A filha de Esme e Charles - versão 1
38 Capítulo 38
Rochester estado de Nova York, 1946
Certo dia no final da aula eu estou esperando Edward ao lado do carro dele e fico pensando...
Já faz mais de dez anos que eu vivo com minha mãe e meu pai adotivo. Não é meu padrasto, pois padrasto lembra madrasta, uma pessoa má e ele não é nada malvado. Muito pelo contrario é a pessoa mais bondosa que eu conheço, quer dizer, a segunda pessoa mais bondosa depois de Esme, é claro. Minha mamãe é a pessoa mais admirável que existe, eu sou fanática, devota, sou apaixonada por ela.
Carlisle é mais do que um pai adotivo para mim, ele me trata muito bem como nenhum homem me tratou antes, nem meu pai havia demonstrado tanto carinho por mim assim. Ele é afetuoso. O melhor pai do mundo. Carlisle é mais do que um pai adotivo para mim, ele cuida de mim e me ama como se eu fosse sua filha legítima. O que é verdade de certa forma eu sou mesmo sua filha legitima. Não por sangue mas por veneno. O seu veneno me transformou em vampira, as minhas células tem seu DNA. Nosso DNA de família.
Eu também estou morando mais tempo com ele do que eu vivi com Charles; se é que pode se chamar aquilo de vida. Eu não vivia, eu sobrevivia. Viver eu estou vivendo agora. É um pouco paradoxal, eu sei, mas eu me sinto mais viva, mais livre agora que eu estou semi-morta. Eu morei oito anos apenas com Charles, mas foram como décadas. Eu fui obrigada a amadurecer mais depressa do que qualquer outra menina da minha idade. Tive essa impressão que passou mais tempo do que realmente passou porque eu era tão maltratada, era sufocada, não conseguia viver tranquilamente, estava sempre com medo.
Isso me faz pensar no quanto mamãe deve ter sofrido antes de eu nascer. Esme e Charles foram casados por apenas cinco anos e ela sofria tanto que foi levada a fugir. Não apenas para salvar a própria vida, mas para salvar a vida de meu irmãozinho ainda por nascer. A gravidez foi o estopim o maior motivador para ela fugir, mas ela já estava no limite, não suportava mais a brutalidade de Charles. Ninguém merece passar por violência quer física ou psicológica, pior as duas juntas, nem ela nem eu merecíamos ter passado por isso.
Sem mencionar também a violência sexual de que ambas fomos vítimas dele.
Mas, infelizmente meu irmãozinho, Collin, esse foi o nome que mamãe disse que deu a ele, morreu poucos dias depois de nascer devido a uma infecção nos pulmões. Eu entendo quão arrasada mamãe ficou pois eu compreendi melhor com o tempo o que havia acontecido comigo. Perdi dois bebês. Nunca saberei se eram meninos ou meninas. Eu sou uma assassina, devo tentar ao máximo viver pacificamente para me redimir por ter feito isso. Nunca mais vou matar ninguém.
Entretanto, nós duas apesar do que sofremos durante nossas vidas humanas somos felizes agora. Ambas temos a família que sempre sonhamos, mamãe tem também o marido que ela sempre mereceu por ser tão afetuosa e eu tenho o pai que sempre mereci por ser uma filha tão dedicada e carinhosa.
Eu não tenho mais nenhum pesar, não me incomodo por nunca envelhecer ou crescer, não quero mais do que já tenho, estou feliz, realizada, posso dizer abençoada. Na verdade, eu até acho bom não ter medo da morte como os seres humanos, para eles essa é uma questão constante, eles podem esquecer, viver como se não houvesse morte, mas ela está lá e pode acontecer de repente quando eles menos esperam.
Se um dia eu desejei morrer foi somente por causa que eu não aguentava mais ser tão maltratada por Charles, ele me espancava quase diariamente e ainda queria que eu fizesse tudo direito não importava o quanto eu estivesse machucada e nem se estava doendo. Quando eu imaginava que não podia piorar mais ele teve a ‘brilhante’ ideia de casar comigo, só se fosse para ele que era uma boa ideia, porque para mim era uma sentença de morte, eu estava condenada, por fim amarrada para sempre a ele. Se eu tinha uma chance mínima de escapar, um casamento, agora não tinha mais.
E o pior ainda estava por vir, ele começou a me estuprar quase todos os dias. Eu sofria muito no começo. Ele queria que eu comparecesse quase todas as noites, meu corpo ainda era muito frágil, eu era uma menina ainda. Hoje diria que ele era um pedófilo, eu não tinha nenhum atrativo, não sei o que ele via em mim. Só podia mesmo ser doente.
Mas o que eu podia fazer? Nada. Eu era fraca, fraca por ser mulher — todas as mulheres são mais fracas que os homens, injustiça da natureza e os homens se aproveitam da força física para nos subjugar — e ainda mais fraca por ser ainda uma menina. Ele tinha mais de 30 anos a mais do que eu. Era uma covardia sem tamanho. Ainda bem que meu irmão o matou. Deus que me perdoe por ficar feliz com a morte de alguém, mas ele mereceu, me fez sofrer tanto... Foi certo o que ele fez? Claro que não! Aqui se faz aqui se paga. Um crime não anula o outro, mas ele bem que mereceu o fim que teve.
Mas agora tudo isso está no passado, acabou. Charles nunca mais vai voltar nem fazer mal para mim ou para Esme, nem para quem quer que seja da nossa família. Carlisle não permitiria e mesmo se Charles pudesse retornar não pode machucar nenhum de nós, pois não somos seres humanos. Apenas na aparência. Somos humanos sim, mas não seres humanos. Por isso podemos nos misturar e conviver com as pessoas sem chamar muita atenção. Sempre fui tímida e nunca gostei de ser o centro das atenções mesmo e isso é perfeito para mante nosso disfarce.
Agora estou feliz vivendo com a minha nova família, graças a mamãe que foi me buscar. Eu sabia que podia confiar nela e esperar o tempo que fosse necessário, pois uma mãe não esquece do filho jamais. Sei que Esme nunca vai esquecer meu irmão, Collin, — eu não pediria que o fizesse – e vai sempre guardá-lo com carinho na memória. Assim como eu também vou, mesmo não tendo conhecido ele, eu sei que seríamos bons amigos. Assim como eu também não vou me esquecer dos meus filhos. Eles não tem culpa por serem filhos de Charles, ele era um monstro, mas nossos filhos seriam cuidados por mim. Por terem um pouco de mim, não eram de todo maus.
Porém, eles não sobreviveram, e isso me causou muita dor e sempre vou lembrar deles com ternura. Quem sabe em outro lugar, talvez, Charles tenha encontrado nossos filhos. Ou não. As crianças estão no céu e Charles no inferno. E eu aqui porque não sou nem boa o bastante para merecer o céu e nem tão má para ir para o inferno. Não tenho nada do que reclamar, minha vida aqui é paradisíaca. O céu na terra. Finalmente tenho tudo que sempre mereci. Sou muito feliz. Abençoada; tenho a família que sempre quis. Sou imortal. Posso ter uma vida ilimitada e fazer quase tudo que eu quiser.
Só vampiros podem matar vampiros. E tenho que tomar cuidado por causa disso. Não quero perder a eternidade por uma brincadeira, por uma bobagem. Não quero pagar para ver para onde vamos depois que morrermos. Será que os vampiros vão para o mesmo lugar que os humanos quando morrem? Será que desaparecemos completamente?
Nisso somos tão impotentes quanto os seres humanos, não sabemos nada a mais do que eles sobre o lado de lá. Apesar de vivermos mais e não morrermos tão facilmente, temos as mesmas dúvidas que eles, não estamos no além como eles dizem. Esses questionamentos só não perturbam nosso espírito tão frequentemente quanto os humanos, mas também podemos refletir sobre isso e estacamos tão impotentes quanto eles frente a essa situação-limite. Será o fim da existência? Ou continuamos a existir em outro lugar?
Esme não foi me visitar antes, não porque ela não queria saber de mim, não foi isso, ela pensou que eu estivesse bem e segura sob os cuidados de minha vó Caroline. Ela não sabia, não tinha como saber ou adivinhar o que tinha acontecido (assim como Carlisle não sabia o que Esme passou). Por isso eu não tenho nenhuma mágoa nem rancor dela. Ela não me abandonou, só não sabia que eu estava em perigo, para Esme eu estava segura. Mais segura com vovó do que com ela, uma vampira-recém criada.
Poderia acabar mal. Carlisle com certeza não teria nenhum problema em cuidar de mim enquanto eu ainda fosse humana, mas ele teria que sempre me proteger de minha própria mãe. Ele teria que não só cuidar de mim, mas também cuidar dela e teria que me levar ao trabalho dele, não daria certo... É melhor que tenha sido assim. É melhor que eles tenham ficado afastados, mesmo que eu tenha preciso sofrer durante algum tempo até estar pronta e poder ser convertida e entrar para a família Cullen.
Gosto tanto de meu nome. Angeline Platt Cullen. É um nome maravilhoso. Meus amigos, os colegas da escola, me apelidaram de Angel. Adorei! Até mesmo em casa me chamam mais de Angel do que de Angeline. Alguns professores ás vezes também me chamam pelo apelido na hora da chamada. Isso é tão legal! Mostra o quanto eu sou querida porque sou uma excelente aluna e sempre respeito os professores. Eles estão aqui para ensinar e nós precisamos ter humildade para reconhecer e admirar o que eles fazem e saber que viemos para aprender.
Fiquei ainda mais feliz sabendo que mamãe foi professora também. Eu já sabia é claro, mas a minha memória humana esqueceu esse mínimo detalhe...
Um casal estranho se aproxima de repente e eu fico com medo. Eu nunca os vi antes, os dois são vampiros também. Tenho razão em ficar apavorada. Se eles quiserem me machucar eu não poderei me defender, serão dois contra uma e eu vou perder na certa.
Fico cada vez mais nervosa a medida em que os dois caminham em minha direção. Mando uma mensagem telepática para Edward pedindo socorro. 'Onde será que ele está? A aula já acabou porque ele não vem? O que ele está fazendo? Edward, por favor, socorro! Edward!’
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