A filha de ferro , Os Lâfrer

10 ​CAPÍTULO 10: O Casamento e o Último Código


O retorno para a Fundação Lâfrer não foi feito com trombetas ou desfiles. Foi um retorno silencioso, sob o manto da noite, com Lucas carregando uma Hadacsa ainda convalescente para dentro da ala médica privada. A notícia de que ela estava viva e de volta espalhou-se pelos corredores como uma corrente elétrica, trazendo um fôlego de vida que a Fundação não sentia há meses.

​O dia do casamento amanheceu com um céu de cristal. Não haveria drones, não haveria hologramas e nenhuma interface neural estaria conectada à rede. Hadacsa insistira: ela queria sentir cada segundo com seus cinco sentidos humanos.

​No quarto da noiva, Maya ajudava a filha com o vestido. O traje era uma obra de arte: seda branca com bordados que lembravam circuitos integrados, uma homenagem ao passado que Hadacsa deixara para trás.

​— Você está linda, Haddy — Maya sussurrou, a mão mecânica tocando suavemente o rosto da filha. — Sem o aço, você brilha ainda mais.

​— Eu estou com medo, mãe — Hadacsa confessou. — Pela primeira vez, eu não consigo ouvir os arredores. O silêncio no meu cérebro ainda me assusta.

​— O silêncio não é ausência de poder, querida. É presença de paz — Maya sorriu. — E lembre-se: você tem a nós. Seus ouvidos e olhos são os nossos agora.

​Enquanto isso, nos limites da propriedade, uma sombra se movia. Vance Junior, o herdeiro do império destruído pelos Lâfrer e o criador do vírus Blackout, não aceitara a derrota. Ele sabia que Hadacsa estava vulnerável. Ele não queria apenas destruir a Fundação; ele queria o troféu final: a morte da Filha do Aço no dia de sua felicidade.

​Equipado com um traje de camuflagem ótica que o tornava invisível aos radares, ele se infiltrou no jardim durante a cerimônia.

​O altar estava posicionado sob o grande carvalho da fundação. Lucas esperava, impecável em seu smoking, os olhos fixos na entrada da nave de flores. Quando Hadacsa surgiu, caminhando pelo braço de Thomas, o tempo pareceu parar. Ela não precisava de visores para saber que Lucas era o seu mundo.

​A cerimônia seguiu com uma doçura rara. "Na saúde e na doença... no aço e na carne..."

​No momento da troca das alianças, o instinto de Hadacsa — aquele que o treinamento de Richard e Thomas cimentara em seus ossos, independente de chips — gritou. Ela sentiu uma mudança na pressão do ar. Um deslocamento de luz perto das flores de lírio.

​— LUCAS, CHÃO! — Hadacsa gritou, derrubando-o antes mesmo de pensar.

​Um disparo de plasma passou exatamente onde a cabeça de Lucas estava. O pânico começou, mas os Lâfrer reagiram em milissegundos. Thomas e Richard sacaram suas armas ocultas sob os bancos. Maya se posicionou à frente dos noivos, seu braço mecânico ativando um escudo de energia compacto.

​Vance Junior desativou a camuflagem, revelando-se com um canhão de pulso acoplado ao braço.

— O Legado termina hoje! Sem a sua "Sussurradora", vocês são apenas velhos com armas de fogo!

​Hadacsa olhou ao redor. Ela não tinha suas espadas. Não tinha sua conexão para desativar a arma de Vance. Mas ela viu algo: um cabo de alimentação de alta voltagem que alimentava as luzes do jardim, exposto perto de um hidrante.

​— Lucas, a maleta médica! Agora! — ela ordenou.

​Lucas, entendendo o plano instantaneamente, jogou para ela um desfibrilador portátil de alta potência enquanto se protegia dos disparos.

​Hadacsa correu. Sem o visor, ela teve que confiar na sua visão periférica e na agilidade natural. Ela rolou pela grama, as pérolas do vestido saltando, enquanto Vance disparava contra ela. Ela chegou ao hidrante, abriu a válvula com a força da adrenalina e inundou a área onde Vance estava.

​— Você acha que eu preciso de um chip para te derrotar? — Hadacsa gritou. — Eu aprendi com os melhores!

​Ela cravou as pás do desfibrilador na água eletrificada. O choque foi massivo. Vance, preso em sua própria armadura metálica, serviu como o condutor perfeito. Ele foi lançado para trás, seu sistema de suporte de vida fritando instantaneamente.

​O silêncio voltou ao jardim, quebrado apenas pelo som da água jorrando. Thomas e Richard correram para prender o vilão, que agora estava inconsciente e inofensivo.

​Lucas correu até Hadacsa. Ela estava ofegante, o vestido rasgado na barra e sujo de lama, mas seus olhos cinzas brilhavam com uma chama que nenhum computador poderia gerar.

​— Você está bem? — Lucas perguntou, as mãos trêmulas.

​Hadacsa deu um sorriso largo, vitorioso.

— Eu nunca estive melhor. Acho que acabei de provar que a Filha do Aço não precisa de aço para proteger o que ama.

​A cerimônia foi retomada dez minutos depois. Sem música, sem frescuras, apenas com a família reunida em um círculo de proteção. Lucas colocou o anel no dedo dela.

​— Eu aceito — Hadacsa disse, antes mesmo de o celebrante perguntar.

​O beijo que se seguiu não foi apenas o selo de um casamento; foi o selo de uma nova era. Os Lâfrer haviam sobrevivido a guerras, vírus e traições. E agora, caminhavam para um futuro onde o amor era a tecnologia mais avançada de todas.

​Naquela noite, sob as estrelas, Hadacsa e Lucas dançaram. Não como soldados ou médicos, mas como duas pessoas que haviam passado pelo inferno e encontrado o paraíso um no outro. O Legado de Vidro agora era inquebrável, pois era feito de algo muito mais forte que o metal: era feito de humanidade.