A filha de Esme e Charles - versão 1
19 Capítulo 18
Notas iniciais
Angeline PDV
Pensando nele... Charles desce as escadas, chega à cozinha e senta-se a mesma. Não diz bom dia e nem eu. Nunca foi assim aqui em casa. Ele não gosta de ouvir nenhum cumprimento. Nem bom dia, nem obrigado, nem desculpa… nem nada disso.
Eu sirvo seu café na xícara em sua frente. Ele toma, mas não engole, vira de lado e cospe todo o líquido negro:
— Eca, que melado, Charlotte!
Me preparo para o tapa que é a punição que eu sei que vou levar, e fecho meus olhos.
É sempre assim, ou a comida está com muito sal ou sem sal. Ou o café está com muito ou pouco açúcar. Até mesmo com a temperatura da refeição, se muito quente ou morna ou fria, Charles implica. Quando ele diz isso eu sei que é porque não tem outro ‘defeito’, é seu ultimo recurso. Mas isso me magoa mais do que eu gostaria. Ele sempre encontra um defeito no que eu faço. Nunca o agrado. Nunca está bom. Nunca ouvi nenhum elogio. Nada.
Quando eu limpo a casa também é assim, mesmo que eu ache que varri e passei pano direitinho. Charles sempre encontra algo para reclamar. Ou o piso está molhado porque eu acabei de passar pano e não deveria deixar, deveria secar logo. Ele diz: ‘ Tá querendo me matar Charlotte?’. Esse nome que meu pai colocou em mim não é feio, mas eu não gosto muito.
Até mesmo a louça que lavo, ele fica fiscalizando se eu lavei direito. Essa vida é uma tortura. Se é que pode ser chamada de vida. Eu não vivo, eu sobrevivo. Uh! homem exigente e difícil de agradar. Acho que é até mesmo impossível agradá-lo. Vou acabar enlouquecendo ou fugindo como a mamãe. Mas eu não tenho para onde ir, não posso fugir. Tenho de me sujeitar a meu pai ao menos enquanto eu for criança, isso quer dizer até eu ter 18 anos ou me casar.
Tomara que apareça um rapaz gentil que se interesse por mim e queira se casar comigo e me tire daqui...
Mas e Esme? Como ela vai me encontrar se eu for embora? Não vou mudar de cidade, vou morar perto de onde era a casa de minha avó, onde ela havia me deixado e onde eu estaria ainda se não fosse Charles ter me buscado. Eu só não quero morar com ele para sempre. Quero sair daqui, apenas sair daqui já é excelente. Isso não é vida. Deus me ajude!
A punição pela falta realmente veio, mas não da forma que eu esperava. Sabia que Charles estava demorando para me bater. O que será que ele vai fazer?
Ele levantou-se da cadeira, virou sua xícara e derramou a bebida na minha cabeça:
— Para você aprender a fazer café decente, sua idiota – ele gritou para mim.
Saí da cozinha chorando e correndo em direção a lavanderia que ficava nos fundos da casa.
Choro mais pelo fato de ele ter gritado comigo, pois sou muito sensível. e isso vivendo com Charles é ruim, estou sempre chorando. Mas o líquido não estava muito quente e não me queimou. Ainda bem. Graças a Deus!
O café estava morno assim como a água tem de estar para tomar banho num dia frio de inverno. Olho e percebo que meu vestido está todo encharcado e manchado. Tiro ele e coloco de molho para depois eu lavar.
Me envolvo numa toalha e me inclino na frente do tanque para lavar meus cabelos.
Depois que faço isso, subo para o quarto e sento na cama. Mais calma, eu penso: ‘pelo menos Charles não me bateu. Isso é um avanço. ’ Se é que pode ser considerado um progresso, ou eu estou redondamente enganada.
Coloco uma roupa limpa, enrolo os cabelos molhados na toalha e desço para fazer o almoço.
...XXX...
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