A família de hoje em dia

1 Capítulo 1 - Conhecendo os Carlile


- E então Michael, como eu estou? – disse Sara, exibindo seu vestido estampado, com um decote bem generoso, na altura dos joelhos.

- É, até que eu pegava... – Fala ele ao olhá-la rapidamente.

- Vou considerar isso como um elogio, já que vem de um homem que, definitivamente, não sabe agradar uma mulher. É tão difícil assim dizer “você está linda, querida”?

- Você está linda, querida! Satisfeita? Está mesmo? Prefere ouvir boas palavras vazias ou más palavras sinceras?

Sara respira profundamente e então responde:

- Vou levar Martin e Julie para o colégio hoje, provando a boa mulher que sou, mas Tomas você leva mais tarde. Ligaram ontem dizendo que a professora da primeira aula dele ia faltar, então a aula vai começar hoje um pouco mais tarde. Enfim, leve-o quando for ao trabalho, okay?

- Certo, certo. Ei, vem cá... Você ainda é tão bela quanto há 31 anos atrás... Digo, há 26 anos... – Diz ele ao se levantar da cama e apertá-la em seus braços.

- Cuidado com o que diz, segredos não foram feitos para serem ditos.

- Quem melhor que você para dizer isso?

Julie fica à espreita na porta do quarto de Martin e o vê dançando ao som de seus fones de ouvido, então entra subitamente e surpreende-o.

- Uma coisa é ser gay, outra é ser drag Queen. Essas músicas que você dança e canta só provam mais ainda meu ponto de vista. – Diz ela olhando-o com certa negação.

- Ei eu gosto de vários tipos de música, mas certas músicas precisam ser dançadas. É lei. E é só uma maneira de me espreguiçar de manhã... Você não tem mais o que fazer não?

- Calma, garoto. Só vim avisar que a mãe tá esperando você lá embaixo. Você pode ser passivona, ativo, drag, o que for. Eu deixo.

- Me sinto muito mais aliviado agora... – Diz Martin ironicamente, revirando os olhos.

No carro, Julie fica mexendo no rádio a procura de uma música qualquer que a agrade, mas não consegue achar uma sequer. Então Sara desliga o rádio.

- Mãe! – Reclama Julie.

- Esse é um dos poucos momentos que tenho para conversar com vocês, que tal aproveitá-lo em vez de ficar dedando esse rádio? – Então Sara respira fundo e continua – Vocês sabiam que sexta-feira seu irmão chega aqui na cidade? – Diz ela dando partida no carro.

- De que adianta, ele só vai ficar dois ou três dias e viajar de novo... E não traz nem um chaveiro pra dizer que trouxe algo, miserável – Diz Martin.

- Verdade... De onde ele tá vindo? – Pergunta Julie.

- Não fale assim do seu irmão, Martin! Quem se gradua em comércio exterior tem que viajar mesmo. E assim ele está se tornando um grande homem de negócios. Acho que está vindo da Venezuela, ou da Colômbia, não sei direito, Julie.

- Hum, sei. – Diz Julie, não muito convencida.

O assunto parece acabar por alguns minutos, mas então Julie continua:

- Sabia que eu e o Martin vamos cantar no festival de talentos? Claro que a gente perdeu uma aposta e...

- Você fala como se não quisesse aparecer pro colégio inteiro – diz Martin interrompendo Julie.

- Sim, Martin, eu quero aparecer e mostrar todo meu talento. Mas não num festival de talentos qualquer... Até porque ainda há muita gente infantil nesse colégio, que não sabe se comportar. Vaias são a resposta pra tudo, ou fofoca. Se não gostou, fica na sua. É assim que eu penso.

- Você fala isso sendo uma queridinha com uma boa voz. Quero ver quando o que não tem uma voz tão boa for cantar. Bullying é a resposta.

- E por que você ainda vai cantar nisso, Martin? – Pergunta Sara.

- Por que eu não sei dizer não. E isso é um problema muito grande. Pediram minha ajuda pra completar o grupo e eu disse que sim. Quão ridículo alguém pode ser, hein?

- Deixa disso, vai ser bom. Eu espero... – após uma breve pausa, continua — Enfim, chegamos. Tchau, mãe! – Diz Julie.

- Tchau, boa aula pra vocês!

- Brigado, mãe. – Responde Martin, saindo do carro.

Ainda em casa, Michael espera Tomas na cozinha. Assim que o menino desce as escadas, pergunta:

- Hoje você vai encontrar aquela moça?

Michael olha para seu filho com um olhar surpreso. Então, termina seu café, pega suas chaves e sai da cozinha. Seu filho o acompanha. Ao parar na sala, quase à porta, põe-se a perguntar:

- Que moça, Tomas?

- Aquela loira, que você quase beijou ela.

- Do que você está falando, menino?! Já tomou seu café da manhã?

- Sim...

- Então entre no carro.

No carro, Tomas continua a falar:

- Teve um dia em que você teve que voltar na delegacia pra pegar o celular que tinha esquecido. Eu fiquei no carro por que você achava que eu tava dormindo. Mas eu não tava. Aí eu vi você na saída da delegacia beijando ela. Uma loira, acho que ela trabalha com o tio Robert...

- Do que está falando? Eu não a beijei... Não na boca pelo menos. Foi no rosto, como cumprimento. Você deve ter visto errado. E ela trabalha sim com seu tio, é a parceira dele no caso do meu pai.

- São eles que estão tentando descobrir quem matou o vovô?

- Sim, sim. São eles. Tomara que descubram...

Momentos depois após deixar Tomas na escola, Michael pensa na morte de seu pai enquanto dirige para a delegacia.

-“Uma morte tão súbita, tão repentina. Imagino se ele sentiu muita dor. Ou se morreu na hora do impacto. Espero que tenha sido rápida, indolor. Apesar de toda a tristeza foi uma morte que mudou minha vida. – Enquanto as palavras transitam pela mente de Michael, imagens começam a surgir, mostrando bons momentos com o pai, e, após a cena do acidente passar pela sua mente, bons momentos com a família – Foram os dois lados de uma moeda. A cara seria a morte de meu pai. A coroa, sua herança...

Ao chegar à delegacia, Michael cumprimenta o guarda da portaria. Continua andando em frente, passa da portaria e de umas duas salas. Na terceira sala, escuta duas pessoas conversando. Tenta escutar um pouco, mas logo desiste ao perceber que estava tão baixo que se tornava imperceptível. Então entra na sala, interrompendo o assunto apenas com sua presença.

- Bom dia, Michael. – Diz Robert e Carol.

- Bom dia. E então, vocês descobriram algo ou estão só jogando conversa fora?

- Apesar de termos começado hoje a investigação, já conseguimos a placa do veículo que atropelou nosso pai. Acho que você deveria considerar mais o trabalho do seu próprio irmão, não acha? – Disse Robert.

- E eu já estou levando o número da placa pro Nicolas saber quem comprou o carro. Volto logo. – Diz Carol, saindo da sala.

- Bom trabalho vocês dois. São com essas ações que me fazem considerar seu trabalho. Não vou preciso ficar falando o quanto acho que você faz um bom trabalho. Mas isso ainda é a parte fácil, difícil vai ser achar a pessoa que estava dirigindo. Vinte e cinco anos é muito tempo.

- E por que você quis voltar a investigar esse caso logo agora? Já foi fechado há muito tempo. Alguém, provavelmente bêbado, atropelou nosso pai e fugiu. Caso simples e fechado.

- E um bêbado qualquer não deixou nenhum rastro? Conseguiu fugir sem se machucar e sem ser pego? Isso me incomoda muito, e devia te incomodar também. Reabri esse caso essa semana por que foi a primeira, em anos, que está bem vaga. E um caso como esse é preciso tempo livre.

- Bom saber que alguém ainda se importa com nossa família...

- Obrigado, eu acho... Vou ver se a Carol já achou algo. – Diz Michael saindo da sala...

Estão todos sentados a uma mesa redonda. Cada um com seu jeito particular, com seu próprio modo de se assentar. Yan ao lado de Julie, fazendo questão de sentar do lado dela. Sempre. Pensando que é uma forma de demonstrar o carinho que ele tem por ela. Os outros sentam aleatoriamente em relação a eles mesmos, incluindo Martin, mas cada um com suas manias. Martin movimentando as mãos a fim de enfatizar o que é dito. Beatrice roendo as unhas. Não por preocupação, mas como uma mania que ela tem dificuldade de parar. E Matthew com seu jeito despreocupado, prestando atenção na conversa, mas nunca olhando nos olhos de quem fala por muito tempo, para não mostrar muito interesse. Também uma mania, já que ele faz isso mesmo quando o assunto é interessante para ele. Então, Martin põe-se a falar com certo tom de revolta.

-É o seguinte, eu quero desistir. Não quero cantar nessa droga de festival!

- Claro que não vai desistir. Faltam só duas semanas! – Exclama Yan.

- Ainda bem que não me meti nessa besteira toda. Só perda de tempo... – Diz Matthew – Prefiro muito mais meu campeonato que vai ser no mesmo dia. Ganho muito mais com isso.

- Garanto que daria pra você fazer os dois. – Fala Beatrice para Matthew.

- Não desanime agora, Martin! Daqui a pouco vamos estar na universidade e são esses micos que vamos levar do colégio. – Afirma Julie.

- Concordo. – Diz Yan.

- Quando é que vocês não concordam um com o outro? – Diz Beatrice – Vocês já podem criar opiniões separadas viu. Nojo de casais assim.

- Tão sutil essa Beatrice. Enfim, tá certo então. Eu vou cantar nessa droga. Mas só se mudarmos um pouco as músicas. Por que de gay já basta eu.

- Isso eu concordo. – Diz Matthew – Tanto em trocar as músicas como de gay já basta o Martin.

- A gente vê isso mais tarde. Já é quase hora de voltar pra aula mesmo. Vamos? – Diz Julie, se levantando da mesa onde estavam.

Então todos se levantam e caminham para a sala de aula. Yan abraçando Julie, Martin reclamando dos comentários de Matthew e Beatrice conferindo seu celular, numa vaga esperança de haver alguma notificação de uma rede social qualquer.

De volta à delegacia, em uma sala pequena, Michael e Carol sentam-se a uma mesa , de lados opostos. Então põem-se a fala sobre o caso Lester.

- O que você conseguiu achar? – Pergunta Michael.

- Nicolas encontrou o dono do veículo. No caso, a dona. O nome dela é Shirley Solar. Claro que esse é o nome dela antes da cirurgia. Na época, o nome era Lucas Castelo. Fez a cirurgia dez anos depois do acidente.

- Bom saber... Enfim, hoje a tarde iremos a casa desse Lucas. Digo, Shirley. Do suspeito. Suspeita. Enfim...

Depois de um breve sorriso, Carol questiona:

- Você está meio estranho hoje... Aconteceu algo ou é só por causa do caso Lester mesmo?

- Na verdade, aconteceu. Hoje pela manhã Tomas disse que nos viu nos beijando. Mas eu disse que foi só impressão dele.

- Ele disse que viu isso quando? – Diz ela surpresa.

- Num dia qualquer, no fim do expediente.

- Engraçado... Como ele viu se nós somos tão discretos? – Diz ela mudando seu tom de voz, tornando-o mais sussurrado, sexy.

E então Carol dá a volta na mesa lentamente enquanto passa a unha na mesa delicadamente. Vai andando até Michael, senta no colo dele, beija seu pescoço duas vezes e depois sua boca.

- Espere... – Diz ele interrompendo o beijo vagarosamente – Tranque a porta.

Sara, sentada no sofá de sua casa, liga a televisão e disca no telefone o número de uma de suas amigas, que também é sua vizinha.

- Oi, Telma! Como você tá? (...) Eu liguei pra saber se tem alguém precisando de uma arquiteta. (...) Eu sei, eu sei que é estranho eu estar ligando pra saber uma coisa dessas, mas é que quero muito trabalhar em casa mesmo e achei que ligando pras amigas seria um jeito mais fácil. Mas também sei que é confiar demais na sorte... Enfim, você tem? (...) Maravilha! Era mais ou menos isso mesmo que eu procurava! Então, quando eu posso ir ver esse casal? (...) Ótimo, vou sim. Muito obrigada mesmo, Telma! Te adoro, tchau!

Ao chegar da aula, Martin abre a porta de casa e a vê desligando o telefone.

- Quem era no telefone?

- Telma, a vizinha aqui do lado.

- Qual das?

- A que é gay, casada com uma mulher.

- Já chega dessa palavra por hoje pra mim, já ouvi “gay” demais. – Ele dá uma breve pausa esperando que sua mãe pergunte por que ele diz isso, mas não obtém sucesso já que ela está muito concentrada no comercial da televisão, então prossegue — Enfim, arranjou algo pra fazer?

- Sim. Ela tem um casal de amigos dela que precisam de uma decoradora para o quarto do bebê que eles estão esperando. Vou visitá-los amanhã na casa deles. – Ela dá uma breve pausa ao prestar atenção em outro comercial, então continua — Telma disse que me liga mais tarde só confirmando mesmo... E seu colégio, como foi?

- Normal, o de sempre. Agora deixa ir me arrumar que vou já sair com o George.

- Ele faz o que da vida mesmo? – Pergunta ela intrigada.

- Estuda.

- O quê?

- Direito.

- Bom saber...

Ele ainda pensa em perguntar o porquê da desconfiança, mas percebe que está meio atrasado e desiste de perguntar.

- Enfim, fui. – Diz ele subindo as escadas.

Num momento inoportuno alguém bate à porta. Carol recompõe-se, fecha o botão da blusa e abre apenas uma brecha da porta da pequena sala.

- O que você quer aqui, Nicolas? – Diz ela com uma certa raiva.

- Vim deixar o endereço do lugar que esse Lucas mora. Na verdade mora e trabalha. É um cafetão. No caso, cafetã. De um lugar chamado Sexy Nights. Acho que você deveria ir com o Michael ao invés do Robert pra terminar o serviço que começaram aqui. Além de que esse lugar é a tua cara.

- Obrigada e vá pra puta que pariu. – Diz Carol com um tom bem sarcástico, fechando a porta na cara do Nicolas.

- Adoro a relação entre vocês... É tão delicada. – Diz Michael.

- Cala a boca...

- Por que você ficou tão hostil de repente? – Pergunta ele confuso.

- Porque às vezes fico pensando... E se ele tiver razão? Se eu realmente for a puta da história? Me diz Michael, você realmente quer ficar comigo ou sou só mais uma? Um passatempo talvez?

- Claro que você não é – Diz ele se levantando e olhando nos olhos dela — Eu nunca havia feito isso antes. Sempre fui fiel... Mas com você é diferente, com você eu me sinto vivo. E isso não acontece com a minha mulher...

- E até onde você pretende levar nossa relação? Ou você vai ficar me enrolando o resto da vida?

- É complicado... Eu me casei não só com a Sara, mas com meus filhos também e...

- Os filhos quais eu também adoro – Diz Carol interrompendo-o.

- Você mal os conhece!

- Mas...

- Tudo bem. Eu sei que no futuro você vai se dar muito bem com eles. Só acho que agora não é o momento certo. Já estou sob muita pressão em relação a tudo. E essa investigação me deixa ainda mais tenso. Eu só quero um momento de paz para poder falar pra Sara que acabou...

- Tudo bem, só não vou esperar pra sempre.

- Robert? – Diz Sandra pelo celular.

- Oi, meu amor. Ia já te ligar, mas...

- Tudo bem, eu só estou ligando agora por que preciso que venha buscar o Tomas aqui na escola. Ele não está muito bem. Disse que estava enjoado, acho que é algo que ele comeu. Se não puder, avisa a Sara ou o Michael, certo?

- Não, não, eu mesmo vou. Aproveito para te ver. Além de que Michael está investigando o caso do pai dele. E Sara não é muito do tipo que gosta de ser incomodada...

- Não fale assim, ela não é desse jeito quando se trata dos filhos dela!

- Verdade, foi mal.

- E como anda a investigação?

- Muito bem eu acho. Carol e Michael estão indo falar com o suposto dono do carro que atropelou Lester.

- Hum. Não sei o porquê, mas eu não vou com a cara daquela Carol. Pra mim ela esconde algo.

- Não sei, às vezes sinto o mesmo, mas ela é tão legal, não acha?

- Pode ser... Tenho que ir, amor. A aula vai já começar e esses meninos precisam de mim... – Diz Sandra pausadamente por conta da escada que estava subindo rapidamente.

- Certo. Avisa pro Tomar que vou estar aí em dez minutos, okay?

- Okay. Até mais tarde.

- Até!

Carol e Michael chegam no Sexy Nights por volta das duas da tarde, e logo têm suas primeiras impressões...

- Definitivamente não é um local familiar... – Diz Carol ao ver a pintura na entrada do local. Era um tipo de mulher, ou, no caso, só suas pernas, como se estivesse sentada com as pernas abertas de frente para quem chega, em um formato de “M”. E a entrada, uma porta totalmente preta, seria o tipo de depilação dela: bigode de Hitler – O que me impressiona é a criatividade para sacanagem dessas pessoas.

Então os dois entram no bordel. Cabaré é mais apropriado, já que dá impressão de um lugar menos luxuoso. Michael, mostrando o distintivo, pergunta ao segurança onde Shirley Solar se encontra e o segurança aponta para uma sala no final de um corredor. Para chegar nesse corredor, eles tiveram que passar do lado de uma funcionária do local treinando suas habilidades no pole dance. Carol se sentiu desconfortável com a situação, Michael nem tanto.

Ao entrarem na sala interrompem Shirley e Natasha, uma de suas profissionais que parecia estar aprendendo novos movimentos sensuais.

- Saia, Natasha. Essa belo casal parece estar atrás de informações – Diz Shirley para sua funcionária que logo saiu do local – O que desejam?

- Como você mesma adivinhou, informações – Diz Carol.

- Sentem-se, por favor – Diz a cafetã indicando o sofá em frente a ela.

Michael se senta confortavelmente, mas Carol parece evitar o assento. Senta-se da forma mais desconfortável, porém segura, pelo que ela pensa. Ao perceber a hesitação da investigadora, Shirley afirma:

- Minha querida, não se preocupe! O que há de acontecer aqui no Sexy Nights é dessa porta pra fora. Aqui é onde os negócios são feitos. Acredite ou não, esse lugar pode ser mais que um cabaré qualquer... – Então ela pega sua xícara, toma um pouco do seu chá e continua – Qual é o negócio de hoje? Como posso ajudá-los?

- Estamos investigando o atropelamento de Lester Carlile. O que você tem a me dizer sobre isso? – Pergunta Michael.

- Nada. Pelos menos não pra vocês.

- Senhora, não é assim que se age numa investigação. – Afirma ele olhando intensamente nos olhos da cafetã.

- Vocês acham que são os primeiros a vir aqui? Eu lembro dos primeiros investigadores que vieram aqui. Sempre se achando os donos do poder. Por favor... – Afirma ela sarcasticamente – Para mim a história há de ser dita apenas uma vez. A partir da segunda já se torna repetição, disco arranhado. Mas como vocês têm cara de clientes daqui do Sexy Nights, vou repetir a breve história: meu carro foi roubado na mesma noite do acidente, tenho nada a ver com isso. Pronto. Fim de história.

- Isso nós já sabemos. E não, garanto que nós dois não frequentamos ambientes como esse. – Diz Carol.

- Tem certeza? Por que o senhor ao seu lado não parece demonstrar tanta certeza...

- Tenho certeza que não frequento nem frequentei lugares como esse. Pelo menos não nesse nível... – Diz ele sem perceber o que havia dito — O que também não vem ao caso. A questão é: e se, supostamente, o carro estava sendo dirigido por alguém que você conheça? E se você mesma entregou o carro a esse alguém? E se era de seu interesse ter Lester Carlile morto?

- Eu? Querer um dos maiores clientes do meu local de prazer morto? Pode ter certeza que não, queridinho. Agora façam o favor de ir embora. Voltem quando possuírem alguma prova, já que só com suposições nada vai sair da minha boca.

- Nós vamos, mas pode ficar certa de que voltaremos. Próxima vez você vai sair dessa sala conosco. Algemada. – Diz Carol, encarando-a.

Enquanto saem do local, os dois põem-se a conversar:

- Que porra foi aquela? “Mas não nesse nível”? Muito profissional da sua parte!

- Se você não percebeu, eu podia estar de frente à assassina do meu pai. Eu não estava consciente do que falava. Foi uma péssima ideia ter vindo...

- E você ainda abre a boca para dizer que é um investigador... Poupe-me. E além de tudo, saímos daqui com nada.

- Calma, a primeira vez sempre é assim. Só pra assimilar os fatos e reconhecer as pessoas com que lidamos.

Então, assim que os dois saem do bordel são interrompidos por um:

- Psiu!

- Você ouviu isso, Michael?

- Sim, e acho...

-Psiu! Psiu! Ei vocês dois! – Diz um mendigo do outro lado da rua.

Ao se aproximar do desconhecido, desconfiadamente começam a conversar com ele:

- Ei! Ei! O que vocês querem saber do cabaré aí da frente?

- Senhor é confidencial, não podemos...

- O caso do atropelamento de um senhor, há mais ou menos 25 anos – Diz Michael interrompendo Carol.

- O que vocês querem é informação, certo? E eu posso dar a vocês por uma pequena quantia de dinheiro...

- Nós não vamos aceitar essa proposta, trabalhos com a lei e...

- Quanto o senhor quer?

- Michael! Não estamos indo um pouco longe demais?

- Precisamos de informação, Carol! E esse homem parece saber de algo!

- E que garantia nós temos? – Diz Carol um pouco exaltada.

- Calma moça... Trabalhei no Sexy Nights por muito tempo, então sei de muita coisa que aconteceu aí.

- E por que você virou mendigo em frente a esse lugar? – Pergunta Carol desconfiada.

- Fui demitido. Me envolvi com uma das putas de lá, não foi só sexo, tinha amor naquilo. Mas a Travecona descobriu e me demitiu. Ela dizia que não admitia esse tipo de relacionamento no trabalho. Eu acho que ela tinha era inveja por que eu pegava as funcionárias e não ela – Ele dá uma grande gargalhada e continua – Sempre fui sozinho e não consegui nenhum emprego desde que fui demitido. Aí resolvi ser mendigo aqui em frente pra acabar com a imagem desse bordel que já não tem tanta imagem pra acabar... Enfim, querem ou não? Peço só quinhentinhos...

- Que absurdo! – Exclama Carol.

- Quinhentos é demais, mas tenho cem aqui, serve?

- Acho que dá pro gasto, meu bom senhor... Então, a verdade é que ela deu o carro pra alguém matar o cara. Eu vi quando uma moça saia daí do bordel com o carro na noite que esse tal de Lester morreu.

- O senhor tem certeza disso? – Pergunta Carol surpresa.

- Absoluta. E tem mais! Mas só digo por mais cem reais...

- Não tenho mais nada! – Diz Michael.

- Eu tenho oitenta, pode ser? – Oferece Carol, já que estava intrigada com a história.

- É... Pode ser. Continuando: uns vinte minutos depois, ou uns trinta, tanto faz, essa garota volta com o carro todo amassado e com um pouco de sangue. Ela entra desesperada no bar procurando a Travecona. Eu ouvi elas conversando e depois a Travecona mandou um dos capangas dela se livrar do carro. Depois disso eu nunca mais vi essa menina...

- E como essa menina era? – Pergunta Michael.

- Eu não lembro direito. Talvez mais uma note de cinquenta refresque minha memória...

- Sabe o que pode refrescar tua memória? Uma dessas aqui – Diz Carol mostrando a arma que ela carregava na cintura.

- Tá certo, moça! Não precisa disso tudo... Ela era loira. Parecia ter uns dezessete anos, ou menos. Olhos claros eu acho. Faz muito tempo, é difícil.

- Muito obrigado, ajudou muito, nós vamos agora mesmo conversar com essa Travecona! – exclama Michael.

- Claro que não! Pela rapidez que conseguimos essa informação, ela pode desconfiar que foi aqui perto do bordel dela e que pode ter sido do mendigo aqui... – Afirma Carol.

- Eu concordo com a moça. Só não na parte do mendigo. Sou um profissional das ruas. Mais respeito, por favor. E meu nome é Paul, muito prazer...

- Enfim, vamos embora. Na delegacia nós recolhemos mais informações e voltamos aqui com mais “poder de fogo”. – Diz Carol ignorando Paul.

- Certo, certo... Tchau, Paul.

- Tchau! Babacas... – Ao ouvi-lo Carol ainda pensa em se virar e mostrar a quem ele deve respeitar, mas desiste e continua em direção ao carro.

À noite, todos os Carlile já estavam em casa para jantar. Havia uma mesa relativamente farta, com pratos feitos por Sara. O filé malpassado era o prato principal. Arroz com brócolis, batatas assadas, salada verde e outro tipo de salada eram os acompanhamentos. Tudo tinha uma cara muito boa, exceto pelo filé. Carnes definitivamente não era o forte de Sara. Quando eram malpassadas, eram quase cruas. Já o contrário, eram quase carvão. Mas ninguém reclamava, já que ela era a única que cozinhava (almoço e jantar, já que sanduíches e outras comidas não saudáveis em geral todos sabiam fazer).

Todos se sentavam à mesa em seus lugares demarcados. Michael e Sara sentavam um de frente ao outro, nas pontas da mesa oval. Tomas sentava ao lado de Julie de um lado e Martin do outro. Havia uma cadeira do lado de Martin, supostamente para acomodar Tom, o filho mais velho do casal. Todos sabiam que poucos dias depois a mesa estaria completa. Ou não...

- Mãe, eu não quero essas coisas verdes do arroz – Diz Tomas com uma cara de nojo ao ver o que havia no prato.

- O nome disso é brócolis e é muito bom pra saúde, coma! – Sara fala um pouco raivosa. Ao acalmar-se um pouco, continua – Se não quiser, não precisa comer. Mas também não come besteiras amanhã o dia inteiro...

- Pare de reclamar da comida, Tomas! Todo dia tem que haver esse mesmo choramingado... – Fala Michael encarando o filho.

- Tá bom, tá bom! Mas não tudo... – Então o menino começa a comer aos poucos, mas sem tirar a expressão de nojo do rosto.

- Como foi teu dia, querido? Descobriu mais alguma coisa sobre o caso Lester?

- Sim, até que foi um dia bem produtivo. Fomos falar com a dona de um estabelecimento – Ele dá uma breve pausa para mastigar – Parece que ela é a dona do carro que bateu em meu pai... Apesar de ser a dona, pelo que um mendigo disse, quem atropelou foi outra pessoa.

- Vocês realmente vão acreditar na história de que roubaram o carro na mesma noite que aconteceu o acidente? – Questiona Sara.

- E ainda acreditam num mendigo? – Fala Julie ao seu pai, com um olhar cético, de quem não acredita no que acabou de ouvir.

- Na hora foi o melhor que podíamos fazer! É um caso meio complicado... Não temos tantas provas e foi há muito tempo atrás. Praticamente só quem está trabalhando nessa reabertura de caso comigo são Carol, Robert e Nicolas. Rumores são a nossa melhor chance... O carro nem deve existir mais. Muito menos o corpo do meu pai...

- Verdade... Mudando de assunto, hoje liguei pra Telma e ela disse que tem um casal procurando por uma decoradora! Eu me ofereci e vou visitar a casa desse casal amanhã. Não é ótimo? Faz muito tempo que procuro por trabalhos em casa mesmo. Trabalhar com gente é muito difícil...

- E esse casal é de que espécie? Já que não são gente e tal... – Fala Martin.

- Engraçadinho você... O que eu quis dizer é que não quero passar o dia num escritório, com as mesmas pessoas, as mesmas conversas, enfim, muita monotonia pra um lugar só.

- Martin tá todo feliz fazendo piadinhas sem graça por que foi ver o George hoje... – Fala Julie.

- Fui mesmo... Fica na tua, Julie.

- Eu hein, que agressividade. Tava só brincando, garoto...

- Terminei, vou rever algumas coisas do caso lá em cima – Então Michael se levanta com o prato para deixá-lo na cozinha.

Assim que Michael se retira, Tomas também sai da mesa para assistir seus desenhos. Pouco tempo depois Sara também sai, restando só Julie e Martin.

- Por que você simplesmente não fica na tua? Você sabe que o pai não gosta da minha opção. Sabe que ele não suporta nem ouvir que namoro outro garoto. Por que, hein?

- As pessoas aprender por repetição. Se ele começar a ouvir mais sobre isso, ele vai se acostumar. Ele te ama e vai superar isso...

- Você não entende, não é?! Eu sou a grande decepção dele! Depois que Tom saiu de casa e começou a viajar, o pai não teve mais a quem ensinar e fazer coisas de garoto... Então ele queria que eu fosse esse garoto, entende? Mas por eu ser gay ficou mais complicado pra ele se aproximar, fazer coisas de garoto...

- Mas o fato de você ser gay não quer dizer que você faça coisas de mulher...

- E você acha que eu não sei disso? Eu queria fazer essas coisas com ele, sei lá. Que ele me ensinasse coisas de futebol, sei lá! Mas não consigo nem conversar com ele por muito tempo, depois que ele descobriu tudo ficou mais difícil, se comunicar é impossível...

- Então deixa eu falar isso pra ele que...

- Não! – Diz Martin interrompendo-a – Não quero que ele faça por obrigação por que você falou com ele. Quero que isso aconteça naturalmente, quando ele estiver pronto pra falar comigo normal de novo...

- Hum. Ei! Mudando de assunto, vamos fazer alguma arte marcial?

- Hã?! Você? Querendo mexer essa bunda gorda? E ainda numa arte marcial?

- É! Eu preciso emagrecer um pouco, e não suporto academia...

- Acho ridículo quem entra numa luta só pra emagrecer... Luta é luta!

- Não perguntei tua opinião, perguntei se quer ou não fazer comigo?

- Pode ser, só não agora que tem muita coisa pra estudar... Pode ser daqui umas duas semanas...

- Tá certo! Esse é o tempo que eu tenho pra emagrecer...

- Como assim? Mas você não vai fazer alguma luta pra emagrecer, não é?

- Sim! Mas eu não posso chegar na academia muito gorda! O que vão pensar de mim? Que sou uma sedentária, uma gorda.

- Fresca. Isso que você é.

- Não quero saber. Vou subir pra estudar, vou precisar de ajuda mais tarde com algumas coisas de matemática viu?! Qualquer coisa eu te chamo.

- Okay...

Após o jantar, todos sobem para o andar superior. Julie tenta estudar matemática. Ao perceber que não vai entender aquilo com a mente cheia de pensamentos fúteis, decide ouvir música. Martin estuda por algum tempo, mas também decide parar para jogar vídeo game.

Quando o ponteiro menor do relógio marca onze horas da noite Tomas logo abre a boca para bocejar. Está na hora dele dormir, mas, como de costume, tenta vencer o sono parar ver mais Bob Esponja. Uma luta sem razão, já que dez minutos depois ele já deixa a cabeça cair e os olhos fecharem.

Sara checa todos os quartos para ver se todos já estão dormindo. Tomas e Julie já estavam, mas Martin insistia em ficar acordado para jogar por mais tempo.

- Já tá na hora, Martin. Desliga esse vídeo game e vá dormir. Dou dez minutos, viu?

- Tá certo, mãe. Boa noite.

- Boa noite.

Então ela segue para a grande suíte da casa onde ela e Michael dorme. Ao entrar no quarto, Michael está na cama com o notebook sobre suas pernas. Ele nem havia notado ela entrar no quarto, parecia estar muito fissurado no que lia. Ela, então, seguiu para o banheiro.

O banheiro sempre parecia mais amplo quando Michael não estava lá. Eles sempre costumavam tomar banho juntos quando ainda havia aquela paixão. Já naqueles dias, parecia que as únicas coisas que os uniam eram o papel assinado e o anel de noivado. Pensando dessa maneira, ela tentava sempre dar um impulso na relação com uma noite de amor. Tomou um bom banho, pôs uma leve maquiagem, passou perfume e vestiu a lingerie mais bonita, uma de seda branca, macia e sexy.

Ao sair do quarto, Michael continuava no notebook, mas dessa vez notou a esposa.

- Que produção... É meu aniversário e eu não estou sabendo? – Diz ele, surpreso com toda a beleza de sua mulher.

- E precisa ter uma ocasião especial para uma boa noite de amor?

- Claro que não... Vem cá. – Diz ele chamando-a com a mão.

Então ela vai andando lentamente até a cama. Assim que ela começa a tirar a lingerie vagarosamente, Michael dá uma rápida olhada para o notebook a fim de desligá-lo. Mas, para a raiva de Sara, esse rápido olhar foi suficiente para chamar a atenção dele. Nesse momento, Sara parou de com a cena sensual ao vê-lo atento à tela do notebook.

- Como é? Eu estou aqui, não percebeu? Me arrumo todinha, fico linda e você ainda dá mais atenção para esse notebook estúpido? Eu tento não acreditar, mas não consigo! Desisto, sério!

E então ela dá a volta e tenta se deitar o mais afastado possível dele. Ele nem dá atenção a ela, já que pode ter achado uma possível e grande pista para o caso Lester. A informação contida naquele site na tela do notebook valia ouro! Poderia abrir um novo conjunto de suspeitos para o assassinato. Ele percebia que o sexo perdido não foi em vão. Valeu muito à pena, na verdade, perder aquela noite. Claro que Sara não concordava, ou pelo menos não entendia o que se passava pela cabeça de Michael. Por causa disso a raiva dela não seria passageira. Mas ele teria que esperar toda a raiva dela passar, já que a pessoa que mais poderia ajudar ele com a informação descoberta era a própria Sara...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.