Notas iniciais
Vou contar um segredo pra vocês. Esse capítulo e o anterior eram um só juntos. Eu separei por puro sadismo de deixar vocês esperando esse momento. Foi a primeira coisa que escrevi da fic. Uma espécie de piloto. Tudo que eu escrevi antes foi pra chegar nesse capítulo, então eu espero que gostem :)

Izuku encarou a maçaneta, pensativo. Ok, eles estavam realmente ali sozinhos no seu quarto. Talvez fossem se beijar de novo, era isso que Shoto queria? Com certeza aquela era uma situação propensa a isso. Será que iriam conversar? Eles precisavam falar sobre o que estava acontecendo. Provavelmente era isso que ele tinha vindo fazer ali, afinal. Qual seria a melhor forma de começar um assunto? Será que não estava imaginando coisas? Com certeza ele teria que dizer algo…

— Izuku. — Seu murmurinho foi interrompido pela voz firme do garoto atrás de si. Virou-se devagar, forçando um sorriso. — Está se sentindo melhor?

— A-ah… Quer dizer, e-eu fiquei um pouco tonto por causa d-d-do calor. — Aquela mentira era mais para ele próprio do que qualquer coisa. — Sabe como é, não dá pra ver direito com todo o... vapor e faz tempo desde a última vez que eu comi…

— Entendi.

Shoto continuou imóvel. Estava de pé no meio do quarto que, por alguma razão, parecia muito menor do que o de costume. Viu-o correr os olhos pelos posteres na parede até as figuras de ação do All Might dispostas na estante de livros e sentiu um pouco de vergonha pela arrumação de seu quarto em comparação com a do outro. Ia começar a falar, quando notou a atenção do rapaz presa em alguma coisa. Virou-se para encontrar um par de controles do antigo videogame portátil que tinha trazido, a pedido do Mineta, no começo das férias.

— Hero Fighters. — Escutou-o murmurar, como se quisesse apenas criar algum assunto. Mas algo na entonação da frase parecia curioso.

— Conhece? — Izuku se surpreendeu. Era um jogo antigo e pouco famoso afinal. — Não sabia que Shoto-kun gostava de videogames…

— Minha irmã ficou quase um ano pedindo um videogame novo e quando eles compraram, esse jogo veio como brinde. Costumavam fazer campeonatos ou algo assim em dias de folga e eu podia ouvi-los brigando quando estava treinando as vezes.

Ficaram em silêncio enquanto Shoto continuava a encarar a estante, como se fosse fascinante de alguma forma. Izuku não conseguiu se conter. Chateado, pegou os dois controles sem dizer nada e entregou um deles ao colega antes de se sentarem na beirada da cama, observando o que estavam fazendo. Cada um tinha uma tela de tamanho médio com botões de ambos os lados e em cima.

— Você liga nesse botão. — Izuku ensinou mostrando no seu para que o outro repetisse. A música do jogo estava sincronizada para os dois aparelhos e conforme o garoto selecionava o personagem, a mesma imagem aparecia na outra tela. — Aqui você escolhe com quem quer jogar. Você conhece os personagens? — Ao vê-lo confirmar com a cabeça, continuou. — Com esses botões você anda, abaixa e pula, com esse você chuta e esses outros dois são soco.

Confirmaram o personagem quase ao mesmo tempo. O narrador virtual anunciou o começo da luta e ambos se concentraram no que faziam. Antes que pudessem se dar conta, estavam sentados de frente um para o outro com os pés na cama, fazendo comentários sobre o que acontecia no jogo. Shoto era bom nisso. Surpreendentemente bom para alguém que passou a maior parte do tempo apertando qualquer botão na primeira vez. Ao final de cinco partidas, Izuku pôs o controle em cima da cama, incapaz de acreditar que tinha acabado de perder três vezes seguidas para alguém que não sabia jogar.

Levantou os olhos e foi pego de surpresa pelo sorriso um tanto quanto infantil do outro. Definitivamente algo que ele nunca tinha visto antes. Imitou aquela expressão involuntariamente enquanto se encostava na parede.

— Essa foi a primeira versão em que eles incluíram o All Might como personagem bônus depois que você vence tudo no modo mais difícil. Quando eu era criança, passei quase seis meses tentando até que minha mãe colocou um limite de tempo por dia, porque meus dedos estavam criando calos. Acho que ela não ligaria tanto hoje em dia.

— Ainda me sinto responsável pelo que aconteceu com as suas mãos no primeiro ano... e agora as pernas. — Shoto comentou pensativo.

— Não precisa. — Izuku se ajeitou para que o outro também pudesse encostar à sua esquerda e levantou o braço quase na altura do rosto, exibindo as cicatrizes. Ele sabia que os movimentos nunca mais seriam como antes, mas poder dobrar alguns dedos separadamente já era como uma vitória pessoal. — Não foi a primeira nem a última vez que eu quebrei tudo. Para falar a verdade, eu era como uma bomba no primeiro ano.

Izuku riu de si próprio. Pensando em tudo o que tinha acontecido até então, era como se o primeiro festival esportivo tivesse sido há muito, muito tempo, e agora podia perceber o quanto havia progredido fisicamente como herói. Os dois tinham progredido bastante, na verdade, e também Kacchan, Iida-kun, Tsuyu-chan… Toda a turma estava bem melhor, cada um do seu jeito.

Um instante de silêncio se passou enquanto refletia sobre isso. Porém, o súbito peso do braço de Shoto sobre seu pescoço o fez voltar à realidade e se dar conta novamente da situação em que estava, para início de conversa. A carícia em seu ombro, suave e por cima da camiseta, foi suficiente para que o coração acelerasse. Engoliu em seco. Sem ter ideia do que fazer e sem coragem de levantar os olhos, se inclinou mecanicamente na direção do abraço, lutando para não estremecer quando o toque em seu ombro ficou mais firme.

Completamente imóveis, ficaram daquele jeito por dois ou três minutos, o bastante para que Izuku começasse a se deixar relaxar. A respiração quente de Shoto em seu rosto vinha de cima e o cheiro era exatamente o mesmo da outra vez, doce, mas ao mesmo tempo fresco, de uma forma que o fazia imergir completamente naquele momento. Teve vontade de vê-lo, então esticou o pescoço para cima até o ponto em que suas bochechas se tocaram, mas antes que pudesse encará-lo, sentiu a pressão dos lábios dele nos seus.

Outra vez, era como uma explosão dentro de Izuku, o zunido no ouvido, a dormência em tudo o que não estava sendo tocado pelo outro, a dificuldade de respirar. Ajeitaram-se em um abraço mais apertado, colocando-se quase de frente.

Não tinha certeza do que fazer com as mãos, então apenas repousou-as nas próprias pernas. Logo, Shoto se separou o suficiente para que pudessem se ver, mas não para que deixassem de sentir o calor em seus rostos. Ele era tão bonito que mal parecia ser de verdade. Observou os olhos ímpares acompanharem a linha de seu queixo e se fixarem em sua boca e então inclinou-se para outro beijo como o anterior, e então um terceiro e um quarto. Não estava mais pensando direito, enfim.

Foi na quinta vez que sentiu a língua do rapaz nos seus lábios e os abriu para que encontrasse a ponta da sua própria. Era uma sensação nova, mais gelada do que esperava, e tinha um gosto bom misturado com pasta de dentes. Um beijo de adulto. Aos poucos, a timidez daquele toque foi diminuindo e a sensação de explorar o momento foi ficando melhor. Dava para respirar perfeitamente, mas engolir era difícil, dentes não incomodavam tanto assim e sugar uma ou outra parte era realmente bom…

Não soube precisar quanto tempo demoraram, mas quando finalmente se separou do garoto, era como se estivesse faltando alguma coisa onde sua boca tinha acabado de estar. Mordeu o lábio quando se encararam. Shoto esboçou um sorriso, que era também para ele, mas Izuku precisou desviar o olhar para as próprias pernas, envergonhado. As bochechas, tão vermelhas quanto as do outro garoto, pareciam estar pegando fogo.

— Eu gosto de você. — Escutou a voz grave dizer em tom suave. — Não importa o quanto eu pense sobre isso, é a única conclusão de que consigo chegar. A forma como Izuku age, como fala com as pessoas... quanto mais eu noto, mais me interessa te entender. Eu tenho te admirado como herói e como pessoa e a sua presença me deixa tão entusiasmado que quando dei por mim estava sempre gravitando ao seu redor. Mas em algum ponto isso deixou de ser o bastante. — Shoto suspirou antes de continuar. — Eu quero poder estar mais próximo, o tempo todo... S-se você também quiser…

Izuku fechou os olhos, ainda de cabeça baixa. Aquilo era um pedido de namoro, certo? Com certeza era um pedido. O primeiro pedido de namoro de sua vida sendo feito por um cara, não só um cara, mas seu colega de classe e um dos melhores alunos da U.A. E eles tinham acabado de passar a última hora inteira se beijando. Como deveria se sentir sobre isso? Não que não tivesse gostado, e ele tinha gostado bastante, mas como poderia mesmo dizer o que estava sentindo? O que deveria responder agora?

Tinha a cabeça quente e a sensação de ter levado um soco no estômago havia voltado, de forma a não deixá-lo raciocinar muito bem o que fazer a seguir. Levantou os olhos devagar e encarou um rosto esperançoso aguardando-o terminar de murmurar. Seria mais fácil se ele não fosse tão lindo.

— E-eu p-p-preciso pensar! — disse, por fim, lutando contra a vontade de se esconder atrás de um travesseiro. Não podia dar uma resposta daquele jeito, enquanto não entendesse tudo o que estava se passando em sua cabeça.

— Entendo...

A voz de Shoto foi morrendo enquanto seu semblante mudou para pensativo. E também um pouco triste. Era meio doloroso vê-lo contrair os lábios daquele jeito enquanto observava algum ponto entre eles. Izuku suspirou e juntou coragem para continuar a falar.

— Domingo! — Praticamente gritou a palavra, chamando a atenção do outro novamente. — E-eu prometo pensar bem sobre isso e te responder no d-domingo…? — Assistiu-o concordar com a cabeça com um semblante um pouco mais iluminado. Teve vontade de animá-lo, então propôs — Eles ainda estão comendo pizza lá em baixo. A gente pode descer juntos, talvez, e se distrair com alguma coisa…

Shoto considerou por uns segundos antes de aceitar. Seria uma oportunidade para se divertirem um pouco aquela noite, depois da tensão que os dois acabaram de experimentar. Izuku levantou com um salto, forçando um estado de espírito melhor e dirigiu um sorriso ao outro, que o acompanhou até o corredor, onde tomariam o elevador. Certamente não estava um clima normal entre eles. Apagou a luz e fechou a porta, deixando o videogame ainda ligado em cima da cama desarrumada.

Notas finais
E aí, valeu a pena esperar esses 15 dias? hehehehe Eu mimei vocês, mas fiquei mimada também. Tava sentindo falta de postar kkkkk Comenta aí e me diz o que achou!