A flor do topo da torre

1 Capítulo 1: Estranho, algumas pétalas estão mancha


Notas iniciais
Este capítulo é uma explicação do inicio da vida da personagem principal, onde seus primeiros pensamentos constroem sua personalidade para que a história possa se desenvolver com o entendimento de todos.

Pequenina, ingênua, carinhosa e bondosa, essas eram as quatro qualidades de uma criança que poderia reunir uma multidão de pessoas para formar uma única fortaleza.

Todas as manhãs sentia a brisa entrar em seu quarto escuro, admirava o reflexo do Sol batendo em sua janela, apreciando as folhas da pequena árvore que ficava no seu miúdo jardim, e assim sentia-se em harmonia. Era como se alguém estivesse sorrindo com olhos puros e alegres para ela, e apenas assim, ela se via livre para erguer-se da cama.

—Lis! Venha nos ajudar a estender a roupa!

—Já estou indo, mãe!

Apoiava-se sobre a janela com o nariz empinado, para sentir melhor o cheiro das plantas.

Enquanto saia pela porta dos fundos para ir ao jardim, ouviu sua mãe gritar:

—Querida, venha logo. Você está indo em outra direção!

Ao virar-se trombou com outra pessoa que estava atrás dela.

—Haha, Lis, preste atenção! Quando você não está olhando para as nuvens você é bem mais observadora -abriu um sorriso simpático.

—Ah... Desculpa, papai.

—Vai ajudar sua mãe e a Alika a estender a roupa, depois se arrume, pois te levarei a um lugar novo.

—Eba! Tá bom, logo estarei pronta, papai!

"Ah... Pedirei para e mamãe fazer algo doce para mim, talvez um éclair!" pensou enquanto corria na direção certa desta vez.

—Mãe! Se eu estender direitinho todas as roupas, você faz um éclair antes que eu saia com o papai?

—É claro, mas antes, pergunte para sua ama de leite se temos os ingredientes necessários na cozinha. Você sabe que não estamos em uma situação muito favorável a nós.

—Sim, senhora! Alika! Alika!

—Diga, minha flor.

—Temos ingredientes para fazer um éclair?

—Hm... Vou ver.

—Tá bom! Obrigada, Alika!

Após estender todas as roupas com a ajuda de sua mãe, ela ouviu uma voz alta vindo da janela de sua cozinha:

—Temos sim, Dona Lorena!

—Oh, então comece a preparar o éclair para a Lis, por favor!

—Mãe, agora que eu acabei eu posso ir no riacho aqui atrás?

—Claro, mas eu terei que ir junto.

Ambas foram ao riacho, onde Lis tomou seu banho e ajudou sua mãe a lavar algumas roupas.

—Lis, agora corra para se vestir, seu pai vai ficar bravo se você não estiver pronta.

—Sim, mãe.

Depois de se arrumar, Lis perguntou a seu pai onde iriam, e ele apenas pediu para que ela pegasse a sacola que estava em cima de sua escrivaninha com um pequeno caderno e um lápis que sua mãe havia deixado na noite passada.

No meio do caminho, ela perguntou:

—Pai, aonde vamos?

—Estamos indo para a biblioteca da maçonaria, a esposa de um amigo aceitou dar aulas para você... Preste atenção neste caminho, você irá para a biblioteca todos os dias de hoje em diante.

—Mas e a Srta. Aurorette?

—As aulas duraram três horas, depois de estudar você vai normalmente a suas aulas de etiqueta.

—Ah, porém... Eu não vou chegar atrasada?

—Se você correr, não.

Já no meio do caminho havia uma casa, no final da rua, era bem escondida e aparentemente pequena.

—É bem ali, filha. Guardou o caminho?

—Acho que sim, papai.

Eles entraram. Na sala principal havia vários homens fumando seus charutos, enquanto discutiam sobre assuntos que pareciam importantes, mas a baixo havia uma escadaria enorme que dava a entradas misteriosas e rampas. Lis ficava admirada com a facilidade de seu pai ao se localizar naquele lugar tão complexo, e então, na frente de uma armadura havia uma pedra amarronzada, seu pai se agachou, retirou a pedra, arrastou a armadura, e uma alavanca apareceu. Após puxa-la uma porta do outro lado do corredor se destrancou, dentro havia homens fumando e se drogando enquanto escreviam em pedaços de papeis ou em cadernos. Era um cenário assustador com aquele mau cheiro e pouca iluminação no ambiente.

—Escute, sempre chaminhe nos cantos. Todos aqui já sabem que você é minha filha e o que você está fazendo aqui, mas é bom não achar a atenção.

Um pouco mais atrás havia estantes com livros de diversos tamanhos e mesas de madeira.

—Ah! Já chegaram?! — uma voz gentil veio atrás de uma das estantes.

—Sim Michele, essa é a minha filha.

—Que linda! Vamos -pegou na mão de Lis e a puxou- dê "tchau" para o papai.

—Como assim? Papai, você não vai ficar aqui comigo? -começou a chorar baixinho para que ninguém a percebesse chorando.

—Não, você vai ficar com ela, Lis.

—É, não se preocupe, ninguém vai te machucar, você vai ficar aqui comigo estudando. Eu juro que nada vai te acontecer.

—Mas e o papai? Quem vai proteger o papai? — resmunga.

—Haha, me proteger?

—Oh, -deu uma risada tampando a boca- seu pai? Ele é forte, tenho certeza que nenhum dos caras mais grandões daqui enfrentaria seu pai, ele dá medo em qualquer um!

—Filha, eu vou ficar bem.

—Você promete?

—Prometo.

Michele pegou Lis no colo enquanto ela segurava o choro.

—Não precisa mais chorar. Eu estou aqui, tá? Bom, eu me chamo Michele, seu pai me disse que você se chama Lis, é verdade?

—Sim... -secou as lágrimas e olhou fixamente para o rosto de Michele que era tinha olhos escuros e cabelos loiros.

—Oooh, este nome é lindo! É como a Flor-de-Lis, o Lírio, mostra uma personalidade pura, determinada, cheia de poder e honra! Sabe qual foi a forma que fez a Flor-de-Lis ficar mais conhecida?

—Não...

—O grande rei, Luís VIII a usa como símbolo em seu sinete, como exemplo muitas das famílias o utilizam em seus brasões.

—O que é sinete?

—Você não sabe? -fez uma pausa dramática de forma cômica- Não me diga que uma garota deste tamanho, tão linda, tão perfeita, não sabe o que é sinete?! -disse com um tom irônico- Então, eu vou te ensinar, mas que tal começarmos com a forma que se escreve a palavra "si-ne-te"? Algumas das letras que existem no nosso grande alfabeto formam a palavra sinete, e cada uma delas tem uma origem e um som. Que tal aprendermos sobre elas?

—Seria muito legal, Senhora Michele.

Estudando as letras, suas origens e treinando suas formas, as três horas de aula se passar mais rápido do que Lis imaginava. Era divertido aprender com o jeito dinâmico da Senhora Michele, mas cansativo.

—Acabou a aula, eu tenho que ir com o meu marido, então espero que seu pai tenha ensinado o caminho para você. Estou indo.

—ESPERE! Eu vou ficar aqui sozinha...?

—Vai. Eu estou aqui pra te ensinar, após as horas de estudos, você terá que fazer seu trajeto sozinha, não estou aqui para cuidar de você.

Lis sentiu um choque, foi como se ela fosse deixada sozinha na escuridão com lobos ao seu redor. Havia pessoas naquela sala. Ela já sabia que da mesma forma que existe pessoas boas, também há pessoas ruins, então ela deveria tomar cuidado. No mesmo momento que veio o choque, seus olhos encheiram de lágrimas e ficou com fortes dores na cabeça.

Virou-se sem responder nada a Michele e se esforçou para seguir o caminho aos cantos para que ninguém a notasse, depois teve que passar pelo complexo sistema de escadarias e rampas para conseguir chegar a sala principal, onde havia mais homens, todos de ternos, altos, com olhares frios e rostos sem expressões enquanto discutiam entre si. O mais assustador era não ver nenhum sentimento nos corações daqueles. Tremendo, conseguiu ir até a porta e abri-la, mas então deu de cara com um outro rapaz com uma cicatriz em seu pescoço que olhava furioso para a garotinha. Ao perceber que estava sozinha ali, deveria tomar a frente e fazer o que era certo com determinação, já que ninguém iria protege-la se agisse de forma incorreta.

—Desculpa-me, senhor. -desviou o olhar e saiu calmamente pela porta se retirando do caminho do rapaz.

10 metros dali ela decidiu correr e ir chorando ao seu caminho para aliviar aquele estresse e o peso que havia sentido. Foi difícil uma criança tão nova e frágil se sentir solitária naquele breu com pessoas se escondendo em suas próprias sombras.

Próxima ao mosteiro que ficava ao lado da mansão da Srta. Aurorette ela retirou alguns pães amassados em seus bolsos para dar as famílias pobres que ficavam ao redor do mosteiro. Como todas as vezes que ia as aulas de etiqueta, ela alimentava com um pouco que tinha os camponeses que ali viviam, ia até o mosteiro disfarçada de camponesa, e pedia um balde d'água para ensinar as outra crianças a se limpar, depois diria-se por um caminho escondido até a mansão e brincava com os pássaros respondendo seus assobios. Porém, no mesmo dia que foi a biblioteca ouviu um som forte de cavalos correndo e um grito estridente:

—Liiis!

Duas crianças estavam dentro de uma carruagem que parou ao seu lado.

-Lis! Por onde você anda?! Já dissemos que você pode esperar na Estrada das Violetas que eu e o Henri te damos uma carona na nossa carruagem!

—Ah... É que eu vou por outro lugar... -diz envergonhada.

—Pois então pare e vá pela Estrada das Violetas!

—É Lis, é divertido quando você vem com a gente!

—Ah, eu vou tentar -dá uma risada tímida.

Ela é puxada pelo menino que estava dentro da carruagem e se senta ao lado de sua amiga.

—Marjory, você treinou desta vez?

—Haha, é claro! Estou indo muito bem com os talheres agora.

—Sim, é verdade...

—E você, Henri? Como vai a esgrima?

—Ah, está indo bem...

Marjory pulou no banco da carruagem e disse em voz de deboche:

—AAAAAH! BEM NADA! Ele está pior que antes!

—Hihi, entendo! Não fique envergonhado Henri, pelo menos você pode fazer aulas de esgrima... -respondeu Lis.

—Ah, mas talvez, algum dia você consiga algum professor que faça uma exceção para você, basta seu pai oferecer muito dinheiro! Não é difícil!

O ambiente ficou silencioso.

—Henri, os pais dela entraram a pouco tempo na elite. A mãe dela ainda é só uma burguesa e o pai dela ainda é considerado um novato que entrou na maçonaria.

—Marjory... -Lis chamou a atenção cabisbaixa- não fale desta maneira, não me importa o que seus pais falam dos meus, mas por favor, não repita palavras assim perto de mim.

—D-desculpa, Lis... Não quis te magoar -abraça- depois posso ir na sua casa brincar? Eu posso levar duas das minhas bonecas!

Henri entra na conversa com espontaneidade:

—E eu posso te mostrar a espada de treino que eu ganhei do meu pai!

Tanta conversa se se desenvolveu daí, que ao chegar na mansão espantaram-se de como o tempo havia passado rápido.

Lis foi alegre para sua aula junto com sua amiga Marjory, e Henri continuou o caminho para a escola apenas para meninos, Lumière Victorious.

Dentro da sala de aula todas as meninas eram de famílias nobres, e tudo era bem decorado com dourado e prata, as aulas eram bem rigorosas com cinco horas de duração no total. Todos os dias havia um teste para avaliar os treinos das meninas. No final das aulas, a mãe de Liz ia busca-la, porém, neste dia ela não apareceu.

—Lis... Sua mãe ainda não chegou, quer ir comigo?

—Não, Marjory. Obrigada, mas vou espera-la.

—Eu vou esperar com você, e só vou sair quando ver você acompanhada. Sabe que esta hora é perigosa para nós...

—Por isso mesmo eu tenho que esperar a minha mãe. Eu tenho que vê-la bem todos os dias depois dela percorrer esse caminho.

1 HORA DEPOIS

—Lis, venha. Eu vou chamar o Henri e pedir para que o condutor da carruagem percorra a Estrada das Violetas para procurarmos a sua mãe.

—Tudo bem, obrigada -começa a soluçar.

Henri vem correndo na direção das meninas após chegar na escola de etiqueta.

—Vamos, Lis suba!

Eles procuraram por mais 1 hora e parecia que alguém nem sequer tinha passado ali... Já estava tarde demais e o condutor não permitiria continuar a procura, então apenas levou Lis forçada para casa a pedido de Marjory e foi embora.

Ela entra chorando desesperada dentro de casa e vê sua mãe sentada tomando uma xícara de chá.

—Mã-mãe?! Que bom que está bem! Mas por quê não foi me buscar?

—Ah, seu pai disse que você foi a biblioteca e iria para as aulas de etiqueta sozinha, então não fui te buscar, pois você poderia vir sozinha para casa.

—Mãe...? Por quê? Eu fiquei te esperando, e eu não tinha como saber que você não iria me buscar, porque pelo menos não me avisou antes que eu saisse de casa? Eu procurei por você, eu me preocupei muito... Está escuro, tanto eu como você poderíamos sofrer algo nesta hora da noite

—Lis, eu não me importo, você tem 9 anos, deveria saber ser mais responsável e mais independente, há momentos que você me parece inútil, como qualquer outra pessoa neste mundo. Sabe, não estou afim de conversar, vá falar com sua ama de leite.

—Alika... -correu chorando para abraça-la.

—Eu sei criança... Eu sei. Pela sua carinha, o dia não foi fácil, não é? Não se irrite com sua mãe, ela brigou novamente com seu pai, eles ficam mais ásperos que o normal quando acontece algo inoportuno com eles... Ah! Mas que tal um prato da minha comida deliciosa?!

—Sim, eu gostaria muito! Alika, posso comer no meu quarto?

—Pode, mas não faça sujeira e depois vou te vestir para dormir.

—Tá bom!

"Hoje foi um dia exaustivo, um pouco diferente... Não quero ir mais a biblioteca, queria estar aqui, no colo da Alika." encolheu-se na cama, e observou a árvore do seu jardim, ela estava florescendo, "estranho, algumas pétalas estão manchadas, é como se tivessem batido nas flores"