A fuga da herdeira
1 Oferta
- Eu dobro a oferta! — insisti com o desespero queimando dentro de mim. Eu não podia voltar.
- Você não tem esse dinheiro! — o homem com um gancho no lugar da mão me encarou com aqueles olhos azuis que faziam qualquer um se perder em pensamentos. Ele é o capitão do navio que acabei "invadindo"sem querer. Os cavaleiros do meu pai estavam me perseguindo faz horas, consegui despita-los quando larguei o cavalo e me escondi em um caixote grande que estava no porto, era uma ideia brilhante, só que deixou de ser tão brilhante a partir do momento que acabei sendo presa lá dentro, trancaram a caixa e eu não podia gritar, tive medo de chamar atenção. A caixa veio direto para o navio no qual me encontro agora.
- Não tenho agora! — continuei insistindo — mas eu conheço cada canto daquele castelo, pense bem, entre uma recompensa estimada pra me devolver ao castelo, e todo o tesouro que você pode roubar.
- Me convença do porque que eu deveria aceitar sua oferta — ele me encarou e soltou um sorriso irônico.
- Porque você é um pirata, e ta sempre querendo uma nova aventura — falei como se fosse óbvio. Ele começou a me observar e repensar a oferta, então complementei — Eu te ajudo a saquear os navios enquanto estivermos em auto mar. Uma mulher em perigo sempre amolece coração de marinheiros.
- Qual o motivo de você não querer voltar? — perguntou depois de segundos de silêncio.
- Isso não te interessa! — aumentei o tom de voz.
- uh — ele arqueou as sobrancelhas — bravinha! Se quiser ficar nesse navio vai ter que aprender a se comportar.
- então isso é um um sim? — perguntei tentando ser o mais controlada possível.
- Um talvez, responda-me — ele se aproximou fazendo diminuir a distância entre nós — sabe lutar com espadas?
- De olhos vendados! — firmei o tom de voz o que foi o mesmo que desafiar.
- Confiante, gosto disso! Mas pra ter certeza de que não é um blefe — Ele jogou uma espada em minha direção, ela caiu bem próximo de meus pés, o som era como de um talher exatamente grande caindo no chão. Eu apenas olhei pra ele erguendo as sobrancelhas, enquanto levantava minhas mãos para que ele pudesse cortar as cordas que impediam que eu as usasse.
- Obrigada! — falei e rapidamente peguei a espada do chão e fiquei na posição para poder duelar com ele.
Ele me olhava como se eu estivesse blefando, com certeza acreditava que eu não ganharia e e que eu não passava fé uma princesinha indefesa fingindo coragem pra conseguir o que eu quero. Sério? Ele tem apenas uma mão, como ele virou Capitão deste navio? Com certeza ser do tipo que faz um plano de roubo e manda seus marujos fazerem o trabalho sujo enquanto fica sentado tomando uma boa garrafa com rum e esperando eles voltarem. Quando olhei pros seus olhos eu pude enxergar desafio vindo de dentro deles, se pudesse ele me derrubaria com aquele olhar, mas como não podia se contentou em tentar me causar medo com seus olhos que confesso, me lembravam o horizonte de um mar nitidamente azul.
Fui a primeira a atacar, movi a espada sua direção mas como se adivinhasse meus movimentos, ele se defendeu.
Sua espada passou tão perto de mim que eu pude sentir o curto vento causado pelo seu movimento. "Ele quase me acertou" pensei em desespero. Ataquei novamente um pouquinho menos confiante, ele lutava bem pra quem tinha uma mão, mas eu sei que posso fazer melhor, não treinei todos esses anos pra perder na primeira luta séria que estou tendo na vida. Sim, primeira. Todas as minhas lutas até agora eram com soldados do Palácio que morriam de medo de me machucar, um arranhão na futura rainha do Reino seria uma coisa extremamente horrível. Minha mãe diria que princesas devem saber se defender mas também ter a graça de um cisne.
O capitão e eu já estávamos fazendo música com o som que as espadas faziam ao tocarem uma na outra. Temos que admitir, nós dois somos bons nisso. Eu estava com a situação sob controle mas senti um de meus pés afundarem, pisei em uma tábua solta do navio, perdi o equilíbrio e gancho me prensou na borda do navio com a espada em meu pescoço.
- Sinto muito Swan!
- Não, eu é que sinto muito! — chutei suas partes íntimas antes que ele pudesse perguntar qual o motivo de eu sentir muito e o empurrei, ele cambaleou pra trás até que caiu no chão, então finalmente apontei a espada pra ele a deixando bem próxima de seu pescoço — Então capitão? Eu quero uma resposta.
- Isso não foi uma luta justa! — ele empurrou minha espada pra longe dele. Eu apenas revirei os olhos, ele é um pirata, não faz questão de luta justa. Espera porque eu ti falando comigo mesma?
- Ah qual é, você é pirata, não faz questão de luta justa! — falei com um tom debochado e então sorri — Ah, entendi. Você não gosta do fato de que uma mulher te venceu! — falei com certa superioridade.
- Uma garota — contestou — quantos anos você tem? — ele perguntou se levantando e olhando fixamente pra mim.
- Quer mesmo ser mais humilhado? — perguntei ironicamente.
- Acho melhor me respeitar princesa, se quiser ficar nesse navio não quero você me desafiando! — disse com um tom bastante sério.
- 21! — respondi depois de segundos de silêncio — Então? Eu quero uma resposta!
- Olha só você devia ser — ele parou de falar e então nós observamos a tripulação ser plateia do nosso pequeno confronto, os homens do navio estavam curiosos — Vamos conversar lá embaixo! — falou se virando e eu apenas o segui, realmente não queria muita plateia, já não basta os anos todos que passei sem nenhuma privacidade, até quando precisava falar com a minha mãe havia empregados por perto. Não podia me vestir sozinha, passear pelo jardim sozinha, até mesmo come e sozinha, uma princesa tem sempre que comer junto com os outro a mesa.
Quando terminei de descer as escadas, pude ver uma pequena mesa e uma estante pequena com livros, havia um baú do lado direito e umas cadeiras, as coisas estavam bastante orgazidas pra um navio pirata. Tudo que meu pai falava é que eles não prestam, o reino não tem paz por causa deles, é uma raça que devia ser extinta no mundo. Pelo menos pro meu pai, mas nem todos pensavam assim, pra algumas pessoas piratas são um modelo de heróis modernos, que vivem suas próprias vidas, sem regras, sem precisar de permissão de um superior pra isso ou aquilo, apenas fazem seus roubos e vão embora. Eu não tinha uma opinião formada sobre piratas, pra mim eles não eram bons, mas também não eram maus, pra mim eles eram pessoas livres navegando em um mar cheio de perigos e belezas.
- Bom, agora que estamos sozinhos, será que pode me dar logo uma resposta? — falei impaciente e ele me olhou em modo de repreensão — Capitão! — completei em falsa educação.
- Me diga porque não quer voltar pro Palácio?
- Com todo o respeito, isso é assunto meu!
- Tudo bem, pode ficar! — eu sorri — Mas — desmanchei o sorriso — vai ter que participar dos saques!
- Sem problema, não se ouviu mas me ofereci pra isso no começo da confusão!
- Eu me recordo! — ele ergueu as sobrancelhas — mas quando eu digo todos os saques, quero dizer todos! Inclusive seu castelo.
- QUE?
- Se não se recorda, foi isso que me sugeriu no começo dessa confusão, amor! — ele me olhou mostrando o óbvio
- Não achei que fosse aceitar! — confessei.
- Você faz uma oferta pensando que alguém não vai aceitar!
- Há sempre uma possiblidade! — dei de ombros e ele começou a rir, com certeza me achava maluca — até achei que você fosse aceitar na verdade, só que pensei que ia te passar apenas as coordenadas pra entrar no castelo, eu realmente não quero voltar! — expliquei tentando não ficar confusa, eu realmente não entendi o que eu disse, quando dei a oferta é porque eu estava desesperada, não quero voltar pro Castelo de maneira alguma, mas achei que era mais fácil eles me aceitarem na tripulação pra ajudar a fazer os saques do que realmente pensassem aceitar um ataque perigoso a um castelo cheio de guardas, com risco de serem presos ou acabarem mortos.
- Porque não quer voltar? — ele perguntou mais uma vez fazendo meu sangue ferver de raiva, eu perdi a paciência de vez.
- Já falei que isso é um assunto meu! — alterei o tom de voz irritada.
- Tudo bem, pode ficar no navio! Temos um acordo?
- Temos, quando vamos ao palácio? — perguntei rezando pra que fosse o mais rapido possivel e acabar logo com essa tortura.
- Na verdade vai demorar uns 6 meses!
- quanto tempo? — perguntei assustada
- 6 meses!
- Eu ouvi!
- Então porque pediu pra me repetir?
- Foi pra fazer drama, porque 6 meses?
- Por causa do simples fato de termos feito um acordo! — ele se sentou na minha frente e colocou os pés na mesa — como você vai ficar no navio não posso mudar minha rota.
- Porque, não ia voltar pra me devolver ao palácio? — perguntei exigindo uma explicação completa, as que ele estava me dando respondia menos que metade das minhas perguntas.
- Dinheiro! — respondeu como se fosse óbvio — Se eu fosse te devolver eu ganharia um bom dinheiro fácil, então chegaria em arendelle com um dinheiro extra, seria lucro pra mim, se eu fosse agora ainda teríamos que ter todo um trabalho de planejar, esperar escurecer, entrar, roubar e fugir, e ainda tem chances de sermos pegos, o que levaria um tempo a mais.
- E o que é que tem?
- Temos planos de saquear o Castelo de lá, se fôssemos te levar de volta agora apenas pra pegar o dinheiro e voltar, nos atrasados por um dia, mas ainda sim chegaríamos pro baile.
- Vão saquear em pleno baile real, vai ter o dobro de guardas!
- Vigiando os convidados e as entradas do castelo, conheço passagem secretas daquele castelo.
- Como?
- Bom — ele se levantou — Acho que nossos assuntos terminaram!
- Mas..
Nem pude terminar a frase, ele subiu rapidamente me deixando sozinha no seu pequeno escritório. "O que eu vou ficar fazendo aqui? " pensei. Pelo que percebi o capitão foi anunciar sobre a tripulante temporária desse navio e ele com certeza não queria conversa. É estranho, ele não me dá medo, sua aparência é muito jovem, como será que ele conseguiu se tornar capitão? os homens do navio pareciam o respeitar bastante, enquanto estive na caixa pude ouvir conversas de sobre coisas simples como "O capitão não gosta dessa bebida","Temos que limpar o quarto do capitão", "Um brinde ao nosso capitão" essas coisas eram ditas com preocupações, não por medo de acontecer algo, mas medo que ele se desapontasse e ficasse chateado, pareciam ter orgulho de servi-lo. Se eu não tinha opinião formada sobre piratas antes, agora tenho certeza de que não sei nada sobre eles. Mas agora tenho a chance de conviver com eles pra tentar entende-los, vou lidar essa situação como se fosse uma experiência. Não ficarei aqui por muito tempo, assim que chegarmos a Arendelle, fugirei desse navio na primeira oportunidade.
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