A gateway to the Sun

2 A alameda de cedros


Havia muito de privilégio em viver a juventude numa jornada de cura, viajando livremente pelo mundo. A cada povoado que atravessava, cada povo que encontrava ou paisagem descoberta, compunha-se como uma pessoa mais distante da que planejara ser e mais próxima da que de fato era. Ainda não sabia, contudo, se estava reconstruindo o que foi quebrado ou destruindo o que, para sobrevier, pusera no lugar. Os dois processos teriam que ser realizados, mas também não era capaz de dizer qual deles coubera aos últimos anos. Ou caberia aos próximos.

Uma das poucas coisas que sabia, entretanto, era que estava na hora de ir para casa. Saíra prometendo voltar, mas por um período imaginou que não cumpriria. Foi fácil encontrar argumentos para manter-se distante e deixou-se convencer. Estavam todos melhor com ele longe. Mais seguros, mais leves. Menos visados. Sua presença atrapalhava mais do que ajudava. E tinha utilidade tê-lo no exterior, pronto para agir caso fosse necessário. O Hokage tinha meios para encontrá-lo. Era ninja de Konoha e a protegeria. À distância.

E o fizera. E justamente por fazer percebeu que estava errado: não precisava estar sempre longe. Não era a primeira vez e, assim, não foi difícil admitir. O garrancho de Naruto serviu de gatilho à catarse: Sakura-chan disse que você é como a polícia de Konoha. Pensou em si, pequeno, querendo seguir os passos do pai e sorriu melancólico. Mas apenas isso não o teria feito desviar o caminho.

Quando o ódio e o desejo por vingança deixaram o coração de Sasuke, os sentimentos que ele tentara reprimir preencheram todo o espaço. Compreender e absorver essas novas emoções e visões de mundo não era fácil e ainda estava em curso. Mas algo disso ele já conseguira. Já entendera o porquê de sempre perder a noção do tempo na florada das cerejeiras. Da primavera o deixar paradoxalmente feliz e melancólico. De Konoha, apesar de tudo, ainda ser seu lar.

Atravessava a alameda de cedros que dava para a entrada da vila sem que os passos refletissem sua inquietação, potencializada ao ver a tenda dos guardas da aldeia no horizonte. Ainda não decidira aonde iria primeiro. O natural seria se reportar ao Hokage, comunicar seu retorno e colocar-se à disposição. Mas protocolos nunca lhe foram prioridade. Falar com Naruto e felicitá-lo pelo casamento fazia mais sentido, pensou. Só que o apelo da ideia foi mais fraco do que imaginara. E não foi no melhor amigo que pensara em todo o caminho até a vila. Por mais importante que o Uzumaki fosse a Sasuke, de novo, não foi por ele que voltara.

Uma sensação engraçada na barriga o fez perder o ritmo dos passos por um segundo quando, a poucos metros do portão de Konoha, lembrou-se da última vez que estivera ali. Tinha certeza de que fizera o certo ao não aceitar a oferta dela para acompanhá-lo. Precisava do tempo que passara só. O que não significava que não sentira sua falta. Percebeu, apenas muito tempo depois, que ela não sabia o que estava por trás do peteleco que dera. A ele, expressava tudo, resumia tudo. Não havia alma viva além dela a quem direcionaria aquele gesto. Mas Sakura não sabia.

— Sasuke-san?

Sasuke foi trazido de volta dos seus pensamentos por uma voz que não conhecia. Sob o portal da entrada da vila, virou o rosto levemente para encarar a origem do chamado. Encontrou-a saltando sobre o balcão da tenda, colocando-se ao seu encontro, a surpresa refletida nos olhos esbugalhados. Caso se importasse minimamente com as convenções sociais, talvez o jovem tivesse reconhecido naquele guarda um de seus veteranos da Academia. Ainda assim, não o teria encarado com mais interesse do que o fez.

— É você mesmo? — o guarda perguntou, misturando espanto e animação contida.

— Hm.

— Ah... Desculpe, mas vou precisar que você prove sua identidade.

Franziu as sobrancelhas. Seu reservatório de paciência sempre foi raso e costumava ter vazão diretamente proporcional à estupidez apresentada. Como assim precisava provar que era ele mesmo? E como um desconhecido conseguiria validar sua comprovação?

— Há alguns meses, um impostor se passou por você e provocou um...

— Eu sei.

— Ah, sim, sim, já imaginava que sabia! — acrescentou o ninja, gesticulando constrangido, parecendo diminuir diante do olhar do Uchiha – Mas agora estamos mais atentos a impostores. Acho que o Hokage-sama consegue comprovar sua identidade e...

Me reportarei a ele mais tarde — interrompeu Sasuke e, decidindo que não perderia mais tempo ali, retomou a caminhada vila adentro.

— Espere, Sasuke-san, eu preci...

— Sakura?

— Hm?

— Você sabe onde eu posso encontrar a Sakura?

Sasuke não facilitava a vida do rapaz, então foi a vez do guarda franzir as sobrancelhas. O ninja aguardou, contendo a impaciência, que lhe respondessem, mas desistiu logo. Voltou a caminhar, acelerando um pouco o passo. Queria aumentar a distância rapidamente. Mas a voz do rapaz o alcançou outra vez:

— Sakura-san deve estar no hospital, a essa hora. Mas eu realmente preciso que você...

O Uchiha sabia o que o shinobi precisava, não se importava e por isso apenas saltou e colocou-se em direção ao hospital. Apertou um pouco os olhos quando o Sol do fim de tarde, agora livre de obstáculos, atingiu-o em cheio. Após os segundos que precisou para acostumar a visão, apreciou a vila pintada em laranja, vivendo pacata e despreocupada. Nada ali entregava que apenas dois anos antes estiveram envolvidos em uma guerra. Kakashi devia estar fazendo um bom trabalho.

A avaliação sobre o trabalho do Rokudaime, contudo, foi logo afastada dos pensamentos de Sasuke quando ele alcançou o hospital. O lugar mudara nada desde que estivera ali, tratando-se após a Grande Guerra, mas o rapaz não reparou isso tampouco. Não se permitiu, conscientemente, alimentar a pequena chama de euforia que se acendeu nele, e por isso não percebeu o quão rápido andava. Lembrava-se onde era o consultório de Sakura e seguiu a ele completamente alheio aos olhares curiosos que recebia pelos corredores. Misturado ao fluxo de pacientes e funcionários, não foi interrompido em seu percurso e não teve que explicar o que faria ou para onde iria. Só parou em frente ao destino, nome gravado na plaquinha da porta entreaberta confirmando sua memória. Hesitou algo de segundo antes de deslizar a maçaneta, nada em sua expressão ou postura denunciando o ritmo que batia seu coração. A ansiedade, contudo, o traiu quando, com a passagem desimpedida, não conseguiu esperar pelo convite para entrar.

Sakura ergueu o rosto e seus olhos arregalados brilharam como esmeraldas ao cruzarem os de Sasuke. A luz do Sol, que inundava o consultório, atravessando a larga janela atrás da médica, brincava com as cores e pintava a jovem em um ar etéreo, como se a cena fosse uma alucinação. O coração do Uchiha pulou um compasso e suas orelhas ficaram estranhamente quentes. Paradoxalmente, contudo, sentiu suas feições relaxarem, a tensão nos músculos ceder. Sentiu o ar encher os pulmões. Sentiu-se acalentado e vivo.

— Tadaima.

Sua voz saiu mais grave e baixa do que pretendia, fazendo-o soar rouco, com a garganta fechada. Mas não precisou repetir, tinha certeza de que ela ouvira. Sakura se levantou e foi até ele como se não pudesse acreditar nos próprios olhos. Os dedos quentes da jovem tocaram sua pele enquanto ela afastava a franja do seu rosto e pousava a mão em sua bochecha. Sasuke entendeu. Ela precisava tocar. Ele mesmo também queria esticar o braço e entrelaçar seus dedos nos cabelos dela. Encostar apenas pela certeza de que era real.

— Okaeri... — ela sussurrou, sorrindo, as íris verdes cintilando acentuadas pelo reflexo da luz nas lágrimas contidas – Você bem?

— Hm – Sasuke acenou – E você?

Sakura assentiu e deslizou a mão pelo rosto de Sasuke, até liberá-lo de seu toque. Sentiu-se estranho sem ele.

— Chegou faz tempo?

— Não... Acabei de chegar.

— E você já comeu? Já sabe onde...?

O que Sasuke deveria saber, entretanto, ele não chegou a descobrir. A porta, que o rapaz fechara após entrar, foi deslizada outra vez e trouxe os dois ninjas de volta ao consultório. Viraram, por reflexo, a fim de ver quem entrava e o Uchiha sentiu sua feição tensionar novamente, como fazia diante de desconhecidos. Abaixou de leve o rosto para encarar o visitante, que o fitou de volta, o queixo caindo à medida que a compreensão de quem estava ali se formava dentro do homem. Sasuke deu crédito ao moço. Alguém com menor coragem teria expressado mais que surpresa ao ser encarado pelo shinobi da forma como o médico o foi, a frustração do ninja convertida em raiva expressa por olhos mortais. Mas tudo que o homem demonstrou foi mudez temporária, e uma boa capacidade de esbugalhar os olhos.

— Oguri-san? — Sakura chamou, a voz dela trazendo o rapaz novamente para o presente – O que houve?

— Ah, Sakura-sensei! Preciso que você me acompanhe, um time acabou de voltar e dois deles estão em estado crítico.

Eita! Bora, bora!— a jovem acelerou, correndo em direção à porta – Sasuke-kun, eu procuro você mais tarde, tá? Fala com Kakashi-sensei!

Ele acenou, mas Sakura sequer viu. Já disparara pelo corredor, tentando vencer a urgência na velocidade. Oguri deu uma última espiada no Uchiha e, então, acompanhou a jovem, perdendo feio na corrida. Sasuke, por outro lado, dissipou o desgosto e seguiu apenas até a porta, observando-a pelo corredor até suas costas desaparecerem ao virar em uma passagem. Era essa a rotina de Sakura, pensou, ainda fitando o lugar onde instantes antes a perdera de vista. Ser a última esperança quando os esforços ninja falham. Sem perceber, Sasuke levou a mão à própria bochecha, que ainda formigava onde ela tocara.

— Veja só, não faz nem cinco minutos desde que um dos guardas apareceu aqui, tremendo que nem britadeira, dizendo que alguém que supostamente era você tinha acabado de entrar na vila e se recusara a provar a própria identidade.

Um Kakashi parcialmente escondido atrás de pilhas de papel e pastas parecia se divertir com a história, o que aumentava o mau humor de Sasuke. Entendia a motivação da dúvida, mas não conseguia evitar a irritação. Era um protocolo estúpido, deveriam encontrar outra forma de identificar impostores. Além disso, um farsante não entraria pela porta da frente da vila, caminhando tranquilamente e com o rosto totalmente exposto.

— Bem, estou aqui provando que eu sou eu.

Nhá, nem se incomode. Eu disse a ele que você se recusar era prova suficiente – riu-se Kakashi.

Sasuke girou os olhos. Uma vez que Sakura estava indisponível, o Uchiha resolveu cumprir sua parte na burocracia e apresentar-se a Kakashi. Se não fosse obrigado a fazê-lo, ainda assim procuraria o sensei, seria sua conduta natural. Mas por ser forçado, sentia que estava ali perdendo tempo. O lance do impostor acentuava o sentimento.

— Então, por que voltou? Aconteceu algo urgente? Precisa reportar alguma coisa?

— Não — Sasuke respondeu, simples – Apenas voltei.

— Hm... Entendi. Se é assim, bem-vindo de volta! Dois anos foi muito tempo, Sasuke. O Naruto esperava que você viesse ao casamento dele.

O jovem não respondeu. Cogitou por um minuto ir ao casamento do amigo, mas descartou em seguida. A comoção e o constrangimento que sua de presença não combinavam com a festa que Naruto merecia. Ficara genuinamente feliz pelo companheiro de time, entretanto. Só não sabia como expressar.

— Já eu esperei que você aparecesse quando a Sakura foi sequestrada... Faz mais seu estilo.

— A Sakura não é fraca, não precisa de mim para salvá-la.

Naaah, mas você veio mesmo assim. E só veio quando eu te falei do sequestro dela. E aqui fica minha dúvida, sabe? Por que você não veio ver como ela tava? Pensei “ah, talvez ele quisesse ser discreto”, mas se você queria ser discreto, não deveria ter usado o Amaterasu, né? — Kakashi provocou, os olhos fechados entregando que ele sorria por baixo da máscara.

Sasuke bufou um “vou indo” enquanto dava meia volta e se dirigia à porta. Mas andou apenas dois passos antes de erguer a mão e aparar no ar o que o sensei arremessara. Um par de chaves. Virando o rosto ao Rokudaime, franziu as sobrancelhas esperando que isso fosse suficiente para completar a indagação. Felizmente, o Sexto Hokage tinha excelente instinto.

— Seu antigo apartamento foi destruído com o ataque do Pain, lembra? Onde você pretendia ficar?

— Ia procurar uma pousada...

— É, né? Imaginei. Fica no meu, eu estou nos aposentos do Hokage agora. Pode ficar lá até o fim do meu Kagenato, se quiser. É no mesmo lugar do antigo.

— Hm... — o rapaz agradeceu, fitando o chaveiro de cachorro. Um kagenato era bastante tempo.

— Ah, Sasuke... Vou mandar avisar Naruto e Sakura que você voltou. Nos encontre no Ichiraku hoje, daqui umas duas horas...

— Não estou com fome.

— Então você senta lá e fica vendo a gente comer!

Se você queria ser discreto, não deveria ter usado o Amaterasu.

Deitado mirando o teto na cama cedida por Kakashi, usufruindo de raro conforto, a voz do sensei ecoava debochada em sua cabeça. Não tinha necessidade alguma de apelar ao Amaterasu contra um grupo de ninjas tão mais fraco que ele. Era um jutsu assinatura, como o traço de um desenhista, o timbre de uma cantora. Por que o usara?, se perguntava, afastando dos olhos o cabelo ainda molhado do banho.

Talvez, e um muito provável talvez, quisesse assinar a obra. Ser reconhecido por essa. Queria que soubessem que o que aconteceria se o provocassem. Mas por que queria? Não ligava para o que pensavam dele, para sua fama ou para o que faziam com seu nome. Contudo, naquela situação, passou recibo de que sentira o golpe. E, num reflexo, deu amostra do que faria nesse caso. Mas, voltou ao início, por quê? Por que se sentiu acuado? Não era nem como se, de fato, em algum momento, Sakura tivesse sido colocada em real perigo.

Sakura não precisava mais dele para protegê-la. Sabia que a companheira de time era forte desde a guerra, mas só internalizou quando, ao chegar para resgatá-la, encontrou nada para salvar. Lembrava-se do alívio ao perceber que ela estava bem e do misto de angústia e raiva que descontou no que queimara até as cinzas. A memória o estressou novamente. Como ousaram usá-la contra ele? Queimou foi pouco, pensou. Se tivesse queimado mais, estaria menos irritado.

Estaria?

Sasuke afundou o rosto no travesseiro incapaz de responder às próprias perguntas e irritado que o deboche do sensei o tivesse atingido em cheio. Era estupidez remoer aquilo. Já o fizera, já usara o Amaterasu, todos sabiam que ele voltara e, chegando atrasado, queimara o que sobrou. Pronto, era isso. Supera. E não era discreto, certo? Seus golpes eram barulhentos, incandescentes, chamativos. Controlava um ente roxo de 70 metros de altura, pelo amor de Deus. Ainda assim...

O relógio sobre a escrivaninha indicava que já passava da hora que Sasuke planejara sair. Piscou com preguiça. Kakashi se atrasaria de qualquer forma, mas Naruto era estranhamente pontual, para alguém tão desorganizado. Seu estômago roncou apesar da mentira que contara e foi o incentivo que faltava para ele começar a se vestir. Roubou um par de calças do guarda-roupas e buscou na bolsa que pendurara no cabideiro uma camiseta limpa. O apartamento era pequeno e ele o cruzou em meia dúzia de passos, atravessando a sala simples integrada a cozinha e alcançando a porta onde deixara os sapatos. Precisava de um par novo, já que as solas desse estavam tão finas que ele poderia dizer qual o valor de uma moeda apenas pisando nela. Mas era preocupação para outro momento. Saiu e fechou a porta atrás de si com o cuidado que se tem às coisas emprestadas.

O Uchiha não reconhecia mais as lojas das ruas, as placas mais modernas, as novas praças ou os jardins mais bem cuidados, mas Konoha continuava confortavelmente familiar. Fora reconstruída após o ataque de Pain, então os prédios eram novos e ainda bem cuidados. E tinha a influência da arquitetura contemporânea, que parecia preferir vidro a papel, concreto a madeira. Não tinha certeza se gostava da estética e não se importava o suficiente também.

O Ichiraku lámen, entretanto, ainda guardava bastante do que Sasuke lembrava. O noren balançando com o vento na entrada era inconfundível, apesar de tantos outros restaurantes também terem as cortininhas. A luz amarelada no interior era convidativa a quem procurava uma refeição quente e, mesmo com o barulho dos transeuntes passeando pela rua naquele início de noite, o jovem reconhecia os sons do tio preparando o lámen atrás do balcão. Também era inconfundível o rapaz loiro que acenava espalhafatosamente à frente do lugar, potencializando a atenção que já atraia a si sendo o herói da vila.

— Sasukeee!

Sasuke emburrou de imediato. Não fizera um trabalho muito bom em passar despercebido no caminho até ali, mas o grito do Naruto destruiu o pouco de anonimato que ainda desfrutava. Sentiu dezenas de olhares caírem sobre ele e fechou ainda mais a cara quando os murmurinhos começaram. Alcançou o amigo o mais rápido que pode sem correr, e aumentou a careta quando esse, gargalhando, apontou para sua cara:

— Você precisa cortar esse cabelo!

— Cala a boca.

Bora comer logo, que se a gente for esperar o Kakashi-sensei, vamos morrer desnutridos! – Naruto chamou já levantando o noren e se preparando para entrar no restaurante. Sasuke, porém, hesitou um segundo, olhando discreto atrás do amigo – Sakura-chan tá numa cirurgia, eu passei lá antes de vir.

— Eu não esta... – começou Sasuke, voltando-se ao Uzumaki e vendo-o encará-lo divertido, com as sobrancelhas erguidas. Mas sequer terminou, desistindo de se explicar quando Naruto simplesmente o ignorou e entrou no Ichiraku, cumprimentando o velho Teuchi oji-san alegremente.

— Ah, Naruto-kun! Fazia tempo que você não vinha aqui! Eu acrescentei dois novos sabores ao cardápio – o cozinheiro o saudou de volta enquanto apontava para as duas linhas destacadas no quadro menu.

— Então eu quero um de cada! E vou levar um pra Hinata, ela vai chegar tarde hoje... Você quer o que, Sasuke?

— Heeey! Você é o menino Uchiha, não é?

Antes que Sasuke pudesse escolher, o tio do lámen exclamou surpreso, encarando-o como se visse um milagre. O Uchiha se percebeu um tanto constrangido, mesmo sem saber direito o porquê, e acenou confirmando, sentando-se ao lado de Naruto. Talvez pensasse que o homem pudesse considerá-lo um inimigo, como tantos outros faziam. Civis não deveriam saber sobre os crimes que rapaz cometera, mas ninjas falam. E o fazem da forma que bem entendem, contando o que quiserem da história. Era um preço que deveria pagar pelas escolhas que fizera no passado, estava ciente disso. Mas não seria cobrado ali.

— Olha só, você é homem feito! Está mais alto que o Naruto-kun?

— Hey, tio, claro que não! – protestou Naruto, fazendo bico – Se eu arrumar a postura, ó, fico mais alto! – e se empostou o jovem, fazendo o homem rir.

— Me lembro direitinho de vocês aqui, tentando ver o rosto do Kakashi-sama! A Sakura-chan também, era bem menina, agora é toda moça... – continuou o homem, servindo chá aos clientes e rindo nostálgico — Semana passada, me consultei com ela. Velho sente dor em tudo quanto é canto. Ela é incrível, saí de lá pensando que tinha trinta anos! Mas, deixa eu ver, você vai querer um Lámen Missô Tyashu com nori extra?

Sasuke arregalou os olhos genuinamente surpreso. Ele frequentara o local com alguma constância enquanto genin e sempre pedia o mesmo prato, mas fazia seis anos desde que deixara a vila. O cozinheiro recebia várias dezenas de pedidos por dia, era impossível que se lembrasse! Ainda assim, mais uma vez acenou confirmando e viu o tio com um Há! animado dar meia volta para preparar os pedidos.

— Kakashi-sensei disse que você no apartamento dele – Naruto começou, bebendo o chá e vendo Sasuke fazer o mesmo — É bom que você vai poder ficar lá sem pressa, o kagenato do sensei vai durar muito ainda.

— Só vou ficar alguns dias na vila.

Naruto bufou, mas era esperado. Sasuke sabia que, no que dependesse de seu antigo time, ele se firmaria de vez em Konoha. Mas mesmo concordando que ali se sentia em casa, não havia argumento forte o suficiente que o convencesse de que não era um risco à vila tê-lo por perto. Em questão de meses, a aldeia foi atacada duas vezes dentro de seus limites e ele fora o alvo em ambas. Se longe já atraía perigo, perto seria como uma seta em neon apontando para Konoha. Tentou explicar ao amigo, mas nem completara a primeira frase quando foi interrompido:

— Eu sei o que você vai falar, mas primeiro que não é sua culpa que eles tenham atacado a vila. Você é poderoso e isso atrai esse tipo de coisa, pode acontecer comigo também.

— Eu provoq...

— Segundo, Konoha foi atacada e você nem tava aqui! Quando usaram aquelas pessoas como bombas na entrada da vila, não tinha nem como saber que você era o alvo, sério.

— Mas eu era mes...

— E terceiro... Eu não sei bem o terceiro, mas dois estão bons!

— Bem, então digamos que o terceiro é que pelo menos agora todo mundo sabe o que acontece se atacarem quem você quer proteger, né, Sasuke?

A voz de Kakashi surgiu atrás dos ex-alunos e eles viraram para vê-lo entrar no restaurante. Era preciso dar o devido crédito ao Rokudaime: nem um dos dois rapazes o notaram chegar. Enquanto o Uzumaki concordava entusiasmadamente com o ponto apresentado pelo sensei, Sasuke o acompanhou de canto de olho, vendo-o sentar-se ao seu lado. Naruto seguia acrescentando empolgado que em pelo menos três vilas agora era sabido que quem se metesse com o Uchiha iria para cadeia, mas não era ao incidente com o clã Chinoike a que o Hokage se referia. Sasuke engoliu a provocação junto com o chá, consciente de que respondê-la só pioraria sua situação.

— Você bem mais pontual agora, Kakashi-sensei! — Naruto brincou, enquanto Kakashi recebia sua xícara de chá — O Ichiraku dessa vez ainda aberto!

Nah, fiquei com medo de demorar e quando chegar aqui, o Sasuke já ter ido embora.

Naruto cuspiu o chá e se engasgou ao não segurar o riso no meio de um gole. Kakashi esticou o braço por trás de Sasuke para bater nas costas do outro aluno, que tossia roxo enquanto era novamente servido pelo tio, mas o Uchiha não fez menção em ajudar. Deixou a garganta esquentar pelo próprio chá, em meio ao caos que considerava justo, apreciando a tranquilidade de quem foi vingado pelo universo. Permitiu-se um leve riso de satisfação.

— Vai viver? — Kakashi perguntou, quando Naruto pareceu recuperar a capacidade de respirar.

— Sim, sim... Valeu, sensei. Foi praga tua, idiota!

Sasuke não negou.

— Mas então, Sasuke... Por que você já quer ir embora de novo? Te demos motivos pra você pra você parar de achar que põe todo mundo em perigo.

— Não foram bons o suficiente — o rapaz respondeu, enquanto acenava agradecendo o lámen servido — Além do mais, tem umas coisas que estão me incomodando.

— O mesmo ponto de antes?

— Hm...

Sasuke compartilhara com Kakashi sua preocupação em relação ao motivo que levaria Kaguya, com a força que tinha, se ver obrigada a criar um exército, e imaginava que o atual Hokage dividira a informação com o futuro. A gravidade do assunto forçou o silêncio e o Uchiha, que com o lámen em sua frente não conseguia mais ignorar a fome, iniciou os trabalhos. O impacto foi imediato e, de repente, ele não soube como sobreviveu anos sem aquilo. Fez sinal para mais um ainda com a primeira porção de comida na boca.

— Mas por que precisa ser você a procurar isso o tempo todo? — Naruto quis saber, sem tocar no próprio prato — E, até onde sabemos, pode ser nada, certo? Pode ser que...

— Nem você acredita nisso, Naruto — Sasuke interrompeu, calando o amigo — Eu não encontrei nada ainda, mas você acha mesmo que tem outra pessoa que poderia fazer isso?

Mais uma vez, silêncio.

— Não gosto do sacrifício que envolvido — Kakashi falou, fitando o aluno, que ainda comia como se a tigela fosse fugir — Você foi absolvido, Sasuke. Não precisa se colocar nessa posição.

— Não estou sendo mandado para forca, isso não é sacrifício. Eu preciso saber o que ela planejava e ter certeza de que não vai acontecer. Além disso, eu fiz muita coisa pra você dizer que eu fui absolvido.

— Mas você foi — rebateu o Hokage, encarando o Uchiha com a autoridade que tinha cravada nas sobrancelhas franzidas — E eu recebo cartas quase todo mês de outros líderes agradecendo por sua ajuda, então acredito que foi corretamente absolvido.

Sasuke fitou Kakashi por um instante. Assim como via em Naruto, o rapaz percebeu no antigo sensei a confiança inabalável que o homem nutria por ele e se pegou acanhado. Não que tivesse qualquer intenção de decepcionar o Hokage. Era homem de Kakashi, mais leal a ele do que à Konoha. Mas não merecia tanto e seria mais justo ver no Hatake algo de desconfiança e dúvida. Não encontrou, entretanto. E sentiu o peso.

— Não sou oficialmente shinobi de Konoha, não sei por que eles mandam cartas pra você.

Naruto soltou um muxoxo e Kakashi riu. A falta de educação era mecanismo de defesa de Sasuke. Um elogio e ele daria um jeito de ser grosso em retorno. Era sua forma de lembrar ao interlocutor que não merecia a graça.

— Bem, você pode não ser oficialmente shinobi de Konoha, mas eu tenho depositado seus honorários em uma conta. Eventualmente você precisará de salário, né?

— Me viro bem.

— Você diz isso agora, mas espera só! Aliás, Kakashi-sensei, você bem que poderia me dar umas missões mais difíceis, né? E mais missões também... A hipoteca tá pesada!

— Posso te passar missões mais caras, mas não dá pra aumentar a quantidade, Naruto. Você tem que estudar!

Foi a vez de Sasuke cuspir o que tinha na boca. Encarou Naruto com os olhos esbugalhados, a gargalhada esperando na garganta a confirmação de que não ouvira errado.

— Você? Estudando?

— Se você quiser virar jounin, também vai ter que estudar, idiota! — Naruto rebateu, mal-humorado em proporção semelhante a gargalhada do Uchiha — Qual é, eu nem sabia que você ria! Cala a boca, babaca!

Já era tarde, entretanto. Kakashi engrossou o riso de Sasuke e eventualmente Naruto desmanchou o bico e se juntou a eles. O clima aliviou um pouco enquanto as gargalhadas e som dos hashis batendo no fundo da tigela preenchiam o lugar. E à medida que o ambiente era preenchido com a leveza e conforto de uma conversa entre amigos, Sasuke relaxou e se divertiu. Como há anos não fazia. A máscara afrouxou e ele conseguiu respirar de forma natural, sem o gasto extra de energia que geralmente tinha para manter a guarda erguida e fechada. Xingou Naruto, desrespeitou o sensei, zombando dele com o amigo e aguentou o deboche de ambos. Agiu como o jovem que era, e que raramente se permitia ser.

Mas a cada par de minutos, o Uchiha olhava por cima do ombro de Naruto inconscientemente. Faltava ainda. Não estava completo. Respirava fundo, procurando no ar o cheiro que sentira mais cedo, tentando ouvir o som dos passos que importavam entre os que vinham da rua. A noite se aprofundou, entretanto, e ela não veio. Teuchi-san começou a organizar a cozinha e essa foi a deixa para os três clientes entenderem que estava na hora de ir.

— Tio, não esquece do que eu pedi pra Hina-chan! — Naruto avisou, tomando o último gole de sua quarta tigela.

— A Sakura não veio de novo, no fim das contas – Kakashi suspirou, sacudindo a cabeça — Pelo menos com o Sasuke aqui, agora sabemos que os bolos dela não têm a ver com nossa falta de apelo, Naruto.

— Né? Ela não ia perder a chance de ver esse idiota, se tivesse escolha – concordou Naruto, dando um soco leve no braço do amigo, que o ignorou – Mas sempre seguram ela. E ainda tem as vezes que a Sakura-chan tá vindo e buscam ela no meio do caminho também...

Sasuke se lembrou da emergência que encurtou brutalmente o reencontro dele com a jovem mais cedo e entendeu o lamento de Naruto. Outra vez pensou em como era a vida de Sakura na vila. Ela se tornara essencial à Konoha de um jeito totalmente diferente do restante do time sete. A kunoichi ainda derrubaria uma tropa com um soco se preciso fosse, mas sua utilidade aos aldeões era diária e sentida a nível individual. O rapaz se orgulhou da antiga companheira de time, e disfarçou um já imperceptível sorriso com o último gole do chá.

— Você não acha que ela exagerando, sensei? Daqui a pouco, ela que vai adoecer, sem sair daquele hospital...

— É... Parece que o pessoal se escora nela. Eu não tenho influência na gestão do hospital, entretanto. Falei com a Shizune e vou reforçar, mas a própria Shizune também está sobrecarregada, aí complica...

— Mas também é culpa da Sakura-chan, que não pode ver alguma coisa que se mete pra ajudar!

— Não acho que você tenha moral pra falar disso, Naruto – Kakashi brincou, fazendo o aluno rir sem graça. O Hokage fez sinal para o cozinheiro trazer a conta, tateando os bolsos em busca da carteira — Vocês deviam pagar pra mim, é uma questão de educação com os mais velhos.

— Você não é tão velho assim – Sasuke rebateu, buscando ele mesmo a própria carteira – E você não pagava pra gente quando nós éramos crianças.

— Caluniando o Hokage! — Kakashi fingiu revolta, mas entregou o dinheiro ao tio com uma leve reverência — Cadê a Ayame-chan?

O velho Teuchi explicou que a filha estava viajando para negociar com fornecedores, mas Sasuke não prestava atenção. Talvez Kakashi tivesse perguntado apenas por educação, mas depois de algumas provocações e deboches, o Uchiha viu sua chance de revidar. Era uma informação que tinha guardado por curiosidade, cuja serventia real era baixa e que geralmente, devido ao quase nulo interesse pelos outros, o rapaz sequer teria dado meio segundo de atenção. Contudo, ali a fofoca se provava útil.

— Só torcer pra ela não ter passado pela fronteira Norte então, certo... Kakashi?

O impacto foi melhor que o esperado e Sasuke riu satisfeito quando o sensei arregalou os olhos e congelou a expressão. O jovem encarou um Kakashi pasmo que parecia ter bugado, e ampliou o sorriso. Naruto, ao lado dos dois, começou a esboçar a pergunta óbvia a ser feita, mas o Hatake foi salvo pelo cozinheiro que, alheio a tensão no Hokage, interrompeu o clima sem sequer notá-lo:

— Aqui Naruto-kun, o da Hinata-chan!

— Ah, valeu, tio! Sasuke, você vai pra casa agora? A minha fica no caminho da do sensei, a gente pode ir indo...

— Hm... Pode ir na frente – Sasuke respondeu, tirando os olhos de um Kakashi travado e colocando-os em Naruto – Vou pedir mais um. Pra levar.

O cozinheiro indicou que entendera e, após receber o pagamento de Naruto pelo lámen extra, começou a montagem do último prato da noite. O Uzumaki sorriu compreensivo e recolheu a janta de Hinata do balcão com cuidado que Sasuke nunca o vira dedicar a nada antes. Foi um gesto bobo, mas ainda assim ficou feliz pelo amigo.

— Amanhã, eu quero te mostrar uma coisa — Naruto informou, apontando para Sasuke com seriedade de quem não abre o tópico à discussão — Vou passar pra te buscar. Você vem também, Kakashi-sensei?

— Hm... acho que terei que confiar a você essa tarefa, Naruto. Tenho conferência com o Damiyo a manhã toda — o Hokage lamentou, genuinamente chateado. Lembrando-se como Kakashi detestava compromissos oficiais e burocracia, e colocando-se em seu lugar, Sasuke se compadeceu do sensei.

— Beleza então... Vou indo, a Hinata já deve ter chegado. Vê se pensa de novo em ficar mais tempo, pelo menos, Sasuke. A gente combinou que você ia me ajudar, lembra? O futuro tem que ser brilhante...

Antes que o Uchiha pudesse responder, Naruto virou as costas e foi embora. Era uma mania insuportável que o Uzumaki tinha de fazer Sasuke se sentir culpado, pensou o rapaz estalando os lábios. Ainda deglutia a culpa quando o peso da mão de Kakashi empurrou sua cabeça, bagunçando seus cabelos.

— Vê se procura a Sakura amanhã, viu? — Kakashi aconselhou com tom de ordem e, curvando-se para que apenas Sasuke ouvisse, acrescentou sussurrando – E vê se presta atenção com o que você fala e pra quem você fala, tá bom, Sasuke-chan? Depois a gente conversa...

O jovem entendeu a deixa e riu satisfeito por ter atingido o sensei como ele mesmo fora mais cedo. O Hokage se despediu acenando para Teuchi e trocando um olhar sugestivo com o aluno, que apenas alargou o sorriso debochado em resposta. Não sustentou a expressão por muito tempo, contudo. Uma vez que Kakashi atravessou o noren, a seriedade voltou ao rosto do Uchiha, que suspirou cansado.

— Aqui, Sasuke-san: um Lámen Missô Tyashu.

— Ah, obrigado... — Sasuke trocou o lámen pelo pagamento e esperou o troco, observando a embalagem bem-feita que lhe foi entregue – Sua memória é impressionante...

— Hm? — o cozinheiro pareceu confuso, mas o jovem apontou para o pedido e algo desanuviou na mente do homem e ele riu – Ah, eu lembrar do seu pedido? Infelizmente não posso pegar crédito por isso. É que a Sakura-chan pede sempre a mesma coisa também!

A sacola em sua mão estava suada e nem o fraco fluxo de aldeões que ainda existia quando o Ichiraku encerrou o expediente resistiu ao avanço da noite. Sasuke não tinha relógio, mas se guiava bem pela posição da Lua e essa, alta no céu limpo de primavera, mostrava que estava perto da meia noite. A luz da fase nova, entretanto, era fraca e o rapaz se escondia bem na sombra do muro em frente ao restaurante. A certeza que o tinha motivado a ficar plantado ali vacilava com a passagem do tempo, mas não havia ninguém a culpar além dele mesmo. Ele escolhera esperar sem indicação alguma de que havia algo pelo que aguardar. Começava a cogitar simplesmente dar a meia volta, ir para casa e fazer do lámen que segurava café da manhã. Foi quando uma presença se fez e ele levantou o rosto. Percebera-a apenas no momento em que ela pousou em frente ao restaurante, além dele vários passos. O mau-humor da espera esvaiu-se tão rápido que, se procurado, nunca existiu. Montaria guarda pelo dobro do tempo se a recompensa fosse a mesma. Caminhou apenas alguns passos antes de chamar:

Sakura?

Notas finais
Olá, mina-san! Primeiro capítulo postadinho!!! Comentem e façam uma autora feliiiiz! Beijoos