A história de nós dois
46 Reencontro
Notas iniciais
O tempo pareceu estar parado enquanto os dois rapazes ficaram de pé, frente a frente, ambos encarando os próprios sapatos, sem dizer nada. Desde o primeiro ano, quando pôde finalmente rever a sua mãe, Shoto estivera evoluindo para o tipo de pessoa que é capaz de encarar de frente os problemas emocionais. Ou assim ele pensou. Agora, no entanto, seus lábios se cortorciam mudos pela ardência na garganta. Sentia-se envergonhado e assustado. Fechou os punhos ao lado do corpo até o ponto em que as mãos doeram e não foi capaz de controlar os soluços enquanto algumas lágrimas pingavam no chão. Sabia não ter direito de chorar na frente dele, mas não conseguiu mais se segurar.
Um instante depois e os braços de Izuku o estavam envolvendo em um abraço que mal o deixava respirar. Ou talvez não fosse por isso que o ar custava a entrar em seus pulmões. Afundou a cabeça nos ombros dele e pôde sentir seu cheiro, mas tudo parecia girar e seus joelhos estavam fracos demais para aguentá-lo de pé, de modo que simplesmente desabou junto com o menino, que os apoiou até se sentarem no chão, sem se desgrudarem em momento algum.
Ele também estava chorando.
Foi só nisso em que conseguiu pensar enquanto a culpa queimava em seu estômago e a palavra "perdão" saía de seus lábios distorcida pelos grunhidos que fazia ao apertá-lo contra o peito. Não soube quanto tempo ficaram daquele jeito, mas quando nenhum dos dois tinha mais nenhuma energia ou água nos canais lacrimais, mesmo assim não se afastaram. Shoto sabia que o outro podia ouvir a batida acelerada de seu coração entre os soluços que ainda lhe cortavam a respiração. Havia muitas coisas que queria e precisava dizer, mas quando Izuku esticou o pescoço para vê-lo, tinha os olhos carregados de preocupação ao limpar o rosto do namorado com a ponta dos dedos e dizer baixinho.
— Está tudo bem… tudo bem… Calma, respira. Está tudo bem.
Ainda com os olhos grudados nos de Shoto, Izuku repetiu a palavra "respira", seguida por movimento de inspirar e expirar, para que o outro acompanhasse como um exercício. Shoto obedeceu aos comandos, tomando fôlego no mesmo ritmo que o menino ditava, até seu corpo conseguir relaxar, finalmente, e os soluços passarem. Com Izuku por perto, era tão fácil se sentir seguro que aquelas palavras bastaram para a dor em seu peito diminuir.
Não pôde evitar reparar em como o inchaço fazia as pintinhas ressaltarem, ainda mais fofas, como se fossem estrelas do céu. Tomou o rosto do rapaz entre as mãos e o aproximou, até que pontas dos narizes dos dois se tocaram e Shoto pôde ver os cílios dele vibrando de leve. Incrível. Ficaram assim por um tempo, se encarando sem que palavra alguma fosse dita.
A próxima coisa que fez foi juntar os lábios nos de Izuku e sentir um arrepio se espalhar pela espinha.
Encararam-se, por uma fração de segundo, antes de repetir o gesto uma segunda vez, e então uma terceira, quarta, quinta, cada vez mais cheios de vontade de se agarrar um ao outro e não soltar. Shoto não sabia direito o que tudo aquilo significava, mas naquele momento, apenas lhe importava a forma como Izuku se segurava em sua camiseta, puxando-o contra si conforme as duas línguas buscavam desesperadamente uma pela outra. Mesmo tendo apenas se passado um dia, era como se uma agonia houvesse se formado em seu peito em forma de saudade.
Por baixo da roupa, subiu as mãos pelas costas dele, desde a lombar até quase os braços, e só se deu conta do que havia feito quando precisou separar o beijo para tirar a blusa de Izuku, que foi jogada em um canto do quarto. Inclinou-se, então, na sua direção, apoiando no chão primeiro a palma e depois o cotovelo, conforme se punham deitados. Beijou-o no pescoço, nos ombros, na clavícula e então nos peitos, ouvindo os a reação do rapaz a cada etapa. Precisava dele. Precisava dele agora.
Os músculos do torso e dos braços de Izuku eram tão grandes e definidos em contraste com a sua aparência no primeiro ano, enfim se tornando característico de alguém cuja individualidade é a super força. Shoto se afastou um pouco para vê-lo, com um olhar quase escrutinante, e praticamente perdeu o fôlego quando o outro encarou de volta, mordendo o lábio de baixo.
Aquela era a primeira pessoa na vida que o fazia sentir assim, como se pudesse congelar e pegar fogo à qualquer momento. Atração, amizade, desejo, carinho, paixão, tudo era tão confuso e tão intenso que o bagunçava de dentro para fora.
Tirou a própria camisa e deixou que Izuku enfiasse a mão dentro de sua calça ao selarem os lábios novamente. O toque do rapaz já era gostoso o suficiente, mas foi quando aprofundaram o beijo que Shoto sentiu-o esfregar a própria ereção na sua, sem nenhuma camada de roupa entre eles dessa vez. Não parou para ver. Ajudou, movendo o quadril por cima, enquanto o garoto envolvia os dois ao mesmo tempo.
Tomou o lábio de baixo de Izuku entre os dentes e o puxou, sugando com certa força, de modo a deixar uma mancha roxa. Beijou-o então no rosto, na linha do maxilar e finalmente no pescoço, onde não conseguiu se conter sobre deixar chupões, que certamente iriam marcar, considerando a forma como Izuku gemia nos seus ouvidos.
Já não sentia mais as pernas depois de alguns minutos, até que as contrações em sua pélvis começaram a afligi-lo, sem que conseguisse controlar, e o líquido branco jorrou nos pelos da barriga de Izuku. Ignorou a euforia e o cansaço para se pôr sentado nos joelhos, entre as pernas do rapaz, observando a situação do que tinha acabado de fazer e o fato de que o pau dele continuava pulsando, mesmo quando Izuku se mostrou envergonhado o suficiente para tapar o rosto com as costas do braço.
Não precisou pensar muito para segurar o cabelo para trás e colocá-lo em sua boca, tentando repetir o jeito que o rapaz tinha feito no outro dia, descer devagar e voltar chupando de leve. O cheiro dele estava por toda a parte. Não sabia se estava fazendo direito, mas mesmo assim continuou, ouvindo-o tentar abafar os gemidos com os braços. Observar a forma como Izuku sentia prazer era tão incrível que Shoto acelerou um pouco mais, até que sentiu-o crescer e pulsar dentro da sua boca, logo antes de gozar.
O gosto era ruim. Bastante diferente de tudo que já provara. Mesmo assim, fechou os olhos e engoliu, contrariando a si próprio. Ao ver o sorriso satisfeito do outro, isso era algo com o qual ele poderia facilmente se acostumar, afinal. Tudo aquilo parecia real e surreal ao mesmo tempo. Deitou sobre Izuku, apoiando a cabeça perto de sua clavícula, de onde podia escutar os batimentos acelerados do menino enquanto suspirava, até que sentiu um toque suave na nuca, que se transformou em um abraço apertado. Fechou os olhos e ficou ouvindo a respiração dele se acalmar, mas quando os abriu novamente, estava tudo escuro.
Afastou-se no susto e percebeu que o braço, que tinha ficado em cima da barriga do rapaz, estava pegajoso. Izuku acordou com o barulho e pareceu tão alarmado com a situação quanto o outro. Estiveram dormindo daquele jeito por todo o dia. Shoto levantou e buscou alguns lenços umedecidos de papel, que ainda estavam em cima da mesa por limpar seu choro na data anterior, mas que agora tinham outra finalidade. Assim que terminaram de se ajeitar e finalmente vestiram as roupas, sentaram sobre o futon desarrumado. Shoto constatou, envergonhado:
— A gente nem conversou…
— S-sim, perdão, e-eu… — Izuku ainda tinha as bochechas vermelhas, depois de tudo, o que estava deixando Shoto ainda mais constrangido. — Eu também não sei o que aconteceu… eu… V-vim te pedir desculpas… aí… você começou a chorar e eu...
— Quem precisa se desculpar sou eu. Eu te disse coisas horríveis e passei totalmente dos limites. — Shoto tomou fôlego, lembrando de tudo o que havia pensado ontem, ao olhar para as próprias mãos e grunhir as últimas palavras. — Vou entender se não quiser mais ficar comigo…
— Como assim? Claro que não! — Izuku agitou os braços, mostrando um semblante bravo. — O que a gente acabou de fazer parece com algo de quem está prestes a terminar?
Shoto apertou os dentes e engoliu, sentindo o coração doer ao mesmo tempo em que estava aliviado por aquelas palavras. Era quase como se pudesse começar a chorar de novo. Contudo, não podia deixar aquilo só desse jeito, portanto forçou uma fala.
— Esses dias, escutei sem querer você e Bakugou conversarem sobre alguma coisa que eu não sei. Eu… eu entendo que vocês são amigos de infância e é normal eu ter perdido algumas coisas antes de te conhecer, mas acho que acabei ficando com ciúmes…
— C-ciúmes? — Izuku pareceu surpreso o suficiente para que seus olhos ficassem bem redondos. Então de repente começou a rir ao ponto de precisar limpar uma lágrima. — De mim? Com o Kacchan?
— Parece absurdo? — Shoto quis saber genuinamente, mas a pergunta fez o menino desatar em outra gargalhada. Era tão bom ouvir o riso dele que o esperou terminar para prosseguir. — Onde eu quero chegar é que você não me deve nenhuma explicação. Seus segredos são importantes e, se não se sentir confortável para me dizer, eu vou entender isso e confiar em você. É uma promessa.
— Me empresta seu pé. — Izuku pulou para o lado de Shoto e pegou-o pelo pé sem se importar com a surpresa da mudança tão repentina de assunto. Curioso, o outro rapaz o deixou sentir cada um dos dedos até chegar ao mindinho, onde fazia um pouco de cócegas. — É verdade mesmo, eu nunca tinha tido a chance de comparar com outra pessoa…
— O que? — Shoto franziu o cenho, subitamente preocupado com o próprio pé.
— Olha só. — Izuku o instruiu a sentir o último dedo do próprio pé e então o mesmo dedo em si mesmo, como se isso fosse uma de suas descobertas para escrever no diário, ou coisa assim. Shoto ainda estava confuso e juntou as sobrancelhas enquanto o namorado explicava. — Veja, no meu dedinho tem uma, duas articulações. Três ossos. Agora no seu tem só uma articulação, consegue sentir? Dois ossos. Eu tenho um osso a mais no corpo.
— Oh! — Exclamou, ao finalmente perceber a diferença que ele estava falando. Mas então ficou ainda mais confuso. — E daí?
— Muito antigamente, todas as pessoas tinham três ossos, como eu, mas a evolução decidiu que a humanidade precisava de apenas dois e, por isso, abandonou um ossinho. — Shoto acenou, indicando que estava prestando atenção enquanto o rapaz gesticulava tudo o que dizia, como um professor de verdade. — Essa época que eu falei, foi antes das individualidades surgirem no mundo. Talvez as duas mutações tenham acontecido juntas ou em tempos muito próximos, ninguém sabe, mas esses traços genéticos antigos podem, às vezes, aparecer juntos… como no meu caso…
Izuku tornou a olhar para o próprio pé, segurando o dedo, como se uma lembrança bem viva e dolorosa estivesse passando por sua cabeça. O sorriso de Shoto se desfez, conforme ele foi compreendendo aonde à fala do garoto queria chegar:
— Eu… nasci com defeito.
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