A história de nós dois
8 Emergência
Notas iniciais
A manhã da quarta-feira foi como a dos dias anteriores. O rapaz, agora em trajes verdes, guardou as coisas no vestiário logo depois de se trocar. Ao seu lado, Todoroki terminava de fechar a roupa em silêncio. Ele sempre emanava uma aura quieta e pensativa, mas Izuku sabia que no fundo era uma pessoa incrível e confiável de se ter por perto.
— Está deixando o cabelo crescer?
A pergunta repentina chamou a atenção do outro. Viu-o pôr a mão em uma porção branca da franja, que já ultrapassava a ponta do nariz, e refletiu que aquela era uma perspectiva bonita, de certa forma. O rapaz deu de ombros antes de voltar a atenção para o zíper do macacão.
— Desde o festival esportivo, as coisas ficaram um pouco agitadas lá em casa. Ainda não tive tempo de cortar.
— Está bonito. Imagino que deva ficar legal com ele bem grande. — Izuku desviou os olhos para o próprio armário, imaginando se tinha dito algo embaraçoso. Mudou de assunto, então, para o que realmente queria falar desde o início da conversa. — E-Eu estive pensando… Se p-poderia começar a te chamar de Shoto…
Engoliu em seco a pergunta recém feita antes mesmo de ouvir o que o garoto tinha a responder. Quer dizer, eles eram amigos, não eram? Mesmo se conhecendo desde o primeiro ano, podia mesmo dizer que tinham esse nível de proximidade? Talvez fosse ainda muito cedo para aquilo e teria sido melhor esperar o final do intensivo. Definitivamente poderia ter escolhido um momento melhor, ou devesse ter soado mais descontraído, como o Togata havia feito desde o princípio…
— Entendo. — Todoroki fechou a pequena porta de metal com suas coisas dentro, sem se preocupar em trancar. — Você acha melhor usarmos nossos nomes de herói durante o estágio…
— Não, não é isso! — Izuku respirou fundo antes de se explicar. — Recentemente me disseram que é normal algumas pessoas mais próximas se chamarem pelo primeiro nome. Então eu estive pensando que a gente já se conhece há um tempo… Seria legal se você me considerasse um amigo.
O rapaz à sua frente permaneceu inexpressivo por alguns segundos, enquanto parecia processar a informação. Aos poucos seu semblante foi se iluminando, até se transformar em um pequeno e introspectivo sorriso, e ele levantou a cabeça novamente em sua direção, como se houvesse decidido algo, que ansiava por dizer. Sustentaram olhares, enquanto percebeu uma confirmação sutil com a cabeça.
— Izuku. — Ouvir seu nome ser dito devagar pela voz do outro fez suas costas gelarem e a garganta ficar seca. Em teoria, passariam a se tratar de maneira menos formal, como havia sido com Yuga há alguns dias, mas na prática algo soava completamente diferente do esperado. Suas bochechas começaram a arder quando o rapaz prosseguiu — Eu…
— Estou interrompendo alguma coisa? — A voz de Kuroko ecoou pelo vestiário, fazendo-o praticamente dar um salto na direção da estante atrás de si. Antes mesmo que pudesse disfarçar qualquer coisa, ouviu a notícia vinda em um tom mais sério. — Acabaram de nos ligar da polícia. Parece que outro buraco estranho apareceu no meio da cidade, como o de anteontem, só que maior o suficiente para abalar a estrutura de um edifício de negócios. Estão suspeitando de que seja a individualidade de alguém e por isso nos chamaram para investigar. Vamos fazer uma pequena reunião agora e depois vocês dois vão comigo até lá.
Após se darem conta da seriedade da notícia, o assunto anterior ficou de lado conforme os três foram até a sala principal, onde o mapa sobre a mesa indicava os lugares do primeiro e do segundo episódios marcados em vermelho. Não parecia existir qualquer correlação lógica entre cada um deles e mesmo que a possibilidade de ter sido apenas um abalo sísmico não fosse descartada, havia fortes indícios de que algum vilão misterioso estava por trás daquele estrago.
O telefone tocou e Kuroko atendeu o chefe da investigação policial. Todos prestaram atenção em silêncio enquanto ela dava respostas curtas e também fazia alguns questionamentos nos poucos minutos que se seguiram. Por fim, pôs o aparelho em cima da mesa e suspirou, com ar de preocupação.
— Parece que aconteceu outra vez, poucas quadras a norte daqui. Um pouco menor do que o segundo, mas duas pessoas se feriram.
— Algum indício da causa? — Raindrop levantou da própria cadeira com um salto, indo parar a poucos metros da outra.
— Não, mas a frequência irregular e o formato quase esférico diminuem para quase zero a chance de ser natural…
— Vamos até lá! — Shoto se pôs de pé, com as mãos apoiadas sobre a mesa. Tinha uma expressão que Izuku reconhecia como ansiedade por fazer algo, a qual também estava sentindo. Levantou-se em resposta, antes mesmo que ele prosseguisse. — Não vamos resolver nada ficando aqui.
— O garoto está certo. — Lemillion praticamente já estava na porta ao falar. — Se nós formos lá agora, temos chance de encontrar o responsável ainda…
— Não. — Raindrop o interrompeu, estendendo a mão para que ele parasse. — Eu e você vamos até o local do último incidente. Shoto, Izuku e Kuroko vão para o buraco número dois. Enquanto isso, vamos mantendo contato por telefone.
— Por quê? — O tom de voz de Shoto parecia contrariado, o que fez Izuku querer chamar sua atenção baixinho para que não gritasse com os profissionais. — O segundo buraco foi praticamente do outro lado da cidade, se o vilão aparecer, é melhor que nós também estejamos por perto...
— Eu entendo e aprecio sua preocupação. — Raindrop manteve a solidez em sua fala, quase como se fosse uma bronca. Coçou a testa por baixo do capuz enquanto continuava. — Mas não posso evitar de pensar que tem alguma coisa estranha com tudo isso e preciso de gente nos dois lugares o quanto antes. — A manga da capa amarela moveu-se ao apontar para o rapaz. — Não foi você que disse para confiarmos nos nossos instintos de herói? Além do mais, eu e Lemillion somos suficientes para dar conta de um vilão, por favor.
— Eu concordo. — Kuroko pontuou, desviando o foco da tensão que havia se formado na sala. — E também concordo que não é hora nem lugar para ficarmos discutindo. Os garotos vêm comigo e nós acabamos com isso o mais rápido possível antes que um desastre maior aconteça.
Assim como o acordado entre os adultos, seguiram a heroína até o lugar indicado, que ficava a alguns minutos a pé do escritório. Policiais os deixaram passar pela barreira que afastava os civis daquilo que vieram averiguar. A cavidade tinha o formato de uma meia esfera quase perfeita e expunha parte das fundações de um edifício de poucos andares, agora vazio. Todo o lugar parecia silencioso e um pouco assustador.
— Não é como se a terra tivesse afundado. — Izuku olhou para baixo desde a borda recortada de asfalto e colocou a mão no queixo. — Parece que parte da rua simplesmente sumiu. Uma individualidade que faz as coisas desaparecerem, provavelmente de forma radial é possível. Mas pelo diâmetro, a pessoa que fez isso estaria na calçada...
— Isso foi durante o dia. — Kuroko parou de tirar foto da cratera com a câmera do celular e apontou na direção da rua. Izuku admirava a capacidade de lógica da mulher e havia escrito sobre isso algumas vezes em seu diário. — É um lugar relativamente movimentado, não tem como alguém ativamente fazer uma coisa dessas sem chamar a atenção de todo mundo.
— Mais importante, por que alguém faria uma coisa dessas? — Shoto desceu aproximadamente 2 metros até um pedaço de cano exposto onde a terra estava molhada, enquanto falava alto o suficiente para ser ouvido por todos. Izuku o seguiu com cuidado, galgando o caminho para a parte mais baixa. — Nenhum dos três lugares tem relação e não existe nada de especial nessa área para escavar assim.
— Existem algumas possibilidades. — A tom agudo da mulher acima parecia confuso. — Além do óbvio provável desastre natural, a primeira delas é que uma criança acabou de adquirir a individualidade incrivelmente forte e não consegue controlar, o que mesmo assim não explica como ninguém a viu fazendo isso. A segunda, mais misteriosa, é alguma trama de vilões para… — Os dois garotos olharam na direção da outra quando sua voz foi morrendo devagar, dando lugar à uma expressão de urgência. — Saiam daí agora! Tem alguma coisa errada!
Izuku olhou em volta, a procura de um motivo concreto para reagir. Foi o segundo que bastou para que o chão sob seus pés se transformasse em vazio. A sensação de queda o encheu de adrenalina para que se virasse, no intuito de segurar o colega, chutasse o ar e saísse dali com o ricochete de energia. Um estrondo o interrompeu. Já com as mãos na alça da mochila de Shoto, viu a enorme quantidade de escombros despencando em seu encontro e tudo o que pôde fazer foi mudar a direção do chute para que o prédio inteiro não desabasse sobre eles.
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