A história de nós dois
35 Conto de fadas
A volta às aulas ocorreu da forma menos conturbada possível. Ao longo das semanas que transcorreram, os alunos vencedores do desafio do arquipélago, durante as férias de verão, ainda exibiam um bronzeado que denunciava seu divertimento na cidade praiana. A única exceção era Izuku, o qual, apesar de ter voltado para casa deliberadamente, tinha tido um dos melhores períodos de férias de que podia se lembrar e, por isso, foi um dos que recebeu com animação o anúncio da proximidade com o festival cultural. A turma precisaria agora decidir o que fazer para o evento durante o primeiro tempo.
— Eu voto em maid café! — A voz de Mineta soou aguda, mais alta que o resto, chamando a atenção de todos. — A gente poderia vestir as meninas com uniformes e colocar para servir às mesas…
— Cara, — Sero interrompeu. — A gente não tem nem menina suficiente na turma para isso. Ainda mais depois do que aconteceu com a Hakagure…
— E se fossem os meninos servindo? — Ashido pulou no assunto com uma certa empolgação. — Nós podemos fazer um café temático, com mordomos… Ou então príncipes! Metade de vocês tem rostos minimamente decentes, então tenho certeza que iria bombar, já que o festival vai ser aberto à comunidade a população já nos conhece um pouco mais.
— Não sei… — Shoji pontuou, coçando o queixo. — É nosso último festival cultural. Ficar preso em uma sala durante quase todo o tempo me parece um pouco sem graça. Uma apresentação, como no primeiro ano, seria mais legal, porque nós poderíamos curtir depois as outras atrações.
Por um momento, todos os alunos se entreolharam. Uma apresentação certamente seria mais rápida, Izuku ponderou, mas demandaria um pouco mais com preparativos. Ainda assim, era inquestionável que ter um tempo agradável com o namorado, mesmo que seu relacionamento ainda fosse um segredo para os colegas, era o que ele mais queria para aquele festival. Sendo assim, levantou a mão quando Iida questionou sobre quem preferia uma apresentação. Felizmente estava junto com a maioria. Agora era questão de decidir o que fazer sobre o estilo e o tema.
— Neste ponto, uma apresentação musical seria o caminho mais fácil — Yaoyorozu pontuou. — Nós já temos inclusive o know-how necessário…
— Não vai ficar chato se fizermos a mesma coisa duas vezes? — Kirishima interveio. — Eu quero fazer alguma coisa diferente.
— Por que não uma peça? — Uraraka sugeriu, surpreendendo Izuku, que sentava bem ao seu lado na sala. — Algo como um conto de fadas, que nem a Mina-chan disse… Nós poderíamos dividir tarefas como roteiro e figurino, assim nem todo mundo precisaria atuar. Uma história simples de príncipe e princesa com algumas lutas heróicas usando nossas individualidades para efeitos especiais...
Quando ela terminou de falar, a turma ficou em silêncio por um instante, visivelmente interessados. Não precisou muita deliberação posterior, enfim, e logo já estavam decidindo o escopo da história e a função de cada um. Ashido sugeriu que Shoto deveria ser o príncipe e não houve nenhum questionamento sobre isso. Até mesmo Izuku se pegou bastante interessado em vê-lo usando roupas de realeza, pois combinavam com a imagem do rapaz. Quase imediatamente depois, o resto dos colegas concordou que Yaoyorozu seria a princesa. Ao tentarem discutir o resto da história, porém, tudo começou a ficar uma bagunça de ideias soltas e desconexas.
— Por que não colocamos Deku e Ochako-chan para fazer o roteiro, então? — A voz de Ashido soou fina quando ela falou por cima dos outros colegas, chamando a atenção da turma toda para a dupla sentada nas cadeiras de trás. Izuku sentiu as bochechas arderem um pouco, devido aos olhares repentinos que atraiu. — De todo mundo aqui eles são os mais imaginativos…
— Você acabou de aprender essa palavra, né? — Kaminari interrompeu com um sorriso, que logo murchou quando a menina o acertou um tapa na nuca.
— Na verdade a ideia é boa. — Yaoyorozu interveio no que parecia que ia se transformar em uma briga, e então se virou para Izuku e Uraraka — Nós só temos duas semanas de preparação. Vocês acham que conseguem criar um roteiro legal até depois de amanhã?
— A-acho que sim… — Izuku respondeu, incerto e então olhou na direção de Shoto, pensando na inspiração que poderia ter com ele como príncipe.
— Ótimo então! — Iida balançou as mãos mecanicamente no ar, com objetivo de mudar de assunto, e depois pegou uma caneta para anotar o que tinham até então em um caderno azul pequeno. — Midoriya-kun e Uraraka-san ficam com o roteiro. Todoroki-kun e Yaoyorozu-san ficam na atuação. Mais alguém quer alguma função específica?
— Yo, eu vou ficar com a trilha sonora. — Jiro levantou o braço ao falar e os colegas automaticamente concordaram com as cabeças.
— Eu e o Kacchan ali vamos ficar no figurino e maquiagem. — Ashido disse outra vez, apontando para o rapaz que descansava as pernas na cadeira vazia da frente.
— Eu?! — Kacchan praticamente se levantou com a menção ao seu nome, parecendo bastante bravo. Izuku não conseguiu deixar de se encolher um pouco ao vê-lo dar um passo para frente. — Da onde você tirou que eu vou brincar de boneca com um bando de perdedor?
— Eu também preferia que a Toru-chan me ajudasse, mas infelizmente ela não pôde comparecer. — Ashido colocou as mãos na cintura e encarou o rapaz, enquanto todos os colegas ficaram em um silêncio tenso. — Até porque, nem eu sei passar um delineador tão bem quanto você…
— Acho que posso ajudar com isso também. — Yuga disse, pensativo, antes que Kacchan pudesse responder à garota. — Quer dizer, eu tenho bastante roupa com essa temática e uma armadura…
— Certo! — Iida apertou de leve a caneta no papel. — Jiro-san fica com a música. Ashido-san, Bakugou-kun e Aoyama-kun ficam com figurino. Alguma objeção?
Houve um instante de silêncio em que quase todos os olhares se viraram para Kacchan até que o rapaz virou o rosto e fez um gesto com a mão, como se dissesse que tanto faz, antes de se sentar novamente com os braços cruzados. Todos tomaram como uma confirmação e seguiram adiante. Iida parecia querer continuar, mas naquele momento o sinal tocou, anunciando a próxima aula.
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Normalmente, as tardes livres que tinha disponíveis eram dedicadas ao treinamento, considerando que os estágios estavam suspensos até o fim do ano, ou então a passar um tempo com Shoto no quarto de um deles. No entanto, naquelas duas semanas toda a turma estaria bem ocupada com a preparação para o festival cultural. Por consequência, Izuku passou o resto do dia na biblioteca junto com a amiga, consultando algumas aventuras de contos de fada e tentando criar uma história interessante.
Depois de folhear o segundo livro, o rapaz suspirou. Mesmo que tivesse alguma experiência em escrever, esse tipo de história nunca tinha chamado sua atenção o suficiente. De repente, sentiu-se observado e levantou os olhos, capturando a maneira preocupada como a colega o encarava. Um instante de silêncio se passou antes que os dois soltassem uma pequena exclamação e virassem os rostos, ambos corados. Izuku imaginou se ela tinha percebido o quão perdido estava, então arriscou:
— V-você tem alguma coisa em mente? — Ao ver a expressão dela mudar para algo confuso, Izuku continuou. — Q-quer dizer, sobre a peça! Eu não sei por onde começar…
— B-bem… — Uraraka se mexeu na cadeira antes de apontar para o caderno em branco na frente do rapaz. — Já que é um conto de fadas, acho que deveríamos fazer uma história de amor… O q-que acha?
— Amor… — Izuku levou a mão ao queixo, pensando no próprio namoro. — Algo como segurar as mãos e se beijar no palco? As pessoas gostam de ver isso?
— N-não necessariamente assim tão direto! — Uraraka levantou uma das mãos na altura do rosto em um gesto de parar o pensamento do outro. — O que as pessoas gostam de ver é quando o protagonista luta pela pessoa que ama, sabe? Uma aventura em nome do amor, com inimigos para enfrentar e essas coisas.
— Entendi... — Izuku abaixou o braço, pensativo, e pegou o lápis preto sobre a mesa. — Então nós podemos colocar algumas cenas de luta mesmo?
— E-eu acho que sim… — Ela levantou os olhos e então seguiu. — Mas também precisamos de cenas românticas… que tal uma valsa? Foi tão fofo quando eles dançaram juntos, lembra? Todoroki-kun e Yaomomo combinam bastante como príncipe e princesa. E bem, nós podemos colocar um beijo no final, como você sugeriu. Será que eles topam?
— Eu sugeri? — Izuku se afastou um pouco da mesa enquanto a imagem mental de Shoto dançando com Yaoyorozu passou por sua cabeça. Aquilo tinha sido romântico de alguma forma? Bom, já que o próprio rapaz tinha dito que a via como apenas amiga, não teria problema, certo? Mesmo que eles se beijassem no final… Bem, seria um pouco estranho sim. Mas não tinha como reclamar sobre isso com a garota à frente naquele momento...
— Deku-kun! — Uraraka lhe tirou dos pensamentos com um pequeno susto. O rosto dela estava mais vermelho que o normal quando perguntou. — V-você acha q-que o Todoroki-kun já beijou alguém?
— Eh? — Izuku piscou por um momento, atordoado. Rapidamente suas bochechas começaram a arder. Por que será que Uraraka estava perguntando aquilo? De jeito nenhum ele poderia dizer a verdade sem falar sobre isso com Shoto antes, certo? Levantou os olhos ligeiro e apertou o lápis com força. — N-n-não sei…
— Ah… — ela abaixou os olhos, fazendo o rapaz se sentir um pouco culpado pela mentira. No entanto, a segunda pergunta o pegou mais de surpresa ainda. — Vo-você já b-b-beijou alguém?
— Eu?! — A voz de Izuku saiu mais alta do que a biblioteca permitia, atraindo alguns olhares de reprovação para seu rosto completamente corado. O que deveria responder? Será que ela estava desconfiada de alguma coisa? Bem, ele e Shoto estiveram fazendo bastante coisa juntos ultimamente… inclusive aquele tipo de coisa… desde as férias… será que estavam sendo óbvios demais quando passaram a se visitar com mais frequência nos dormitórios? Será que era melhor parar de encontrá-lo por um tempo?
— N-não precisa responder! — Uraraka exclamou em voz baixa. — Não é como se eu tivesse algum motivo para perguntar. D-digo, foi só uma curiosidade… Bom, acho melhor a gente voltar para a história, pois já está ficando tarde…
— S-sim.
Izuku concordou com a cabeça rapidamente, com vontade de desviar do assunto o mais rápido possível. Assim, os dois colegas passaram o resto da tarde discutindo o enredo e evitando qualquer tipo de pergunta pessoal novamente. A mesma reunião aconteceu no dia seguinte, dessa vez contando com a ajuda de Asui e Iida, que estavam à toa durante a tarde e foram se juntar aos dois, deixando o clima na biblioteca mais animado e com certeza bem menos estranho do que na tarde anterior.
A primeira aula da manhã de quinta-feira foi outra reunião sobre o festival cultural. Izuku e Shoto chegaram juntos, devido ao treinamento matinal. Assim que cumprimentaram Uraraka, já sentada na carteira, Izuku pensou no quão relaxados em relação ao disfarce eles realmente tinham se tornado. Certamente precisavam conversar sobre isso depois que a poeira baixasse, no final do festival.
Algumas falas aqui e ali no começo da aula e logo chegou a hora de apresentar para a turma o roteiro. Uraraka o chamou para irem à frente da sala e Izuku escreveu as coisas no quadro enquanto ela explicava:
"O príncipe do reino do inverno (Todoroki) e a princesa do reino da primavera (Yaomomo) se apaixonam perdidamente em um baile de máscaras. Mas o príncipe não sabe controlar seus poderes e foge para o castelo de gelo. Então a princesa faz um acordo com a bruxa má (Uraraka) para poder ir ao outro reino, tendo 3 dias para conseguir encontrar o príncipe ou cairá no sono eterno.
Para chegar ao castelo, ela precisa passar pela floresta encantada, onde ela enfrenta os sete anões feiticeiros a serviço da bruxa (Koda, Iida, Asui, Ojiro, Shoji, Tokoyami e Kaminari).
No final, porém, o príncipe tem medo de machucar a sua amada e não a recebe no castelo e ela cai no sono eterno. Afoito, o príncipe consulta o grande dragão vermelho de olhos vermelhos (Kirishima) e descobre que um beijo de amor vai acordar a princesa. Então ele a desperta e o inverno sem fim derrete com as flores da primavera."
— Vocês pensaram em tudo isso em dois dias? — Yaoyorozu parecia contente.
— N-nós tivemos alguma ajuda… — Uraraka apontou para os colegas do dia anterior. — Como eu vou atuar, a direção do roteiro vai ficar na mão do Deku-kun, mas podem falar comigo caso surja alguma dúvida!
— Só tem um problema, — Yaoyorozu continuou, mas depois desviou os olhos. — N-não tenho certeza sobre esse beijo…
Izuku apertou os lábios. Ainda que a atenção da turma estivesse na garota, um par de olhos específicos se virava para ele. Era impossível dizer o que Shoto estava pensando, mas ele também não parecia muito contente. Por mais que essa cena em específico estivesse assombrando Izuku durante esses dois dias, ele simplesmente não conseguia dar uma desculpa plausível para que fosse cortada sem expor os dois. Estava realmente em uma situação difícil agora, não estava? Ao lado, Uraraka começou a dizer alguma coisa, mas foi interrompida por Shoto, que não deixou de encarar o namorado enquanto falava
— Eu também não quero fazer isso.
Um silêncio se seguiu quando a turma inteira parecia surpresa. O príncipe tinha acabado de dispensar a princesa na frente de todo mundo e a única que não parecia estar tensa, mas completamente aliviada, era ela mesma.
— Se for um beijo na testa, vocês topam? — Yuga apontou para a própria cabeça enquanto falava. — Não é muito romântico, mas também não destrói o roteiro que nossos amigos prepararam...
— P-por mim, tudo bem.
Yaoyorozu concordou pensativa e os ombros de todos relaxaram um pouco. Shoto, no entanto, não respondeu, mantendo o olhar no garoto na frente da sala de uma maneira que já estava começando a ficar desconfortável. E um instante, os olhos dos outros também começaram a se prender nele, um tanto quanto confusos.
— P-parece ok. — Izuku concordou com a cabeça. — Não é como se fosse uma grande diferença para a história… S-se Shoto-kun concordar, então está tudo bem…
— Tudo bem. — Shoto disse, por fim, e a turma inteira pareceu suspirar em conjunto. Izuku, no entanto, suspirou um pouco mais que os outros.
Estando decidido o roteiro, finalmente, poderiam começar os preparativos com o cenário e figurino, enquanto Izuku coordenaria os ensaios, ao que parecia. Era uma tarefa diferente, complicada e cansativa, mas ele daria tudo de si nessa. Estavam animados para fazer um pouco de bagunça no último ano da escola.
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