A história por trás do "não"
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Luce fechou os olhos refletindo sobre o que estava fazendo.
Talvez em outra situação as coisas não teriam acontecido desse jeito.
Talvez se fosse outro lugar, outra pessoa, outra vida...
Mas não era outro lugar; Não era outra pessoa; Tampouco era outra vida. Era só a Luce.
Tossiu depois de se afogar com o whisky. Era isso que tinha planejado para si? Jogou o copo vazio no outro canto do quarto e apreciou o som do vidro se quebrando. Lembrou de como se sentiu quebrada depois de ter que dizer aquilo.
"Não"
Uma única palavra tão pequena e tão inofensiva fizera tudo aquilo. O tic tac do relógio parecia um cd riscado: "Não", "Não", "Não". Isso era tudo que Luce conseguia ouvir.
Adiantaria culpar seus pais agora? Adiantaria procurar um culpado sobre o porquê ela não confiava em ninguém nesse mundo? Pra quem ela iria se lamentar sobre o quanto a vida foi dura consigo? Não sobrara ninguém que aguentasse a sua personalidade fria como uma madrugada de inverno e dura como um diamante.
Ninguém exceto ele.
Ele que ela acabara de fazer sumir com uma simples palavra.
Levantou-se do chão e fechou a janela. Não sentia frio com o vento que entrava, mas detestava o som de um mundo lá fora sendo feliz. Como as pessoas conseguiam simplesmente sorrir sem ter um motivo?
Entrou no banheiro e olhou seu rosto pálido no espelho. Quando foi que começara a ter olheiras? Fazia 15 anos desde que não derramava uma lágrima sequer.
Jogou água gelada em seus olhos na esperança que as olheiras sumissem. Nada.
Voltou para o quarto se arrastando como um zumbi e se jogou na cama. Fechou os olhos e esperou o sono vir visita-la. Talvez em seus sonhos não tivesse sido um não. Talvez ela tivesse dito sim e tudo mudaria. Mas até mesmo o sono, seu melhor amigo de infância, lhe abandonara. Fechar os olhos só fez com que pensasse mais ainda em sua vida.
Tinha apenas 10 anos quando conheceu o tio Kelvin. Ele era tão legal com ela...
Lembrou-se de como passava tardes vendo filmes de princesas e comendo biscoitos em casa com ele. Ele viera morar de favor, apenas por uns tempos, até que conseguisse superar seu divórcio e arranjar uma nova casa.
Péssimos foram esses tempos.
Luce se sentiu totalmente estúpida. O seu "não" não deveria ter sido dito agora. Não em resposta à essa pergunta.
Seu "não" deveria ter sido dito há muito tempo atrás, quando o tio Kelvin fez aquela maldita pergunta. A pergunta que mudou toda a sua vida.
"Luce, você quer ser minha princesa?"
Luce acreditava que o nojo de si mesma havia passado com 16 anos, mas era impossível enganar sua própria mente por tanto tempo. O nojo nunca passaria.
Não adiantava se fechar para o mundo e passar 15 anos de vida sem derramar uma gota de seus olhos. Seu coração gritava a verdade para qualquer um que soubesse de sua história.
Enojada por pensar no tio Kelvin, Luce quase vomitou todo o Johnnie Walker que havia bebido em tão pouco tempo. Mas não. Ela engoliu. Não ia deixar que o passado fizesse isso com ela novamente.
Se assustou ao ouvir alguém bater na porta. Arriscou olhar para o relógio: 02:40 am. Quem seria a essa hora?
Resolveu ignorar a batida para ver se a pessoa ia embora, mas ela só se tornou mais forte.
Luce levantou trêmula. Abriu a gaveta e colocou no bolso o canivete que ganhara de seu pai quando ele soube sobre o tio Kelvin. Seus finos dedos apertavam o cabo enquanto devagar ela caminhava até entrada.
Colocou a mão na maçaneta, mas antes de abrir ousou perguntar em voz alta:
– Quem é?
– Sou eu.
Era ele. Seus dedos soltaram o cabo do canivete rápido e uma sensação de aliviou se espalhou pelo seu corpo. Abriu a porta devagar e observou que mesmo sério, o rosto dele era lindo. Algumas horas atrás estavam tão próximos. Por que agora, a menos de 30cm um do outro, Luce se sentia tão distante?
– Pensei que estivesse me odiando agora.- A voz de Luce saiu mais fraca do que ela realmente queria.
– Eu nunca odiaria você.
Luce olhou para baixo. Não conseguiria encarar aqueles olhos negros depois do que fizera a ele. O silêncio que se instaurou por vários segundos era mais mortal do que a lâmina afiada em seu bolso.
– Por que veio? Eu disse que não...
– Eu sei o que você disse, Luce! — Ele a interrompeu em um tom duro.
– Então porque?
– Eu sei que é difícil para você acreditar que existem coisas boas nesse mundo, mas existem. Não sei se me encaixo em uma delas, mas o que eu sinto por você com certeza se encaixa. Por que disse não? Por que correu daquela forma? Eu vim porque eu to cansado de ter que te entender sozinho! Eu vim porque eu quero ouvir um motivo pra esse não. Porque a única coisa que vai me fazer aceitar esse não é você olhar nos meus olhos e dizer que é porque não gosta de mim.
– Eu não posso fazer isso com você.
– Fazer o que, Luce?
– Eu não posso te magoar desse jeito. Você sabe que a vida comigo seria uma desgraça. Olhe para mim! Olhe para o que eu sou! Eu afasto tudo e todos porque eu sei que a minha frieza vai fazer com que eu machuque quem eu amo. Eu me afasto porque eu sempre vou magoar as pessoas porque não consigo confiar nelas. Eu me afasto porque elas não merecem esse tipo de dor. Você não merece esse tipo de dor...
Ele deu uma dolorosa risada sarcástica.
– Que tipo de dor? Eu sei que você é uma pessoa difícil. Eu sei tudo pelo que você passou pra se tornar assim, mas eu amo você, caramba! Você tem noção de que a dor que eu sinto longe de você não chega aos pés da dor que você acha que me causa?
Ele colocou as mãos no rosto de Luce e obrigou-a a encara-lo.
– Olha nos meus olhos e diz que não me ama, Luce. Eu sei que você mente muito para si mesma e para os outros, mas olhe nos meus olhos e tenha a coragem de dizer isso e eu vou embora.
Luce fechou os olhos e os sentiu arder. Ele tirou as mãos de seu rosto e colocou-as no bolso.
– Eu vou dar a você a chance de responder aquela pergunta de novo. Se você disser novamente não, eu juro que não vou mais te incomodar com isso.
Uma de suas mãos saiu do bolso segurando um fino anel de ouro. O anel que ele dera a ela de presente de dez anos de amizade quando ambos tinham 15 anos. O anel que ela devolveu à ele e disse para guardar para uma garota que realmente merecesse e que ele amasse. Mesmo após 10 anos, ali estava esse anel. Ainda inteiro, ainda novo.
– Luce, eu amo você mais do que qualquer coisa e estou disposto a estar com você por toda a minha vida. Mesmo que você pense que eu vou te deixar assim como sua mãe fez e mesmo que você pense que eu vou virar um maldito bêbado como seu pai depois de saber todos os seus problemas, eu juro que eu nunca vou deixar você. Eu nunca vou deixar que nada disso aconteça. Você quer se casar comigo?
Luce abriu os olhos e uma lágrima por todos esses anos escorreu em seu rosto.
"Sim".
Notas finais
Eu realmente gostei de escrever esse tipo de fic e se alguém tiver criticas construtivas pra me ajudar a melhorar nessa categoria, eu aceito de braços abertos nos comentários ♥
Enfim, espero que tenham gostado da história. Kissu ;*
Fale com o autor