Notas iniciais
ATENÇÃO: As histórias do universo de A história de nós dois, como a própria, Eu te odeio, Invisível e todos os extras não são sequências. Elas só dividem o mesmo universo, assim como Harry Potter e Animais Fantásticos. Alguns detalhes podem ser vistos em outras histórias, porém com outro foco. Para mais detalhes, acesse www.facebook.com/apaginadenosdois ou mande seu número por MP e participe do grupo A Página de nós dois no whatsapp.

O ano era 1998.

Eu estava assustado.

Até aquele dia eu achava que o primeiro dia numa nova escola era algo aterrorizante. Mas eu estava errado.

Nada tinha me preparado para aquilo.

Eu estava numa van Topic, dividindo espaço com mais treze nerds que iam para a mesma escola.

Aí você deve estar se perguntando por que eu tinha que ir de perua para a escola.

Simples. A escola era na cidade vizinha e eu estudaria no período noturno.

Por que o período noturno? Porque aparentemente todos os anos que estudei numa escola particular não valeram muita coisa na hora de prestar o vestibular para entrar lá.

Aquela não era uma escola comum. Era a melhor escola da baixada santista inteira. A mais concorrida, onde exigiam um vestibular filho da puta para entrar no ensino médio técnico.

Então, basicamente, para conseguir uma vaga você tinha ser melhor que pelo menos uns trezentos nerds, levando em consideração a relação candidato/vaga. E aparentemente, eu só fui melhor que duzentos e noventa e oito.

É, confesso: eu fiquei na rabeira, e só entrei porque dois desistiram.

E por isso eu estava lá, naquela Topic, rodeado por nerds estranhos e rebeldes que preferiam estudar de noite, e sofrendo bullying de um cara chamado Magneto. É, porque quando você está rodeado de nerds, o bully é o vilão mais foda da Marvel.

Quando finalmente chegamos à escola, que ficava no meio do nada numa cidade industrial e era rodeada de bares duvidosos com pessoas mais duvidosas ainda, eu praticamente corri para dentro da escola.

E foi lá que minha tortura começou.

Calouros estavam com suas cabeças praticamente coladas nos bueiros, gritando pelas Tartarugas Ninjas. Outros corriam pela rua, desviando dos caminhões e ônibus que passavam, pintados de guache azul e cantando a música dos Smurfs. E um garoto com meias sociais pretas e usando bermuda era empurrado de um lado para o outro enquanto os veteranos gritavam “Kinder Ovo”.

Eu fiquei penalizado, mas se fosse defendê-lo, eu iria entrar na dança. E eu realmente não queria ser aberto para ver se eu tinha um brinquedo surpresa.

Então eu passei por ele, dei uma risada debochada, bati no ombro do veterano e continuei andando.

Quando estava cruzando o pátio, um veterano me pegou e enfiou tinta azul na minha orelha esquerda.

— Ele não é calouro, mané — o veterano que eu tinha cumprimentado com o tapa no ombro gritou.

Ele pareceu meio incerto e ficou me medindo.

— De que turma você é? — ele perguntou enfiando dois dedos na tinta e me olhando malicioso.

— 344 — dei a turma do meu irmão mais velho, que também estudava lá, rezando para que ele não fosse daquela turma também.

Ele mudou totalmente de postura, pediu desculpa pela confusão e saiu fora.

Tratei de limpar minha orelha no primeiro banheiro que encontrei e voltei a andar pela escola. Precisava achar minha sala.

Rodei, rodei e enfim achei o mural com os horários das aulas e tirei um bloco para anotar. Estava quase começando quando senti uma mão no meu ombro.

— Você estava indo tão bem até anotar seu próprio horário — um cara comentou.

Eu virei já me encolhendo, mas quando o encarei ele sorria.

Era um japonês lindo. Ele parecia um ator de cinema.

O cabelo não era muito curto e parecia desfiado. Era tão preto que parecia azulado. E era alto, muito alto. Mas todo mundo parecia alto naquela época em comparação a mim. Eu só tinha 1.65 m e ele era pelo menos uns vinte centímetros mais alto. E ele parecia muito mais velho que eu.

— Aqui! — ele pegou o bloco da minha mão e entregou com a caneta para uma garota baixinha que estava na minha frente. — Você pode anotar o horário para ele? Ele não consegue ver bem dali — ele disse para ela com um sorriso sedutor e ela corou e começou a anotar.

— Errr... obrigado, eu acho — eu falei sem graça. Ele só sorriu de volta.

— Daisuke — ele falou, esticando a mão para mim.

— Gabri...— eu comecei e fui interrompido.

— Matsumoto! — um veterano veio gritando do outro lado do pátio e deu um tapão no ombro dele quando se aproximou o suficiente. Ele só olhou feio para o rapaz que se encolheu. — Digo, prof. Matsumoto — ele consertou dando um sorriso nervoso —, não vai dar a aula inaugural?

Por isso ele era mais velho. Ele era um professor. E provavelmente o meu professor.

Eu estava secando o meu professor.

Abaixei o rosto horrorizado. Será que ele tinha notado?

— Eu já estou indo. Só estava conversando um pouco — ele disse dando de ombros.

— Mal começou o ano e já vai fugir das aulas, professor? Assim não pode, assim não dá. — O rapaz falou ajeitando sua gravata que estava torta e seu paletó amarrotado — Você bebeu, é? — ele falou, abanando o ar quando chegou muito perto do rosto dele.

— Eu tenho mesmo? — ele falou com uma expressão sofrida, ignorando totalmente a última pergunta.

Não parecia um professor muito sério, nem sóbrio.

O rapaz só revirou os olhos e saiu arrastando-o. Quando estava entrando na sala, ele se virou e gritou do outro lado do pátio:

— Prazer em te conhecer, Gabi! — e entrou.

Todos olhavam para mim enquanto eu olhava atônito na direção que ele estava.

Ele tinha me confundido com uma garota?! Tudo bem que eu precisava cortar o cabelo, mas isso já era demais.

— Seu horário, Gabriela — a menina baixinha me devolveu meu bloco.

— O meu nome é Gabriel — eu rosnei e ela se afastou assustada.

— Mas é que ele te chamou de Gabi e você...bom, você tem um rosto... — Ela começou e eu estreitei os olhos, avançando nela — É o cabelo! — ela disse e se escondeu atrás do caderno.

— Meu cabelo? — eu perguntei incerto.

— É. Está meio grande e juntando com o rosto e os olhos claros te deixam com uma aparência meio... — Ela gaguejava, olhando para os lados.

— Meio o quê?! — eu quase gritei.

Ela começou a chorar e me entregou uns trocados antes de ir.

— Cara, você roubou o dinheiro do lanche da mina? — o veterano, que tinha pintado minha orelha e viu a situação, me perguntou. — Você é do mal — ele falou rindo e me deu um tapa nas costas.

Olhei no meu horário e vi que tinha aula inaugural nas últimas aulas.

Então por que aquele professor estava lá naquela hora?

— Bêbado — eu resmunguei ao entrar na sala e dar de cara com o japonês que consolava a garota que eu tinha acabado de assustar.

Congelei quando o vi olhando para mim. Seu rosto estava sério, e ele parecia bem mais velho.

— Então acha legal ficar dando trote nos coleguinhas, Gabi? — ele falou vindo à minha direção e chamando a atenção de todos da sala.

— Essa doida que jogou o dinheiro em mim e saiu chorando — eu me defendi —, e meu nome não é Gabi. É Gabriel! — retruquei irritado. — Seu bêbado maluco — resmunguei. O que foi uma grande idiotice, porque ele tinha um ouvido tísico e ouviu tudo muito bem.

Ele me olhou sério e parecia pensativo. Seus olhos estavam tão estreitos que mais pareciam dois rasgos.

— Eu ia dar só a aula inaugural, mas agora decidir começar a matéria. Tirem seus cadernos e anotem — ele disse, com cara de poucos amigos —, e agradeçam ao seu colega Gabi por me lembrar da importância da educação aos jovens de hoje em dia.

Eu podia sentir os olhares raivosos me seguindo até eu me sentar.

Que beleza. Primeiro dia de aula e eu já era o aluno mais odiado da sala.

Foram três longas aulas, sem intervalo. Eu não aguentava mais tantas explicações.

Eram muitas matérias técnicas, várias linguagens de programação que veríamos ao longo do curso. E lógica, muita lógica. Tudo era muito complexo, e pela primeira vez em anos eu me senti burro.

Nessa escola eu era só mais um. Não havia nada de especial em mim. Era só mais um nerd no meio de tantos outros. E todos pareciam entender tudo que ele explicava. Só eu parecia estar em outra sintonia.

— Você está entendendo o que ele está falando? — um cara que estava sentado atrás de mim perguntou.

— Tá muito na cara? — eu perguntei preocupado e me arrumei na carteira, tentando parecer mais entretido. Ele riu. — A quem eu estou enganando? Depois dos códigos das turmas que indicam o ano, o período e os cursos, eu parei — e isso foi uns dez minutos depois que ele começou a falar.

— Três cursos numa escola inteira e uma turma por ano. Isso não dá nem trezentos alunos por período. É muito pouco para uma escola renomada que nem essa — ele comentou —, e se eu soubesse desses códigos, não teria ficado medindo o pátio com palitinho — ele torceu o nariz.

Eu olhei espantado para ele.

— O pátio têm oitocentos e sessenta e cinco palitinhos e meio — ele falou e nós dois rimos.

— Pelo menos agora você sabe — eu falei tentando animá-lo.

— Eu me chamo Marcelo — ele falou, esticando sua mão. Eu a apertei e já ia dizer o meu, mas ele me interrompeu —, e você é o Gabi. — Ele falou com um sorriso e eu fiz uma careta — Podia ser pior, cara. Você podia ser o Kinder Ovo — ele falou baixo e nós olhamos para o garoto no canto da sala que ainda parecia meio tonto por ter sido sacudido tanto tempo.

De repente, a porta da sala abriu e um homem barrigudo entrou e começou a ralhar com o nosso professor bêbado.

— De novo, Matsumoto?! Todo ano é a mesma merda. Você já tentou se formar no curso ao invés de ficar dando aula-trote, garoto?

Aula-trote?

Ele não era o nosso professor?!

E eu passei três aulas fazendo anotações por nada?

— Todo ano cola, professor. Cada ano que passa, eles ficam mais bobinhos. — Ele falou rindo e até o professor se juntou a ele — Bem-vindos à Federal. O meu nome é Daisuke Matsumoto, e eu sou da 272 — ele falou e foi indo em direção ao professor que estava na porta.

Ele não era tão ruim.

— E essa foi a aula-trote mais longa da história dessa escola graças ao bom Gabi. — Ele falou ao se virar e fazer uma reverência na minha direção, arrancando gargalhadas da sala — Valeu, Gabi — ele gritou ao sair da sala.

E nessa hora eu tive certeza. Eu odiava aquele japonês do Paraguai.

Era ódio à primeira vista.

Fim do capítulo 1