A guerra elementar
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Um dia antes da escolha acordei com o sol batendo em meus olhos, levantei contra minha vontade e fui até o banheiro, lavei o rosto e escovei os dentes, voltei ao quarto e calcei as sandálias. Há dois dias fiz dezessete anos, e amanhã vou escolher meu bairro fixo. Mas será que eu vou mudar?
Afinal, não sei nada sobre os outros bairros. Meus pais nunca me contaram nada sobre isso, como saberia em qual bairro me encaixo melhor?
Desci as escadas de mármore ainda com essa dúvida na cabeça e fui para a cozinha. Minha mãe estava sentada á direta do meu pai e minha irmã estava á esquerda dele.
–Bom dia.- Disse feliz.
–Bom dia. — Responderam todos juntos.
–Qual é o motivo da felicidade?-Meu pai perguntou me servindo um copo de suco.
Não poderia dizer a eles que estava feliz por causa da escolha de amanhã, afinal, se eu dissesse isso eu aparentaria ser uma filha mal agradecida, eles pensariam que eu quero ficar longe deles e isso não é verdade.
–Ah...nada, ué. –disse e sorri.
Acabamos o café da manhã e então fui me trocar, ainda estava de pijama. Assim que acabei alguém bateu na porta.
–Quem é?
–Sou eu filha, abre pra mim, por favor. — Minha mãe disse e assim eu fiz.
–Filha...amanhã já é o dia da sua escolha, acho que posso e devo lhe contar sobre os bairros. –Ela disse fechando a porta atrás de si.
"ufa." Pensei, pelo menos agora não teria que perguntar.
–Ah sim, eu já ia lhe perguntar isso. — Sorri envergonhada ela sorriu de volta e então continuou.
–Bom, acredito que vai ser uma longa conversa Hayley, é melhor se sentar.
Sentei-me na cama, que ainda estava desarrumada, e ela continuou:
–Como você sabe, existem quatro bairros, um para cada elemento. O bairro Terril, você já conhece, afinal é onde moramos.
Ah sim, é o único bairro que eu conheço, as pessoas daqui são bem decididas, amigáveis e humildes, assim como a terra elas adaptam em qualquer lugar, se tiver com o que sobreviver, é claro.
– O bairro Aquilhe abriga os justiceiros da água, eles são bem indecisos e agitados, como o mar, às vezes rebeldes e outras calmos. Os justiceiros de Aquilhe se misturam com todo mundo, mas tem suas exceções assim como a água não se mistura com o óleo. O bairro de Arville abriga os justiceiros do ar, eles conseguem tudo o que querem, eles têm lábia, eles sabem como convencer as pessoas. Assim como o ar que leva tudo por onde passa os justiceiros de Arville fazem tudo para conseguir o que querem e são muito discretos , não gostam de receber muita atenção ou de falarem público. E por último o bairro de Firety, os justiceiros de lá são audaciosos, gostam de aventura, eles também tem uma lábia boa, nasceram para a liderança e, de certo modo, assim como o fogo onde eles estão tudo se ilumina. Apesar de serem muito festeiros são organizados e gostam de planejar tudo. Eles são engraçados e se interagem muito bem com outras pessoas.
Ela terminou de falar e percebi que Firety foi o bairro que ela descreveu melhor, também notei algo diferente enquanto ela falava de Firety... Havia saudade em sua voz enquanto ela falava com se já tivesse indo lá, como se já fosse de lá. Será que ela veio de lá?
–Mãe, a senhora por acaso era de Firety? -Perguntei então ela se sentou ao meu lado.
–Sim, era sim. –Ela disse e um sorriso encantador apareceu em seu rosto.- E lá era maravilhoso, me encaixava direitinho.
–Então porque saiu de lá?
–Bom, acho melhor não falarmos disso. –Seu sorriso desaparecera no mesmo instante.
–Por que mãe?-Estava curiosa- Você sempre me contou tudo, confia em mim mais uma vez. –pedi.
–Tudo bem. –Ela finalmente concordou. –Meu pai me batia muito quando eu era criança –ela disse depois de um longo suspiro- E eu pensei que aquilo pararia ali, por isso não contei a ninguém, depois suas agressões evoluíram e eu passei a ser agredida de uma forma mais grave aos 16 anos, foi ai que eu descobri meu outro poder.
–Controle mental?
–É, eu só pensava em mandar ele parar e ele parava, no começo eu achei que era sorte, mas depois eu percebi que esse era meu poder, meu poder não era tão forte. Os poderes só evoluem com muito treinamento, então eu só conseguia fazê-lo parar quando tentava me agredir novamente. –Lágrimas brotaram em seus olhos.- Então assim que eu completei 17 anos, minha mãe teve essa conversa comigo, ela me contou sobre Terriel e eu quis vim pra cá.
–Porque as pessoas são amigáveis e não seriam capazes de fazer tal coisa?
–Exatamente, e eu sempre agradeci meu pai mentalmente por me agredir.
–Por que mãe? ele era um louco, você não merecia isso e ainda o agradece?! — Pergunto sem entender.
–Ah, mas se não fosse por ele não teria conhecido seu pai não teria você nem a Luna. Eu não seria tão feliz como eu sou agora.
Uma dúvida ainda vagava na minha mente, agora que eu sei por tudo que ela passou, não queria deixá-la, na verdade não queria deixá-la de modo algum, mas agora muito menos então resolvi tirar essa duvida de mim antes que fosse tarde de mais.
–Mãe e se eu escolhesse outro bairro, você ficaria triste comigo?
Ela riu baixinho, balançou a cabeça negativamente e segurou minhas mãos.
–É claro que não Hay, no dia dessa conversa com minha mãe ela me falou uma frase que eu levo comigo até hoje.
–E qual foi?
–“As suas escolhas podem mudar sua vida então escolha por você e para você.” Você é quem vai viver suas escolhas Hay, não escolha pelos outros. –Ela sorriu, deu um beijo em minha testa, levantou e saiu do meu quarto deixando uma pequena fresta da porta aberta iluminando apenas uma pequena parte dele.
Não, não posso deixá-la, mas ela também tem o papai e a Luna, mas será eles sabem disso? E se só eu puder ajudá-la e dar um ombro amigo a ela? Deitei na minha cama e fiquei pensando um pouco sobre isso até ouvir a porta se abrir.
–Oi. –Luna acabara de entrar em meu quarto.
–Oi. –respondi.
–Queria conversar contigo. –Ela sorriu.
–Sou todo ouvidos. –respondi e bati de leve no colchão fazendo sinal para ela sentar.
–Hay, eu vim falar sobre a seleção de amanhã. –Ela disse sem rodeios e ignorando meu pedido para que ela sentasse.
Luna é um ano mais velha que eu e tinha escolhido permanecer em Terriel.
–O quê que tem?
–Bom, eu sei como é estar no seu lugar e eu vim te dar um conselho. –disse finalmente se sentando.- Não escolha pelos outros.
“Todo mundo vai me dar esse conselho hoje?” pensei.
–A mamãe acabou de me dizer isso. –disse e ri.
–Sim, eu sei. “As suas escolhas podem mudar sua vida então escolha por você e para você.”
–É, foi isso que ela me falou.
–Siga esse conselho Hay.
–Lu, você se arrependeu de ter continuado aqui?
–Não, eu escolhi por mim. –Ela disse séria.
–Ah, parece que está arrependida de ter continuado aqui, fica falando para eu escolher por mim, parece que se você tivesse outra chance escolheria outro bairro.
–Só não quero te ver arrependida. –Ela sorriu de forma amigável.
–Luna, quando a mamãe falou contigo sobre os bairros você pensou em ficar em mudar ou Terril sempre foi sua escolha?
–Não, eu pensei em Arville. –Ela sorriu.
–E porque não foi pra lá?
–Bom, vou lhe contar uma coisa, mas eu não devia, então não conte a ninguém, está bem? -Ela perguntou quase num sussurro e eu assenti com a cabeça.- Tudo bem então, quando você for fazer a escolha, antes eles vão fazer um teste contigo, um teste de aptidão. –ela disse ainda mais baixo. –Eu fiz esse tal teste o resultado foi Terriel, então eu vim pra cá, eu estava em dúvida, mas como o teste disse que seria melhor eu ficar aqui eu vi aquilo como um sinal.
–E qual é o seu poder? Além de controlar a terra, é claro.
–Sou uma transformadora. –ela sorriu.
–Transformadora? -Eu sabia pouco sobre os poderes.
–Eu posso transformar tudo em qualquer coisa, veja.
Ela pegou meu travesseiro e o transformou em uma guitarra.
–Uau! –disse admirada.- é um poder bem legal, não é?
–É sim. –ela sorriu.- Tenho que ir agora Hay, vou encontrar com as meninas no Parque central, temos que ajeitar aquelas flores.
–Tudo bem... –eu sorri.- E Luna... –ela se virou antes de sair.- Obrigada.
–Por nada. –ela disse sorrindo.
–Luna espera! –disse quando ela ia fechar a porta.
–O que foi agora?
–Não posso dormir com minha cabeça apoiada numa guitarra. – disse e ela riu, caminhou até minha cama e transformou a guitarra num travesseiro novamente.
–Posso ir agora?
–Pode sim senhora.
Então ela se foi, fiquei ainda pensando sobre os bairros e não consegui me decidir. Acabei cochilando em meio a tantos pensamentos.
Duas horas da tarde, foi quando acordei, me levantei e escovei os dentes. A campainha tocou e então ouvi minha mãe dizer que eu estava aqui em cima, ouvi passos no corredor e então segundos depois a porta se abriu.
–Luane! –disse e fui abraça-la.
Luane é minha amiga desde que me entendo por gente, seus cabelos são lisos e marrons, seus olhos são tão verdes como uma esmeralda, ela é muito branca e tem um corpo esbelto.
–Seu amor me sufoca. –ela brincou e eu ri.
–O que você veio fazer aqui?-perguntei sentando na cadeira que
ficava em frente minha escrivaninha.
–Agora precisa de motivo pra visitar minha amiga? -ela perguntou e se sentou no baú que ficava na frente da minha cama.
–Ah sei lá, você não é muito de vir aqui. –disse e dei de ombros.
–Bom, hoje pode ser nosso último dia juntas. –ela disse e sorriu.- Vamos no Parque?
–Pode ser. Espera eu tomar banho¿ -perguntei me levantando.
–Só não demora.
–O.K
****
–Mãe vou até o Parque, está bem? -disse chegando na sala.
–Claro. –ela sorriu.
Então atravessamos a sala em silêncio e eu abri a porta de madeira que dava para a enorme rua 34, onde as casas eram todas na cor branca com portas e janelas marrons, todas tinham grandes jardins e logo mais à frente havia o Parque central, com bancos brancos e flores para todos os lados. O céu não podia estar mais azul.
Chegamos no Parque e caminhamos até o lago, sentando numa pequena ponte que havia a ali.
–Já sabe em qual bairro vai ficar?-disse depois de um tempo quebrando o silêncio.
–Acho que vou ficar aqui. –Ela disse e me olhou.- Não quero ficar longe disso tudo. E você?
–Ainda não decidi. –disse e encarei o lago.
–Não está pensando em sair daqui, está? O que eu faria sem você, Hay?
–Você é uma ótima amiga –disse sorrindo.- aposto que arranja outra amiga num piscar de olhos.
Ela abaixou a cabeça e balançou negando.
–Esse é o seu papel.
–Qual papel? -perguntei confusa.
–O da ótima amiga –ela disse me olhando, seu olhos estavam marejados e mais verdes que nunca.- eu vou sentir saudades Hay.
–Não sei se vou sair daqui Lua, ainda não escolhi. –disse e me levantei.- Mas em todo caso, não vamos passar nosso último dia juntas aqui chorando, vamos? -disse e ela negou com a cabeça.
Ótimo, agora levanta. –Estendi a minha mão pra ela e ela a segurou.
–Eu te amo Hay. –ela disse me abraçando de repente, no começo fiquei sem reação, mas depois a abracei de novo.
–Seu amor me sufoca Lua –disse imitando-a e ela riu.-, vamos
tomar um sorvete? -disse e sai do abraço.
–Claro. –ela disse limpando as lágrimas.
Fomos caminhado até a sorveteria que havia em frente ao lago, suas paredes eram roxas. Já as cadeiras e janelas eram amarelas, elas transmitiam um aspecto alegre. Entramos e pedimos um pote bem grande de chocolate.
–Não acha que esse pote tá muito grande não Lua? -perguntei
sentando.
–Ah...-ela disse analisando o pote. — os meninos estão vindo também.
–Que meninos? -disse dando uma colherada no sorvete.
–Andrew e Luigi. –ela disse naturalmente.
Quase me engasgo.
–O LUIGI? -quase gritei.
Luigi é o meu Ex, eu ainda o amava, mas ele terminou comigo, e o Andrew, ah o meu querido And sempre me ajudou, principalmente depois do término.
–Sim, o Luigi. –ela disse e deu de ombros.
–Ouvi meu nome? -ele disse com o Andrew ao seu lado.
–É, ouviu sim. –disse fria.
Andrew é um menino perfeito, não só na aparência como no jeito dele de ser. Ele tem os cabelos verdes claros no mesmo tom dos olhos, sua boca é rosada e seu corpo é bem definido, ele é alto e bem forte. Já Luigi tem o cabelo verde escuro no mesmo tom do meu, seus olhos são castanhos e seu corpo é magro, porém ele está mais forte do que da última vez que nos vimos.
–Senta aqui. –Lua disse apontando para a cadeira à sua esquerda quando ele fez menção para sentar ao meu lado.
–Oi, meninas. –Andrew disse dando um sorriso lindo.
–Oi. –respondemos em coral e ele se sentou ao meu lado.
Tirando a parte em que o Luigi deu em cima de mim, o resto do dia foi perfeito, rimos e conversamos muito. Quando notei o sol já estava se pondo então fomos até a beira do lago e sentamos na grama pra ver o sol se pôr. O céu estava laranja e suas nuvens estavam num tom vermelho-alaranjado, o sol foi descendo aos poucos até desaparecer totalmente, ficamos apreciando ele e depois fomos embora, cada um para sua casa.
–Ah Hayley, você tem casa ? -meu pai disse assim que eu abri a porta.
–Tenho sim Sr.Smith.
–E posso saber porque a senhorita não estava nela ?
–Porque eu fui até a praça e agora vou tomar um banho e depois
dormir, amanhã vai ser um longo dia.
–Não vai jantar ?
–Não, obrigado, estou sem fome. –disse subindo as escadas.
Tomei um banho demorado e merecido. Sai do banho e coloquei um moletom verde-musgo e me deitei, acabei dormindo rápido.
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