Notas iniciais
Demorei? Demorei. Mas hoje eu to entregando qualidade!

Desde que tinham ido parar na arquibancada, misturados entre alunos e heróis profissionais, Shoto estava evitando o olhar fixo de seu pai. Bom, talvez agora esse olhar fixo estivesse no rapaz ao lado, já que Izuku tinha sido escolhido pelos professores para lutar contra Endeavor. De certa forma, podia-se perceber que o garoto não estava lidando muito bem com a situação, considerando os murmúrios, que pareciam variar entre avaliação de estratégias e lamentos, ou coisa assim. Shoto quis dizer algo para ajudá-lo, mas o comentário da sua antiga chefe foi mais rápido:

— Ele estava esperando lutar contra o Todoroki-kun, mas a U.A. sempre tem outros planos... — Kuroko pôs uma mão no ombro de Izuku, na tentativa de consolá-lo. Era visível a tensão no rosto dele e Shoto não sabia se aquela afirmação inicial realmente ajudaria alguém, mas então ela continuou. — Na verdade essa foi uma jogada bem interessante da escola. Se me permite dizer, acho que Deku-kun tem chance de ganhar sim.

— Ainda bem que o All Might está fora de jogo, não é, garoto? — A voz tranquila que veio de traz era de Hawks e se dirigia a Izuku. — Ou eu tenho certeza que eles fariam pior ainda com você. Mas o grandão estressado ali é um ótimo prêmio de consolação...

— Que quer dizer? — Shoto se levantou e virou para o homem, subitamente irritado por algo que nem ele sabia o motivo.

— O que? Não acha irônico terem colocado o Endeavor contra o discípulo principal do All Might? Nunca houve nem mesmo uma ocasião que o seu pai tenha ganhado do rival. Imagino o que deve estar se passando pela cabeça dele nesse momento, toda a frustração de anos acumulada…

— Eu vou ao banheiro!

Izuku levantou do meio da pequena aglomeração em volta da conversa e saiu pedindo licença, na direção do corredor. Não era preciso nem ser tão próximo ao rapaz para entender que aquelas palavras o tinham atingido direto na ansiedade. Sem pensar muito, Shoto se pegou correndo atrás até o banheiro masculino, onde o outro estava jogando água no rosto e esfregando as bochechas enquanto murmurava qualquer coisa. Chamou-o em voz baixa, mas mesmo assim não pôde prevenir o pequeno salto exaltado de susto. Izuku imediatamente olhou para os próprios pés, envergonhado. Shoto suspirou e então se aproximou devagar.

— Os professores deixaram bem claro que a gente não precisa necessariamente vencer. — Começou. Apesar de sentir-se bastante estressado pela situação, sentia que precisava ajudá-lo de alguma forma. — Izuku, meu pai é um profissional e faz isso há anos, mesmo os professores sabem que essas lutas são injustas. Não precisa colocar tanta pressão em cima…

— Não, eu preciso vencer. — Shoto parou de falar ao ser interrompido e apertou os dentes. — Hawks está certo, eu tenho um objetivo específico que é superar o homem que fez aquilo, você sabe, com All Might. Eu… preciso ser mais forte que o All Might. E isso envolve ser capaz de ganhar do seu pai da mesma forma que o All Might fazia e...

— Izuku!

Shoto exclamou, interrompendo-o. Porém, não nem mesmo ele próprio sabia onde queria chegar com essa chamada e suas intenções. De alguma forma, o que estava ouvindo agora soava presunçoso da parte de outro. Cerrou os punhos e engoliu o que quer que diria a seguir, deixando um silêncio estranho no ar. A verdade é que toda aquela situação era confusa e o deixava em uma posição extremamente desagradável, principalmente depois de saber que Endeavor estar esperando ser pareado com o filho e não com o rapaz à frente. A escola estava dizendo claramente quem era o melhor candidato a número um com aquele movimento. E mesmo que Izuku estivesse certo, de alguma forma, o que sobrava para ele então?

— N-não precisa se preocupar… — O menino começou novamente, chamando a atenção de Shoto para o pequeno sorriso que agora estava fazendo, apesar da tensão em suas bochechas. — Eu vou entender se Shoto-kun não pude torcer por mim agora, mas tenho certeza que posso fazer isso de algum jeito, então por favor…

— Você parece estar bastante confiante na própria vitória, garoto. Até demais. — A voz de Endeavor preencheu o cômodo, fazendo os dois rapazes se virarem, alarmados. Por um momento o herói encarou o rosto de cada um, inexpressivo, e então voltou a falar, dirigindo-se ao filho. — Eu vim te avisar que sua luta está chegando e você deve ir até a sala de preparação.

— Certo. — Shoto respondeu e instantaneamente se virou para sair dali o mais rápido possível. Não podia lidar com alguma possível discórdia a mais para lhe encher a cabeça. Não agora, antes da prova final. Porém, parou quando seu nome foi chamado pelo mais velho, seguido pela instrução mais simples possível.

— Certifique-se de vencer.

Sem dar resposta, saiu pelo corredor com os punhos apertados. Se antes estivera chateado, agora estava bravo de verdade por ter que dar razão ao pai. Se quisesse estar à altura do primeiro lugar, apesar da desvantagem óbvia que a própria escola estava jogando em sua cara, precisava vencer de qualquer jeito aquela luta, para início de conversa. Sentou na cadeira em silêncio, de frente para Togata, que seria seu oponente. Onde estava com a cabeça até agora, Indo atrás do namorado em vez de se concentrar na própria disputa?

Suspirou, para se acalmar e refletir, enquanto o oponente parecia estar tentando animá-lo com palavras de incentivo. Lemilion era uma forte promessa de herói número um, que se formou em primeiro lugar na escola e logo alcançou os 5 melhores no ranking em pouco tempo. Era uma trajetória parecida com a do All Might e que, em hipótese alguma, poderia ser subestimada. Além disso, considerando a individualidade dele, Shoto teria uma enorme desvantagem. Talvez esse fosse o motivo da escolha feita pelos professores também, visto que não importava o quanto pensasse a respeito, mais e mais a sua própria individualidade lhe parecia inútil em ataques diretos.

Precisava pensar em uma estratégia e precisava ser rápido, pois os dois logo foram chamados, assim que Kuroiro chegou vitorioso. Respirou fundo e caminhou em silêncio pelo corredor. Quando estavam quase chegando ao ar livre, Togata sussurrou:

— Lembre-se de sorrir. Eles estão avaliando a postura e querem te ver da melhor maneira possível.

Shoto parou por um momento, percebendo que havia recebido um conselho valioso do rapaz que lhe oferecia uma expressão reconfortante. Era um pouco parecida com Izuku a forma como ele parecia brilhar. Parecia que aquele era precisamente o maior desafio para Shoto, considerando que era algo que estava tentando evoluir desde que pediu para treinar com o namorado todas as manhãs. Mesmo assim, ainda parecia tudo muito injusto.

Respirou fundo e concordou com a cabeça, reflexivo, e seguiu na direção da quadra. Enquanto estavam se posicionando, dirigiu a atenção para a arquibancada e seu olhar se cruzou com o de Izuku, apoiado no guarda-corpo com semblante de quem estava com dor de barriga. Mesmo com toda a tensão, ele tinha ido até lá para torcer pelo namorado também, afinal. Shoto acenou com a cabeça e viu o gesto se repetir de volta, então virou novamente a concentração para iniciar a luta.

O sinal soou e Lemillion já começou se movendo rapidamente para dentro da terra e aparecendo em lugares aleatórios de uma só vez, forçando o oponente a bloquear suas investidas, para logo sumir de novo. Como o esperado, criar paredes de gelo não surtiam efeito nenhum e só atrapalhavam quando o outro surgia do nada ao atravessá-las. Shoto só podia depender do fogo, mas mesmo assim lançar chamas não era rápido o suficiente para os ataques surpresa de Lemilion. Estava em desvantagem se continuasse lutando de longe e, assim, resolveu forçar a batalha a ficar mais física, com as individualidades sendo usadas apenas como suporte para manobras evasivas ou ataques diretos.

Desta forma, a luta parecia ter chegado a um ponto de equilíbrio em que ambos se defendiam e atacavam com a mesma intensidade. Mas Shoto não podia se dar ao luxo de ser equilibrado, precisava provar seu ponto e ganhar. Precisava de uma estratégia. Entre socos e chutes, começou a considerar as lutas anteriores, tanto as dele quanto a dos colegas, tinha que haver algo que pudesse aproveitar… Não teve tempo de pensar, contudo, pois a distração o fez levar um golpe no rosto que o derrubou no chão, causando suspiros de quem assistia. Conturbado, soube que não teria tempo de se levantar, pois o oponente começou a afundar mais uma vez no chão, preparando um último ataque.

Era isso! Se não tinha jeito de segurá-lo, talvez pudesse controlar para onde ele iria. E o único jeito de fazer isso era quebrar tudo enquanto ele ainda estivesse lá em baixo. Tomou a liberdade de imitar Bakugou e pôs a mão no chão, para explodí-lo. Obviamente não tinha suor de nitroglicerina, mas se esquentasse bastante alguma coisa, rápido o suficiente, a física faria seu papel.

Nunca havia tentado algo assim, mas forçou o lado quente até quanto conseguiu o mais rápido possível para criar uma bolha de calor abaixo e… deu certo! A individualidade de Lemilion o empurrou para fora da terra no momento da explosão, fazendo-o perder o equilíbrio. Nessa hora, Shoto o acertou com o punho coberto de gelo, usado para protegê-lo de seu próprio truque, e derrubou o adversário alguns metros de distância. A partir dali, preparou outro ataque de fogo, mas foi interrompido pelos professores, que anunciaram sua vitória, quando Lemillion não se levantou. Os aplausos da torcida foram imediatos e Shoto novamente se virou para a arquibancada apenas para ver um grande sorriso no rosto de Izuku, que chegou antes mesmo dele à sala de concentração, parecendo eufórico ao falar.

— Você explodiu o chão! Foi incrível. Eu nunca pensei que você pudesse fazer igual ao Kacchan e…

— Na verdade, eu estava pensando no jeito que você sempre quebra tudo ultimamente.

Respondeu, cortando-o de um jeito que deixou o outro garoto sem jeito. Abriu a boca para pedir desculpas, mas Togata soltou uma gargalhada ao lado, reforçando o fato de que aquilo tinha sido inteligente e ele nunca havia pensado no caso de uma situação como essa, mas era para Shoto se preparar para a próxima vez que eles fossem treinar juntos. Parecia que sua parte estava feita e, de alguma forma, aquilo havia servido de incentivo para Izuku também, na luta contra aquele homem.

Shoto já não sabia o que pensar ou sentir.

Voltaram a assistir os colegas. Mesmo que poucos efetivamente ganhassem, todos estavam bastante em pé de igualdade com os heróis e isso era interessante de se ver, como se eles não estivessem muito atrás da realidade profissional, no fim das contas. Logo logo estariam do lado deles, se fosse parar para pensar. Contudo, o primeiro lugar ainda era um posto infinitamente mais difícil de se alcançar e Izuku sabia disso, pois discretamente apertou a mão de Shoto logo antes de se levantar para se preparar para a sua luta.

Assim como o namorado havia feito antes, Shoto se encaminhou para perto do guarda-corpo para assistí-lo, mas seu semblante se fechou assim que Bakugou se apoiou ao seu lado e começou a reclamar.

— Está roubando técnicas de luta agora, meio-a-meio?

— Não sabia que você tinha patenteado a explosão. — Shoto não se virou para responder, apenas levantou as sobrancelhas. — Quanto eu te devo pelos direitos autorais?

— Quer brigar?!

— Pera aí, Bakugo! — Kirishima surgiu do meio das pessoas e segurou o amigo, que já estava indo para cima do outro. — Não liga, Todoroki, ele ainda está meio puto por causa do soco na cara. Mas mesmo assim quis ver o Deku lutar, vai entender.

— Ver o nerd levar uma surra, você quer dizer.

— O que te faz detestar tanto o Izuku? — Shoto perguntou, vendo o menino de verde lá em baixo segurando as pontas enquanto olhava para a arquibancada. No momento em que se acharam acenaram com a cabeça um para o outro. — O que ele fez, pelo menos, para ser tratado desse jeito desde criança?

— Isso daí. — Bakugou apontou para luta prestes a começar, com um dos braços esticados. Izuku agora olhava para o adversário com uma expressão séria de quem estava decidido dar o seu melhor — Ele me dá nos nervos com esse ar de superior.

Shoto virou os olhos, pensando se Bakugou não estava descrevendo a si próprio, e decidiu parar de dar mais confiança.

O sinal para a começar a disputa foi dado. Nenhum dos dois competidores perdeu tempo para começar a se atacar, mas Endeavor teve a vantagem pelo tamanho da labareda inicial quase tomar metade da quadra, forçando o garoto a saltar e ter que corrigir a própria trajetória para não cair após desviar o fogo todo com um chute. Shoto sabia reconhecer quando o pai estava pegando leve e, no começo, pareceu que era o que ele havia planejado, mas conforme Izuku se desviava das labaredas mais complexas e contra-atacava até nas piores situações, a plateia ficou completamente em silêncio. Chegou a um ponto que não importava o que Endeavor fazia, Izuku conseguia defender, se recuperar e eventualmente lançar um contra ataque na mesma proporção, que forçava o oponente a recuar. Estavam lutando de igual para igual.

Já fazia tempo que Shoto sabia que o garoto se segurava durante os treinos, mas vê-lo em ação contra um oponente tão forte daquele jeito, sem precisar se controlar, foi como receber um soco no estômago. Era rápido demais, forte demais, inteligente e ágil demais. E não havia atingido todo o potencial da individualidade ainda!

Egoliu em seco e se agarrou ao guarda-corpo, sem conseguir desgrudar os olhos de cada detalhe da luta e já sem saber para quem torcer. No ar, Endeavor lançou uma chama concentrada vinda de cima, parecendo considerar a forma como o garoto usava mais as pernas. Aquele não era um golpe bobo, se Izuku não desviasse, poderia realmente morrer. Shoto sentiu um aperto no coração e estava prestes a gritar alguma coisa quando o garoto apoiou uma das mãos no chão e chutou o ar para cima, da mesma forma que fez quando o prédio desabou sobre eles há alguns meses. A onda de choque foi mais forte que a usual, contudo, e foi capaz de arremessar o oponente até quase o outro lado do estádio.

O uso de 100% da individualidade quebrou a perna de Izuku, mas mesmo assim ele se pôs de pé para defender uma chama que veio tão rápida quanto a fúria nos olhos do homem à frente.

Durante toda a sua vida Shoto havia escutado falar sobre o grande gap entre All Might e Endeavor, mas essa era a primeira vez que sentiu na pele uma pitada dessa amargura que o pai carregava. Era como se, naquele momento, estivesse vendo o garoto de costas, quilômetros à sua frente e se afastando cada vez mais do alcance.

Era assustador.

Aquilo já tinha deixado de parecer uma disputa saudável há muito tempo e mesmo assim os professores estavam deixando continuar. A preparação física de anos do herói profissional começou a pesar, junto com o fato de que Izuku já não estava mais em condições plenas de ficar de pé sem dor. Assim, os contra-ataques cessaram e o menino só podia se defender enquanto o oponente avançava até o ponto de estarem bastante próximos. Desta forma, em um momento entre chamas, Shoto viu uma última tentativa desesperada de contra-ataque, quando Izuku pulou na direção do outro, gritando de dor ao mirar um soco bem no rosto, que poderia ser até mesmo fatal caso acertasse, porém todos engoliram em seco quando Endeavor desviou a mão do menino e o acertou com o punho fechado no estômago. Imediatamente Izuku se contraiu, em um ato involuntário, e o herói juntou as duas mãos acima, despencando-as diretamente no meio das costas do outro, derrubando-o de cara no chão.

Quando o alarme soou, Izuku não se levantou. O coração de Shoto parecia querer sair pela boca e ele precisou se segurar no corrimão para conter a vontade de ir até lá ajudá-lo. A torcida demorou um tempo para reagir, até confirmarem que o menino estava vivo e acordado, então uma onda de aplausos explodiu, parecendo totalmente distante à Shoto, ainda em choque.

— Entendeu o que eu falei? — A voz de Bakugou soou ao lado, como um puxão de volta à realidade, no mesmo momento que Izuku começou a se levantar para apertar a mão do oponente. O que havia acabado de presenciar, era surreal. — Não importa os nossos resultados positivos de hoje, porque mesmo perdendo, mesmo sendo só um nerd sem individualidade, esse desgraçado sempre faz parecer que é como se eu nunca tivesse sido páreo para ele. Se for ficar ao lado do Deku, é isso que você vai ter que aguentar sempre, entendeu?

— Entendo… — Murmurou em resposta. Suas emoções estavam todas bagunçadas quando acompanhou com os olhos o menino sendo carregado mancando na direção do portão, logo abaixo de onde Shoto estava. Antes de entrar, porém, Izuku parou e olhou para cima, diretamente na direção do namorado, e esboçou um sorriso derrotado. Shoto sentiu como se seu coração fosse estourar dentro do peito, conforme finalmente constatou que ele estava mesmo bem, e se pegou sorrindo de volta, apesar de tudo. — Eu entendo, mas não consigo deixar de admirá-lo, no fim das contas…

— Bom, você é idiota. — Bakugou afirmou e, mesmo que o outro rapaz não tenha dado a mínima, prosseguiu. — Quero ver quanto tempo vai durar essa coisa de namoro antes de perceber que existe um ranking entre os dois… Mas que se dane, não é problema meu, enquanto vocês brincam de casinha eu vou pegar o primeiro lugar de volta.

Notas finais
Comenta aí se você acha que o Endeavor realmente começou a querer matar o Deku ou o Shotinho que tava emocionado~