Eu não tinha a menor ideia do que Abby queria dizer com “a garota do quarto 8”, então eu fiquei olhando para a cara dela sem entender nada enquanto ela enfiava um pedaço de carne na boca. Depois de um tempo mastigando a comida ela analisou a minha cara e riu, percebendo que eu não estava entendendo nada do que ela estava falando. E finalmente ela resolveu explicar.

— Você sabe que este internato é para crianças “problemáticas”- Fez aspas com os dedos e uma cara engraçada; eu não sabia daquilo, mas eu já imaginava- Bem, muitos pais botam as suas filhas mimadas aqui, já que este internato é conhecido por disciplinar pessoas com problemas desse tipo. E com isso esse internato começou a se dividir... A ala feminina é quase toda composta por garotas mimadinhas que não sabem como se controlar e tal. Já a ala masculina faz uso dos propósitos dessa escola...Digamos que os meninos que vem para cá são delinquentes mesmo.

A minha cara de uma ainda maior confusão faz com que ela terminasse de falar a historia.

—As meninas do seu quarto são as veteranas deste lugar, e sempre chamamos a menina que divide o quarto com elas “a menina do quarto 8”, já que elas sempre ficam naquele quarto e geralmente influenciam a outra menina do quarto a fazer...hum...coisas ruins. – Ela finalizou e me olhou de uma forma estranha. Então isso é o que elas queriam dizer com “quando a oportunidade aparecer”. Bem, eu estava mais que determinada a não ser mais uma “garota do quarto 8”.

—O que elas fizeram? Digo as outras meninas que dividiram o quarto com elas? – Perguntei dando uma breve olhada para as barbies Malibu.

—Tiveram alguns incidentes com outras meninas, ate com meninos e algumas drogas...Tiveram alguns incidentes em que gente acabou morrendo. – Ela disse, com o final um simples sussurro. O que aquelas garotas eram? Isso era tudo que eu conseguia pensar.

Mesmo com a conversa tensa do começo do almoço o resto do tempo foi, relativamente agradável. Abby era uma garota muito divertida, apesar da sua aparência ligeiramente gótica.

Depois do almoço eu tive que me despedir dela, já que ambas tínhamos que arrumar as coisas do dia seguinte, e além disso pegar os uniformes das atividades em umas das portas do castelo.

O que eu achei estranho foi o fato que eu não tinha levado nenhum livro, só cadernos; e eu não tinha nenhuma roupa de banho ou botas de montaria, mas pelo que Abby disse, a gente pegava tudo do internato, que por ser “financiado” pelos pais das barbies (apelido carinhoso que eu pretendia usar pelo ano todo), tinha condições de comprar.

Depois de colocar os meus cadernos em uma mochila, resolvi subir para o quarto dos uniformes com Morgan, por isso bati na porta do quarto dela para chamá-la. Todas as colegas de quarto dela me olharam estranho e eu imaginei que aquela historia de “garota do quarto 8” devia ser conhecida mesmo.

—Onde é esse quarto Abby? A gente já subiu uns cinco lances de escada. – Perguntei arfando, as escadas daqueles castelos medievais eram intermináveis.

—Larga de ser preguiçosa Charlie, a gente já esta quase lá! – Ela disse e entrou em um corredor de pedra com uma portinha no final. Assim que abrimos a porta demos de cara com dos garotos sem camisa experimentando os uniformes.

—Abby... Quem é a sua amiga?- Um deles, moreno e baixo, pergunta; logo percebo que minha amiga (se é que eu já podia chamar ela desse jeito) não gosta dele. Eu também não tinha gostado, só pelo tom de voz que ele tinha usado, como se ele fosse conseguir fazer o que ele quisesse comigo.

—Cara é a garota do quarto 8...Você não quer se meter com ela. – O outro falou colocando uma blusa normal e jogando a outra que segurava para o amigo, que simplesmente disse que eu era ainda mais apetitosa por causa daquilo. Abby murmurou um “esse lixo...” e eu nem olhei para ela enquanto o amigo o puxava porta afora.

—Olá senhor Bennett! – Falou Abby empolgada para o senhor que estava sentado em uma mesinha. A sala era enorme, só agora que eu tinha percebido; ela tinha vários armários enormes e provadores.

—Abby, querida! O seu tamanho continua o mesmo? 36 A? – Perguntou o senhor abrindo um dos armários e entregando uma sacola verde para ela, juntamente com uma roxa maior, uma rosa e uma azul; que depois eu descobri que eram os uniformes do dia-a-dia, montaria, esgrima e natação.

—E você querida, qual o seu tamanho? – O senhor Bennett me perguntou, mas eu não tinha ideia de como eram medidos os tamanhos dali, então olhei para Morgan pedindo ajuda e ela se olho de cima a baixo e depois fez o mesmo comigo. Abby era mais baixa que eu e também era mais larga.

—Olha, eu acho que ela é um 34 B. – Falou ela e eu percebi que o numero era de largura e a letra de altura, quanto menor o numero, mais magra; quanto mais longe do A à letra mais alta.

O senhor Bennett me entregou então as sacolas e disse que eu nem precisava experimentar, já que eu não era, nem tão magra e nem tão alta.

Enquanto voltávamos para o quarto, fiquei pensando no que iria fazer agora, mas já tinha feito tudo o que eu precisava para o dia seguinte. Ainda estava de tarde, então eu resolvi pedir a Abby para me mostrar o resto do terreno.

Enquanto percorríamos o interior do castelo, ela foi me mostrando as salas de aula e as alas comunitárias, assim como a ala masculina; no qual éramos proibidas de entrar. Do lado de foram ela me mostrou as piscinas e os ringues de esgrima; os estábulos e as pistas de treino.

À medida que íamos andando comecei a perceber que os meninos não interagiam muito com as meninas, pelo fato de que praticamente todos os garotos tinham cara de psicopatas e praticamente todas as garotas tinham cara de puta.

Abby me apresentou para alguns dos seus amigos, o Jack, o Teddy, o Luka, a Mona, a Hanna e a Iris. Todos pareciam bem diferente do resto dos alunos, o que foi bem gratificante, no caso.

Mesmo assim, ao longo do percurso, pude ver que varias pessoas me olhavam estranho, menos um garoto que em vez de me olhar estranho, o que eu preferiria, ele me olhava fixamente com os seus olhos azuis.

Perguntei para a Morgan quem era o tal garoto que ficou encarando, mas ela disse que não tinha percebido e então eu fiquei com aquela curiosidade irritante martelando na minha cabeça e eu sabia que faria de tudo para descobrir quem era o menino, nem que fosse para ignorar a sua existência.

Nada de muito interessante aconteceu ate o momento em que a diretora Dayana chamou-nos para conhecermos os professores deste ano. A professora de Química e Física era a mesma velha, com olhar de peixe morto chamada sra. Celline; a professora de biologia tinha um olhar pervertido para todos os homens do recinto, alunos, professores, jurei ate que ela tinha olhado para as meninas, mas a Morgan disse que a srta. Monique não era dessas que “topava tudo”; o professor de Historia e Geografia era o mesmo, um velho tão velho que eu não sabia se ele resistiria o ano todo, coitado do sr. La-Bout. Não tive paciência suficiente para prestar atenção no resto dos professores, então perdi a “grande oportunidade” de tirar as minhas primeiras impressões deles.

O resto do dia foi baseado em leitura, musica e sono; e quando as barbies Malibu, FINALMENTE pararam de dar gritinhos eu consegui dormir.