A filha de ferro , Os Lâfrer

9 ​CAPÍTULO 9: O Juramento do Deserto




​O hangar da Fundação Lâfrer estava mergulhado em um silêncio fúnebre. A chuva batia no teto de zinco, ecoando como tambores de guerra. Lucas Benevides estava de pé diante de uma pequena aeronave de transporte, vestindo apenas uma calça cargo e uma jaqueta de couro gasta. Sua mochila médica, aquela que ele carregava desde antes de conhecer Hadacsa, estava jogada no assento do copiloto.

​Thomas e Maya estavam parados a poucos metros. Maya tinha o braço mecânico cruzado sobre o peito, e Thomas mantinha a mandíbula travada, os olhos vermelhos de quem não dormia há dias.

​— Você não precisa fazer isso, Lucas — Maya disse, a voz rouca. — Nós temos os melhores agentes do mundo procurando por ela. Se ela estiver em qualquer lugar com um satélite por perto, nós a encontraremos.

​Lucas se virou, e o olhar que ele deu aos sogros não era mais o do médico gentil da cafeteria. Era o olhar de um homem que havia sido temperado pelo fogo.

​— Com todo respeito, Maya... os seus agentes procuram pela "Especialista Hadacsa". Eles procuram por rastros de código, por falhas em sistemas. Mas a Hadacsa que fugiu não é mais uma especialista. Ela é uma mulher que está sentindo dor. E dor não deixa rastro em satélite. Dor se encontra no chão, no mundo real.

​Thomas deu um passo à frente, entregando a Lucas um pequeno dispositivo analógico, um rádio de frequência curta que não usava redes globais.

​— Se você a encontrar... e se ela não quiser voltar... — Thomas hesitou, a voz de pai falhando pela primeira vez na vida. — Apenas garanta que ela esteja segura. Diga a ela que o "aço" nunca foi o que nos deu orgulho dela.

​Lucas guardou o rádio no bolso e apertou a mão de Thomas. Depois, ele caminhou até o fundo do hangar, onde Richard e a avó Hadassa observavam. Richard entregou a Lucas uma bússola de bronze antiga.

​— Meu pai me deu isso quando fui para a minha primeira guerra — Richard disse, a voz firme. — Ele disse que a bússola aponta para o norte, mas o coração aponta para casa. Traga a minha neta para casa, Doutor.

​Lucas assentiu, subiu na aeronave e partiu sem olhar para trás. Ele deixou para trás o luxo da Fundação, o prestígio do cargo de médico-chefe e a segurança dos muros Lâfrer. Ele agora era um andarilho em busca de um fantasma.

​TRÊS MESES DEPOIS...

​A vila de Porto das Almas era um lugar onde o tempo parecia ter esquecido de passar. A umidade do mar corroía tudo, e a pobreza era visível em cada rosto marcado pelo sol. Hadacsa, agora conhecida apenas como "Elena", trabalhava dobrada, carregando cestas de peixes e dormindo em um pequeno quarto alugado acima de uma taverna.

​Ela estava magra. Seus olhos cinzas haviam perdido o brilho elétrico de outrora, substituídos por uma apatia profunda. Além disso, uma pneumonia teimosa, fruto de sua nova fragilidade imunológica, a fazia tossir todas as noites.

​Certa manhã, um boato correu pela vila: um novo médico voluntário havia chegado. Ele não cobrava nada, atendia em uma tenda improvisada na beira da praia e tinha "mãos que pareciam mágica".

​Hadacsa sentiu um calafrio, mas o descartou. "Ele nunca me acharia aqui", pensou. Mas a febre apertou naquela tarde, e a velha dona da taverna a obrigou a ir à tenda.

​— Vá, Elena! Você vai acabar morrendo antes da próxima maré! — a velha a empurrou.

​Hadacsa caminhou lentamente pela areia, cobrindo o rosto com um lenço puído. A fila na tenda estava longa. Quando finalmente chegou a sua vez, ela entrou no cubículo de lona, mantendo a cabeça baixa.

​— O que você sente, minha jovem? — a voz perguntou.

​O coração de Hadacsa parou. O oxigênio pareceu sumir da terra. Aquela voz... ela a ouvia em seus sonhos todas as noites.

​Ela levantou os olhos lentamente. Lucas estava lá, sentado em um caixote de madeira, com um estetoscópio no pescoço. Ele estava mais magro, a barba por fazer, as mãos sujas de areia, mas os olhos... os olhos ainda eram os mesmos que a olharam com adoração na cafeteria.

​Lucas não se levantou. Ele não gritou. Ele apenas sorriu, um sorriso triste e infinitamente doce.

​— O diagnóstico é pneumonia, Elena — ele disse, a voz firme apesar da emoção. — Mas o prognóstico é pior. Você sofre de uma condição rara chamada "teimosia Lâfrer aguda". E o único tratamento disponível no mundo... sou eu.

​Hadacsa recuou, as lágrimas transbordando instantaneamente.

— Lucas... como? Por que você veio? Eu deixei você ser livre... eu não posso te dar nada...

​Lucas se levantou e caminhou até ela. Ele ignorou a distância, ignorou a lama nas roupas dela e a puxou para um abraço que parecia querer colar cada pedaço quebrado da alma dela.

​— Você achou que eu amava os seus nanorrobôs, Haddy? — ele sussurrou no ouvido dela, enquanto ela soluçava contra o peito dele. — Você achou que eu queria um "ventre perfeito" ou uma "guerreira de aço"? Eu cruzei metade do continente por causa do jeito que você franze a testa quando está concentrada. Eu vim por causa da sua alma, Hadacsa. E se o nosso destino for não ter filhos, então o meu destino é ser o homem que vai te amar o dobro para preencher esse vazio.

​— Eu não sou mais nada, Lucas... — ela chorava, as mãos de carne e osso apertando a camisa dele. — Eu sou só eu.

​— "Só você" é a única coisa que eu vim buscar — Lucas se afastou apenas o suficiente para olhar no fundo dos olhos cinzas dela. — Eu pedi demissão da Fundação. Eu não sou mais o médico-chefe. Eu sou apenas o Lucas. E eu não vou a lugar nenhum sem a minha esposa.

​Ali, em uma tenda de lona em uma vila esquecida, a Filha do Aço finalmente entendeu que a maior força que um Lâfrer poderia ter não vinha da cibernética, mas da capacidade de ser encontrado por quem nunca desistiu de procurar.