A garota do quarto 8
2 Capítulo 1
O céu estava irritantemente azul e o sol estava brilhando forte, ou seja devia estar um puto de um calor do lado de fora, eu tinha que arrumar a merda da minha mala para ir para o caralho do colégio interno que o corno do meu pai resolveu me mandar sem nenhum motive aparente. E tudo isso só hoje.
Observei o estado do meu quarto, uma mala azul e uma mochila preta eram as únicas coisas arrumadas no cômodo, as portas do armário estavam abertas, o banheiro todo molhado pela minha correria no banho e milhares de roupas jogadas no chão, devido a organização dos meus pertences para o colégio interno. E mesmo nessas condições o meu quarto nunca pareceu mais aconchegante.
E o carro do meu pai nunca pareceu mais assustador.
Apesar de estar indo para um colégio interno e ter a chance de me livrar de uma vez pro todas da praga que havia me gerado e me criado, vulgo meu pai; eu não queria. A ideia de ter alguém me perturbando para abaixar o volume da televisão ou me mandar fazer o dever era simplesmente encantadora comparada ao meu futuro. Mas por que o colégio interno me dava tanto medo? Simplesmente de ser lotado por pessoas completamente desconhecidas e possivelmente delinquentes; afinal quem normal vai para um colégio interno? [não se ofenda caro leitor que (acha que) é normal e estuda em um colégio interno]
Ao entrar no carro coloquei os fones de ouvido e aumentei o volume para o máximo; meu pai já estava tão acostumado que nem reclamou, mas quando a paisagem começou a mudar, aquela situação pareceu estranha demais.
—Pai. Onde caralhos o colégio fica? – Perguntei vendo que o chão asfaltado se tornava uma terra arenosa e os prédios se tonaram um grande campo gramado.
—Primeiro: já avisei que não quero você falando palavrões comigo mocinha. Segundo: ele fica no interior de West Hic. – Ele respondeu como se fosse algo razoável e o meu nada sutil rolar de olhos se tornou uma cara de horror. West Hic era um local urbano pouco desenvolvido, e quando eu digo isso eu estou querendo dizer que West Hic, na realidade, era um lugar praticamente rural, com poucas casas e poucas lojas. Portanto o interior de West Hic não devia sequer ter uma casa decente, ou seja era um puta de um fim de mundo.
—O que exatamente tem perto do colégio?
—Nada. – Ele respondeu de novo como se fosse algo normal. Bem, o interior de West Hic devia ser somente a merda da escola e mais nada. Talvez um mato, uma fazenda talvez. E por que nada disso soava animador? PORQUE NAO ERA NADA ANIMADOR! E tentando não alterar o meu tom de voz, continuei meu interrogatório.
—Por que exatamente eu estou indo para lá?
—Porque eu estou cansado do seu comportamento, e eu tenho certeza que essa escola vai te fazer mudar. – Meu pai disse. Parecia que ele realmente tinha ficado bravo por encontrar cigarros no meu quarto, e pela festa quando ele estava fora e pelo fato que eu talvez tenha queimado a sua blusa favorita em um churrasco não autorizado; mas isso não era motivo para isso, era? Bem aparentemente era.
Recoloquei os fones de ouvido e torci para que, por qualquer motivo que fosse, ele reconsiderasse essa ideia maluca e voltasse para casa.
A musica do Green Day tocava absurdamente alta quando eu escutei outro som que não era a guitarra e percebi que meu pai tinha arrancado o fone que antes estava em meu ouvido esquerdo e começava a falar comigo. Olhei para trás e percebi que a cidadezinha de West Hic tinha passado e que, portanto, ele não tinha reconsiderado.
—Eu não quero ligações da diretora sobre comportamento inadequado, eu não quero ligações suas desesperadas para ir embora e eu certamente não quero que a senhorita roube um carro e volte dirigindo para casa.
—Aonde eu roubaria um carro nesse fim de mundo?- Perguntei olhando para os lados. Mato, mato e mais mato. Aquilo só podia ser um pesadelo. Tentei me beliscar para ver se eu acordava, mas a única coisa que eu consegui foi uma marca vermelha no braço.
—Olhe para a direita para ver a sua futura casa.- Ele disse e eu realmente esperei que fosse uma mansão com piscina e que a historia do colégio interno tivesse sido somente uma distração, mas milagres não acontecem. Para ilustrar: a imagem na minha direta era nada mais, nada menos que um castelo; daqueles que são bem medievais. A estrutura de pedra continha várias torres e vidraças coloridas, com uma enorme por de madeira na entrada.
Meu pai estacionou o carro e pegou a minha bagagem e, enquanto isso, eu pensava em um jeito de fugir daquele lugar; mas ele ficava no meio do nada.
—Filha, essa é a diretora Dayana Knowles.- O ser que tinha me arrastado para aquele inferno disse, abrindo a porta do carro para que eu saísse (contra a minha vontade, no caso). Percebi que uma mulher, de aproximadamente sessenta anos, com o cabelo mal colorido e um sorriso doce nos esperava.
—Bom dia Charlotte! Seja bem vinda! – Dayana diz com um olhar acolhedor e um sorriso colgate, e estende a sua mão, a qual aperto sorrindo falsamente e saio do carro, a pedido para que me chamasse de Charlie, já que eu “não gostava muito”, vulgo odiava com todas as minhas forças o meu nome. – Como amanhã é o primeiro dia de aula, os numero dos quartos e os seus devidos integrantes estão colados em um painel ao lado da minha sala. Venha comigo.
Acenei para o meu pai, contendo a minha vontade de mostrar o sinal feio e sorri como se dissesse “aguarde ao lado do telefone, babaca” e segui a diretora Dayana.
—Como você deve saber, nosso internado é frequentado por meninos e meninas; portanto o dormitório da direita é o dos meninos e o da esquerda, das meninas. – Ela fala e aponta para um painel rosa com nomes escritos em letras cursivas.
“ Quarto 1 : Alexia P. , Mona T., Georgia N. , Helen S.”
Não.
“Quarto 2: Daniela C., Joanna F., Iridessa K., Lisa L.”
Não.
“ Quarto 3: Sabrina V. , Luciana D., Lucia P., Deborah S.”
Não.
“Quarto 4: Cecilia A., Gabriella F., Hanna U., Isabelle A.”
Não.
“Quarto 5: Abby B., Vivianne K., Leticia G., Amanda D.”
“Quarto 6: Juliana F., Karina C, Ester V., Iris A.”
“Quarto 7: Olive J., Bianca D., Anna Q., Kate W.”
“Quarto 8: Sophia C., Emma S., Sarah M., Charlotte P.”
Quando eu finalmente vi meu nome, no quarto 8 eu suspirei; pelo menos eu estava em um quarto certo? Pelo menos eu não tinha sido esquecida. Bem, talvez se eu tivesse sido esquecida eu tivesse mais chance de fugir...
Comecei a andar pelo corredor ate ver a porta de madeira com o número 8 escrito. Girei a maçaneta do quarto. Aquele quarto era exatamente o contrário de tudo que era mais sagrado para mim: descrição e personalidade. Podíamos perceber que o quarto era feito para ser neutro, as paredes brancas, as camas de madeira e os armários também. A parte que fodia com tudo era o fato que as minhas “colegas de quarto” tinham resolvido cobrir aquilo de pôsteres de caras sem camisa e pendurar coisas rosas e brilhosas pelo quarto, menos em um dos cantos; que foi obviamente para onde eu fui.
A cama tinha uma colcha básica branca e dois travesseiros. Aquela cama era a mais perto da janela, que tinha uma vista direcionada para a floresta, que ficava atrás do castelo. Por algum motivo senti um frio na barriga ao observas as árvores enormes que se estendiam pela floresta toda.
No pé da cama tinha um baú que eu achei bem mais confiável de colocar as minhas roupas do que no armário comunitário do “canto porpurinado”. Esvaziei a mala azul e deixei a mochila em cima da cama enquanto tentava arrumar os meus pertences no baú.
Deixo as minhas coisas em uma posição onde elas (provavelmente) não seriam remexidas e vou da uma volta pela ala feminina, provavelmente ver o estado do banheiro.
Os corredores e salas comunitárias são arrumadinhas, mesmo com os moveis sendo relativamente antigos, eles estão bem conservados e não parecem que vão quebrar a qualquer momento.
Já o banheiro não esta tão bem conservado, as paredes tem algumas pichações e ele não parece bem limpinho quanto um banheiro deveria ser, não que eu esperasse muito do banheiro comunitário, pelo contrario.
Em um dos corredores tem uma folhas dos horários femininos que eu pego, afinal, mesmo que eu quisesse dar o fora desse inferno, eu poderia aproveitar o fato de ser um internato misto...
“Regra 1: Todas as alunas devem acordar `as 6:00 e estarem prontas para o café da manha `as 7:15.
Regra 2: Todas as alunas devem estar nas salas de aula pontualmente `as 8:15
Regra 3: O almoço será servido pontualmente `as 12:15 e todas as alunas devem estar de volta nas salas de aula `as 13:15
Regra 4: Todas as alunas estarão liberadas `as 16:15.
Regra 5: O jantar será servido pontualmente `as 20:00 e todas as alunas deverão estar de volta em seus quartos `as 22:15"
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“Horário das aulas
Segundas e quartas feiras:
6:00: Acordar
7:15: Café da manha
8:15- Biologia
9:15- Álgebra
10:15- ‘Boas Maneiras’
11:15- Historia
12:15: Almoço
13:15: Esgrima
14:15: Natação
15:15: Montaria
A partir de 16:15: livre
20: 15: Jantar
22:15: Luzes apagadas
Terças e quintas feiras:
6:00: Acordar
7:15: Café da manha
8:15: Química
9:15 – Geometria
10:15- Física
11:15: Literatura
12:15: Almoço
13:15: Geografia
14:15: Artes
15:15: “Boas Maneiras”
A partir de 16:15: livre
20:25: Jantar
22:15: Luzes apagadas
Sextas feiras:
6:00: Acordar
7:15: Café da manha
8:15: Culinária
9:15: “Boas Maneiras”
10:15: Esportes
11:15: Esgrima
12:15: Almoço
13:15: Línguas. Opções: espanhol, francês, italiano, ou alemão.
14:15: Montaria
15:15: Alternância de trabalho voluntario entre: orfanato, creche ou fazenda.
Finais de Semana:
7:40 ate 8:20: Café da manha
13:15 ate 14: 30: Almoço (podem almoçar na cidade)
20:30 ate 21:15: Jantar
Sábados: 23:45: Luzes apagadas
Domingos: 22:30: Luzes apagadas
OBS: Todos os alunos estão autorizados `a irem para a cidade, desde de que voltem para a hora do jantar.”
Oi? Mundo pode parar que eu quero descer! Como assim, em pleno século 21 eu iria ter que fazer “boas maneiras”? E montaria? E esgrima? Talvez eu devesse ficar feliz que não é uma escola tradicional. Guardo os papeis na gaveta da minha mesa de cabeceira e pego meu celular, talvez conseguisse me desligar dessa realidade ouvindo um pouco de musica.
Entre uma faixa e outra consegui ouvir o rangido da porta de madeira se abrindo e desviei meu olhar do celular para ver quem estaria entrando no quarto. Talvez fossem as outras meninas, talvez fosse a diretora Magda avisando que tudo aquilo era só para me dar um susto e que eu já poderia arrumar as minhas coisas e ir embora.
Mas, como eu já disse, milagres não acontecem e, além disso parecia que o destino estava tirando uma com a minha cara; dado que entraram três barbies de Malibu dando risadinhas e segurando bolsas Louis Vuitton.
Assim que elas, finalmente, me notaram, fizeram uma cara de desgosto me olhando de cima a baixo. Parece que elas não se agradaram pelo fato que a outra colega de quarto não tinha bronzeamento artificial e o cabelo platinado que nem o delas, bem de quase todas; o único diferencial era que uma tinha preservado os cachos castanhos e a outra tinha olhos azuis.
—Eu sou a Sophia.- Se apresentou a líder, ou seja a barbie Malibu que estava no meio. Logo depois apontou para seu lado direito (para a barbie que tinha olhos azuis) e depois para a esquerda (a dos cachos), e respectivamente conheci, Emma e Sarah.
—Sou a Andy.- Falo dando um sorrisinho falso, antes elas me aturarem do que me odiarem, certo? Talvez elas conhecessem o internato e pudessem falar algo de útil.
—É a sua primeira vez aqui Andy?- Perguntou Emma, colocando um chiclete na boca e mascando daquele jeito de puta, eu acha muito irritante, mas continuei com a mesma cara e respondi que sim. – A gente já veio aqui antes. Se você quiser a gente pode te dar umas dicas...Quando aparecer a oportunidade, a gente te fala.
E o plano tinha funcionado, a não ser que elas estivessem fazendo aquilo só para me foder e fazer com que eu ficasse em algum castigo. Bem, quando “a oportunidade aparecesse” eu ia saber.
As barbies voltaram a fofocar e dar risinhos e eu resolvi trocar de roupa, afinal aqui no interior de West Hic era bem mais frio que a minha cidade. Peguei uma calça preta e um casaco de zíper só para amarrar na cintura mesmo.
O problema é que como o banheiro é comunitário, no quarto existe um “trocador”, que nada mais é que alguns panos que você fecha e se troca dentro, como aqueles provadores de loja.
Quando eu sai de trás do trocador com a cara vermelha de vergonha por ter me trocado atrás de panos, alguém bateu na porta e avisou que já estava na hora do almoço. Saímos do quarto e começamos a andar para uma grande sala com varias mesas e cadeiras. O esquema da comida era praticamente igual a o de um refeitório de escolas normais.
Peguei o meu almoço e olhei para as mesas, ao que parecia o almoço seria dividido como os dormitórios, um de meninos e m de meninas, já que eu não conseguia ver nenhum garoto naquele ambiente.
Andei silenciosamente ate uma mesa vaga mais para o fundo do refeitório e sentei sozinha mesmo, não é como se eu não estivesse acostumada a ficar daquele jeito; alias pelo que parecia, aquele internato era dominado por barbies malibu. Era difícil acha alguém que não fosse loira e usasse rosa, ou qualquer coisa cheia de glitter.
Avistei uma menina baixinha, de olhos verdes e o cabelo castanhos claro tentando achar uma mesa ou as amigas. Não era como se eu fosse convidar ela para sentar comigo, mas a minha mesa era a única vaga; então a menina veio andando e se sentou.
—Eu sou a Abby, do quarto 5. –Apresentou-se dando um sorrisinho discreto e se voltando para a comida, que eu agradecia muito que não era uma gororoba.
—Eu sou a Charlie... do quarto 8.- Falei depois de engolir o que eu tinha colocado na boca enquanto ela falava. Ela me olhou curiosa e depois para a mesa onde as minhas colegas de quarto estavam.
—Então você é a garota do quarto 8.
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