A feiticeira perdida
5 Eu ouvi o começo de um final feliz
Notas iniciais
Eu acordei com a luz da manhã penetrando em meus olhos. Finalmente acordei do sonho. Estou em meu quarto novamente. Bom, eu não podia estar mais errada. Quando consegui abrir definitivamente os olhos eu percebi que estava em lugar desconhecido, ou melhor, no lugar do meu suposto sonho. Acho que foi nesse momento que caiu a ficha. Eu não estou sonhando.
Eu levantei da cama e me apoiei nela para impedir minha queda. Eu...fiz mesmo tudo aquilo. Eu fiz um garoto desaparecer. Eu fui raptada por três velhas que quase me mataram. E depois eu fui raptada por uma garota de cabelos ruivos e um garoto de cabelos loiros. Eu fiz um carro voar. Eu vi vassouras voadoras. E eu...
Uma batida na porta interrompeu meus pensamentos.
–Posso entrar?- ouvi uma voz masculina.
– Cla...Cla...Claro- disse gaguejando.
Jace entrou pela porta. AI. MEU. DEUS. Se isso não era um sonho, então eu realmente havia falado para um garoto desconhecido que ele era gato, que tinha olhos profundos e um sorriso magnifico.
– O que aconteceu? Você está pálida.- ele disse enquanto fechava a porta.
– Não. Não. Não pode ser.
Ele se aproximou e eu me afastei, derrubando o despertador que estava em cima de uma pequena mesa.
– Eu já disse que pode confiar em mim, Jennifer.
– Isso não está acontecendo. Não. Não.
Ele segurou meu rosto e disse:
– Jennifer. Isso está acontecendo e você precisa lidar com isso. Sim, eu sou real. Esse mundo é real. Tudo isso é real. Você não pode ficar no escuro para sempre.- eu me ouvi proferindo as mesmas palavras ao meu pai.
E um pensamento passou pela minha mente. Eu preciso saber o que está acontecendo.
– Eu não sei exatamente o que está acontecendo aqui. Eu só...preciso saber o que meu pai escondeu de mim por todos esses anos.- eu disse afastando suas mãos.
– Claro, princesa.- ele disse assumindo um ar sério- Só acho que é melhor você trocar de roupa e comer alguma coisa. Eu te espero lá embaixo para dar-lhe todas as respostas que precisa.
Ele deu aquele mesmo sorriso que me deixou mais confortável assim que ele saiu pela porta. Eu olhei para mim mesma. Eu estava usando um vestido longo, sujo e rasgado.
Depois de alguns minutos, consegui achar o banheiro. Tomei um banho relaxante e abri o armário localizado em meu quarto.
Eu fiquei maravilhada. Sim, eu fico maravilhada com coisas simples. Já que eu fiquei minha vida inteira presa em um castelo. Ali no armário estavam roupas comuns. Nada de corpetes, gaiolas ou vestidos longos e bufantes. Apenas shorts, calças e blusas normais. Nada de saltos gigantes e brilhantes, apenas tênis, sapatilhas e chinelos.
Eu coloquei um short jeans, uma blusa branca básica e um tênis vermelho que tinha os dizeres "all star". Eu desci os lances de escada rapidamente. Eu precisava saber imediatamente o que estava acontecendo com a minha vida.
Eu encontrei duas garotas sentadas na mesa da sala. Uma delas eu já conhecia: Julie. Ela estava com os cabelos ruivos presos em um rabo de cavalo, vestia uma blusa do Green Day, calças pretas e um tênis da mesma cor. E uma outra garota estava a sua frente. Ela tinha cabelos loiros que estavam presos em um coque e usava um vestido rosa choque com sapatos combinando. Meus olhos doíam só de olha-la. Rosa demais para uma pessoa só.
– Olá, princesa.- disse Julie.
A garota de rosa voltou sua atenção para mim. Ela se levantou e veio em minha direção.
– Então, você é a famosa princesa Jennifer.- disse ela bufando- Eu sou Darla. Uma simples bruxa.
– Bruxa?- eu perguntei. Era isso o que eu era?
– Darla.- disse Julie com uma voz repreendedora.
– O que?
– A princesa não conhece nosso modo de vida.
Darla riu alto.
– Você está querendo dizer que a nossa suposta salvação não sabe ao menos usar os próprios podere? Isso é uma piada!
– Darla!- repreendeu Julie novamente se levantando.
– Está bem, Julie. Mas você sabe tão bem quanto eu que ós temos um grande problema morando conosco. É melhor eu subir.- ela subiu deixando Julie pasma.
– Desculpe por Darla. Ela pode ser um pouco... temperamental.
Eu assenti, peguei uma maça que estava em cima da mesa e fui até a frente da casa. Jace estava me esperando ali.
– Pronta, Vossa Alteza?
– Cala a boca. Idiota- eu disse dando uma mordida na maçã.
– Então, já descobriu que isso não é sonho?
Eu corei lembrando-me do que havia falado pra ele no dia anterior.
– Sim. Descobri que não é um sonho, mas ainda gostaria de saber o que está acontecendo.
– A senhorita já vai saber. Vou leva-la à Dinorá.
– Dinorá?
– Ela é a líder de nosso grupo.
– Grupo?
– Grupo de bruxas. Tecnicamente.- para entender o que estava acontecendo eu precisava acreditar nisso e era o que estava tentando fazer.
–Por que tecnicamente?
– Nem todos aqui são bruxas ou bruxos. Temos outras criaturas sobrenaturais. Como anjos e centauros.
– Tá. Existem anjos, bruxas e centauros.
– Além de outros.
– E o que você é?
– Eu sou uma longa história.
– Eu tenho tempo.
– Não você não tem. Acabamos de chegar.
Eu vejo uma pequena casa feita de madeira.
– Dinorá gosta de coisas simples. Ela está te esperando. Espero que consiga descobrir alguma coisa. Boa sorte, Vossa Alteza.- ele fez uma reverencia.
Eu revirei os olhos, fazendo-o rir. Dei um grande suspiro e bati na porta de Dinorá. Isso não podia ser um sonho. Eu nunca poderia imaginar que tudo isso pudesse existir.
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Eu entrei em uma sala escura com apenas uma mesa feita de madeira escura e algumas cadeiras. A mulher de meu sonho estava parada na minha frente em pé. Aquela com os cabelos longos e loiros. Por que eu sonhara com ela se eu nem se quer tinha a conhecido?
– Jennifer- ela disse- Você é igualzinha a sua mãe, querida.- ela disse enquanto fazia uma menção para eu me sentar. Foi o que fiz enquanto ela fazia o mesmo.
– Você conheceu minha mãe?
– Ela era minha melhor amiga, sabe.- ela disse com os olhos marejados.- Era como uma irmã pra mim.
Eu me mantive calada para que ela continuasse. Se ela queria me dar informações, eu iria ouvir com a máxima atenção possível.
– Bom, mas você quer informações. E acho melhor começar por onde você está.- ela disse e eu assenti para que continuasse- Bom, nós nos chamamos de a septuagésima comunidade de bruxas e criaturas esplêndidas.
Ela ficou quieta por alguns minutos para que eu pudesse assimilar. Bruxas existem. E o que mais pode existir se isso é possível?
– E a senhora é uma bruxa?- perguntei casualmente.
– Sim, querida. E não me chame de senhora, por favor. Me chame de Dinorá. Não gosto de formalidades.- ela disse com um sorriso amigável que me fez confiar nela. Se minha mãe um dia pode confiar em Dinorá, acho que poderia dar-lhe uma chance.
– E minha mãe? Ela também era uma bruxa?- perguntei receosa. Eu nunca soube sobre minha mãe. Meu pai só falava que ela era uma mulher encantadora e que era muito parecida comigo. E, repentinamente, eu descobri que havia uma pequena chance dela ser algo que eu nunca pensei que poderia existir.
– Não, Jennifer. Ela era algo mais especial. E já naquele tempo, ela era uma das últimas da terra. Sua mãe era uma feiticeira.
Ela percebeu minha cara de confusão. Qual é a diferença entre bruxas e feiticeiras?
– Feiticeiras são bem diferentes de bruxas. Como eu disse, são especiais. Feiticeiras são seres da luz. Elas possuem poderes que bruxas nunca sonhariam em ter. Esses poderes são controlados apenas por emoções e pelo coração. Eu acho que é a coisa mais linda sobre as feiticeiras. Elas são guiadas pelo amor e pela felicidade.
– Então, bruxas são seres das sombras?- perguntei confusa não querendo insulta-la.
Ela deu uma pequena risada e depois falou:
– Não, querida. Nós somos seres livres. Podemos escolher em que lado atuar. Podemos escolher entre a luz e a treva. Em nossa comunidade, sempre fomos seres da luz. Sempre tentamos fazer o bem. Já as três irmãs que te raptaram, optaram pelas trevas. Elas já fizeram parte de nossa comunidade, mas quando não era nascida. Elas formaram o próprio clã e estão nele até hoje. Mas isso é outra história. Eu tenho uma coisa para te contar sobre sua mãe e , consequentemente, sobre você. Se você estiver disposta a ouvir.
Eu consegui assimilar tudo o que ela estava me contando. Se eu esperava entender tudo,eu precisava acreditar em cada letra que Dinorá estava proferindo.
– Claro, senho... Dinorá. Eu preciso de toda a informação possível. Eu quero saber o que está acontecendo de verdade.
– Eu entendo sua confusão, Jennifer. É muita coisa para se assimilar de uma vez só. Mas você não pode ficar sem saber de sua própria origem.- Eu assenti e deixe-a continuar.- Eu e sua mãe nascemos nessa comunidade. A minha mãe e a dela eram melhores amigas. Nascemos no mesmo período e nos tornamos melhores amigas. Só existiam três feiticeiras existentes na época: sua mãe, sua avó e Lucy, uma feiticeira que morava no sul da Europa.
"Nós crescemos juntas e nos tornamos melhores amigas. Mas desde o começo percebi que sua mãe era diferente. Não só por ser uma feiticeira. Ela queria coisas diferentes do que o resto da comunidade. Ela não queria passar toda a sua vida presa ao meio da floresta trabalhando para o bem das bruxas. Não entenda mal. Ela queria que toda a comunidade ficasse bem, mas ela achava que havia algo mais na vida do que ser uma feiticeira ou qualquer criatura esplendida.
Com quinze anos, ela começou a visitar a única biblioteca existente na comunidade. Carlotta ficava horas ali, lendo inúmeros livros que, em sua maioria, eram escritos por humanos. Como Jane Austen, Shakespeare e outros autores de clássicos. Ela sonhava com esses romances, ela queria aquilo para ela mesma, algo normal. Mas assim que fizemos dezoito anos e terminamos a escola PBCE( Para bruxas e criaturas esplêndidas.), o conselho nos falou que para mantermos nossas casas precisávamos trabalhar. Nessa época, o conselho era muito rígido com esse tipo de coisa. Eu logo consegui um emprego em uma loja de elementos mágicos no Centro.
Porém, Carlotta não admitia que o Conselho a obrigasse a fazer o que não queria. Sua avó estava doente em casa e Carlotta precisava ajuda-la. O Conselho não dava a mínima para isso, diziam que se ela não arranjasse um emprego até o dia quinze de dezembro de 1982, o ano que nós estávamos, eles iriam expulsá-la da comunidade para sempre. No dia dez, sua avó veio a falecer. Isso deixou Carlotta arrasada por três dias. No dia treze eu conversava com ela desesperadamente sobre o Conselho. Nós duas sabíamos que o que eles estavam fazendo era errado. E como usualmente, ela veio com um plano.
Ela procurara na biblioteca os arquivos com as leis do Conselho e descobriu que se alguém que trabalhasse na Comunidade marcasse uma reunião com todos os moradores, eles eram obrigados a aceitar. Ela deu a ideia de eu fazer uma proposta de uma comunidade com regras mais arbitrarias. E foi assim que eu virei a Presidente do Conselho. Enquanto eu fazia a proposta na sala principal, sua mãe disse que precisava espairecer. Muito estava passando pela cabeça de Carlotta naquele momento. Sua mãe, a única coisa que a prendia ali, havia falecido.
Então, foi dar uma volta na floresta, parte de nossa comunidade. Ela caminhava quando encontrou um homem sangrando a margem de um lago. Ela correu até esse homem e percebeu que ele havia sido mordido por uma cobra. Imediatamente, ela sentiu uma simpatia pelo homem. Ela usou seus poderes para curá-lo e sem ninguém saber o levou para casa. Ele acordou um dia depois e eles se apaixonaram instantaneamente. Eles passaram cinco dias juntos naquela casa sem ninguém saber. Até que eu descobri o pequeno segredo de sua mãe. Eu fiquei muito irritada com ela. Como ela podia trazer um humano para dentro de sua casa? E, o mais importante, como não me contara nada?
Depois de alguns minutos conversando ela me explicou a história. Dizendo que ela se apaixonara por ele, seu nome era Frederick e ele era rei da pequena ilha onde nós morávamos. Ela contara tudo para ele, que ela era um feiticeira e tudo mais. E por menos que pareça, ele aceitou tudo. Então, ela soltou a notícia bombástica: iria fugir com Frederick para seu castelo onde iriam se morar juntos. Primeiro eu fiquei paralisada mas depois aceitei que aquilo sempre fora o sonho de sua mãe. Eu a ajudei a fugir e a fiz prometer que me convidaria para o casamento.
Carlotta se casou com Frederick somente dez anos depois, em 1992. Ela convidou todas suas amigas e amigos da comunidade além, de todo o reino. Foi o casamente mais lindo que já vi. Naquele momento eu juro que pensei : Carlotta finalmente poderá ser feliz para sempre."
Uma lágrima caiu do rosto de Dinorá. Ela realmente era amiga de minha mãe. E eu mesma não podia dizer que não estava emocionada. Meus olhos estavam marejados com lágrimas prestes a cair. Acho que foi aí que eu realmente acreditei na história de bruxas e todo o resto. Eu queria que minha mãe estivesse comigo, que nos duas pudéssemos construir um final feliz.
Ela secou as lágrimas e olhou no fundo de meus olhos.
– Jennifer, você precisa estar preparada para o fim da história. E posso te adiantar que não chegou nem perto de um final feliz.
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