A garota dos olhos profundos
1 O QUE A VIDA ME MOSTROU?
Tudo está como sempre esteve. Na fazenda dos meus pais a chuva durante a noite faz com que o interior de nossa casa esfrie drasticamente, papai sempre me diz para ficar longe da janela, mas aquele lago lá fora sempre me tira a atenção. Minha mãe está na cozinha preparando o jantar, o frio é um tempero a mais para sua comida típica, sopa de legumes com pães frescos de uma padaria caseira.
Aquela sensação de que julho estava chegando ao fim, o cheiro da sopa e o som adocicado da voz da minha mãe cantarolando ao fundo me confortam após muitas adversidades na capital. Meu pai está ranzinza como sempre, principalmente por que a chuva faz a imagem da televisão escurecer. Seus cabelos brancos estão cada vez mais notáveis em sua cabeça, mesmo com o seu já tradicional chapéu.
Minha mãe chega até nós e mais uma vez estamos reunidos na sala, o jornal televisivo está chegando ao fim e minha mãe quer ver sua telenovela. Me sento no fundo da sala e começo a apreciar aquele filme que se repete mais uma vez, como sempre presencio desde minha infância.
Alguns minutos depois e minha mãe volta para a cozinha, exatamente durante o primeiro intervalo comercial, parece que a televisão sabe do ensopado dela e está lhe avisando, meu pai aproveita para acender um cigarro enquanto minha mãe se ausenta da sala, são exatamente três tragadas até que ele me pergunte:
—Então filha, como vai indo os estudos?
— Bem pai. Pelo visto o senhor não parou de fumar mesmo...
—Posso parar quando eu quiser, não tente me mudar... Não fique muito próxima a essa janela, ai o frio pode te fazer mal.
—Vou me afastar um pouco... Como está indo a fazenda? a venda de leite aumentou?
—Boa parte dos nossos compradores estavam endividados e por isso não puderam comprar o de sempre. Mas você não deve se preocupar com isso, eu ainda dou conta dos negócios por aqui.
—Tudo bem pai.
—Você conseguiu se adaptar a vida na capital, está com algum problema? Não adianta mentir para os pais.
—Não se preocupe pai, a vida lá fora é um pouco complicada, mas eu consigo levar sem maiores problemas.
—Filha, se alguma coisa tiver te incomodando na capital, saiba que seus velhos pais estão aqui para te acolher a qualquer momento, não importa a época, você sempre terá o lar de seus pais para chamar de seu.
Esse é o mesmo discurso que meu pai faz todo ano, porém dessa vez foi diferente pelo fato de eu morar fora de casa, é a primeira vez que ouço meu ele dizer palavras tão doces, normalmente ele é tão fechado e forte emocionalmente, me sinto ainda mais aliviada ao saber que algumas coisas não costumam mudar com o tempo, principalmente as mais importantes.
O comercial chega ao fim e minha mãe está de volta a sala para assistir sua telenovela, meu pai termina seu cigarro antes dela adentrar a sala, é típico da minha mãe pedir para eu ir ver a panela na cozinha até que a sopa fique pronta, segundo ela, quando ela chegar na cozinha era sinal que a sopa estava no ponto, mas que eu deveria ir vigiar a panela, isso já era tradição então vou.
A cozinha é tão nostálgica, ainda lembro de quando minha mãe me trazia aqui para medir a minha altura enquanto eu observava a comida sendo preparada. O som da televisão ligada com volume quase no máximo por conta da quase-surdez do papai numa noite silenciosa faz eu me sentir com oito anos novamente. Olho a panela e vejo que tudo estava nos conformes, os legumes ainda não estão no ponto, por isso coloco a tampa de volta e vou arrumar a mesa para o jantar.
Ligo o rádio que está em uma estante próximo a mesa, o programa que sempre toca as músicas de décadas passadas está no ar, minha música predileta começa a tocar e ao som dela comecei a arrumar a mesa para o jantar. Após terminar, vou me sentar próximo a panela para esperar a mamãe.
Os minutos passam até que minha ela chega para tirar a sopa do fogão, papai senta-se à mesa do jantar para nos esperar. Me adianto e pego a luva da mamãe e a entrego para proteger suas mãos da quentura da panela. Esse cheiro exala por toda a cozinha e faz meu coração bater mais rápido, os tossidos do papai ao fundo, os pratos de porcelana e a sopa da mamãe me causam nostalgia e tudo o que eu posso fazer é apreciar esse momento que sempre se repete em minha vida, mas que é único para mim.
Papai chega diminuiu o volume do rádio para que possamos conversar, mamãe parece estar sempre feliz, ainda mais por conta das marcas de expressão no seu rosto por conta da idade, já o papai parece estar sempre zangado, mas no fundo eu sei que assim como nós, ele está feliz pela reunião da família novamente. Sigo a mamãe para ajudar a servir a sopa, minha barriga não pode evitar e ronca levemente, foi o suficiente para cairmos na risada. Após colocarmos a sopa em nossos pratos, começamos a conversar e a comer.
A noite está ótima, o frio por causa da chuva realça o sabor da sopa de legumes quentinha, os pães armazenados no forno parecem deliciosos, hoje até o papai sorrir de vez em quando com as piadas da mamãe. Eu sinto que não preciso de mais nada nesse mundo, estou realmente feliz, mas nossa conversa é interrompida por uma batida na porta. Minha mãe pergunta para o papai:
—Arnold, você convidou mais alguém para o jantar?
—Não querida, mas deve ser importante para ter saído nessa chuva.
Me prontifico para ver quem era, mas papai se antecipa a mim e se levanta para ir ver quem batia a nossa porta. Mamãe começa a falar comigo.
—Espero que não seja nenhuma notícia ruim, seu pai é o único que possui carro aqui na vila e os moradores dependem dele, mas com essa chuva, a estreada deve tá em péssimas condições.
—Assim espero também.
—Filha, você está muito magra, tem que comer mais, está passando fome na capital?
—Não mãe, eu sempre fui magra assim.
—Isso é verdade, mas você parece pálida. Vou fazer uma sopa reforçada pra você recuperar suas forças, desse jeito você vai sumir.
—Não estou tão magra assim, a senhora que é muito preocupada.
—Não diga essas coisas, essas são preocupações normais de mãe. E seus estudos como estão? Como se chama o curso que você está fazendo mesmo?
—Ciência da Computação.
—É uma pena esse estudo só ter em Carville, nós sentimos tanta a sua falta aqui na fazenda, porque você foi que crescer tão depressa?
-Ah mamãe, eu também sinto a falta de vocês. Todos os dias eu me lembro de casa, mas agora tenho que dar continuidade na minha vida, está sendo difícil me adaptar há algumas situações, mas eu sei que elas são necessárias.
—Adriana, diga a verdade, você não está passando por mau tratos nessa universidade? Seus amigos são pessoas de bem? Não esconda nada de sua mãe, pois um dia eu ficarei sabendo, as mães sabem de tudo.
—Não se preocupe mamãe, a universidade é um pouco distante de onde eu fico, mas eu pego os três ônibus e chego lá na hora. Não conheço ninguém ainda da sala, mas eles não parecem ser pessoas más.
—Seu pai parece fechado, mas sempre que tem um tempo livre fica olhando o álbum de fotografia da família, já flagrei ele chorando escondido, principalmente quando olha para sua foto dando os seus primeiros passos, até hoje não sei como fiz a máquina funcionar no exato momento em que ele segurava seus bracinhos, até hoje não consigo mexer naquela máquina, acho que foi apenas mais um charme do destino, afinal aquela é a única foto dele com você, normalmente era ele quem tirava as fotografias...
—Ele é um coração mole mesmo, mas me sinto da mesma forma, as vezes eu olho para as fotografias daqui quando estou em casa e percebo que talvez aqueles momentos ali registrados nunca mais voltem, mas quando chego aqui em casa e vejo que a vila continua a mesma de sempre, encontro vocês vivendo tão pacificamente, percebo que aqueles momentos estão gravados em meu coração e nunca poderão ser apagados.
—Que bom que você continua a romântica de sempre, me tranquiliza saber que continuas a mesma pessoa dócil, mas que tá mais educada e mais madura. Mas o mais importante é que você está segura e crescida, mesmo que isso me entristeça, eu sei que você já adulta o suficiente pra morar sozinha...
—Sim mamãe, agora eu posso lutar por um futuro melhor para a nossa família, sei que os meus estudos vão me dar condições de conseguir um emprego e depois eu venho morar de vez aqui nessa vila, vou cuidar de vocês.
—Veja só a minha garotinha, parece que foi ontem que mal conseguia dizer ônibus sem enrolar a língua e agora já tá até planejando seu próprio futuro, me sinto tão orgulhosa de você. Vou buscar algo que fiz pra você, espero que sirva, vou buscar.
—Tudo bem mamãe, mas não precisava se dar ao trabalho.
Mamãe se levanta e vai em direção ao quarto, ela tomou a sopa tão rápido que quase não percebo que ela já terminou. Resolvo esperar pelo papai para continuar a tomar a minha, aliás ele está demorando, desse jeito a sopa vai esfriar. Nesse exato momento ele retorna para jantar, mas dessa vez ele não está sozinho.
Um senhor de idade de cabelos brancos com os olhos quase se fechando e com a roupa encharcada está o acompanhando, mamãe volta também e se assusta com a presença daquele senhor, meu pai parece estar preocupado, minha mãe muito mais. Eu nunca vi esse senhor pela vila, será alguma notícia ruim da vila? Mamãe tratou de pegar uma cadeira para aquele ele, papai disse que não era necessário. Todos aqui estão tão sérios e o silêncio que tenho a sensação que posso ouvir os batimentos do meu coração. Papai diz a mamãe:
—Fique aqui com a Adriana, explique a situação para ela enquanto preparo a sala para ele.
—Tudo bem querido.
Papai olhou nos olhos da mamãe e depois nos meus e nos disse:
—Não fiquem com esse olhar assustado, vai ficar tudo bem.
Ele se afasta de nós e vai com aquele senhor para sala, mamãe olha nos meus olhos e com uma expressão aflita me diz:
—Filha, está na hora de você saber de uma história que apenas os cidadãos mais velhos da vila conhecem, mas que agora você precisa conhece-la.
—Tudo bem mamãe.
—A nossa vila sempre esteve protegida por uma família, a família dos Garret, durante anos foram eles que nos defenderam de possíveis ladrões, assassinos, enfim. Essa família sempre teve a tradição de formar seus descendentes de forma rígida e forte. Porém certo dia algo de ruim aconteceu, um jovem prodígio da família estava voltando da escola quando percebeu que sua casa estava em chamas, ele correu para tentar apagar o fogo, os moradores correram para ajudar, alguns até sofreram queimaduras ao tentar entrar na casa, mas foi em vão. Desde de essa tragédia ele vive na margem daquele lago, talvez por medo de um novo incêndio. Infelizmente todos de sua família faleceram e depois daquilo ele prometeu nos proteger, mas não consegue sair de casa, talvez por medo, eu não sei. Porém agora ele é como um oráculo para nós, mas não vamos nunca a ele, isto é, toda vez que ele visitar uma das casas, significa que algo inesperado está por vir e ele veio avisar, algo ruim.
—Tudo bem mamãe, vai ficar tudo bem, não se preocupe.
Naquele momento ela me abraça, sinto que algo ruim está por vir, mas tento não repassar para ela, afinal é só intuição. Papai aparece para nos chamar para a sala e nós vamos, estou um pouco receosa, mas continuo andando, não largo da mão da mamãe por nada. Ao chegarmos na sala vejo que o senhor está sentado no centro da sala em uma das cadeiras de madeira que ali ficavam para as visitas. Nós três permanecemos em pé de frente para ele, papai começa a falar:
—Senhor Benedito, o que traz você até a nossa residência?
Benedito respira profundamente, olha para nós três e levanta-se. Anda vagarosamente pela sala, olha as fotos no quadro da parede e nos diz:
—Sou o mensageiro dessa vila há décadas, mas nunca tinha visto algo assim antes, tive que vir às pressas, mesmo não podendo sair na chuva.
Mamãe aparenta estar muito aflita e resolve pergunta:
—O que o senhor viu?
O senhor olha fixamente para a ela durante alguns segundos, olha para o papai e diz:
—Não posso contar para os três.
Papai fica indignado e fala:
—Como assim não pode nos contar!?
O senhor olha para ele, para o teto, anda de volta para a cadeira e diz:
—Devo dizer apenas para a garota, essa é a condição. E para isso terei que saber o que se passou com ela em vidas passadas.
Ficamos perplexos e mamãe resolve questionar novamente:
—E como pretende fazer isso?
Ele se senta novamente na cadeira e diz:
—Traga ela até aqui, vamos fazer do modo tradicional.
Mamãe olha nos meus olhos, me abraça e diz:
—Vai ficar tudo bem, ele só vai segurar a sua mão por alguns segundos, não se preocupe.
Por alguns segundos penso que mamãe pode estar lendo minha mente, como ela pode ser tão exata com suas palavras de consolo? Meus pensamentos estão me confundindo. Papai toca levemente no ombro dela e ambos de afastam, eu olho para os dois ainda confusa mas resolvo me aproximar do senhor.
Ando vagarosamente para seu lado direito, ao me aproximar dele, seus olhos de fecham instantaneamente, sua respiração está ofegante, o que me assusta um pouco. Ele estica suas mãos trêmulas e engelhadas para que eu possa segurar. Seguro em sua mão direita, ele diz para eu fechar os olhos e assim eu faço.
A respiração do senhor se tranquiliza e fica menos ofegante, porém após alguns segundos percebo que ele estava apertando minha mão, sinto seu braço começar a tremer, mais que o normal, mamãe percebe que ele está tendo um ataque de epilepsia e faz ele soltar da minha mão, o senhor cai no chão e começa a ter convulsões. Papai coloca o senhor de lado para que ele possa se livrar das secreções. Meu coração dispara naquele momento, o momento de tensão me toma conta, mas após alguns minutos o senhor se recupera aos poucos da crise de epilepsia.
Ele se levanta vagarosamente e vem em minha direção, papai o ajuda a levantar e a caminhar. Ainda meio sonolento ele pede para sentar na cadeira no centro da sala, papai o coloca na cadeira. Mamãe aparece com uma toalha úmida e coloca sob a cabeça sua cabeça. Ele pede para ficar a sós comigo, eu tento dizer que não, mas papai e mamãe se afastam logo em seguida.
Agora que estamos a sós e ele começa a olhar fixamente para mim, eu estava estática no lado direito da cadeira, mal podia me mover, sua expressão era de tristeza, parecia que ele esperava eu dizer algo para poder falar, eu arrisquei a perguntar. Então, o que a vida me mostrou?
Fim
Fale com o autor