Ela esperava.

Todos aqueles que ela amava estavam mortos.

Seu pai, que sempre estivera ao seu lado, tinha sido assassinado e seu treinador, aquele que era seu pai quando o verdadeiro não estava presente, talvez vá a seguir o mesmo caminho de seu pai. Esses pensamentos a assombravam. A perda de seu pai já havia sido demais, ela não aquentaria perder seu treinador.

Ela estava ajoelhada no centro da sala de treino, os mesmos pilares sustentavam a sala, o mesmo chão a cobria e as mesmas paredes de pedra a cercavam, a grande sala cilíndrica ainda era a mesma.

Nas altas paredes de pedra escura haviam diversas fendas para a entrada da luz do sol e a circulação de ar. Nas quatro pilastras ao seu redor estavam pendurados estandartes da província, todos com o mesmo símbolo e o mesmo lema "Ambos o Paraíso e o Inferno alcançaremos". O chão era composto por uma madeira macia para que as quedas durante o treino não doessem tanto quanto a dor de um osso quebrado. O Sol de fim de tarde atravessava as fendas nas paredes, dando uma coloração alaranjada á sala. O aroma de suor e sangue seco pairava sobre a sala, ela gostava.

Os longos estandartes continham o símbolo da província, uma espada de duas pontas sendo cortada em sua metade por uma linha horizontal. Nas paredes estavam penduradas as armas do arsenal de treino da guarda real e dela mesma. As armas variavam de punhas até grandes espadas de duas mãos, até mesmo poucas armas de fogo podiam ser vistas entre as bestas de energia e os arcos de alta perfuração.

Estava na hora da sua aula e seu treinador não viria, ele estava preso em um hospital com os médicos a mecanizar o seu corpo. As lágrimas da jovem escorriam por suas bochechas rosadas e caíam na espada que repousava logo a sua frente. Ela julgava que tudo era sua culpa, foi o que ela ouviu os sábios do palácio comentando, “É tudo culpa da jovem” eles diziam “Se ela não tivesse permitido aqueles homens entrarem, nada disso teria acontecido” eles continuavam. A culpa a consumia, ela queria simplesmente fugir de tudo aquilo e ser feliz longe de toda essa miséria. Ser feliz como qualquer outra garota de sua idade,

vivendo uma vida normal e sem esses terríveis assuntos a cercando e pesando sobre as suas costas.

“Mas não é isso que a representante de seu povo deve fazer” ela pensa, logo pegando sua espada, secando as lagrimas que molhavam seu rosto e se levantando de seu pranto. Um sorriso se abrira em seu rosto e ela agora sabia o que devia fazer: ela se tornaria a líder de seu povo, a nova senhora de Ukatar. Ela sai da sala que tornara seu santuário e anda rapidamente pelos corredores do palácio de seu pai.

Apesar de todas as mudanças em sua vida, os corredores ainda eram os mesmos, as mesmas paredes de pedra com portas que levavam aos lugares misteriosos e fantasiosos de sua infância. Isso traz um sentimento de felicidade para a jovem, uma vontade de correr pelos corredores como se ainda fosse uma criança. E foi isso que fez, os deveres como a Senhora de Ukatar podiam esperar.

As paredes de uma pedra clara davam um ar mais leve á sala. As portas automáticas de madeira clara facilitavam a inda e vinda dos serventes. As grandes janelas de vidro reforçado permitiam que a claridade do Sol penetrasse nos corredores e deixasse as paredes brancas alaranjadas. Um aroma de flores encantava os corredores e poderiam guiar a jovem até o seu precioso jardim.

Um sorriso se abre em seu rosto. Ela era uma criança novamente, uma criança que corria felizmente pelos corredores do palácio que servia como seu lar, sua vida ficara tão mais simples agora que estava a ignorar todos os seus problemas. Desviando dos serventes que pelo palácio caminhavam, ela avança pelos corredores com um sorriso infantil cortando seu rosto. Ela conhecia todas essas salas, ela já havia visitado a todas pelo decorrer de sua vida.

Sua animação era tanta que se esquece que vestia um vestido longo até seus tornozelos. Tropeçando nos tecidos ela torna a cair no chão, ela teria chamado uma atenção indesejada se não estivesse numa das poucas áreas completamente desertas de todo o palácio. Após uma breve pausa, ela cai nos risos e se levanta logo em seguida. Agora segurando o vestido para que não tropece novamente, ela torna a correr pelos corredores.

Após correr tanto pelos corredores que chegara a se perder, ela encontra um de seus lugares favoritos: o jardim, correndo até esse lugar coberto por natureza seu sorriso se expande de orelha a orelha. Se vendo por entre as flores e árvores dessa pequena floresta, ela simplesmente se deixa cair no chão para poder ver claramente o céu ensolarado por entre as folhas das árvores que a cercavam.

Estava feliz como uma garota normal de sua idade? Será que é assim que elas se sentem? Ela não sabia e nem se importava, a vida como a senhora da principal província de um império tinha suas qualidades. Ela agora estava calma, esse momento era tudo o que precisava. Estava tão relaxada que poderia cair no sono a qualquer momento, e foi o que fez.

Seus sonhos foram recheados por memórias felizes de sua infância, memórias de tempos em que ela era jovem demais para poder entender o mundo ao seu redor. Mas essa felicidade não dura muito, sendo logo substituída pelos acontecimentos que preencheram os últimos dias que se passaram desde o assassinato de seu pai. Sendo acordada pelo próprio grito, ela logo se levanta. Lágrimas escorriam pelo seu rosto e seu coração estava tão acelerado que chegava a doer. Tudo estava escuro demais para que ela pudesse ver algo. Ao notar que a jovem estava acordada, uma voz feminina calma a saúda.

-Olá, Cassandra. — diz a voz feminina. -Dormiu bem?

-Não, eu não dormi bem, I.A. -responde a jovem, Cassandra não estava com paciência para lidar com a insistência da Inteligência Artificial do seu quarto. Cassandra se perguntava por quê seu pai escolhera uma I.A tão irritante.

Quando Cassandra se levanta de sua cama as luzes do quarto se ascendem automaticamente, revelando o grande quarto dela. Apesar de ser imenso se comparado com os quartos dos plebeus, ainda não era tão grande quanto o quarto de seu pai.

As paredes eram feitas de uma pedra branca polida a ponto de parecer vidro ao toque. O chão era composto por uma madeira macia ao para os pés de quem caminhasse pelo quarto. Logo de frente para Cassandra estava uma parede inteira composta por um vidro reforçado, o que a permitia a visão de toda a província e o eterno deserto que a cercava.

Próximo á janela e a esquerda de Cassandra havia uma mesa que gerava uma projeção holográfica. Na parede oposta, um apoio para a espada curta dela.

Estava calmo lá dentro e a noite consumia o lado de fora.

-São tantas... — diz ela enquanto observa as estrelas colorirem o céu como se fosse uma obra de arte. O céu coberto de estrelas sempre a encantara, desde que ela era uma criança, nesse mesmo quarto, ela observa o céu coberto pelos pontos luminosos.

Cassandra se senta na lateral de sua cama e lá torna a esperar. Os pesadelos haviam sido demais para que ela voltasse a dormir. Ela julga como melhor se ela simplesmente esperasse o dia nascer assim como todas as vezes desde que os pesadelos começaram.

Cassandra estava quase dormindo sentada em sua cama quando alguém bate com força na porta de madeira do quarto. Assustada com o barulho, ela logo se levanta e caminha sonolenta em direção à porta. As fortes batidas não paravam, como se quem estivesse batendo havia entrado em desespero, e isso estava dando um frio na barriga de Cassandra, como se ela tivesse um pressentimento do que estava por vir. Parada em frente à porta, ela se preparava para abri-la quando algo a impediu.

-Não abra, Cassandra! — exclama a I.A, aterrorizada.

Cassandra, assustada pela súbita aparição da I.A, pára logo em frente a porta. Assim como Cassandra as batidas pararam, sendo substituídas por um suspense silencioso duradouro o suficiente para que a jovem começasse a se desesperar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.