A grande guerra interplanetária no quarto 302

1 A Guerra Mais Mal Localizada da Galáxia.


Onde Uma Guerra Interplanetária Começa no Lugar Errado, Pelos Motivos Errados

Toda civilização avançada, em algum momento de sua história, precisa decidir o que fazer com a burocracia.

Algumas a tratam como um mal necessário.

Outras a mantêm sob controle, como se fosse um animal doméstico temperamentado.

E há aquelas poucas, porém memoráveis que permitem que ela cresça livremente, alimente-se sozinha e eventualmente tome conta de tudo.

A raça Bic-/\ pertence orgulhosamente a esse último grupo.

Em seu sistema solar natal, os Bic-/\ desenvolveram uma cultura baseada em três pilares fundamentais:

registro, relatório e revisão do registro do relatório.

Nada acontecia sem documentação.

Nada deixava de acontecer por falta de documentação, apenas demorava.

Se uma estrela entrasse em colapso, era aberto um formulário.

Se um cometa mudasse de rota, dois formulários.

Se alguém sugerisse simplificar o processo, abria-se imediatamente uma sindicância.

Essa dedicação quase religiosa à papelada começou, com o tempo, a irritar outras espécies do sistema. Primeiro discretamente. Depois com suspiros audíveis. Por fim, com guerras administrativas, onde o armamento principal consistia em pareceres contraditórios e anexos excessivos.

A raça Bic-/\ não veio à Terra por curiosidade científica, nem por ambição imperial, tampouco por erro de navegação, embora três comissões independentes ainda discutam essa última hipótese.

Na verdade, eles foram formalmente expulsos de seu sistema solar natal.

O motivo oficial, registrado em vinte e sete volumes encadernados e um apêndice suplementar de leitura opcional porém obrigatória, foi descrito como “excesso administrativo de natureza paralisante”. Em termos menos técnicos: a civilização Bic-/\ havia atingido um nível de burocracia tão avançado que qualquer tentativa de tomar uma decisão exigia, antes, o preenchimento de um formulário justificando a necessidade de decidir se outro formulário seria aberto.

Planetas deixaram de orbitar corretamente enquanto aguardavam autorização.

Estrelas entraram em colapso administrativo por falta de carimbo.

Uma supernova chegou a ser adiada por tempo indeterminado até que se definisse o modelo correto de relatório pós-explosão.

O colapso final ocorreu quando o Conselho Central aprovou, por unanimidade e após apenas quatro séculos de debates preliminares, a criação do Guia Oficial para Elaboração de Guias, imediatamente contestado por uma subcomissão que exigia um manual explicativo para a correta interpretação do guia recém-criado.

Foi nesse momento que as demais raças do sistema, exaustas e atrasadas para compromissos cósmicos importantes, decidiram que seria mais simples expulsar os Bic-/\ do sistema inteiro do que continuar aguardando a ata da última reunião.

Assim, devidamente documentados, notificados, catalogados e com cópia autenticada da própria expulsão, os Bic-/\ partiram.

A Terra pareceu um destino promissor: caótica, mal organizada e, sobretudo, totalmente desprovida de qualquer autoridade galáctica capaz de exigir relatórios em triplicata.

O fato de acabarem camuflados como canetas foi considerado, nos registros oficiais, “uma ironia aceitável”.

Foi nesse contexto histórico, cultural e tragicamente irônico que a sonda Bic-7 pousou, ou melhor, foi esquecida, sobre uma escrivaninha humana.

Externamente, Bic-7 era indistinguível de uma caneta Bic azul comum. O plástico translúcido, a tampa mordiscada, a leve sensação de que falharia exatamente quando mais fosse necessária: tudo estava perfeitamente reproduzido.

Internamente, porém, encontrava-se o piloto.

O alienígena Bic-/\ possuía uma cabeça grande, redonda e negra, idêntica em forma e cor a uma bola 7 de sinuca. Duas pequenas antenas verdes brotavam do topo, vibrando levemente sempre que ele pensava, o que era com frequência excessiva. Vestia um traje espacial que lembrava um terno escolar muito bem passado, completo com gravatinha funcional e bolsos destinados exclusivamente a documentos.

Era, objetivamente, adorável.

"Iniciando observação passiva " anunciou ele, com seriedade administrativa. "Ambiente classificado como desorganizado, porém promissor."

O humano dono da escrivaninha dormia.

Dormia profundamente, alheio ao fato de que estava hospedando uma civilização inteira em escala reduzida, o que era típico dos humanos e, em muitos casos, uma das causas principais de problemas maiores.

Tudo corria conforme o esperado até que uma sombra se moveu.

Não uma sombra comum, dessas projetadas por objetos sólidos, mas uma sombra decidida, com intenção. Dela emergiu uma pequena criatura de pele verde-escura, quase musgo, com olhos estreitos e brilhantes como se tivessem passado séculos avaliando o tédio do universo.

Empunhava uma sombrinha.

Os Sombrilax (popularmente conhecidos como Sombrinhas Sombrias) travam guerras por um motivo considerado, dentro de sua própria cultura, perfeitamente razoável:

tédio.

Originários de um ambiente excessivamente estável, previsível e educado demais, os Sombrilax evoluíram em um contexto onde absolutamente nada acontecia com a regularidade necessária para justificar a existência de histórias interessantes. O clima era sempre adequado. As estações cumpriam horários. Catástrofes naturais pediam desculpas antes de ocorrer , quando ocorriam.

Com o tempo, isso se tornou insuportável.

Inicialmente, os Sombrilax tentaram soluções menos drásticas para combater o tédio, como festivais culturais, debates filosóficos e esportes de baixa competitividade. Nada funcionou. Os festivais eram bem organizados demais, os debates sempre terminavam em consenso e os esportes acabavam empatados por respeito mútuo.

O Sombrilax era magro, ligeiramente encurvado, como alguém que espera pouca coisa da vida, mas insiste mesmo assim. Vestia um manto curto, quase cerimonial, e sua sombrinha, negra, perfeitamente dobrada, parecia mais importante do que qualquer arma.

Outros Sombrilax surgiram logo depois, todos idênticos em postura e expressão: criaturas que claramente haviam transformado o aborrecimento em filosofia de vida.

"Guerra?" perguntou um deles, abrindo a sombrinha sem necessidade alguma. "Estávamos pensando nisso agora mesmo. Só para passar o tempo."

Bic-7 congelou.

Consultou seus registros.

Abriu um formulário de conflito.

Abriu um formulário para justificar o formulário de conflito.

"Este espaço foi previamente catalogado" respondeu com calma profissional. "Qualquer hostilidade exige notificação com antecedência mínima."

O Sombrilax inclinou a cabeça.

"Notificação é chata" disse. "Tédio não."

E assim, sem explosões, sem discursos épicos e sem nenhuma razão realmente boa, começou uma guerra interplanetária.

Sobre uma escrivaninha.

Ao lado de um copo suspeito.

Enquanto um humano dormia tranquilamente.

O universo, mais uma vez, demonstrava que tinha um senso de humor peculiar.