A grande guerra interplanetária no quarto 302
6 Reforços inesperados na papelaria da esquina.
O estudante decidiu que pensar demais não resolveria o problema.
Essa conclusão não veio após reflexão profunda, nem depois de uma noite de insônia filosófica. Veio porque ele tinha aula, estava atrasado e precisava urgentemente de uma caneta que escrevesse.
Pensar demais, em sua experiência, apenas tornava tudo mais confuso e, ocasionalmente, mais caro.
Vestiu um casaco, porque São Paulo se encontrava naquele estado climático permanente conhecido como “vai chover ou não, mas certamente vai incomodar”. O céu estava cinza o suficiente para parecer ameaçador, mas indeciso demais para se comprometer com qualquer fenômeno concreto.
Era um dia típico.
Atrás dele, ao fechar a porta, o quarto suspirou aliviado.
Na escrivaninha, o silêncio foi absoluto.
Os Sombrilax observavam atentos, enfileirados como pequenas manchas de sombra elegante.
"Ele está indo embora" sussurrou um deles, espiando por baixo da sombrinha.
"Excelente" respondeu outro, satisfeito. "Humanos ausentes são humanos previsíveis."
"E previsibilidade é quase tão boa quanto tédio" completou um terceiro, girando levemente a sombrinha.
Dentro da Bic-7, porém, a situação era tudo menos tranquila.
O piloto Bic-/\ sentiu algo raro, desconfortável e profundamente desaconselhado pelos manuais: um frio metafórico no estômago.
"Atenção!" anunciou em tom grave, projetando gráficos alarmantes que ninguém além dele podia ver. " Entidade Macrobiológica deslocando-se para zona comercial."
A palavra zona piscou em amarelo.
A palavra comercial piscou em vermelho.
Isso soava… mal.
Muito mal.
A Confederação Bic-/\ tinha registros históricos detalhados, extensos e dolorosamente catalogados sobre zonas comerciais humanas. Eram locais onde objetos idênticos surgiam em massa, sem cerimônia, sem autorização prévia e, pior de tudo, sem documentação adequada.
"Ele pode adquirir…" o piloto hesitou, como se pronunciar aquilo pudesse tornar real. " …mais de uma unidade."
A palavra unidade pairou no ar como um insulto burocrático.
Do outro lado da escrivaninha, os Sombrilax reagiram de maneira oposta.
"Compra"disse um deles, abrindo a sombrinha com satisfação teatral. "Eu adoro compras."
"Compras geram novidades"respondeu outro. "Novidades combatem o tédio."
"E o tédio" completou um terceiro. "É o verdadeiro inimigo."
O estudante caminhava pela rua desviando de pessoas, poças imaginárias e pensamentos vagos sobre a própria vida acadêmica. Em nenhum momento suspeitou que estava sendo seguido, observado ou que seus passos estavam provocando reações de pânico interestelar.
Ele apenas precisava de uma caneta.
Entrou na papelaria da esquina com a expressão resignada de quem já aceitou que a vida é uma sequência interminável de pequenos gastos não planejados.
O sino da porta tocou.
"Boa tarde" disse a atendente, com o entusiasmo profissional de quem já disse aquilo cento e trinta vezes naquele dia.
"Boa…" respondeu ele, olhando ao redor. "Você tem caneta Bic?"
A pergunta foi registrada.
No exato momento em que as palavras foram pronunciadas, o sistema da Bic-7 entrou em estado de alerta máximo.
Alarmes silenciosos começaram a piscar em vermelho administrativo. Tabelas se multiplicaram. Um relatório intitulado “Solicitação Explícita de Reforços Hostis por Entidade Macrobiológica” começou a se autoescrever.
"Confirmação auditiva de ameaça" murmurou o piloto Bic-/. " Ele solicitou explicitamente reforços."
A atendente apontou para um expositor.
"Azul, preta, vermelha…" começou, com a naturalidade de quem estava prestes a mudar o equilíbrio de poder do cosmos sem saber.
"Azul" disse o estudante, sem hesitar. "Leva logo três.
Três."
A palavra ecoou.
Os Sombrilax ficaram imóveis.
"Três?!" cochichou um deles, com olhos brilhando sob a sombra da sombrinha. "Isso é escalada bélica clara."
"Não" respondeu outro, profundamente impressionado." Isso é planejamento."
Dentro da Bic-7, o caos.
"Registro: surgimento iminente de unidades Bic adicionais" anunciou o sistema. "Classificação: Reforços Não Autorizados."
O piloto tentou ativar o Protocolo de Contenção de Multiplicação Inaceitável, mas o sistema retornou uma mensagem curta e humilhante:
Erro: protocolo inexistente.
"Claro que não existe" murmurou ele. "Ninguém pensou que isso pudesse acontecer tão facilmente."
O estudante caminhou até o fundo da loja, olhando distraidamente prateleiras cheias de objetos potencialmente perigosos, como clipes, grampos e blocos de notas.
"Guarda-chuva também" disse, quase como um complemento casual. " Qualquer um… que funcione."
A frase caiu como uma bomba conceitual.
Os Sombrilax se entreolharam.
"Eles estão trazendo armamento novo" disse um, maravilhado.
"E provavelmente dobrável" completou outro. "Isso muda tudo."
A atendente entregou um guarda-chuva preto, simples, honesto, com aquela aparência de objeto que já nasceu sabendo que seria esquecido em algum canto num dia qualquer.
O estudante pagou.
Saiu.
Do ponto de vista humano, a operação foi simples, eficiente e absolutamente banal.
Do ponto de vista galáctico, foi um desastre estratégico.
Na escrivaninha, a Bic-7 registrava o pior cenário possível.
"Múltiplas unidades inimigas em aproximação "anunciou o piloto, exausto. "Recomendação: atualizar todos os mapas."
Os Sombrilax abriram as sombrinhas em uníssono, como se comemorassem um feriado cultural.
"Excelente dia"! disse um deles. "Já valeu a semana."
E, pela primeira vez desde o início daquele conflito improvável, ambos os lados concordaram silenciosamente sobre uma coisa: a tarde prometia.
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