Fazia frio, muito frio, em Nova York. Percy se perguntava como conseguia suar em um clima de quase neve, mas não fazia idéia da resposta.

Ele carregava sua pasta debaixo do braço e sua câmera atravessada pelo colo, como fazia sempre. Estava indo até o Buffalo Club, onde encontraria Annabeth.

Ele sabia o real motivo de estar indo para lá, ele tinha que conseguir respostas, as respostas que não tinham conseguido na noite anterior. Por um segundo, pensou que só estava insistindo naquilo para ver Annabeth.

Bobagem! Repreendeu a si mesmo. Ele poderia vê-la quando quisesse.

Quando chegou ao fim da rua, no estabelecimento da esquina, estava dando de cara com o clube em questão. Respirou fundo e abriu a porta, revelando o clima musical e agradável do lugar.

Olhou em volta, para ver se achava alguém interessante para ingressar a conversar, quando mãos pousaram no seu ombro.

— Está procurando por alguém? — Ele se virou, e viu Annabeth.

— Sim, eu queria que conhecer algumas pessoas. — Ele tossiu, claramente não sabia mentir. — Preciso perguntar uma coisa para alguém.

Ela balançava a cabeça, com os braços cruzados. Quando Percy acabou de falar, sorriu.

— Tudo bem, vem comigo.

Ela puxou sua mão, sem lhe dar direito de protestar e começou a guiá-lo pelo local. Percy notou que ela usava um vestido florido, cor de vinho, e calçava sapatos brancos com saltos mais grosseiros. Seu cabelo estava solto, ele deveria ter sido trabalhado a pouco. Ela parecia ficar cada vez mais bonita, isso o perturbava tanto.

— Aquela ali é Loretta Shelby. — Ela apontou para uma mulher sentada na ponta do palco, tirando os bobs dos longos cabelos cor de caramelo. — Foi a amiga que disse meu nome. Ela é exuberante e mãe solteira, mora nos fundos do clube. Foi expulsa de casa quando ficou grávida de Melvin.

Annabeth correu os olhos pelo lugar, como se procurasse alguém, e Percy a acompanhou. Ela apontou novamente, agora para um garoto que deveria estar no início da puberdade, ele jogava cartas com uma menina que provavelmente tinha a mesma idade que ele.

— Ali está ele, ele é muito inteligente e louco por banco imobiliário. Está com Mildred. — Disse. — Mildred é filha mais velha de Thalia Grace, a outra garota que dança comigo.

Ela continuou andando com Percy, o som do salto dela batendo contra o chão penetrava em seu ouvido.

— Thalia está lá. — Percy viu que a menina limpava uma mesa, com muito entusiasmo. — Ela e Loretta são minhas melhores amigas a quatro anos, desde que eu cheguei, e a três cantamos juntas.

— Quem cantava aqui antes de vocês? — Perguntou.

— Piper McLean, Hazel Levesque e Loretta, que está aqui desde sempre, Piper ficou grávida e precisou parar. Hazel achava que era muita exposição. — Respondeu. — Piper é filha do dono.

Andaram mais um pouco e Annabeth parou, torcendo a boca. Havia um sujeito de meia-idade, fumando um charuto, e duas moças a sua volta, o abraçando e rindo do que ele falava.

— Walter Thompson, o cara mais nojento daqui, amigo do dono e sócio. — Ela murmurou. — Todo mundo sabe que ele é pai de Melvin, mas ele nunca assumiu e tampouco se importa. Eu o odeio.

— E aquelas com ele são outras filhas dele?

— Não duvido, ele é pai de Nova York inteira, só finge que não é. — Riu. — A ruiva é Julie Warren e a negra é Kendra Bentley. São as namoradas dele, ou capangas, como preferir.

Ela se virou para Percy, colocando a mão na cintura. Olhou-o com um rosto satisfeito.

— Apresentei todo mundo que está aqui agora. — Falou. — Matei a sua dúvida?

— Não exatamente. — Ele deu um sorriso amarelo. — Preciso falar com alguém.

Ela parou por um segundo, e deu um riso nasal.

— Não vai fazer suas perguntas curiosas aqui. — Disse. — Eu sei o que você quer. Pode sair pela porta agora.

Ela saiu andando, e Percy foi correndo atrás dela. Annabeth se agachou para pegar uma cesta e começou a olhar por dentro, como se conferisse algo.

— Ah, senhorita. — Ele resmungou. — Deixe-me explicar.

— Vai demorar muito? — Revirou os olhos. — Preciso levar minhas compras para casa.

— Eu não consigo escrever nada para meu jornal faz um tempo, meu aluguel está atrasado e eu vou ser demitido. — Sua voz saiu mais tremida do que gostaria. — Não acho que custa responder a uma entrevista.

— Isso é da minha conta? — Ela perguntou, sarcástica. — Apenas me deixe em paz.

— Não acho que seja da sua conta, Annabeth. — Percy respondeu. — É só uma ajuda.

Ela pegou a cesta e foi se dirigindo para fora do clube, Percy ia atrás dela como se ela fosse sua mãe e ele uma criança. Do lado de fora, ela pegou sua bicicleta encostada na vidraça e subiu nela. Percy pegou a cesta de sua mão e colocou por trás de seu corpo.

— Se quer ver essa cesta outra vez vai ter que me responder.

Ela o encarou por dois ou três segundos e então seu rosto se desabrochou em uma risada alta.

— Escuta aqui, quer apanhar? — Sua feição se tornou séria. — Aí sim vai ter o que escrever no seu jornal.

— Querida... — Começou ele, e foi cortado pela moça.

— Senhorita. — Corrigiu-o.

— Senhorita, eu sei que você é uma boa pessoa. — Continuou. — Me ajude e farei o que quiser.

— Quer ajuda? Vamos lá então. — Ela desceu da bicicleta. — Saia desse jornal ridículo, porque cá entre nós, onde você trabalha é ridículo. Procure outro emprego e resolva sua vida sem envolver pessoas estranhas.

— Você não é uma estranha.

— O que diabos sabe sobre mim?

— Que seu nome é Annabeth, você é cantora no Buffalo Club e é extremamente bonita.

Ela engoliu seco, corando. Percy abriu um sorriso de lado.

— Essa não sou eu. — Disse, firme. — Pode devolver minha cesta?

— Está bem. — Ele se rendeu. — Suba que eu prendo na sua bicicleta.

Ela o fez, Percy se curvou e deu um beijo na sua bochecha vermelha. Annabeth permaneceu dura como uma pedra.

— Vai seguir meu conselho, não? — Ela virou seu rosto para ele.

— Vou tentar.

— Se quiser que eu não seja uma estranha — Sorriu. — faça isso.

Ele prendeu a cesta na bicicleta de Annabeth, e voltou a olhar para a mesma.

— Você é bipolar?

— Deveria me diagnosticar. — Riu. — Embora eu ache que só mudo de humor porque pessoas inconvenientes me obrigam.

— Quem seriam esses infelizes? — Ele riu com ela.

— Boa pergunta. — Ela colocou as mãos no guidão e baixou os olhos. — Vou para casa.

— Eu também, mas volto. — Falou. — Tchau, Annabeth.

— Adeus, querido. — Annabeth deu risada, indo embora.

— Senhor! — Ele gritou, esboçando um sorriso divertido.