Angeline PDV — 6 de Março de 2005

Todos esses anos nós vivemos sempre tentando passar tão despercebidos quanto possível, e até hoje tínhamos conseguido não chamar a atenção de ninguém. Apenas procuramos ser mais uma família comum ou tentamos ser o quanto é possível dentro de nossa condição peculiar. Vivemos sem chamar a atenção, tentando não chamar muita atenção, na verdade. Porque é inevitável uma certa curiosidade das pessoas pelo nosso porte distinto, temos uma beleza fascinante, arrebatadora e temos consciência disso. Mas é melhor que a curiosidade das pessoas pare por aí, elas geralmente não querem saber mais do que o aparente, caso contrário poderiam vir a descobrir nosso segredo sombrio. Elas se conformam em pensar que somos diferentes apenas por causa da genética – o que é verdade de certa forma, pois temos o DNA vampiro que é um pouco diferente do que o DNA humano –, a vida não é justa mesmo, não adianta se rebelar contra isso.

Também é inegável a questão de nossa imagem, nós temos plena consciência de que somos estonteantemente bonitos, todos, cada um a sua maneira, a minha é uma beleza quase infantil. E isso é devido ao fato de sermos predadores naturalmente – a natureza não leva em conta que reprimimos o que somos de verdade, não precisaríamos disso, mas ainda assim somos atraentes. Nós precisamos, deveríamos utilizar isso para atrair as nossas possíveis presas.

Mas é claro que nossa família particularmente, excepcionalmente, não precisaria de tudo isso, pois apenas a velocidade e a força já nos auxiliaria a caçar os animais, a beleza não é um atributo imprescindível. Nós não somos caçadores o tempo todo. Só utilizamos as nossas habilidades quando precisamos nos alimentar do sangue de algum animal na floresta ou quando precisamos nos defender do ataque de outro vampiro. Por isso geralmente é seguro para os humanos a nossa presença.

Amanhã vai chegar uma aluna nova na escola de meus irmãos, na verdade ela já está em casa com o pai dela, o chefe de polícia da delegacia da cidade de Forks. Não se fala em outro assunto em qualquer local, no shopping, no mercado, na rua... não se fala em outra coisa. Nunca gostei de fofocas e alguns comentários chegam a ser particularmente ofensivos e desrespeitosos principalmente quanto à mãe dela. Não me agrada falar mal de alguém pelas costas.

A cidade inteira está agitada, em polvorosa pela chegada de Isabella Swan. Ouço as conversas das pessoas, mesmo sem querer e o assunto predominante é mesmo a chegada da garota. Mas infelizmente eu ainda vou ter de controlar a minha curiosidade um pouco mais, nunca fui muito curiosa mesmo... pois eu estudo em outra escola ainda.

Minha irmã Alice me disse que ela vai ser namorada de meu irmão e fará parte da nossa família e eu acredito nela. Por causa também de nossa afinidade natural, nossos temperamentos são similares, Alice é mais próxima de mim do que de nossa outra irmã.

Na verdade, Rosalie não parece se importar com isso, para ela está bom do jeito que está. Ela não se enturma com ninguém, nem em casa e nem na escola, segundo dizem nossos irmãos. Ela fica sempre sozinha em parte por causa da inveja que ela desperta nas demais meninas no colégio e nenhuma se sente bem para se aproximar e ela é estranha o suficiente para inibir qualquer um de chegar perto, mas também porque ela maltrata quem está ao lado dela. Não gosto nada, nada do jeito que ela maltrata papai. Carlisle a salvou, quem a matou foi o ex-noivo. E aliás, se ela não tivesse sido transformada por papai não teria conhecido Emmett. Eu acho ela fútil e mesquinha. Nunca nos demos nem nos daríamos bem, pois há total incompatibilidade de gênios. Ela teve um passado parecido com o meu e de mamãe, mas ela optou por ser assim amargurada, ressentida e distante. Não se abrir para a felicidade. Até mesmo Emmett não pode lhe fazer tão feliz por causa dela ser tão carrancuda. Tenho certeza que eles seriam mais felizes se ela se abrisse mais, essa atitude fechada não traz qualquer beneficio. Se ela quer manter distância das pessoas, sim, esse objetivo é alcançado, mas a custa da sua própria felicidade.

Não vou me incomodar por causa dela, pois ela não se importa com ninguém. Ela não merece minha preocupação... Mas ela é minha irmã mais velha, de qualquer forma, e eu quero bem a ela, mesmo que ela não valorize isso.

Já com Alice a história é totalmente diferente, nós duas somos muito ligadas entre nós e com a nossa mãe, Esme, a qual Alice quase de pronto, instantaneamente adotou como sua mãe. Acho que ela já havia decidido antes adotar Esme como mãe, e sabia que Esme a receberia como filha também. Gosto tanto dela que nem me sinto enciumada, na verdade, gosto muito de ter uma irmã com quem posso conversar. Nunca tive irmãos, foi uma vida muito triste... mas já passou.

O que quero dizer, é que todos nós mudamos com a chegada dela e de seu companheiro, agora marido, Jasper. Cada um ficou diferente à sua maneira, mas foi mais perceptível a modificação em mamãe e em mim.

Eu sempre fui muito tímida e retraída, principalmente na escola, mas em casa era mais extrovertida por estar mais à vontade e não precisar me controlar a cada instante. Com a chegada dela e sua ajuda aprendi a ser mais desinibida também em público, aprendi que para me controlar não preciso ser rígida, posso ser flexível sabendo exatamente até onde posso ir antes de chegar no meu limite.

Eu sempre fui meiga e todos sempre tem vontade de cuidar de mim, como um instinto de proteger alguém aparentemente mais frágil, devido a minha feição mais infantil. Tenho consciência dessa sensação que provoco nas pessoas, mas nunca me aproveitaria disso. Eu sei que aparento ser frágil quando na verdade sou exatamente o contrário. Poderia ser feroz se quisesse e realmente sou quanto estou caçando.

Quero dizer que eu me tornei mais expansiva, digamos, quando Alice se uniu á nossa família. Ela escolheu estar conosco e por isso está feliz de estar onde está. Ainda sou tímida e retraída com quem eu não conheço muito, é claro, mas sou muito alegre e aberta com meus familiares; quando eu estou com quem eu conheço me sinto mais à vontade para me expressar livremente e ser eu mesma.

Quem visse essa mudança de comportamento poderia pensar que eu sou duas-caras ou bipolar, mas não é isso. A verdade é totalmente outra, você nem faz ideia e é bom que nem saiba mesmo. Em nossa casa é onde nós podemos ser o que realmente somos, podemos nos mover rapidamente como vampiros e eu gosto de nossa agilidade.

Mas; voltando ao assunto principal que é a chegada de Isabella Swan, eu disse que infelizmente não poderei conhecê-la de imediato – talvez a gente se esbarre na cidade. Modo de dizer, porque eu não esbarro em nada mais agora que fui transformada em vampira; graças a Deus, porque eu era uma humana tão desastrada que não sei como consegui sobreviver tanto tempo sem me machucar mais gravemente... – pois eu ainda estudo em uma escola em Olympia, separada de meus irmãos, por enquanto.

Temos de dar a volta no Parque Nacional de Olympic para não passar na reserva e demoramos duas horas, eu não me incomodo que papai vá depressa, eu gosto e sei que ele também. Eu confio nele, ele respeita as regras e é sempre cuidadoso mesmo dirigindo rápido nunca sofremos um acidente de carro. E se sofrêssemos não iríamos morrer, de qualquer forma.

Só o mais grave que aconteceria seria meu pai perder a minha confiança e isso ele não faria intencionalmente. Ele sabe que eu o amo muito, ele é meu pai de coração, o único pai de verdade que conheci. Através dele eu posso ver Deus. Nunca tive uma visão muito boa do Senhor. Sei que isso pode parecer um pouco esquisito, mas é a verdade, através de Carlisle eu conheci Deus.

Agora pode ser um pouco tarde para reconciliar-se com Deus diriam algumas pessoas, que nós vampiros somos criaturas condenadas sem qualquer esperança, mas eu não acredito nisso. Acredito que nós temos livre-arbítrio, vivemos as nossas escolhas assim como os seres humanos; eu ainda acredito num ser superior, apesar de sermos criaturas condenadas, sem esperança. Não temos, dizem, a mínima chance de Deus se compadecer e se dignar olhar para nós (quem são eles para acharem que sabem o que Deus pensa?). Somos desamparados totalmente largados à nossa própria sorte, mas contrariando as probabilidades eu ainda tenho fé.

Mas ano que vem, quer dizer, semestre que vem, eu já vou começar a frequentar a Forks High School também junto com meus irmãos Eu sei que o meu afastamento é necessário para manter a aparência que queremos e passar despercebidos como uma família comum, apesar de nossas características singulares, como a imortalidade, não morremos de causas naturais, como os humanos, por exemplo.

Eu entendo que por parecer um pouco mais jovem do que realmente era quando fui transformada por papai – por isso não posso dirigir – preciso seguir o que a aparência exibe. Eu sou a filha mais nova e isso não me incomoda, na verdade eu gosto disso. Sempre tive que ser responsável como filha única, tive que viver como irmã mais velha. Gosto de ser cuidada, mimada. Antigamente, se eu quisesse ser tratada bem eu tinha que me auto-mimar. Se eu não cuidasse de mim ninguém se importava o suficiente comigo para fazê-lo. Charles jamais o faria e eu sabia que não podia esperar isso dele.

Eu gosto de ser quem eu sou – é fácil geralmente;só às vezes a sede é tanta que chega a doer, mas fora isso é tudo muito paradisíaco, quase perfeito demais para ser verdade, mal dá para acreditar, mas É verdade. Parece um sonho, mas É tudo real. Estou feliz com o papel que tenho nessa família.

Agora já não posso mais falar que meu pai morreu na guerra como era a desculpa que eu inventava há algum tempo atrás. Conto aos meus colegas que eu sou filha biológica de Esme e sou enteada de Carlisle. Papai me adotou como filha dele quando se casou com mamãe. Eu tinha apenas quatro anos naquela época e mamãe havia acabado de perder meu irmão e não poderia ter mais filhos

Seria apenas Esme, Charles e eu, mas ele morreu em um acidente de carro e deixou nós duas sozinhas alguns meses antes. Foi aí que Carlisle conheceu Esme no hospital em que Charles estava internado e 'infelizmente' Charles não resistiu aos ferimentos e acabou morrendo, quando meu pai veio a falecer os dois começaram a namorar.

Carlisle se compadeceu pelo fato de nós duas termos ficado sozinhas -sendo eu ainda tão pequena precisava de um pai e ele quis assumir essa responsabilidade, ele não era obrigado, mas ele ele não faria mamãe escolher entre nós dois, ele foi magnânimo, um perfeito gentleman — e também porque se apaixonou pela minha mãe, se casou com ela e me adotou como sua filha.

Carlisle ficou muito sensibilizado com a perda de mamãe e ainda mais quando soube de toda a trágica história. Na verdade, Esme não estava mais triste pela morte de Charles do que pela perda de meu irmão. Meu pai batia nela e pior, em mim também desde quando eu nasci. Ele não gostou de primeiro ter uma filha e queria que eu fosse menino — como se resolvesse me batendo eu fosse me tornar um menino, ou quem sabe ele iria acabar me matando. Ele não poderia simplesmente se contentar e depois ter seu tão desejado filho? Fui educada como menina só por causa de minha mãe, mas eu já estava treinada para respeitar meu irmão que estava prestes a chegar, como se ele fosse mais velho do que eu, mesmo não sendo de verdade.

Eu nasci prematura por causa de meu pai – essa parte da história original foi mantida para não me sentir tão mal por mentir intencionalmente- ele forçou mamãe, ela disse que não podia, não estava se sentido bem, mas Charles não quis nem saber. Eu fiquei algum tempo internada na incubadora no hospital e quando Esme voltou para casa comigo nos braços, ele me derrubou do colo dela. Esme também suspeita que foi por causa dos maus-tratos de Charles que meu irmão morreu alguns dias depois de nascer por causa de uma infecção nos pulmões.

Pouco tempo depois Esme e Carlisle se casaram e adotaram meus irmãos. Mamãe sempre quis ter uma grande família e papai concordou com ela, é claro.

É essa a história que inventamos para mim e que os humanos sempre parecem aceitar.

...XXX...

Notas finais
https://www.google.com.br/maps/dir/Forks,+Washington,+EUA/Olympia,+Washington,+EUA/@47.5246065,-124.8142016,9z/data=!4m14!4m13!1m5!1m1!1s0x548e3e3073d1fad5:0xff8145429291a5f2!2m2!1d-124.3854867!2d47.950355!1m5!1m1!1s0x5491c9c1ae285569:0x4f146197e2881b83!2m2!1d-122.9006951!2d47.0378741!3e0 inspirado um pouco também no livro a hospedeira, eu li e gostei também. recomendo