A história de nós dois
21 A festa da pizza
Notas iniciais
As turmas A e B se espalhavam pelo hall e também pelo refeitório. Aquela era uma das únicas ocasiões em que não se via nenhum professor presente e os próprios alunos ficaram responsáveis por assar e entregar pizzas em uma espécie rodízio de pessoas, para que todos aproveitassem a festa por igual.
Para Izuku, era como se o acontecimento de vinte minutos atrás fizesse parte de outra realidade agora. Sentou junto com Iida, Tsuyu e Uraraka, perto de onde Monoma contava uma história de terror e Kaminari era única pessoa realmente prestando atenção. Recebeu um copo com seu nome de uma das meninas servindo uma bebida azul que certamente era alcoólica, mas ninguém falava sobre isso para não levantar suspeitas.
Vários nichos de conversa eventualmente se misturavam, com algumas interrupções. Como quando Kirishima e Tetsutetsu resolveram fazer uma competição de resistência, gerando praticamente um campeonato de individualidades tentando os atingir no meio da sala, até o momento em que Kacchan ficou empolgado e explodiu um sofá. Imediatamente Iida recebeu um telefonema direto do diretor e precisou sair do ambiente para dar algumas explicações.
Em geral, o clima suave e a bebida o deixava mais inclinado a interagir com os colegas. Quando o turno de Izuku para assar as pizzas chegou, foi pareado com Uraraka na vigília dos fornos. A essa altura já não era mais estranho ter total acesso à cozinha, como tinha sido na primeira festa, mas ainda lhe parecia um lugar pouco explorado.
Na entrada, cumprimentou Sero e Rin suados e com o cabelo preso da mesma forma, o que estranhamente os tornava muito parecidos, carregando bandejas grandes para o salão. Uraraka colocou duas pizzas a mais no forno e então os dois sentaram-se frente a frente em bancos separados a fim de esperar.
— E aí? — A menina fez um movimento pequeno com as mãos ao falar. — C-como foram as provas dessa vez, depois de uma semana de suspensão? Estudar química junto com Deku-kun foi uma ótima para mim. E-espero que tenha te ajudado também!
— Acho que consegui ir bem dessa vez, mesmo depois de tudo. — Izuku coçou a cabeça pensativo. — Preciso agradecer ao Shoto-kun pela ajuda com as matérias...
Assim que a imagem de Shoto ensinando os exercícios para todo o grupo lhe veio à mente, o rapaz precisou lutar contra a ardência nas bochechas. Colocou as costas dos dedos na boca, lembrando-se do que tinha escutado logo após o último beijo mais longo. Um calafrio lhe percorreu a espinha e resolveu se abanar para disfarçar a provável expressão que fazia, como se fosse calor.
— É mesmo, eu também não agradeci. — Uraraka colocou a mão no queixo como se estivesse bolando algo e então levantou um dedo no ar. — Talvez depois a gente possa preparar alguma coisa de comer para dar a ele… S-se você não se importar em cozinhar junto comigo…
— Parece uma boa ideia! — Izuku imaginou-se dando algo de presente para o outro menino e de alguma forma aquilo soava bem. — Acho que o Iida-kun pode nos ajudar a descobrir algo do qual ele goste. Vai ser legal trabalhar em trio na cozinha.
— Acho que sim...
Ela respondeu com um pequeno sorriso no rosto, que Izuku sempre considerou reconfortante. Em um instante, já estavam combinados sobre pedir permissão para usar a cozinha antes das férias de verão. Era legal pensar no quanto sua amizade com Uraraka havia se tornado sólida nos últimos anos, de uma forma que sentia-se confortável para talvez pedir ajuda sobre os próprios sentimentos.
— Uraraka-san! — Chamou-a após um instante de silêncio em que havia ido ver o forno para conferir se o queijo já estava derretido. Ela levantou a cabeça, com os olhos curiosos focando-o de baixo desde sua posição no banquinho. — V-você já se apaixonou?
— Quê?! — A menina virou o rosto, agora completamente vermelho, escondendo-o com as mãos. Ao perceber o que tinha feito, Izuku também sentiu-se enrubescer antes de colocar os dois braços na frente dos olhos. — E-eu, ééé…
— Não precisa dizer se não quiser! — Interrompeu-a apressado, agitando as mãos no ar. — Me desculpa pela pergunta insensível. É um assunto pessoal seu…
— Deku-kun! — Ela levantou em um salto e o encarou com um semblante firme. Izuku se preparou para levar uma bronca pela sua indiscrição de ter perguntado aquilo para uma menina. — Eu…
— Para fora vocês dois!
O grito de Kacchan preencheu o ambiente junto com seus passos barulhentos, acompanhados por um Tokoyami em silêncio. Izuku pela primeira vez na vida se sentiu salvo pelos gritos do amigo de infância. Foi posto para fora da cozinha antes de conseguir avisar sobre o estado das pizzas e acabou indo parar em uma roda de conversa animada entre as duas turmas. Sentou em um lugar de onde podia olhar para Shoto conversando com Yaoyorozu, Jirou e Yuga.
Após o terceiro copo de seja lá o que estivesse bebendo, sentia as pontas dos dedos dormentes e uma leve inclinação a achar as coisas mais engraçadas. Naquele ponto, Uraraka já estava agindo normalmente, por isso achou melhor tratar como se a conversa na cozinha nunca tivesse acontecido. Estavam no meio de uma brincadeira de verdade ou consequência, na qual ninguém tinha muito interesse em escolhê-lo, quando a voz de Awase se sobrepôs a todas as outras.
— O que, no armário?!
Em um instante, a atenção de toda a festa eram os dois colegas desconhecidos que, aparentemente, estavam usando o armário de limpeza para, segundo Awase, “dar uns amassos”. O alvoroço foi tanto que Izuku começou a agradecer por não ter sido ele na mesma situação, considerando o que estava fazendo algumas horas atrás.
Uma odisseia começou então, entre boa parte dos alunos, para tentarem descobrir quem eram as pessoas misteriosas. Após contagens de presenças e a constatação de que poderia ser muita gente, alguns começaram a desistir e voltar para os lugares. Izuku se juntou a Iida para observar de longe o momento em que Jirou, extremamente contrariada, foi escalada para escutar o interior do armário.
— Calem a boca, todo mundo. — Ela mandou em um tom chateado, fazendo a sala cair em um silêncio mórbido. A expectativa começou a crescer conforme ela mexia o fone na parede. — Eu não tenho certeza... Parece o cara do vento sólido com alguma garota…
— O Tsuburaba?!
Kendo abafou a exclamação de Monoma no mesmo instante, restaurando a quietude ambiente. A ausência recente do rapaz mencionado contribuía para que tivessem certeza de que era ele mesmo, mas ninguém estava disposto a desistir de saber quem era a menina, agora que já tinham um meio de checar.
A expressão de Jirou mudou algumas vezes, passando por chateação, raiva e um pouco de impaciência, mas então seu queixo caiu. Franziu as sobrancelhas em um esforço de confirmar o que ouvia e então esboçou um meio sorriso. A tensão no ar era latente.
— É a Ibara. — Afirmou por fim.
Surpresa e descrença se espalharam pelos rostos dos colegas mais próximos à cena. Depois de confirmar algumas vezes que tinha certeza do que havia escutado, Jirou tirou os fones da parede e, calmamente, retornou para o lugar de onde veio, deixando os outros com a decisão sobre o que fazer com a informação.
Mais ou menos meia hora depois Tsuburaba voltou sozinho para a festa, mas não pareceu notar o clima divertido e cochichos que sua presença gerou.
Izuku não conhecia muito bem nenhum dos dois colegas da turma B, mas não pôde evitar pensar que se quisesse continuar se beijando com Shoto, precisariam tomar muito mais cuidado do que vinham tendo até então.
Ele queria continuar fazendo aquilo com Shoto, certo? A declaração do colega voltava à sua cabeça praticamente o tempo todo. Olhou-o, de pé perto de um pilar, e seu coração acelerou no momento em que o rapaz o encarou de volta. Tomou outro gole, esvaziando o copo. Não sabia dizer o que sentia exatamente, mas com certeza não queria deixar de encontrá-lo mais vezes.
— Eu tenho uma ideia! — Ashido anunciou de súbito, interrompendo os pensamentos do menino. — por que nós não jogamos “eu nunca”? Cada um fala uma coisa que nunca fez e quem já tiver feito tem que beber um copo inteiro do nosso “energético”. Quem cair primeiro perde.
Não demorou muito para que um grupo inteiro aceitasse, incluindo Izuku, Tsuyu e Iida arrastados por uma Uraraka já cambaleante. Foram organizados em uma rodinha e a menina que propôs a brincadeira começou com um sorriso bobo.
— Eu nunca me masturbei pensando em um professor.
A maioria precisou beber, incluindo a própria Ashido. Izuku encheu o copo de novo imaginando se ela tinha feito de propósito. Em seguida, era a vez de Kendo.
— Eu nunca fingi que estava doente para faltar ao treinamento.
Aparentemente aquela era uma pergunta específica para alguém, pois a menina pareceu dada por satisfeita logo após ver quem esvaziou o copo. Izuku mal podia pensar em um motivo plausível para deliberadamente faltar aos treinos, mas ficou surpreso por não ser algo tão incomum.
— Agora, essa é boa. — Kaminari pulou a sequência, mas ninguém realmente deu bola até que ele prosseguiu. — Eu nunca beijei ninguém escondido dentro da escola.
A referência ficou tão óbvia que Tsuburaba apertou os olhos no mesmo instante em que todos os presentes se viraram para ele. Em um claro movimento sem pensar, porém, Izuku levou o copo à boca até que o líquido gelado tocou seus lábios.
— Espera aí, o Deku, vai beber também?! — Kirishima apontou em sua direção, fazendo-o congelar no ato.
— N-não! — Respondeu, quase cuspindo as palavras junto com a bebida. — E-eu só tive v-v-vontade de beber agora e… bem…
— É claro que o Deku não vai beber. — Kacchan apoiou o braço no ombro do amigo de cabelos vermelhos. — Quem é que iria querer beijar o nerd?
— Tem certeza que você tem moral para falar de quem seria ou não beijado, Kacchan? — Mina contestou depois de esvaziar um copo na frente dos colegas.
— Todo mundo aqui já entendeu o que está rolando. — Tsuburaba cortou a conversa antes da resposta de Kacchan e levantou enfurecido. — Eu escuto os cochichos muito melhor do que vocês pensam e sei que essa pergunta foi direcionada. Só aviso para nem pensarem em incomodar a Ibara sobre isso, ela é uma garota legal que não merece passar por esse tipo de situação constrangedora. E sim, nós estamos saindo. Agora vou dormir.
Daquela forma, a brincadeira acabou, mas a festa durou o resto da noite inteira e Izuku notou que Kirishima não parou de encará-lo desconfiado por um minuto sequer.
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