A filha de ferro , Os Lâfrer
6 CAPÍTULO 6: O Código do Coração
O susto com o Sargento Miller havia deixado marcas. Lucas não conseguia parar de pensar que, por um triz, não perdeu Hadacsa para um vírus cibernético. Ele percebeu que, no mundo dos Lâfrer, o "amanhã" era um luxo que nem sempre estava disponível. Ele precisava agir.
O problema? Como pedir em casamento uma mulher que tem um radar para mentiras, um visor tático que lê batimentos cardíacos e uma família que limpa fuzis no café da manhã?
Lucas decidiu que a única forma de vencer a "Sussurradora de Máquinas" era entrando no jogo dela.
Hadacsa estava no centro de comando da Fundação, terminando de reforçar as criptografias do Projeto Phoenix. O silêncio da madrugada era absoluto, até que todos os monitores ao redor dela começaram a piscar em um tom de lilás suave.
— Mas o que é isso? — ela murmurou, os dedos voando pelo teclado holográfico. — Lucas? Você está mexendo no servidor de novo?
— Acesso Negado, Especialista — uma voz sintética, porém familiar, ecoou pelos alto-falantes.
Na tela principal, onde deveria estar o mapa de segurança da Fundação, surgiu uma linha de código que Hadacsa nunca tinha visto. Não era binário, nem Python, nem C++. Eram batimentos cardíacos traduzidos em ondas de rádio.
— Detectando anomalia no sistema — a voz continuou. — Causa: Batimentos cardíacos acima de 120 bpm. Origem: Dr. Lucas Benevides. Localização: Atrás de você.
Hadacsa girou a cadeira rapidamente. Lucas estava lá, parado no meio do centro de comando. Ele não vestia farda, nem jaleco. Estava com a mesma camisa que usara no primeiro jantar, com as mangas dobradas. Ele segurava um pequeno dispositivo circular que projetava um holograma no centro da sala.
— Você hackeou o meu centro de comando? — Hadacsa perguntou, entre o choque e um sorriso desafiador. — Lucas, isso é um crime federal na maioria dos países.
— Eu não hackeei — Lucas deu um passo à frente, a voz um pouco trêmula. — Eu apenas pedi permissão ao sistema. E parece que as máquinas gostam mais de mim do que de você hoje.
O holograma no centro da sala mudou. Não eram mapas ou códigos, mas uma reconstrução digital de todos os momentos deles: a lama do Setor 7, o beijo sob a chuva no Complexo 7, a dança no baile de gala. As imagens orbitavam ao redor deles como estrelas de dados.
— Hadacsa — Lucas começou, ficando de joelhos no chão frio de metal. — Eu passei a vida tentando consertar corpos quebrados. Mas quando eu te conheci, eu percebi que não queria apenas consertar as pessoas; eu queria protegê-las. Eu queria ser o ponto de calma no meio do seu caos tecnológico.
Hadacsa sentiu o visor tático apitar, enviando um aviso de "sobrecarga emocional". Ela o arrancou do rosto, querendo ver Lucas apenas com seus próprios olhos cinzas, agora marejados.
— Eu não tenho um sobrenome que mete medo em generais — Lucas continuou, tirando uma caixinha de veludo do bolso. — Eu não sei lutar com espadas e, honestamente, eu ainda tenho medo do seu pai. Mas eu prometo que, se você me aceitar, eu serei o firewall que você nunca vai precisar hackear. Eu serei a sua cura, assim como você é a minha força.
Ele abriu a caixinha. O anel não era de diamante comum. Era um aro de tungstênio polido com um pequeno filamento de fibra ótica azul incrustado, que brilhava em sincronia com o ritmo do coração de Lucas, conectado via bluetooth.
— Hadacsa Maya Lâfrer... você aceita atualizar o seu status para "Casada" com este médico teimoso?
Hadacsa soltou uma risada que foi metade soluço. Ela se ajoelhou na frente dele, ignorando todos os protocolos de segurança que ainda apitavam nos monitores ao redor.
— Lucas Benevides... — ela segurou o rosto dele com as duas mãos, a de carne e a tecnológica. — O diagnóstico é positivo. Eu aceito. Mas saiba que eu vou monitorar o seu sistema 24 horas por dia.
Eles se beijaram enquanto o sistema de som da Fundação, "possuído" pelo script de Lucas, começou a tocar uma música suave.
De repente, as luzes do centro de comando se acenderam por completo. Na passarela superior, Thomas, Maya, Richard e a avó Hadassa surgiram, todos batendo palmas (e Thomas discretamente guardando um lenço no bolso, alegando que "entrou pólvora no olho").
— Eu disse que o sistema dele era bom! — Richard gritou lá de cima, rindo.
— Bem-vindo à família de vez, Lucas — Maya exclamou, fazendo um sinal de positivo com o braço de metal. — Mas aviso logo: o planejamento do casamento vai ser coordenado pela minha sogra. Prepare o seu sistema nervoso!
Lucas e Hadacsa olharam para cima, rindo. O Legado Lâfrer acabava de ganhar um novo membro, e a Filha do Aço finalmente tinha encontrado a única coisa que nenhuma máquina poderia replicar: o amor incondicional.
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