A grande guerra interplanetária no quarto 302
3 Sombrinhas Contra o Tédio
Sobre o Exato Momento em Que Ninguém Sabe o Que Está Fazendo
Há um momento específico em toda guerra geralmente ignorado pelos livros de história, pelos monumentos comemorativos e, sobretudo, pelos discursos oficiais em que ninguém sabe exatamente o que fazer a seguir, mas todos concordam, com uma convicção surpreendente, que alguma coisa deveria estar acontecendo.
Não se trata do início formal do conflito, nem do clímax heroico, nem mesmo da inevitável revisão posterior. É um intervalo estranho, suspenso, em que a ação ainda não começou, mas a possibilidade dela já se instalou com desconforto suficiente para tornar o silêncio constrangedor.
Esse momento havia chegado.
Os Sombrilax permaneciam imóveis, distribuídos pela escrivaninha como pequenas manchas de sombra pensativa. Não se moviam por estratégia, nem por medo. Apenas aguardavam. Suas sombrinhas estavam abertas agora não por necessidade tática, tampouco por condições climáticas mas porque abertas pareciam mais… comprometidas com a situação. Uma sombrinha fechada podia ser interpretada como desinteresse. Aberta, ao menos, demonstrava intenção vaga.
"Já estamos em guerra?" perguntou um deles, em tom genuinamente curioso, como quem pergunta se o almoço vai demorar.
"Oficialmente?" respondeu outro, após breve pausa reflexiva. Não.
" E extraoficialmente?"
"Também não."
Ele pensou mais um pouco.
"Mas emocionalmente, sim."
Isso pareceu satisfatório.
Dentro da Bic-7, o piloto Bic-/\ enfrentava um dilema profundo, complexo e absolutamente paralisante: agir sem protocolo ou protocolar antes de agir. Para qualquer outra espécie minimamente funcional, isso não seria exatamente um dilema. Para um Bic-/, era uma crise existencial com potencial de carreira.
"Registro parcial de hostilidade sem declaração formal…" murmurou, digitando freneticamente no ar, onde teclas invisíveis respondiam com precisão burocrática. "Isso vai gerar inconsistência estatística. Inconsistência estatística gera auditoria. Auditoria gera reuniões."
A tela holográfica piscou em amarelo, sinal inequívoco de que algo estava fora do padrão, o que, ironicamente, já começava a se tornar o padrão daquela situação específica.
O problema dos Sombrilax é que eles não tinham protocolos.
Tinham apenas hábitos.
Sua sociedade , que se dizia descendente de supostos grandes guerreiros-máquinas chamados de "Ignis Caelesti" (o que nem a bactéria de meteoro mais parva de todos os quadrantes universais acreditaria), não possuía hierarquias rígidas, nem conselhos permanentes, nem departamentos responsáveis por validar decisões antes que elas fossem tomadas. As decisões surgiam coletivamente, de maneira vaga, quase casual, e quase sempre influenciadas por uma pergunta fundamental, repetida com seriedade filosófica:
Isso vai tornar o dia menos entediante?
Se a resposta fosse “talvez”, já era suficiente para prosseguir.
"Eles parecem nervosos" observou um Sombrilax, inclinando a cabeça na direção da caneta com interesse acadêmico.
"Isso é bom" respondeu outro. " Nervosismo é movimento interno."
"Movimento interno combate o tédio. Então estamos ajudando."
Um terceiro Sombrilax bateu levemente a ponta da sombrinha na superfície da escrivaninha, produzindo um som seco, educado e surpreendentemente solene para algo tão pequeno.
"Proponho avançarmos três passos " disse ele. Só para ver o que acontece.
A proposta foi recebida com acenos discretos.
E avançaram.
Três passinhos curtos, perfeitamente sincronizados, como se tivessem ensaiado , o que não haviam, pois ensaiar implicaria planejamento, e planejamento era cansativo demais para algo que deveria ser espontâneo.
A Bic-7 registrou o movimento imediatamente.
Alarmes silenciosos dispararam. Gráficos se rearranjaram com urgência contida. Um relatório emergencial começou a se autoescrever, adotando um título excessivamente longo antes mesmo de saber exatamente do que tratava.
"Aproximação detectada" anunciou o piloto, com voz tensa. Avaliando intenção hostil baseada em… vontade de ver no que dá.
Isso definitivamente não constava nos manuais.
Ele considerou ativar o Mecanismo de Dissuasão Diplomática, um recurso clássico da Confederação Bic-/\ que consistia em projetar uma série de avisos legais intimidadores, acompanhados de notas de rodapé ameaçadoras e anexos suplementares. Funcionava muito bem contra espécies racionais, ou ao menos suficientemente entediáveis para desistirem.
Os Sombrilax não eram exatamente isso.
"Atenção" disse a Bic-7, projetando novamente o selo oficial em tamanho respeitável. "Qualquer avanço adicional será interpretado como."
O selo piscou.
O formulário travou.
A Bic-7 emitiu um pequeno bip constrangido, desses que jamais deveriam ser emitidos em situação de conflito.
"…ato passível de reavaliação posterior" concluiu o piloto, resignado.
Os Sombrilax se entreolharam.
"Eles estão confusos" comentou um, com genuína satisfação.
"Confusão é contagiosa" disse outro.
" Excelente " concluiu o terceiro. Já valeu a guerra.
Nesse exato momento, o estudante humano se mexeu na cadeira, resmungou algo ininteligível e virou de lado. Uma sombra enorme cruzou a escrivaninha, fazendo os Sombrilax se recolherem instintivamente e a Bic-7 registrar um Evento de Escala Colossal , Classe Sonolenta.
Por alguns segundos, ninguém se moveu.
Quando o silêncio retornou, um Sombrilax fechou lentamente sua sombrinha, como quem encerra uma reunião informal.
"Sugiro uma ação mais decisiva" disse. "Algo pequeno. Mas significativo."
"O quê?" perguntou outro.
Ele apontou para um objeto esquecido ao lado da caneta: um clipe de papel.
Brilhava sob a luz fraca como um artefato de poder desconhecido, torto o suficiente para inspirar respeito e simples o bastante para gerar suspeitas.
Dentro da Bic-7, o piloto engoliu em seco.
"Novo objeto não catalogado " murmurou. "Isso vai dar trabalho."
E, sem saber exatamente por quê, ambos os lados compreenderam que aquele pequeno pedaço de metal estava prestes a se tornar o primeiro grande símbolo daquela guerra absurdamente desnecessária.
O tédio, afinal, exigia sacrifícios.
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