corpo estivesse em alerta o tempo inteiro enquanto desciam a rua em passos rápidos até o que parecia ser um edifício de tijolos vermelhos que destoava da paisagem e sem nenhuma iluminação interna. Era ali.
A porta da principal estava trancada. Contornaram o prédio até uma porta de metal que parecia feita para emergências e abriram-na com facilidade. Do lado de dentro, iluminada pelas chamas do colega, a primeira coisa que se via era uma escada que tanto subia quanto descia. O silêncio era estarrecedor. Durante um tempo, ficaram sem saber o que fazer até que a vibração dos celulares novamente fez seu coração quase sair pela boca. A mensagem que seguiu foi sucinta: “terceiro subsolo”.
Descer cada degrau era como dar mais um passo em direção ao desconhecido, mas não havia a menor chance deles desistirem naquele ponto. Assim que chegaram, não demorou muito para perceberem que estavam em uma garagem vazia com três fileiras de pilares a frente. Escutaram um clique e a parede oposta foi iluminada à distância. Mas o que chamou a sua atenção foi a figura de Ojiro amarrado em uma cadeira com um saco de pano cobrindo a cabeça, que pendia para frente. Correram até o rapaz no intuito de acordá-lo, porém Shoto segurou-o pelo braço assim que uma grande bolha laranja transparente envolvesse o garoto desacordado, aparecendo de lugar algum.
— Meus parabéns! — A voz conhecida não parecia ter exatamente uma origem, de forma que se viraram para vasculhar a escuridão enquanto um calafrio percorria as costas de Izuku. Se Headhunter estava em algum lugar, não podiam vê-lo dali. — Se tem uma coisa que a U.A. ensina bem aos alunos é a determinação e a coragem para serem grandes heróis. Agora o que a escola NÃO ensina para vocês é que às vezes alguns sacrifícios são necessários…
— Onde você está? — Shoto interrompeu-o, lançando algumas chamas em direções diferentes para iluminar o lugar, sem sucesso. — Covarde! Por que não se mostra e luta à altura?
— À altura? — O homem respondeu com um tom de voz quase divertido. — Até esse momento você ainda não percebeu? Nós não estamos na mesma altura, Todoroki Shoto. Agora, se realmente pretendem testar minha paciência, eu posso matar o coleguinha de vocês nesse exato momento e ainda incluir os dois na conta, mas não é o que nenhum de nós quer, verdade?
— O que você quer? — Izuku gritou para o nada. — Por que nos trouxe aqui?
— Essa é uma pergunta boa, querido Deku. Certamente mais perspicaz que o seu amiguinho. No entanto, acredito que já tenham a resposta: Você, eu quero você. Apenas a imaginação de empalhar cada centímetro do seu corpo e remontar essa bela expressão de determinação com as minhas próprias mãos… eu mal consigo manter o fôlego…
— Não! — Shoto berrou novamente. — Não tem como eu deixar isso acontecer.
— Eu acho que você ainda não se deu conta da sua situação, Todoroki Shoto. Graças à minha bondade, dois de vocês vão poder subir por aquela escada e viver suas vidas normalmente sem nunca mais ouvir falar de mim. Estou trocando dois por apenas um, não parece um pouco injusto, se olhar por esse lado?
— Seu…
— Shoto-kun — Izuku interrompeu-o tocando em seu ombro para sentir a tensão dos punhos cerrados do rapaz, que virou-se em sua direção com um olhar assustador. Engoliu seco antes de prosseguir. — Tudo bem. Eu vou com ele.
Observou a fisionomia do outro rapaz enquanto seu queixo caiu um pouco para logo depois cerrar os dentes, visivelmente chateado com o que tinha acabado de escutar. No entanto, Izuku sabia que aquele caminho era o mais correto, uma vez que aquele era um assunto seu, no fim das contas. Desde do principio, era o que o vilão queria.
E nem tudo estava perdido. Ele lutaria para se libertar assim que fosse levado.
— Tudo bem! — Gritou, ignorando o protesto do rapaz do seu lado e levantando as mãos. — Eu vou com você! O que preciso fazer agora?
— Você é um garoto muito inteligente, Deku. Um herói de verdade! — O tom divertido do homem o fez pensar por um momento se ele estava sendo sério ou sarcástico com aquela afirmação. — Já que chegamos a um acordo, eu quero que você vá até a pilastra logo a sua esquerda, atrás dela vão ter duas injeções exatamente iguais, uma para você e outra para seu amiguinho. Elas vão anular as individualidades de vocês e deixá-los um pouco menos ativos, mas não se preocupem, o efeito não é permanente.
— Izuku, não. — Shoto sussurrou, ao segurar os braços do colega que tinha as duas seringas. — Você não sabe o que vai acontecer.
— Vai ficar tudo bem, Shoto-kun. — Ele colocou a mão livre por cima da que o segurava, tentando lutar contra o tremor que a percorria. Por mais chateado e assustado que parecesse, simplesmente não podia deixar que fosse morto por sua causa. Não. Essa era a vez dele de salvar a pele do amigo. Forçou um sorriso e continuou — Confia em mim.
Sustentaram olhares por um instante em que o toque de Shoto não suavizou. Izuku então retirou a mão de seu braço, de forma confiante, porém delicada. Teve uma súbita vontade de abraçá-lo enquanto o rapaz relutantemente dava-se por vencido, relaxando os ombros e mordendo os lábios ao encarar o chão, mas prosseguiu com o que tinha que fazer.
Não era como se ele já experiência com injeções, mas os anos de assiduidade na enfermaria da escola o tinham demonstrado como aplicar o conteúdo da seringa nele próprio e também no colega. A próxima instrução foi usar uma corda deixada próxima ao mesmo pilar para amarrar Shoto, já que Head Hunter não parecia ter total confiança nas suas ações.
No meio do segundo nó que apertava as mãos do colega, começou a sentir-se tonto, como se a força estivesse sumindo do seu corpo. A noção de equilíbrio começou a ficar estranha de forma que precisou afastar os joelhos para não cair enquanto tentava respirar de forma pesada.
— Izuku… — Shoto colocou as duas mãos em cima das dele e sussurrou com uma voz arrastada, indicando que o efeito de dormência também o estava afetando, assim que a corda envolveu-lhe os pés. — Não faz isso… Eu não posso… Segunda vez… Você…
— Vai ficar tudo bem. — O garoto se forçou a responder junto com um meio sorriso. — Vai ficar tudo bem… Eu não vou desistir.
— Não… — Ele repetiu baixo antes de jogar a cabeça para trás e levantar a voz. — Me leva no lugar dele… Eu vou...
— Nem pensar! — O vilão soltou uma risada antes de prosseguir. Izuku ouvia como se estivesse embaixo d’água e sua cabeça doía. — Não é a coisa mais linda quando começam a barganhar a própria vida pela de quem gostam? Você, Midoriya Izuku, é um rapaz de muita sorte por ter alguém que se trocaria por você na hora da verdade! Porém, nós já fizemos um trato que me agrada muito mais e não sou um homem de voltar atrás nos meus acordos.
Um som de passos ecoou pelo local, vindos da mesma escadaria pela qual tinham descido. Ver novamente o vilão cada vez mais iluminado pela pouca luz amarelada da garagem naquelas condições era como levar um soco. Izuku engoliu seco quando ele fez um movimento para que fosse em sua direção. Forçou-se caminhar lentamente, ignorando qualquer coisa que Shoto já não conseguia dizer ao se arrastar no chão.
Estava lutando para tirar forças da determinação, pois sua única saída seria derrubá-lo ali mesmo e ligar para os professores. Cerrou os punhos para que suas pernas não vacilassem. Sem a individualidade seria bem mais difícil, mas ele sabia que ainda podia ter condições de lutar assim mesmo. Pelo menos tinha que tentar.
Um borrão a frente foi seguido por um estrondo que o fez cair de joelhos e então terminar de rolar devido à tontura. Atordoado, levantou o rosto para encontrar a figura de Ojiro de costas e Head Hunter de joelhos se levantando do que parecia ter sido um golpe.
— Como foi que você escapou? — O vilão limpou um pouco de sangue em sua boca com as coisas do braço e os encarou com raiva.
— Eu tive uma pequena ajuda invisível — Ojiro respondeu. — Já chega, ela já chamou os professores, não tem para onde você fugir agora. Acabou.
— Parece que não sou o único que tem alguns truques aqui, rapazes. Bem, se é essa a escolha de vocês, creio que não tenho outra alternativa.
Conforme ele levantou o braço, várias bolhas laranjas apareceram bem onde cada um dos três meninos estava. Izuku fechou os olhos, pronto para a sensação dolorosa que viria ao perceber as mãos do vilão se fechando.
Um tempo de silêncio se seguiu.
— Acabou.
A frase curta foi repetida agora pela voz do professor Aizawa. Em instantes, toda a equipe de polícia mais alguns professores da U.A. estavam cercando o vilão, segurando lanternas que machucavam a visão de Izuku de forma que precisou esconder o rosto com os braços.
A confusão que se seguiu foi apenas ouvida, Head Hunter não estava pronto para se entregar e atirou em alguma direção. O ruído seco da pistola foi seguido por um grito agudo. A voz de Hakagure. Tentando enxergar, lampejos de policiais rendendo o homem enquanto outros corriam para encontrar e resgatar a menina foram as últimas coisas que conseguiu registrar antes da droga finalmente tomar de vez sua consciência.
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