A gruta
1 A GRUTA
Um raio de luz refletido na parede adentra o quarto
Pela janela enviesada, tento decifrar a mensagem
Mas é só um borrão, minha retina é estuprada
E o meu sonho criptografado é jogado na lixeira mais próxima
No livreto já dizia, sou um anjo que desceu e recusou subir
Contaminado pela poluição moral e atmosférica
A buzina avisava que a locomotiva vinha fundir com os meus ossos
O escuro do âmbito reconhece meu aspecto semelhante
Gradativamente sou confundido com a penumbra
Nas minhas veias corre um sangue distinto
O Drácula já foi um anjo adormecido
Disposto ao chão, secando ao Sol
Em um trava língua indecifrável
Onde a maior rima termina com a minha palidez
Grito, meus espasmos rasgam a gruta
Contrariando meu anseio imortal
Percebo que até o eco ressoa como ego
Não obtivo resposta, e o que me resta é mais uma decepção
Na maior das hipóteses sou um penhasco, ou um pedregulho
Áspero, rudimentar, primitivo
Usado para pavimentar e também para se lançar
Desiludido em noite que vem findar minha partida
Em altas vertigens almejo flamejar meus poemas
Deixo transparecer, porque quando morrer só restará a cabeça
Os miolos deixo aos porcos
Esse é o meu testamento.
FIM
11/09/2014
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