A história de nós dois
25 Afinidade casual
Notas iniciais
Era até engraçado ver Shoto usando uma touca preta para esconder todo o cabelo, deixando apenas uma franja vermelha cobrindo parte da cicatriz. Daquele jeito, dava para pensar que ele era completamente ruivo e Izuku gostaria de apreciar com mais calma caso o rapaz não estivesse visivelmente super irritado. Não podia tirar-lhe a razão, no entanto. Por mais que estivesse se esforçando bastante para arrumar uma explicação plausível para Yuga os ter tirado da U.A. daquela forma, ainda assim o fator chantagem estava presente em todas as possibilidades.
Haviam sido descobertos mais rápido do que Izuku poderia ter previsto e, de algum modo, agora os três tinham ido parar na frente do estacionamento de uma loja de conveniência a algumas poucas estações de distância dos dormitórios por causa disso. O silêncio que se seguiu só não era completo porque Yuga mexia nervosamente com algumas moedas na palma da mão.
Algo estava fora do lugar.
Poderia ser que talvez eles tivessem interpretado errado, e o garoto havia pedido ajuda para resolver algum problema? Será que algum vilão o estava ameaçando? Isso não explicava toda a história do restaurante e muito menos as roupas de sair que foram instruídos a usar. Mas se estivessem sendo mesmo chantageados por terem sido descobertos, Yuga já teria dito alguma coisa… provavelmente. Não era do feitio dele fazer algo assim, afinal. Talvez só quisesse uma companhia para a noite? De certa forma foi o que ele pediu... Mas então por que estavam sentados no meio fio de uma loja aleatória no meio da noite ao invés de irem logo?
— Aoyama… — Izuku se virou surpreso na direção do rapaz que se levantou apressado. O tom da voz de Shoto indicava que ele já tinha perdido completamente a paciência.
— Yuga. — Izuku viu o namorado apertar os olhos e franzir as sobrancelhas, ao ser interrompido, e se perguntou se não seria melhor tentar acalmá-lo quando outro rapaz prosseguiu. — Já que vamos ser amigos, é natural nos chamarmos pelo primeiro nome.
Shoto chegou a abrir a boca para provavelmente contestar, mas foi interrompido pela aparição de um estranho vindo na direção do grupo. Izuku se pôs de pé no mesmo minuto. Quem quer que fosse ou o que quisesse com eles, era um homem alto e corpulento de cabelo bem curto, uma tatuagem no braço e semblante assustador. Deu um passo para trás quando ele parou bem na frente dos três e encarou cada um por um curto espaço de tempo em que ficaram em silêncio. Subitamente, a voz de Yuga ecoou pela rua mal iluminada.
— Você demorou, cherie!
— Eles me seguraram até tarde no trabalho hoje, mas com sorte não vamos nos atrasar muito. — A voz que ouviram condizia com a figura intimidadora, fazendo com que os cabelos da nuca de Izuku se arrepiassem um pouco. No entanto, Yuga parecia confortável quando se colocou ao lado do homem, que apontou na direção dos outros dois rapazes e prosseguiu. — São seus amigos?
— São sim. Esses são Midoriya Izuku e Todoroki Shoto. Você já os deve ter visto na televisão. — Yuga, então, moveu-se com agilidade e se enroscou no braço do desconhecido com um sorriso sincero no rosto. — Meninos, esse é Kigi Shigeru, meu namorado.
— Namorado? — Izuku piscou com a menção daquela palavra. Não que alguma vez tivesse achado que era o único a se relacionar com outro rapaz daquela forma no mundo, mas a ideia de encontrar alguém tão próximo o enchia com um certo alívio que não conseguia explicar. Deixou escapar um sorriso, quando uma lâmpada acendeu em sua mente. — Ah, então é isso que queria dizer com “realmente bem parecidos”... Eu estava achando que você iria contar sobre a gente para alguém...
— Por que eu faria isso? Você é meu amigo! — A voz do garoto vacilou um momento antes de continuar. — Lembra da carta que viu outro dia, Deku-kun? Você me deu coragem para entregá-la! Eu queria poder ter te contado assim que Shigeru-kun aceitou meus sentimentos... Quem não aceitaria uma carta tão bonita como aquela, não é?
— Ah… P-prazer em conhecê-lo! — Izuku se dirigiu a Kigi, forçando-se a deixar de lado a desconfiança que sentia. Ao olhar para Shoto, viu-o repetir o gesto de se curvar em uma apresentação rápida, mesmo que seu semblante ainda fosse de desconfiado.
— Muito bem! — Yuga quebrou o silêncio que se seguiu. — Agora vamos ao que interessa, eu mal posso esperar para encher a minha cara de vinho bom!
Sem mais delongas, os quatro se colocaram a caminho. O casal que ia na frente parecia conhecer o destino com certa familiaridade, por isso os outros dois os seguiam em silêncio, apenas eventualmente trocando olhares tensos. Entraram por uma galeria e desceram para o andar subsolo, onde deram com uma porta preta guardada por um segurança de cada lado. O lugar parecia mais um bar do que um restaurante e, portanto, completamente diferente de tudo o que já experimentaram.
— O que acha? — Shoto sussurrou assim que os dois da frente já tinham entrado.
— Foi um mal entendido… O Yuga-kun é… assim mesmo. — Respondeu, tentando convencer a si próprio sobre o que dizia no processo. — Confia em mim hoje, ok?
Depois que assentiu, Shoto pôs a mão na cintura do namorado enquanto passavam pela porta, causando-lhe um pequeno calafrio secreto.
A primeira coisa que Izuku notou foi a música pop bem alta, e então a fraca iluminação ambiente azul e vermelha. Mesas de inox tinham um estilo ocidental contemporâneo. Mas o que chamou a atenção dos rapazes foram os dois caras segurando as mãos na mesa ao lado, as meninas dançando juntas na pequena pista de dança… Para onde quer que olhasse, podia ver casais formados por pessoas de mesmo gênero.
— Esse lugar… — começou, incerto da observação que faria a seguir.
— É demais, não é? — Yuga o cortou falando mais alto que a música — Espera até ver a comida!
Sentaram próximos à parede de espelhos, que refletia um balcão atrás do qual várias garrafas se distribuíam por uma série de prateleiras, e Kigi fez um pedido para os quatro, incluindo o vinho que Yuga passou o caminho todo falando sobre. Assim que tudo chegou, Izuku não pôde evitar a pergunta.
— F-foi aqui que vocês… se conheceram?
— Oh não — O rapaz riu um pouco e depois encarou seu namorado, antes de se voltar novamente aos colegas. — Nós nos conhecemos durante o meu estágio.
— Então você é um herói profissional? — Shoto perguntou com seriedade, enquanto o colega enchia seu copo. Mesmo que estranhasse o fato de nunca tê-lo visto, a menção à possibilidade de Kigi ser um profissional fez com que os olhos de Izuku brilhassem por um momento.
— Digamos que eu era a pessoa sendo salva. — O homem respondeu junto com um gesto breve de dar de ombros. — Ele estava brilhando… Aí eu pedi seu telefone. Então eu o trouxe aqui algumas vezes... Não achei que fosse receber uma carta de amor vinda de um herói algum dia.
— E você, Deku-kun? — Yuga levantou a voz enquanto Izuku ainda assentia. Viu-o segurar a mão de Kigi por cima da mesa sem pudor algum ao prosseguir. — Como foi que se declarou?
— Eh? — Izuku se inclinou um pouco para trás devido à questão inesperada. — N-na verdade foi o oposto…
O olhar interessado de Yuga foi seguido por perguntas que acabaram o fazendo contar toda a história, desde seu primeiro beijo até aquele ponto. Mesmo que estivesse deixando os detalhes mais vergonhosos de lado, ainda se perguntava o que Shoto estava achando de ouvir a sua versão. Terminou o copo de vinho e pegou um pedaço de queijo do prato de frios que estavam dividindo, já sentindo as pontas dos dedos dormentes e a cabeça meio zonza. Assim, concluiu sua fala na parte em que haviam combinado de treinar com All Might.
— Uau! — Yuga exclamou por fim. — Eu achava que Shoto-kun tinha uma queda pela Yaomomo, para falar a verdade. Não conseguia imaginar que você se interessasse por caras.
— Ela é minha amiga. — Shoto contestou, franzindo as sobrancelhas na direção da mesa. — Eu nem sequer acho que tenha pensado nesse tipo de coisa antes… Mesmo em relação ao Izuku…
— Parece complicado. — Kigi interrompeu antes de derramar mais vinho no copo dos rapazes. — A maioria dos garotos da idade de vocês não reage bem a ser beijado por outro assim.
— Não é como se eu já não tivesse algum interesse, acho… — Izuku sentiu o rosto queimar quando o rapaz ao lado levantou a cabeça na sua direção com uma expressão de surpresa. — Q-q-quer dizer, não que estivesse apaixonado antes, mas é que eu tenho te observado desde o primeiro ano… Me preocupo com você e gosto da sua companhia… Além de tudo, n-não acredito que tenha alguém na escola que nunca tenha cogitado ficar com Shoto-kun… Mesmo alguns dos meninos.
— De fato. — Yuga completou antes de pôr o copo na boca, esperando pela reação do homem ao lado, que continuou impassível. — Então vocês são o primeiro amor um do outro?
Izuku mordeu o lábio e concordou. Talvez por conta do álcool já não conseguisse se controlar muito bem, mas a ideia de poder colocar aquilo para fora e na frente de algum amigo era como tirar um peso enorme de cima das costas.
A música mudou para algo mais lenta e depois para uma agitada, conforme a hora ia passando e uma segunda garrafa era esvaziada mais rápido do que a comida na mesa era consumida. Um pouco antes de uma da manhã, perceberam o quão tarde já tinha ficado e que precisavam voltar urgentemente. Yuga se inclinou na direção de Izuku para comentar sobre como o outro rapaz lidava bem com bebida, quando Shoto se desequilibrou ao sair da cadeira e tombou para o lado perigosamente. No mesmo minuto, Kigi o alcançou, erguendo-o pela roupa como se fosse um peso de papel e o colocando de volta de pé.
Era estranho andar naquele estado pela rua à noite, mas Izuku não conseguia pensar muito além de manter os passos firmes, abraçado em Shoto de um jeito que jamais teria coragem de fazer em outra situação. Quando chegaram na mesma loja de conveniência de mais cedo, se despediram de Kigi e continuaram no caminho dos dormitórios.
Ao chegarem nos portões, porém, obviamente os encontraram fechados. Decidiram, por isso, entrar escondidos pelo jardim dos fundos, da mesma forma que usaram para escapar da última vez, mostrando o caminho em volta dos muros para Yuga. Assim que chegaram ao ponto certo, porém, foram obrigados a parar. Embaixo de um poste de luz, os professores Hizashi e Aizawa estavam discutindo sobre as rondas noturnas e se viraram na direção do barulho excessivo.
Izuku congelou no momento em que foi visto.
— Podem começar a se explicar. — Aizawa apertou os olhos, indicando claramente sua desaprovação. Todos sabiam que não havia explicação dentro das regras possível para estarem fora da escola aquela hora.
— A gente… b-bem…
— Vocês beberam. — Dessa vez o outro professor que franziu as sobrancelhas, se inclinando na direção dos rapazes.
— Não. — Yuga mentiu tão descaradamente que até os colegas o encararam.
— Isso não foi uma pergunta. — De alguma forma, Hizashi parecia estar tentando conter o divertimento, ao contrário da expressão assustadora do homem ao seu lado, mesmo assim terminou o que dizia da pior maneira possível. — Para a direção, agora. Não acredito que vou ter que ligar para os pais de alunos do terceiro ano.
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