A história de nós dois
28 Caça ao tesouro
Notas iniciais
Ainda faltavam algumas horas para amanhecer quando Shoto abriu os olhos e esfregou o rosto com as costas da mão no intuito de despertar sem fazer barulho. Izuku dormia ao lado, ainda virado para ele, com um fio de baba molhando o travesseiro verde-claro. Observou-o por um tempo, conforme o torso do rapaz subia e descia devida à respiração lenta. Teve vontade de se inclinar para beijá-lo, considerando que os dois outros colegas também estavam dormindo, mas isso provavelmente arruinaria o resto do sono do garoto, portanto se limitou a levantar discretamente e seguir para o vestiário.
Entrou sozinho sem se importar com o rangido da madeira sob seus pés. Não estava muito acostumado a dormir em lugares tão coletivos como o acampamento, o que fez a noite anterior não ser exatamente boa. Por isso, aproveitou a necessidade de usar o banheiro para se arrumar de uma vez. Além do mais, ultimamente ele e Izuku vinham evitando se trocar ao mesmo tempo em lugares públicos por medo dos outros desconfiarem da forma como seus olhos pareciam querer grudar um no outro de um jeito que chegava a ser desconfortável até para os dois.
Colocou a bolsa em cima de um banco e começou a tirar a camisa, quando o silêncio foi interrompido pela voz alta, mas arrastada de Kirishima discutindo algo sobre omeletes no café da manhã com Tetsutetsu. Assim que o viram, os rapazes acenaram com a cabeça e continuaram a conversa.
Desta forma, antes de Shoto terminar de se vestir, vários outros garotos, em sua maioria da turma B, já tinham entrado no local que agora estava tão agitado quanto poderia e cheirando a uma mistura de produtos de higiene pessoal e suor.
Ao terminar de ajeitar o cinto por cima da roupa, virou-se para sair, quando Kaminari deu um passo para trás e tropeçou em sua direção, precisando se apoiar no banco para não cair sentado e, por consequência, derrubando de lado a bolsa marrom, cujo conteúdo se espalhou pelo chão. No mesmo instante, ouviu um pedido de desculpas curto do rapaz que prosseguiu para se abaixar e pegar as coisas, apressado.
Shoto também esticou-se para pegar algumas peças de roupa de baixo, que Kaminari convenientemente evitava, até que, do meio de alguma delas, um pacote preto de preservativo escorregou direto para a junta do assoalho, parando em pé de uma forma que praticamente desafiava a gravidade. Consequentemente, todos os olhares do vestiário se prenderam na cena.
— Wow, Todoroki! — O rosto de Kaminari ao levantar a cabeça na direção de Shoto mostrava diversão e surpresa ao mesmo tempo. — Eu não imaginava que você era o tipo de pessoa que já usa esse tipo de coisa!
— É só algo que eu tenho… — Shoto respondeu em um gesto de dar de ombros enquanto pegava uma embalagem de desodorante do chão e enfiava na lateral da bolsa.
— Ah, qual é? A julgar por você, com certeza tem mais alguém envolvido nisso aí. — O silêncio do outro praticamente convidou Kaminari a continuar falando rápido. — Ela é da escola? Talvez do estágio? Foi no estágio, né? Você tem estado meio diferente depois que mudou para o escritório do Deku. A gente conhece?
— O que está acontecendo aí?
A voz de Iida se sobrepôs ao silêncio de todos os colegas que agora estavam prestando atenção ao acontecimento. Shoto se virou para vê-lo, quando seus olhos encontraram a expressão confusa de Izuku. No mesmo segundo, sua espinha gelou em contraste com as orelhas queimando, quando Kaminari começou a balançar a camisinha no ar na frente dos dois recém chegados.
— Veja só Iida, agora que o Todoroki tem uma namorada quem sabe sobra alguma menina bonita para o resto de nós, feios. Até você e o Deku vão ter uma chance!
— Eu não tenho uma namorada. — Shoto esticou o braço e tomou o objeto da mão do colega de forma brusca para colocá-lo rispidamente de volta no fundo da bolsa. — Não mexa nas coisas que não são da sua conta.
Deixando os rapazes estarrecidos no vestiário, Shoto pulou para fora chateado. Não era como se fosse uma coisa anormal de se ter, afinal, mas assim que Izuku apareceu na cena, de repente se sentiu tão assustado que as pernas se moveram sozinhas. Era confuso. Já estavam namorando há um tempo e mesmo assim algumas pequenas coisas faziam seu corpo querer pegar fogo sozinho.
Com o coração ainda acelerado, deixou a bolsa na barraca e caminhou pela praia quase correndo até o ponto de encontro marcado pelos professores para a atividade do dia. Assim que chegou, viu uma sacola verde e outra vermelha no chão e de dentro da segunda, recebeu uma espécie de relógio de pulso da mesma cor. Assistiu os colegas pegando aleatoriamente os apetrechos enquanto chegavam, no que parecia ser uma divisão de equipes. No fim das contas, porém, precisou esperar até que todos estivessem no local para que as instruções começassem.
Arriscou uma olhada para o namorado, que veio conversando alguma coisa animada com os amigos, e precisou se segurar uma pequena exclamação quando Izuku ficou vermelho e desviou o olhar. Nesse mesmo instante, voltou a sentir as bochechas arderem e precisou encarar o chão enquanto engolia. Apertou os punhos e respirou fundo, conforme a professora começava a falar.
— Hoje o treinamento dispensa maiores explicações. — Midnight tinha uma mão no ombro da anfitriã. — Vocês já conheceram os modelos que Ushio-san fabrica nesse lugar. Eles são feitos sob medida e a U.A. está muito contente em poder contar com sua proteção.
— O prazer é todo meu. — A outra mulher respondeu com um pequeno sorriso. Tirando a animação em seus olhos, podia-se ver o quanto ela destoava dos outros professores com braços e pernas franzinos. Aparentemente, contudo, ela era quem tinha projetado e construído aqueles robôs do dia anterior e, portanto, deveria ser levada bastante a sério. — Fico feliz que tenham podido testar meus novos protótipos de lasers completamente à prova d’água. Hoje eu tenho mais alguns amigos para apresentar a vocês, porém.
— A tarefa é simples — Midnight continuou — os relógios no pulso de vocês os dividem em duas grandes equipes, verde contra vermelho. Em cada uma das ilhas que compõem o arquipélago existe um dispositivo que registra seu acesso, de onde vão baixar um pedaço de arquivo do mapa. Não vai funcionar a não ser que todos da equipe tenham se registrado em cada local e é impossível tirá-los do pulso sem quebrá-los e desclassificar o grupo todo, portanto vocês não podem dá-los aos amigos e nem trocar de equipe. O objetivo é chegar primeiro ao destino marcado no mapa, que vai ser diferente para cada grupo. Bem simples, não? Ah, quem chegar primeiro vai receber um prêmio especial, portanto é permitido se envolver em brigas.
A partir desse ponto, os alunos começaram a olhar para os pulsos uns dos outros, checando sua sorte. Shoto não pode deixar de olhar novamente para o namorado no meio da confusão de mãos levantadas e falatório que se seguiu. Uma movimentação já tinha começado, quando Izuku lhe mostrou uma pulseira verde. Surpreso, Shoto retribuiu o gesto, confirmando que estariam separados durante a maior parte do verão.
Chateado, viu Bakugou, Uraraka e Yaoyorozu se juntarem à equipe rival, o que significava que além de chata, a tarefa seria perculiarmente difícil. Respirou fundo e encarou a própria equipe. Em sua vantagem, tinham Kendo, Tokoyami e Ibara, mas ao que parecia, os colegas estavam depositando bastante confiança nele também. Misturar os alunos das turmas A e B poderia ser considerado uma estratégia de U.A. de integrá-los, pelo que já tinha notado, e tudo que havia sido proposto seria sobre trabalhar em grupos grandes e sobreviver sem perder ninguém.
Como não tinham ideia da aparência e localização dos supostos dispositivos, calcularam que levariam pelo menos um dia em cada ilha, sem contar os prováveis conflitos, e já que não receberiam suprimentos, seria também uma tarefa de sobrevivência no ambiente. Decidiram, portanto, começar o quanto antes e procurar o que estava na ilha principal.
Pelo visto, a outra equipe teve a mesma ideia, levando todos os alunos a se embrenharem na floresta ao mesmo tempo. Não havia pelo que brigar no momento, logo a busca começou pacífica. Shoto seguiu ao lado de Iida, conversando sobre o quão grande era o lugar, enquanto iam para o lado sul.
De repente, precisou se inclinar e proteger a cabeça por reflexo. Um laser azul tinha acabado de passar de raspão pelos rapazes e explodir uma árvore inteira. Nesse ponto, era óbvio que a tarefa não seria tão fácil assim, conforme um robô com mais de 2m de altura e duas grandes pistolas vinha em uma esteira rolante com destreza, apesar do solo acidentado.
A presença de um daqueles significava que provavelmente estavam próximos ao que procuravam. Não demorou muito para que aparecessem outros alunos, já que com certeza todos tinham ouvido a explosão. Shoto esticou o braço direito e congelou o robô inteiro, fazendo o ambiente ficar em silêncio por um instante antes de dois focos de luz derreteram completamente a proteção, incendiando todo o caminho até as árvores. Estava preso, mas ainda funcionava, e não demoraria para que quebrasse o gelo e voltasse a perseguir os estudantes. Shoto e Iida tomaram aquele tempo para contorná-lo e prosseguir, quando deram de cara com mais duas máquinas daquelas no caminho. Antes que pudesse fazer alguma coisa, no entanto, uma onda de energia vinda da esquerda carregou os robôs junto com toda a vegetação em uma linha comprida. Era Izuku, seguido logo atrás por Bakugou e três colegas da outra turma.
No final da área destruída, podia-se ver uma espécie de totem em formato de obelisco com uma tela escrito alguma coisa em letras pequenas. Não havia dúvida de que era o que todos ali buscavam.
Em um pensamento rápido, criou uma grande parede de gelo com uma pirâmide em cima, que engoliu os adversários com material suficiente para que não escapassem tão rápido, ao mesmo tempo em que avisava sua posição, conforme o combinado com a própria equipe. Chegaram primeiro ao dispositivo e puderam ouvir as várias brigas pela floresta apontando onde as duas equipes se digladiavam. Sem Izuku ou Bakugou por um instante não foi difícil proteger o totem até que os 20 alunos com relógio vermelho tivessem acesso ao mapa e então começassem a voltar para o ponto de encontro marcado na praia.
Antes de sair, pode escutar Bakugou finalmente conseguindo terminar de quebrar o gelo e reclamar com o outro garoto sobre terem combinado de não destruir os robôs se estivessem atacando a outra equipe. De certa forma, era uma estratégia decente pela proposta do exercício, mas Shoto sabia que seu namorado nunca conseguiria deixar uma coisa dessas acontecer. E podia tirar vantagem disso.
Na praia, a equipe vermelha não tinha tempo para comemorar a primeira vitória parcial, uma vez que os outros estavam colados o bastante. A partir dali, seguiriam para a terceira ilha mais próxima no arquipélago com formato de C, pois era consideravelmente menor em comparação com as outras e talvez pudessem encontrar dois dispositivos no mesmo dia dessa forma. Não sabiam qual era a estratégia da equipe verde sobre esse tipo de coisa, mas não podiam deixar isso ser um problema.
Com a mão direita esticada, criou uma ponte pelas águas rasas o suficiente para que ficasse maciça, enquanto Shishida a destruía conforme passava. Em uma parte funda, porém, precisaram ir nadando até finalmente chegar à ilha. Como esperado, não havia sinal dos rivais, o que queria dizer que tinham adotado outro plano de ação e, possivelmente a partir daquele ponto talvez não se encontrassem com tanta frequência.
Por menor que fosse o lugar, estava cheio de robôs guarda, tanto em terra quanto no ar. As horas se passaram enquanto apenas lutavam para não serem atingidos e só toparam com o pequeno totem, em um ponto aleatório da floresta perto de uma nascente, ao cair da noite. Estavam cansados e famintos naquela altura, por isso resolveram montar um acampamento até o dia seguinte e tentar encontrar comida.
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