A filha de ferro , Os Lâfrer

12 ​EPÍLOGO: O Legado em Dose Dupla




​Dez anos depois...

​O Setor 7 de treinamento nunca esteve tão movimentado. No centro do campo, dois pequenos vultos de nove anos moviam-se com uma agilidade que deixava os instrutores veteranos de queixo caído.

​Dhorwack e Hadjha, os gêmeos Lâfrer-Benevides, eram o equilíbrio perfeito entre o passado e o futuro. Dhorwack herdara os olhos castanhos e a calma analítica de Lucas, mas com a precisão tática e a força bruta que remetiam ao bisavô Richard. Já a pequena Hadjha era o retrato vivo da mãe e da avó: cabelos ruivos indomáveis e uma conexão natural com o ambiente que beirava o instinto puro de uma predadora.

​— Foco, Dhorwack! — Richard gritava da lateral, agora com os cabelos completamente brancos, mas a postura de um carvalho. — Não olhe para onde a Hadjha está. Sinta para onde ela vai!

​No centro do campo, os gêmeos treinavam um contra o outro. Dhorwack usava um bastão de treino, defendendo-se com paciência, enquanto Hadjha atacava com movimentos acrobáticos e velozes.

​Na varanda de observação, Hadacsa e Lucas assistiam à cena. Hadacsa, com os cabelos um pouco mais longos e uma expressão de paz que só a maternidade e o tempo trouxeram, segurava uma xícara de chá. Lucas estava ao seu lado, com um tablet médico na mão, monitorando os sinais vitais dos filhos por puro instinto protetor.

​— Eles estão ficando rápidos demais — Lucas comentou, com um sorriso orgulhoso. — A Hadjha quase acertou o Dhorwack três vezes com aquele chute giratório.

​— Ela tem o sangue da minha mãe — Hadacsa riu, encostando a cabeça no ombro do marido. — E o Dhorwack tem a sua paciência. Ele está esperando ela se cansar para dar o bote final.

​Lá embaixo, o treino parou quando Thomas e a avó Maya entraram no campo.

— Chega por hoje, recrutas! — Thomas anunciou, pegando Dhorwack no colo e girando-o. — O vovô trouxe sorvete, mas só para quem conseguir desmontar este rastreador analógico em menos de um minuto!

​Hadjha pulou nas costas da avó Maya, que a segurou com o braço mecânico — agora atualizado com uma pintura especial feita pela própria neta.

​Os gêmeos correram em direção aos pais na varanda.

— Mamãe! Você viu? Eu quase venci o Dhorwack! — Hadjha exclamou, ofegante e com as bochechas coradas.

​— Eu vi, querida. Mas o Dhorwack te pegou na defesa — Hadacsa abaixou-se, limpando o suor do rosto da filha. — Lembrem-se: a força não é nada sem a estratégia. E a estratégia não é nada sem o coração.

​Lucas abraçou os dois ao mesmo tempo.

— E a regra número um da medicina: depois do treino, banho e jantar. Sem discussões.

​A família caminhou junta em direção à mansão. Hadacsa parou por um segundo, olhando para o horizonte onde o sol se punha sobre a Fundação. Ela não tinha mais o visor tático e não ouvia mais o sussurro das máquinas.

​Mas, ao olhar para o marido e para Hadjha e Dhorwack, ela percebeu que nunca enxergara o mundo de forma tão clara. O aço fora substituído por algo inquebrável, e o Legado de Vidro agora era uma fortaleza de amor.

​A Filha do Aço havia se tornado a Mãe de um novo amanhã.


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