Eu a conheci quando ainda era muito nova, dez ou nove anos. Era uma das garotas mais espertas que eu havia conhecido. No entanto, quando eu tinha quinze e ela onze, a garota sumiu do curso sem deixar explicações.

***

Bom, diário, eu já falei de como a conheci, mas agora vou te dizer como conheci a nova menina.

Agora, com dezenove, faço licenciatura para história. Planejo lecionar em escolas porque acredito que é uma opção mais fácil para mim.

Diário, você deve estar se perguntando quem é o idiota que fala coisas sem sentido, então eu vou falar mais de mim agora, pois com o tempo só vou conseguir falar dela.

O meu nome é Gabriel, moro da cidade de Recife e ainda quero voltar aos meus tempos de escola onde não tinha que me preocupar com o futuro. Eu sei que pareço um velho falando.

Porém, vamos a história senão nunca vamos chegar ao meu nirvana.

Eu estava apenas escutando aulas chatas de professores que não são da minha área de estudo em uma escola do que não estudo como o trabalho do semestre.

Quatro alunos em cada escola. O meu grupo é bem diversificado: um bonitão galanteador, um gay otimista que é muito legal com todos, o meu amigo de infância esquisito e... Eu, o magrelo que foi adiantado.

Ficaríamos naquele lugar por três meses, mas não era lá muito legal ficar ouvindo cantadas de pirralhas de quatorze ou quinze anos.

O sinal tocou e teríamos de ir para outra classe. O segundo ano, acreditei que teríamos pessoas mais maduras. Ilusão! Garotas frescas, moleques imaturos e piranhas. Contrariando o que foi dito anteriormente, havia a que me chamava atenção de todas elas.

Os cabelos negros e cacheados chegavam até os quadris, mas eu não tive precisão por causa da postura pela qual dormia na mesa. Os óculos de armação negra não era bem notado por conta dos cabelos e do tom de pele de um negro chocolate.

O professor chegou e ela despertou, amostrando os olhos negros que lhe dava um charme, em conjunto com o sinal abaixo do olho esquerdo -agora tampado pelos fios rebeldes. Os cabelos não eram de cacheado mola nem bem enrolado como das atrizes, era "encima do muro" como o da Merida.

"Vocês devem ser os alunos de história" -falou o professor, senhor já de certa idade, mas com um físico juvenil.

"Sim. Meu nome é Rafael e esses são Gabriel, Ivson e João Victor" -apresentou-nos Rafael, o galã.

"Me chamo Marcos e espero lhes ajudar" -se apresentou, esboçando um sorriso acolhedor. Também, pessoas que queiram ser professores são mais raras que dragões hoje em dia.

"Esperamos aprender muito com o senhor" -respondeu João

Fomos puxados para dentro da sala e o homem falou sobre o projeto para todos da classe -cerca de 24 alunos. O tempo todo eu a encarei e ela de volta. Eu já havia a reconhecido e ela com certeza sabia quem eu era.

Eu não mudei muito de quatro anos pra cá. Quem sabe mudou a minh voz e minha altura. O meu nome é o mesmo, então ela se lembraria de mim.

Deixou um pequeno sorriso escapar dos seus lábios.

"Gosta de uma nerd descabelada, Biel?" -provocou-me Rafael.

"Morra" -respondo com outro sussurro.

"Não é a primeira vez que você curte uma garota mais nova" -irritou Ivson, o meu "grande amigo de infância".

"Podem se sentar no fundo da sala" -disse o professor.

O fundo não era o lugar dos bagunceiros, era o dos que não querem nada com a vida e só estão ali para ganhar presença.

De vez em quando, ela virava e nossos olhares se cruzavam.

O sinal tocou para o intervalo. Todos os alunos correram como animais para a escada que levava ao primeiro andar ou para a rampa. Não entendi como podem estar tão animados se ainda teria mais uma escada para ir o térreo. Uma aluna estava na porta esperando que todos saíssem para fechar, a representante de turma.

O corredor era bem grande. De um lado as salas e do outro uma porta para o telhado e as rampas e escadas.

Enquanto esperávamos que todos descessem, ela também estava lá.

"Oi!" -chamou Rafael pela garota -"Sabe, o meu amigo aqui 'tá' te achando interessante."

Rafa pôs o braço pelo meu pescoço, mas eu o retirei. Começamos a descer as escadas.

Ela soltou uma risada.

"Vocês entenderam tudo errado" -avisou.

"Como assim?" -perguntou João.

"Nós somos amigos antigos. Eu era veterano no curso que ela fazia."

Antes que qualquer um falasse algo, uma menina mais baixa do que nós correu em nossa direção e abraçou-a.

"Malu!" -exclamou, se escondendo na mais alta.

"O quê?" -perguntou Malu.

"O Matheus descobriu que eu contei à Amanda" -respondeu a menor.

Ela tinha a pele clara e cabelos cacheados e curtos.

"Bom, o meu nome é Maria Luiza. Tchau." -ela nos cumprimentou e desceu a outra escada com a menina que já havia lhe soltado.

"Então aquela garota era a sua paixão de criança?"

"Vai pro inferno, Rafael. Fora que ela é quatro anos mais nova do que eu" -respondi, começando a descer também.

"Quatro anos? Essa conta está errada" -comentou Victor.

"Ela foi adiantada" -respondi.

"Você sabe muito sobre ela, hein?" -zombou Rafael.

"Rafael filho da..."

"Vamos nos acalmar, garotos" -disse João -"Se não me engano, você também foi adiantado, não é?"

"Dois anos, como ela."

Não demorou em um monitor avisar que devíamos descer para o pátio.

Querido diário, você não sabe a sorte que tem por ser carregado. É sério! Aquelas escadas eram horríveis, mas ter de descer as rampas eram bem piores.

Depois de quase morrermos descendo aquilo, tínhamos de correr para um bebedouro.

A escola parecia mais uma prisão: era dividido em alas, todas as conexões de andares tinham grades, assim como as janelas.

Quando estávamos prontos para bebermos água, foi quando ela voltou.

"Se não querem ter um problema de estômago, não recomendo que bebam essa água" -aconselhou Maria.

A morena estava sentada na ultima mesa do refeitório que não havia mais ninguém.

"Por que não?"

"Veem aquela estrutura?" -apontou para um reservatório grande que ficava no pátio, que permanecia trancado -"É um poço e de lá vem essa água."

"Cruzes" -reclamou Ivson.

"Podem pegar. Eu não bebo diretamente" -ela nos jogou uma garrafa, mas eu nem tinha percebido que ela estava com a mochila.

Pegamos a garrafa e cada um tomou um pouco.

Não chegamos a agradecer, pois a mesma garota sentou ao lado de Maria, com mais dois garotos.

"Malu" -falou o menino mais baixo e um pouco mais gordo.

"Quem é?" -perguntou o mais magro e de cabelo mais comprido.

"Eles estão fazendo uma pesquisa para a universidade. Estiveram na minha sala" -respondeu o outro.

"Ah, eu te vi na sala do nono ano C" -relembrou Victor.

"A garota é Katarina, e os meninos, Azaph e Matheus" -Luiza os apresentou -"Gabriel e Ivson são colegas meus antigos."

"Então, os dois garotos são amigos de infância?" -perguntou Katarina em um tom malicioso.

"Sim" -respondi hesitante.

"Então, vocês devem ter segredos entre si" -começou -"Segredos que ninguém sabe."

"Eu não entendo."

Ivson não entendeu, mas João e Rafael com certeza entenderam, pois soltaram um riso.

"Eles não são assim... Pelo que dizem, não" -disse Luiza.

"E você continua assistindo esses negócios, caramba!"

Luiza gostava de assistir coisas pervertidas de homem com homem. Eu sempre dizia que ela deveria parar de assistir e que iria se arrepender depois, mas parece que ela continua a mesma e com companhia.

"Acha que eu mudei tanto assim, Gabriel?"

"Espero que não, Maria Luiza."

"Que clima estranho" -observou a outra menina, querendo mudar de assunto.

"É verdade" -concordou Rafael.

O sinal tocou e os estudantes subiram. Nós fomos para a diretoria, para sabermos em qual sala iríamos.

***

Duas semanas se passaram desde o dia em que reencontrei Maria. Quando a aula de história era na sala dela, nós trocávamos olhares e sorrisos.

"Você vai pro inferno por querer uma menina tão nova" -sussurrava Rafael no meu ouvido.

O professor de história tinha faltado, mas não podíamos voltar para casa, então ficamos na quadra para vermos as aulas.

Na terceira aula era a de Maria. Ela estava com uma calça de exercício e a blusa da farda.

"Eu vou torcer por Malu no queimado."

"Se eu fosse vocês eu apostava contra ela" -falou uma das meninas frescas a João.

"Por que diz isso?" -perguntou Rafa.

"No time contra estão Aline, Ingred, Suelen e Yasmin, as melhores meninas da sala." -começou -"De forte, no dela, só tem Dayane."

Dayane era uma menina de cabelos cacheados e curto que era amiga de Maria.

No time "forte" entrou um menino por falta de uma menina. Assim como a aluna disse, o time dela já havia perdido duas garotas, mas ela ainda estava lá.

Admito, eu estava nervoso para caramba, mas a minha tensão aumentou.

Começaram a marcá-la, e ela sempre desviava. Parecia como uma caça que eles jogavam para assustar a presa, no entanto, quando eles queriam acabar a caçada deram a bola ao menino. Um garoto e que aparentava ser muito forte. Ele como se fosse fosse jogar para Luiza desviar, mas ela escorregou por conta da quadra molhada. Só de ver parecia doloroso, pois as costas bateram na mureta entre a quadra e a arquibancada.

Eu pensei que havia acabado, mas o menino ainda jogou a bola forte, que bateu nos seios dela.

A professora apitou e correu até ela. Alguns alunos -principalmente as meninas e os que jogavam futebol -riam da desgraça alheia.

Confesso que tive vontade de bater no garoto, mas me controle e fui até ela, com Ivson, Dayane e João. Entretanto, Rafael e Dayane não tinham o mesmo controle que eu.

"Você acha que fez certo?" -perguntou a menina.

"Jogo é jogo" -respondeu cinicamente.

"A sua mãe, babaca" -berrou Rafa, dando um soco no pirralho.

Os dois começaram a brigar. O garoto perdia feio para Rafael. Só parou de apanhar quando os outros dois professores de educação física apareceram com três monitores e o policial que ficava na escola.

Em meia hora, já estávamos na sala do diretor.

"O que diabo aconteceu?" -gritou o homem gordo com pernas finas.

"A gente tava no jogo" -respondeu o estudante despreocupado.

"Só se for jogo mortais" -disse Rafael.

"Ela está gemendo de dor, por brincadeira sua" -eu afirmei.

"Se acalmem" -pediu João.

"É melhor a senhora dizer o que aconteceu, Professora Teresa."

"Eu não vi" -mentiu.

"Claro que não!" -reclamou Maria, antes de soltar um suspiro de dor -"Nenhum professor vai dizer que foi negligente e deixou os aluno jogarem soltos, como animais. Assim, só quem brigou se ferra."

Os olhos marejados de dor dela me deixavam mais nervoso.

"Eu vou contar" -Victor contou tudo ao homem.

No fim, o garoto foi suspenso por quinze dias e o nosso caso iria ser discutido com a nossa professora depois. Maria não aguentava de dor, por isso eu me ofereci para levá-la em casa.

Eu já tinha passado por lá quando tínhamos curso e precisávamos de uma mãe para nos acompanhar -nesse caso, a mãe dela.

Eu levava a sua mochila nas costas e ela se segurava pela minha cintura.

"Obrigada" -agradeceu baixo.

"Eu não me importo" -respondi.

Em menos de quinze minutos chegamos na casa pequena. Ela não aguentou pegar as chaves na mochila, por isso eu peguei e abri a porta.

"Luiza!" -exclamou a mãe dela surpresa.

"Eu caí na educação física" -ela ocultou a bolada -"A mina coluna dói."

A mulher baixa a levou para um quarto, me deixando sozinho na sala. Em minutos ela retornou.

"Obrigada por trazê-la" -agradeceu.

"Nada. A senhora lembra de mim?" -perguntei, e ela fez um sinal para que eu sentasse.

"Claro."

"Quando Luiza não apareceu mais, todos ficaram se perguntando o porquê."

"Aconteceu algo horrível naquele ano. Ela mentia, assim como mentiu para mim agora" -falou, abaixando o olhar.

"Então a senhora sabe?"

"Nesses quatro anos eu aprendi a perceber quando ela mentia. Eu acho que era para refazer o que aconteceu quando ela tinha onze anos."

"Eu acho melhor eu ir embora."

Ela sussurrou concordando e eu fui embora, com aquilo na cabeça.

***

A professora havia nos reunido nos reunido depois das aulas.

"E então?"

"Bom, o diretor não permitiu que continuassem na escola." -avisou, com uma expressão desapontada.

"Eu sinto muito."

"Tudo bem, mas vocês terão de fazer um relatório sobre os dias lá."

"OK."

A mulher saiu da sala.

Estávamos no refeitório, com nossas caras tristes.

"Que caras irritantes." -falou Melissa, uma aluna de artes cênicas.

"Nós somos os primeiros estudantes da faculdade que são expulsos da escola." -reclamou Ivson.

"Mas você parece muito bem, Melissa." -observou Victor.

"Perto de mim qualquer um fica feliz."

"Eu duvido muito, Rafael."

"Eu estou feliz porque o palestrante foi um professor que eu sempre admirei."

"Quem?"

"Francisco Ellen." -ela respondeu radiante.

Eu conheci esse nome, mas queria ter certeza.

"Um professor alto, estiloso e fotógrafo?"

"Você o conhece?"

"Eu vou primeiro. Pode ir só, Ivson."

Eu corri em direção a escada, ignorando alguém ter me chamado.

Cheguei até a sala de artes e vi um homem negro, forte.

"Professor Chico?" -o chamei.

"Sim." -ele se virou e deu um sorriso, deve ter me reconhecido -"Oh, Gabriel!"

"Eu posso falar com o senhor?"

Eu devo ter dito de uma forma desesperada pois ele fez uma careta curiosa.

"Eu te dou uma carona."

Fomos até o carro azul marinho dele e ele dirigiu até um bar próximo. Nos sentamos em um mesa e ambos pedimos refrigerante.

"O que queria falar comigo?"

"É sobre Maria Luiza." -falei e ele fez uma cara estranha. Chico sabia de algo.

"O que tem a Malu?"

"Eu a encontrei novamente. Ela está bem diferente e eu tenho medo disso." -a garçonete chegou e saiu com um riso sem jeito. -"Quando ela sumiu, há quatro anos, não deu notícias e parece que houve algo. O senhor sabe o que aconteceu, não é? Por favor, me diga."

"Eu sei sim, mas isso é confidencial." -Ele me encarou e relaxou. -"Porém, eu percebo a sua preocupação."

"Confidencial? O que diabos houve com a Maria?"

"Espero que esteja preparado, Gabriel. Vai precisar." -respirou fundo. -"Lembra-se do professor de música Marcelo?"

"Ele também saiu no mesmo ano que ela, mas..." -eu congelei. Eu não conseguia acreditar no que pensava.

"Foi no fim do ano e nenhum aluno apareceu para arrumar os materiais, apenas Malu."

"Eu lembro que a ideia foi do Marcelo. Eu ia, porque ela me chamou, entretanto eu tive um problema."

"Então, eu ia ajudar a Malu, mas saí para comprar uma resma com Mario e a deixei sozinha." -ele respirou fundo. -"Quando chegamos, Mario e eu, Marcelo tentava atacar a Luiza."

Senti uma dor de cabeça.

"Ele não fez, né? Se ele tiver..."

"Nós chegamos a tempo." -ele fez uma pausa -"No entanto, não sabíamos que ela estava tendo um momento difícil na escola e aquilo foi a gota de água."

Eu não queria que ele continuasse, mas eu precisava ouvir até o fim. Apertei um pouco o copo do refrigerante.

"O que quis dizer?" -tomei coragem para ele prosseguir.

"Ela tentou suicídio, tomou vários de remédios de uma vez."

Eu engasguei.

"Ela tentou novamente?"

"Não. Ela disse que durante os dias em que ficou internada algo a fez repensar se deveria morrer."

"O quê?"

"Eu não sei. Ela não quis dizer aos pais e nem a ninguém." -ele suspirou.

O professor chamou a garçonete e pagou. Saímos calados até o carro, como ficamos até chegar próximo ao meu destino.

"Sabe, naquele ano você não a ajudou, mas dessa vez pode." -ele começou -"Eu não sei o que está havendo, mas boa sorte para vocês dois."

"Obrigado por me contar."

Eu saí do carro.

***

No dia seguinte acordei cedo para ir à escola. Ela estava aparentemente normal, mas a normalidade acabou quando chegamos na sala de Malu.

O clima pesado e as fofocas predominavam. Procurei Maria, mas não a encontrei.

"Bom dia" -Dayane nos cumprimentou -"Não temos aula de história hoje."

"Bom dia" -falou Rafael.

"Nós não vamos mais ficar nesta escola" -respondeu Ivson.

"Cadê Maria Luiza?" -perguntei.

"Ela me ligou e disse que não vai vir hoje."

"Então, tchau" -disse depressa, e desci as escadas.

Fui correndo até a casa dela, mas parei para refletir assim que cheguei. Pensei uma, duas vezes e decidi que aquilo era importante.

Bati duas vezes e esperei ansioso.

"Oh, Gabriel" -falou a mãe dela. Parecia que estava saindo.

"Bom dia" -cumprimentei.

"Bom dia" -respondeu -"Quer falar com Luiza?"

"Sim" -ela abriu mais a porta e saiu.

"Eu vou sair, mas ela está no quarto" -eu entrei e tranquei a porta atrás de mim.

Andei até o quarto e bati na porta. Ouvi um "entre", e assim o fiz. Malu estava coberta.

"Eu sei que não está doente" -admiti -"Só não quer ir pra escola por causa de ontem."

Ela soltou um riso pelo nariz e sentou-se.

"Enganar você não tem graça."

"Eu soube do que houve há quatro anos" -fui direto.

"Por quem?" -ela abaixou a cabeça.

"Pelo professor Chico" -revelei -"O encontrei na faculdade."

"O que veio fazer aqui?" -perguntou chorosa.

"Por que foi para lá naquele dia? Disse que era cansativo."

"Porque você estaria lá, seu babaca!"

"Como assim?"

"A minha vida sempre foi um inferno, mas sempre teve aquilo que me sustentou" -ela começou -"Hoje, são a Katarina, a Day, o Azaph... Mas antes, era o curso, era você" -ela respirou, ainda olhava para baixo -"Eu sempre gostei de você, só por isso aceitei ir mesmo sabendo que teria muito trabalho" -eu queria abraçá-la, mas ela devia desabafar -"Mesmo com um merda dia na escola, eu ia animada por saber que você estaria lá."

Eu não aguentei. Simplesmente segurei seus ombros, a forçando a levantar a cabeça. Ela me olhava curiosa, então a beijei. Éramos iniciantes, por isso batiamos os dentes um no outro de vez enquanto. Separamos-nos.

"Eu te amo, Maria Luiza" -eu a puxei para mim.

Fiquei um tempo abraçado a ela.

Eu decidi naquele momento que não a deixaria ir novamente.

***

Essa foi a última página do meu antigo diário, pois tendo Maria como namorada eu tive uma vida bem movimentada.

Eu olhei para a minha cama e vi a mulher de cabelos cacheados e compridos deitada toda desarrumada e com uma blusa folgada que saia às vezes.

Dei uma tragada antes apagar o cigarro e colocá-lo no cinzeiro. Fui até ela lhe dei um beijo.

"Eu odeio cheiro cigarro" -resmungou.

"Quando casou comigo já sabia que fumava" -devolvi.

"Verdade" -ela se sentou -"mas só vou te beijar depois de comer algo ou escovar os dentes."

Ela correu para o banheiro, me deixando só.

Deixei um sorriso travesso encarando as fotografias coladas em um mural na parede -tínhamos muitos outros pela casa.

Malu sorria bem animada na foto do nosso primeiro natal como namorados, junto com Katarina, Azaph, Dayane e o pessoal da faculdade.

Na foto maior, ela sorria satisfeita ao meu lado, e por trás das nossas crianças.

"O que foi?" -perguntou, saindo já vestida.

"Nada" -respondi, me virando -"eu vou escovar os dentes e depois desço."

Ela apenas me beijou no rosto e desceu.

Fiz o que disse e desci para a cozinha. Malu estava no fogão, fazendo tapiocas.

"Bom dia" -abracei ela por trás.

"Agora sim" -ela virou-se -"Bom dia.”

Vi os quatro entrando quando separamos os lábios.

"Bom dia" -disseram juntos.

Éramos orgulhosos por eles. Desde a garota de cabelos cacheados e negros até o menino de cabelos louros e lisos. Do menino de cabelos castanhos à menininha de cabelos negros e lisos.

Todos eram nossos filhos, não de sangue, mas tudo que vivemos em 15 anos de casados e com os mais velhos tendo 16 anos ultrapassou o sangue.

"Bom dia" -respondemos juntos.

Notas finais
O que acharam?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!