A herdeira das Sombras: entre luz e sombras

1 Capítulo 1 - A Saída das Sombras


Em cima de um monte, escondido por árvores e grama alta, erguia-se um castelo de pedras antigas, já cobertas por musgos em suas laterais. A porta de madeira, escurecida pelo tempo, resistia aos anos que passavam. Ao lado do castelo, uma floresta densa e sombria impunha medo até aos mais corajosos que ousassem se aventurar por suas trilhas. Mas havia um pequeno grupo que via este lugar amaldiçoado com carinho e o considerava um refúgio. Para eles, aquele local se tornará um lar. E é sobre eles que esta história se trata.


Dentro do castelo, um jovem extravagante corria pelos corredores, o coração batendo rápido. Ele parou em frente a uma porta, nervoso, ciente de que a resposta que receberia de quem estava do outro lado poderia mudar tudo. Inspiração profunda.


Ele segurou o ar, esperando que a coragem que lhe restava fosse suficiente para enfrentar o que viria. O som das batidas na porta ecoou, e o silêncio se espalhou pela sala.


Do outro lado da porta, uma jovem estava concentrada em alguns pergaminhos, seu rosto contorcido pela frustração enquanto lia. Cada palavra parecia pesar mais em sua mente, e sua expressão se tornava cada vez mais carrancuda. Ela odiava ser interrompida, e agora, o som das batidas na porta a fez perder ainda mais a paciência.


Colocando o pergaminho de lado, ela apertou a ponta do nariz, exausta e irritada. Não queria ser incomodada.


— Quem está aí? — sua voz foi cortante, mas ela apenas desejava que a pessoa do outro lado saísse.


O jovem, tremendo um pouco, entrou assim que a porta foi aberta. Ele a fechou com cuidado e, antes de mais nada, fez uma reverência. Estava ciente da posição que ocupava, sabia que ela não era uma líder que gostava de falhas ou interrupções. Mas a notícia que trazia não poderia ser ignorada.


— Minha senhora, vinte de nossos homens foram mortos pelo Padre Mael durante nossa última missão. E seu pai dará uma festa para comemorar o aniversário de seu irmão e, ao mesmo tempo, as mortes de nossos amigos caídos. Pelo visto, apenas aqueles da alta sociedade poderão comparecer ao castelo Lewis — disse o jovem, olhando para o chão, com medo de encarar a fúria que poderia surgir.


A mulher ficou lívida. Seu rosto, já pálido, se tingiu de um vermelho profundo, e seus olhos brilharam com uma intensidade perigosa. A notícia das mortes a atingiu como um golpe, mas o pior não era apenas a perda de seus homens. Eram os seis anos de trabalho nas sombras, sem avanços significativos, enquanto Mael sempre parecia estar um passo à frente. A frustração a tomou de assalto, e, sem pensar, ela socou a mesa com força, o som ecoando no ambiente silencioso. Sabia que sua impulsividade poderia ser sua maior fraqueza, mas naquele momento, tudo o que queria era agir, fazer algo para reverter aquela situação. Ela olhou para o rapaz, que tremia visivelmente diante dela, e suspirou, tentando controlar a raiva crescente. Precisava pensar com clareza.


— Chame o círculo interno. Precisamos de um plano. O tempo de andar nas sombras acabou — disse ela, com firmeza, dispensando o rapaz, que saiu correndo, surpreso. Ele sabia que nunca antes o círculo interno havia sido convocado.


A porta se fechou atrás dele, e a mulher ficou sozinha, sentada, a mente fervilhando com os próximos passos. Ela tombou a cabeça para fora da cadeira, olhando para o teto de seu escritório, uma sensação de cansaço profundo tomando conta de seu corpo. A pressão do momento, a dor das perdas e a necessidade de agir logo começavam a fazer efeito.


Mas ela não podia se dar ao luxo de se perder nesse turbilhão. Sabia que o tempo estava contra ela. Menos de meia hora depois, os membros do círculo interno já estavam reunidos em uma sala com uma mesa circular azul claro, cercada por cadeiras de madeira. Cada líder de esquadrão se sentava em sua respectiva cadeira, aguardando a chegada da comandante.


Eles sabiam que algo grande estava prestes a acontecer, e que essa reunião não seria apenas mais uma conversa sem propósito. O som de passos rápidos ecoou no corredor, e todos sabiam que ela estava chegando. Quando a porta se abriu, a líder entrou com seu semblante sério, e a atmosfera na sala se tornou ainda mais pesada. O peso da responsabilidade parecia pairar no ar, uma sensação de urgência que todos compartilhavam.


— Bem-vindos, meus amigos. O cavaleiro provavelmente já os informou sobre o que nos traz aqui — disse ela, sua voz grave e autoritária.


Todos concordaram, compreendendo que não havia mais tempo para hesitações. Era hora de agir. Não podiam mais permanecer nas sombras. Precisavam mostrar ao mundo que estavam vivos, que a batalha estava longe de ser perdida.


— Sim, precisamos de um plano — disse uma morena de olhos âmbar, com cerca de um metro e setenta e cinco de altura. Ela olhava para os outros com uma expressão de diversão, animada com tudo o que estava por vir.


— Por sorte, já tenho um pronto. É simples. Maia e Alex, junto com dez cavaleiros, irão à festa. Já mandei três de meus homens atrás de doze convites para vocês. O objetivo é envenenar o lorde Lewis , E depois, avisaremos que estamos vivos. Só isso. Não façam mais nada — disse o rapaz de cabelos pretos, olhando os outros com uma expressão séria e sem arrependimentos.


Ele se levantou e, sem esperar por mais comentários, saiu da sala, sentindo que a reunião já não tinha mais nada a acrescentar. O restante dos presentes trocou olhares, mas as duas mulheres mais próximas à mesa estavam satisfeitas com a proposta. Elas sabiam que um simples passo poderia mudar tudo.


— Estão todos prontos? Vamos atacar agora — disse a mais baixa, uma jovem de cabelos que mais pareciam chamas e olhos dourados, que refletiam a luz de seu vestido dourado. Sua expressão era séria, mas determinada. Sabia que esse plano era arriscado, mas não tinham escolha. O risco valia a pena.


— Estamos prontos, senhora — responderam seus cavaleiros, suas vozes ocultas pelas máscaras negras que usavam.


A jovem se levantou, acompanhada pelos seus guerreiros. Eles revisaram o plano uma última vez, com o cuidado de garantir que nenhum erro fosse cometido. Quando terminaram, partiram em direção ao castelo mais prestigiado da região, aquele que representava a força da igreja e da elite.


— Eu disse que nunca mais voltaria aqui… e olha só agora. Estou de volta ao lugar que um dia chamei de casa — pensou a jovem, observando as flores brancas que marcavam a entrada do território.


As mesmas flores que guardavam memórias dolorosas de sua vida passada. Luna, naquele momento, parou diante das flores brancas que ornamentavam a entrada do castelo. Seus olhos estavam perdidos, fixos no que a rodeava, como se um turbilhão de emoções conflitantes tomasse conta de seu coração.


O passado estava ali, a cada pétala que se movia ao vento, uma lembrança dolorosa surgia. Ela fechou os olhos e deixou que o vento lhe acariciasse o rosto, como se fosse uma resposta das memórias enterradas. Aquelas flores estavam presentes no momento de seu nascimento, quando o destino já lhe reservava uma história marcada por sangue, dor e incompreensão.


Em uma mansão, à exata meia-noite e quarenta minutos, em uma noite estranhamente sem lua, uma mulher gritava de dor. Era o momento do nascimento de sua filha, mas algo no ar parecia anunciar que aquele não seria um nascimento comum.


— “Minha senhora, não pare de empurrar! Está quase vindo!” A parteira, com o rosto molhado de suor e a respiração ofegante devido ao calor do quarto, tentava acalmar a mãe, que se contorcia em dor. As outras mulheres na sala estavam visivelmente tensas, assistindo em silêncio a dor da jovem mãe, enquanto a criança lutava para nascer. E então, finalmente, depois de momentos intermináveis, a pequena apareceu. Mas o quarto estava em silêncio. O choro do recém-nascido, tão esperado, não vinha. As parteiras se entreolharam, temendo o pior.


O quarto estava muito quieto. Nenhum choro. Nenhum som. Apenas o silêncio denso de uma tragédia iminente. Elas pensaram que a criança havia falecido. E, antes que pudessem informar à mãe, uma luz intensa e repentina cortou o céu. Era como se algo sobrenatural estivesse acontecendo. E, como se em resposta àquela luz, o bebê finalmente soltou um choro abafado, quebrando o silêncio com a fragilidade de um novo começo.


— “Parabéns, minha senhora! Você tem uma linda e saudável garotinha.” A parteira, aliviada, envolveu a criança em uma manta e entregou-a à mãe, que, exausta, acolheu sua filha com um sorriso cansado, mas orgulhoso. As palavras de uma mãe, preenchidas de amor, escaparam de seus lábios:


— “Ela se chamará Luna Lewis.” A dama falou com um brilho nos olhos, reconhecendo que, assim como sua avó, sua filha carregaria o nome que honrava uma linhagem que ela esperava preservar com orgulho.


Quando o marido da mulher entrou no quarto e viu sua esposa com a filha nos braços, um sorriso amoroso apareceu em seu rosto. Porém, quando seus olhos se encontraram com os da criança, algo gelou em seu peito. Os olhos dourados da menina brilhavam intensamente, de uma cor que nenhum dos dois compartilhava. O homem, tomado pela raiva e pela suspeita, acusou a esposa de traição, acreditando que a criança fosse fruto de uma infidelidade.


— “Você me traiu, não é? O que é isso? Uma bruxa?” Ele gritou, os olhos febrilmente arregalados. A mulher, chocada e com o coração apertado, tentou se defender, mas suas palavras não foram ouvidas. O marido, tomado pela raiva, não deu espaço para explicações. Em um último gesto de desespero, ela se ajoelhou, oferecendo sua própria vida para salvar a filha.


— “Leve minha vida, meu senhor, mas deixe minha filha viver. Ela não tem culpa de nada!” implorou, com as lágrimas escorrendo pelo rosto.


O lorde, com os olhos agora vazios e frios, olhou para a esposa com um semblante implacável. Ele estava determinado a impor sua autoridade, mas algo no fundo de seu olhar transmitia um vazio inquietante.


— Ela viverá, mas não será minha herdeira — disse com firmeza, suas palavras cortando o ar. — Quando completar 15 anos, será prometida a um homem de minha escolha. Ela não terá voz ou escolha nesta casa.


Sua expressão era gelada, e a mulher, embora arrepiada, sentiu uma onda de alívio. Sua filha viveria, mas ao preço de ser silenciada e submissa.


O lorde, sem mais palavras, chamou seus guardas. Um deles foi encarregado de prender a esposa, enquanto outro corria em direção à vila para chamar o padre.


Quando o padre chegou, sua postura era sombria, seus passos lentos e pesados. O lorde o recebeu com um semblante grave, e com um suspiro de raiva e tristeza, contou a história do que ocorrera. O lamento por sua esposa, mas também pela criança que havia nascido com olhos tão incomuns, tomava conta de sua voz.


O padre, com os olhos baixos, escutava o relato com um peso crescente. Ele sabia que a decisão não era simples, mas sua autoridade como representante da igreja o colocava diante de uma escolha impossível.


— Ela será queimada como bruxa — disse o padre com uma voz grave, os olhos cheios de pesar. — Porém, somente nós, deste castelo, saberemos o ocorrido. O povo não deve saber o que aconteceu, para que a honra do lorde não seja manchada.


As palavras do padre caíram pesadas sobre todos os presentes. Era a pior sentença que alguém poderia receber, e todos no castelo, que amavam a dama, sentiam uma dor silenciosa por ela. Eles sabiam que estavam presenciando uma grande injustiça, e no fundo, lamentavam a sorte da criança, que, por uma simples característica física, seria marcada por uma vida de sofrimento.


Naquela mesma noite, quando a pequena Luna ainda não tinha sequer a chance de entender o que se passava, sua mãe foi levada à fogueira. Sem uma palavra de defesa, ela se entregou ao destino, aceitando seu fim como uma forma de garantir a sobrevivência da filha. Seus últimos pensamentos foram dedicados a Luna, sua pequena, esperando que sua morte fosse uma proteção para ela.


Com o calor das chamas queimando sua pele, a mulher sentiu uma estranha sensação de paz. A morte não lhe causava medo, mas a certeza de que sua filha viveria, mesmo em um mundo cruel, a fazia fechar os olhos e aceitar o fim.


No céu, as estrelas estavam ausentes, como se também elas chorassem a injustiça. Mas o vento, frio e melancólico, soprou suavemente, marcando o começo de um novo ciclo que, um dia, talvez, trouxesse justiça à filha daquela mulher.



Notas finais
Olaa espero que gostem deste primeiro capitulo ^^