A filha de ferro , Os Lâfrer
11 CAPÍTULO 11: O Milagre no Setor de Treinamento
Seis meses haviam se passado desde o casamento e o ataque de Vance. A Fundação estava em paz, mas para Hadacsa, a paz não significava descanso. Ela agora treinava como uma humana comum, buscando compensar a falta de sua interface com reflexos puros e força física.
O dia estava abafado no Setor 7. Thomas, Maya e Richard formavam um triângulo de combate ao redor de Hadacsa. Eles não estavam pegando leve.
— Guarda alta, Hadacsa! — Richard gritou, desferindo um golpe lateral com um bastão de treino. — Se você não pode ouvir os circuitos dele, tem que ler os ombros dele!
Hadacsa esquivou-se por milímetros, o suor escorrendo pelo rosto. Maya avançou logo em seguida com uma rasteira rápida. Hadacsa saltou, mas Thomas já estava lá, bloqueando sua saída com um movimento de imobilização.
Na varanda de observação, a avó Hadassa e Lucas assistiam. Lucas apertava o corrimão, a testa franzida de preocupação.
— Ela está forçando demais hoje, Dra. Nymerelle. Ela não dormiu bem e mal tocou no café da manhã.
— Ela é uma Lâfrer, Lucas — a avó respondeu, mas seus olhos de médica notaram algo. — Mas você tem razão. A palidez dela não é de cansaço.
Lá embaixo, Hadacsa tentou uma ofensiva contra o pai. Ela avançou com velocidade, mas, no meio do movimento, o mundo ao seu redor começou a girar. O som dos bastões de treino batendo tornou-se abafado, como se ela estivesse debaixo d'água.
— Haddy? — Maya parou o movimento, percebendo que a filha cambaleou.
Hadacsa tentou responder, mas sua visão escureceu completamente. O corpo dela cedeu.
— HADACSA! — O grito de Lucas ecoou pelo setor enquanto ele pulava a mureta da varanda em um salto desesperado.
Thomas a segurou antes que ela atingisse o solo. Lucas chegou segundos depois, ajoelhando-se na terra, checando o pulso e as pupilas dela com mãos trêmulas.
UMA HORA DEPOIS...
Hadacsa abriu os olhos lentamente. Ela estava na ala médica, o cheiro de antisséptico era familiar. Ela esperava ver rostos preocupados, medo ou tensão. Em vez disso, ela foi recebida por uma cena inusitada.
Thomas e Richard estavam abraçados, rindo como dois recrutas que acabaram de ganhar a loteria. Maya estava sentada na beira da cama, com lágrimas de alegria escorrendo, e a avó Hadassa segurava uma impressão de ultrassom com um sorriso triunfante.
Lucas estava sentado ao lado dela, segurando sua mão com tanta força que parecia que nunca mais a soltaria. Ele tinha o maior sorriso que Hadacsa já vira em toda a sua vida.
— O que... o que aconteceu? — Hadacsa perguntou, a voz fraca. — Eu falhei no treino? Eu estou doente de novo? O vírus voltou?
Lucas riu, uma risada leve e emocionada, e beijou a palma da mão dela.
— Não, Haddy. Você não falhou. E você definitivamente não está doente.
A avó Hadassa aproximou-se e colocou a imagem em preto e branco diante dos olhos da neta.
— Lembra quando eu disse que o dano celular era irreversível? Parece que a vida é muito mais teimosa do que a minha ciência. O Projeto Phoenix... aqueles nanorrobôs que o Lucas injetou para salvar o Miller... eles deixaram um rastro no seu sistema. Eles não apenas te protegeram, eles reconstruíram o que estava quebrado em silêncio durante esses meses.
Hadacsa olhou para a imagem. Havia dois pequenos pontos brilhantes.
— O que é isso? — ela sussurrou, o coração começando a disparar.
— São dois, Hadacsa — Maya disse, soluçando de felicidade. — Você está grávida. De gêmeos.
O silêncio caiu sobre Hadacsa por um segundo, até que a realidade a atingiu. Ela olhou para Lucas, que chorava abertamente agora.
— Gêmeos? Mas... os médicos disseram...
— Os médicos não conheciam a força da Filha do Aço — Lucas disse, encostando a testa na dela. — Nós vamos ter a nossa casa cheia, Haddy. Exatamente como sonhamos.
Richard bateu no ombro de Thomas.
— Gêmeos! Um para eu treinar na estratégia e outro para você ensinar a atirar! A Fundação vai ficar pequena para esses dois!
— Nada disso! — Maya interrompeu, rindo. — Eles vão ser o que quiserem. Mas uma coisa é certa: o Legado Lâfrer acaba de ficar duas vezes mais forte.
Hadacsa levou a mão ao ventre, ainda plano, sentindo uma conexão que nenhuma interface neural jamais poderia proporcionar. Ela não precisava mais de chips para sentir o futuro. Ele estava ali, batendo em ritmo duplo dentro dela.
A "Filha do Aço" finalmente entendeu que seu maior milagre não foi sobreviver à guerra ou às máquinas, mas sim dar vida ao impossível.
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