Minha visão turva, meus pés doendo, corpo pesado, a respiração sufocante, a consciência quase perdida, meu corpo só se movia pelo desejo de sobrevivência pois minha vontade sequer existia mais, a cabeça sem entender mais nada apenas gravava a imagem e a repetia na visão como se fosse um filme infinito. Uma cena que ficaria gravada também em minha alma, o fogo alegre em devorar tudo ao redor, um pequeno caminho de pedras ainda salvo das chamas mas manchado pelo sangue de vários mortos caídos no chão e afrente após os corpos..segurando o órgão vital aos vivos, sim aquilo que carrega nossa função primaria: viver, um coração pingando na mão do homem que antes era bondoso..era de extrema compaixão..era diferente do ódio, era meu mestre, hoje apenas uma besta.

Toc toc toc – nada mudava – toc toc toc, assim meu corpo logo se lançava para a frente..em um pulo de susto eu acordava e de imediato podia ver que tudo mudava, não estava mais em meio a chamas mas sim em um lugar confortável...minha cama, aquele lugar era ao qual eu chamava de lar e nele habitava tudo que eu adorava. – O café está pronto, desça ! Dizia uma voz a tom convidativo, uma voz jovem e nem tão grossa ou fina..uma voz que chegava a ser doce e atrativa, a voz de meu mestre..aquela besta que vira em meu sonho não era ele, não podia ser. De pé fazia todos os preparativos de higiene da manha descendo até a sala, esta um cômodo de madeira envelhecida já batendo a casa de seus 50 anos, um local de total bagunça e que o pó e sujeira reinavam. Não era proposital afinal a vida de um mago não era nada fácil, tínhamos que realizar nossas tarefas rapidamente e com eficiente e por isso espaço não era uma preocupação.

- Temos que entregar três pedidos hoje, um no porto, outros dois no centro da cidade, se preocupe só com o do porto os outros dois virão buscar. Esse que falava era meu mestre, um homem jovem com seus 25 anos e dono de uma pele bem clara e cabelo loiro reluzente, rosto angelical detentor de olhos verdes e um perfil que era de dar inveja para outros homens, um verdadeiro perfil de galanteador.

Essa era nossa rotina, realizar pedidos para as pessoas, pedidos fora do comum. Apenas comia apressadamente o café da manha que se resumia a pão com uma fatia de queijo..a quanto tempo não comia algo diferente daquilo ? Talvez cerca de dois anos ? Comia tudo e deixava o prato encima da mesa me dirigindo até a lareira, apagada como sempre e rodeada de cinzas. Suspirava pesadamente assim apenas recolhendo as cinzas deixando-as em um pote médio enquanto com o piso da lareira limpo retirava de meu bolso um pedaço de giz, riscava o chão formando um circulo maior contendo em seu interior alguns triângulos e circunferências menores, era um circulo mágico. Os dedos agora iam a um pote pouco acima da lareira, o quarto pote, pegando dele um punhado de fios de cabelos de uma pessoa morena quem quer que seja, os dedos da mão esquerda(indicador e médio) se juntavam ficando um ao lado do outro de forma perpendicular ao circulo enquanto o punhado de cabelo era jogado no mesmo criando assim um fogo predominante roxo mas com presença de tons esverdeados.

Algumas horas ali se passavam até que por fim estava a caminhar na rua, carregando comigo um pacote pequeno, um frasco com gases vermelhos e que pareciam de uma forma ou outra interagir entre si de forma a quando encostavam viravam branco, caminhava pelas ruas indo ladeira abaixo observando o quanto aquele porto era uma dor de cabeça, o barulho de navios sem parar além claro dos feirantes que não perdiam a oportunidade de vender. Imaginava até quando aquele cenário tão comum mas caótico iria continuar.

Toc toc – batia a porta da cliente, não sabia ao certo quem era mas sabia o motivo, alguém da residência estava doente e necessitava da magia já que nenhum “grande médico” havia conseguido, apenas balofa que esses tais médicos falavam ! A porta era aberta revelando assim uma garota lá com seus 10 anos o que me fazia pensar que talvez o caso fosse mais complicado do que eu pensava.

-O pedido.. – é aqui sim. Completava a garota antes que eu pudesse falar, sem que fosse ofertado ela permitia minha passagem para dentro da casa, adentrava apenas indo pelo local pequeno até o único quarto ali e vendo que havia uma mulher nova com seus 30 anos talvez ? Deitada, pálida, como se estivesse lhe esgotando as forças. – Deixe eu adivinhar criança, foi você que fez o pedido não ? Ela acenava com a cabeça e sem mais eu a entregava o pacote pegando em troca uma pequena sacolinha com moedas de ouro. Sem mais me aproximava da enferma retirando as cobertas dessa e pegava em seguida o pacote retirando o conteúdo de dentro, o frasco contendo o gás, abria o mesmo deixando com que a mulher inconsciente respirasse-o e assim tampava o pote fechando meus olhos. — Ren..me..tsu..hen..e..kou- silaba após silaba era sussurrada para que estivesse completo o efeito daquela magia. – Minha mãe vai ficar melhor não é ? – Assim espero, respondia de prontidão a garotinha..magias tinham poderes de cura infinitamente maiores que medicamentos mas nem sempre o problema é relacionado a enfermidades.

Meu trabalho estava feito e quando preparava para sair, ficar naquele lugar me incomodava por alguma razão e quanto estava para sair começava a cair uma chuva..mas uma chuva forte, tempestade, como estava sem meu guarda chuva não tinha outra opção não ? Suspirava pesadamente e sentava em uma cadeira ali esperando o fim da chuva enquanto a garotinha esperava pela volta de sua mãe.

Abria meus olhos subitamente, minha visão um pouco turva e meu corpo acelerado, podai sentir algo empurrando meu corpo e puxando-o em uma velocidade frenética e quanto voltava a ter nitidez podia ver a garotinha de antes em prantos me empurrando. – Tio ! Minha mãe ! Minha mãe ! Levava o olhar a enferma e reparava que seu corpo agora estava aos poucos ficando preto..estava se carbonizando, pulava para fora dali correndo até a mesma e logo retirava as cobertas mais uma vez reparando onde estava..bem no pulso direito um símbolo que me era familiar, o símbolo de uma maldição. – Aqueles caras ! Resmungava em voz alta mas não tinha tempo a perder..eu não era capaz de alterar aquilo e só conhecia uma pessoa capaz de tal..estava chovendo tanto mas ..eu tinha que salvar aquela mulher não ? Mas ainda sim..tinha muita água, quando tomava coragem e lentamente ia para a porta dando passos lentos como se grilhões prendessem meus pés, em um flash a porta abria com força deixando um forte vento entrar e junto dele um espectro que ia tomando sua forma e se revelava ninguém mais ninguém menos que meu mestre.

O..o mago Pendragon ! Dizia a menina em uma voz de alivio como se agora fosse tudo ficar bem, meus olhos seguiam Pendragon até a enferma, o mesmo apenas ia a esta observando-a e assim levava seus dedos ao pulso da mesma, tocava-o e nada acontecia..mas isso não era visível a garotinha, afinal ela estava sob uma nova ilusão, a ilusão de que Pendragon havia feito algo, assim o mesmo se virava a mim fazendo um sinal para que nos retirássemos e abria o guarda-chuva ao qual eu seguia, saiamos da casa e lá permanecia a garotinha observando sua mãe com uma cara de alivio como se ela estivesse melhor enquanto a realidade mostrava o quão podre era..mostrava o corpo..ou melhor as cinzas que eram a antiga mãe agora nada

- Você realmente não fez nada, ela morreu não é ? Perguntava ao meu mestre enquanto caminhávamos debaixo da chuva. – Não, ela está realmente morta. Essas palavras me amargavam um pouco pois sabia o porque do meu sentimento amargo naquela casa. – Porque não fez nada para salvar ela e..comigo fez ? Sem parar de caminhar o mago se mantinha indiferente, não se alterava a tal realidade dramática. – Vai saber. Respondia em toda a naturalidade a qual me fazia apenas soltar um “tsc” em meus pensamentos..não o entendia por completo..as vezes bondoso outrora dono de crueldade..esse era meu mestre afinal o sentimento amargo que sentira vinha do meu passado, há exatos 5 anos quando o mago Pendragon portador de um pseudônimo; fênix; salvara minha mãe na mesma situação..mas naquele dia ele a salvara..salvara da própria maldição, do destino da morte coisa que com aquela garotinha não acontecia e podia- se ouvir em meio a noite solitária e sombria, o grito agudo de uma garotinha que perdera sua mãe, uma garotinha que tinha sua ilusão quebrada. A lua sorria sombriamente em seu crepúsculo minguante e Pendragon não se alterava quanto a nada. – Vamos , meu discípulo, temos que nos mudar.

Notas finais
Bom como vocês podem ver o narrador é primeira pessoa( contada pelo discípulo de Pendragon), espero que tenham gostado e logo logo vem mais.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.