A falsa democracia.

1 Capítulo 1 - Prólogo


Você pode achar que é livre... Pode achar que está livre porque dizem que você vive em uma democracia, onde todos têm sua voz e participação asseguradas. Você pode achar que suas escolhas são baseadas naquilo que você prefere. Vil engano... Há tempos a sociedade, seus líderes e a sua própria organização vem deturpando o sentido da palavra “democracia”. Aplicam-na em qualquer discurso libertário, em qualquer conceito de mundo perfeito, em qualquer discurso intelectualista barato. Tentam leva-la aos mais distantes buracos do mundo, tendo como discurso a “liberdade”.

Mas e se essa liberdade pela qual você, eu, e todos os outros cidadãos do ocidente lutamos para manter e levar ao mundo inteiro simplesmente não existir? Não falo de teorias conspiratórias ou essa baboseira de loucos entusiastas. Falo de uma realidade esquisita, porém que está atrelada ao que somos hoje. Uma “ditadura” disfarçada de democracia. Bem... É difícil imaginar que o mundo te prenda ao subjugado pesadelo ditatorial de maneira hipócrita com um discurso de liberdade fajuto. Mas... E se for verdade?

O século XX viveu uma conturbada era de guerras e lutas ideológicas que criaram conceitos diversos sobre a liberdade e como assegurá-la. E a passagem do século XX para o XXI proporcionou o que era o sonho de filósofos, sociólogos, etc. A ligação massiva entre pessoas com diversos conceitos ideológicos pelo mundo. Um massivo desenvolvimento nos meios de comunicação conseguiu proporcionar ao indivíduo mediano um rápido contato entre dois pontos do mundo, fazendo com que pessoas do mundo inteiro pudessem conhecer realidades alheias às suas. Realidades muitas vezes desagradáveis aos olhos do típico cidadão ocidental – Intelectual, democrático, pró-libertário e totalmente contra qualquer tipo de opressão – e difícil de conceber. Nisso, após um massivo contato entre diversas partes do mundo, tornou-se comum que qualquer pessoa com acesso a rede levantasse uma bandeira de algo que ele nem conhece de fato. Americanos consumistas criticando o modo de consumo que eles próprios criaram, europeus que em outrora impuseram sua religião aos sarracenos defendendo a bandeira contra as ditaduras impostas no dito “mundo islâmico”, mulheres ocidentais que nunca sofreram na vida tentando “libertar” a dignidade de outras tantas mulheres oprimidas mundo afora...

Entende o que quero dizer, caro amigo? Essa explosão na criação e compartilhamento de informação criou uma geração de pessoas que não sabem pelo que lutam, mas lutam. E fazem questão de expor, criticar e até mesmo “oprimir” aquele que ousar discordar de si. É nessa realidade que nos encontramos agora. Uma realidade de pessoas “burras”. Mas não burras pela falta de conhecimento (ou falta de acesso ao mesmo). Elas até que adquirem muito conhecimento. Entretanto é um conhecimento fragmentado, incompleto. Além do fato de não saberem o que fazer com tal conhecimento e de não “mastiga-lo”, criticá-lo.

Deixe-me introduzi-lo exatamente ao meu ponto. Nossos sistemas são falhos. Todos. Sociais, governamentais... Todos são falhos. Vivemos em um estado que te oprime de maneira disfarçada, pelos dedos de seus súditos. Um estado que levanta as bandeiras da liberdade, igualdade e tudo mais, mas que impõe um modo de pensar e agir, uma conduta moral e ética que deve ser seguida a risca se quiseres se enquadrar. Usa para tais fins pessoas de mentalidade fraca e sentimento de fúria enraizada nas ideias. Pessoas que se sentem culpadas por não “mudarem o mundo” em algum momento crucial da história e que acabam aderindo a causas sem sentido visando suprir o sentimento de vazio acerca de “mudar o mundo”. Sentimento esse alimentado por uma educação que motiva o indivíduo a lutar, porém não afirma pelo que lutar, em específico. É tanta coisa errada nesse mundo que nem sei por onde começar, então começarei me apresentando. Minha identidade real será preservada por motivos óbvios, mas vocês, caros amigos, podem me chamar de L0rd_Zy0n68. É com este nome que geralmente me identifico para os companheiros de causa. Venho por meios destes relatos, narrar um caso famoso ocorrido há uns 5 anos atrás envolvendo um grande amigo e companheiro de luta e um policial que, a princípio exibia um viés inimigo, porém mostrou-se o mais nobre aliado de nossa causa. Nosso país, uma república democrática que assegura com fidelidade os direitos individuais de cada cidadão, mascarava através dessa política a sua verdadeira face. Uma ditadura. Uma ditadura como cito acima. Toda uma estrutura democrática escondendo um esqueleto ditatorial apodrecido (e apodrecendo) à décadas. Quando conheci o M4v3r1ck _HUNT3R (o citado amigo), passávamos por tempos difíceis nos ambientes virtuais. O governo acabara de aprovar uma lei que, em tese, asseguraria a integridade moral dos usuários. Suas ideias, suas opções, sua aparência e modo de ser. Tudo isso estaria assegurado sob penas judiciais e simbólicas severas. Nem preciso dizer que na prática essa medida foi apenas uma manobra (muito bem tomada) para limitar o acesso a informação, de modo que muitos de nossos companheiros solitários de madrugada foram presos pelo simples fato de tomarem medidas alternativas para assegurar a integridade das informações obtidas. Foram acusados injustamente de conspiração e quebras de sigilo em geral. Presos, condenados, culpados... Culpados por acessar algo que deveria ser o principal pilar da internet, a informação livre de direitos ou regras. Informação pura e livre.

Existiam duas formas na época de se obter informação de maneira completamente criptografada e livre da “censura” governamental. Pacotes de arquivos incompletos ou os famosos (e perigosos) Dead Drops. A primeira forma baseava-se em fazer parte de uma rede de pessoas que conheciam lugares onde poderiam acessar os arquivos de maneira fragmentada. Basicamente baixavam muitos pacotes de arquivos (com muitos arquivos camuflando o arquivo principal) para obter uma informação completa. Era muito comum existirem dados do tesouro nacional embutidos em pacotes de animes japoneses. Óbvio que os dados nunca eram completos e as partes precisavam ser espalhadas por várias páginas para não levantar suspeitas dos censores e seus militantes. Esses círculos sociais eram escolhidos a dedo. Era comum a infiltração de agentes federais em grupos de hackers investigando-os por meses para então desarticular a rede social por completo. As reuniões de grupos sempre se davam por fóruns, já que a maioria das pessoas que costumavam compartilhar informações nunca moravam próximas umas das outras. Fóruns muito bem articulados, protegidos por proxys e que não permitiam que seus membros mostrem de qualquer forma algum tipo de identificação. Um anonimato completo, porém não perfeito. Os usuários mais antigos e mais preparados podiam descobrir quem realmente era um civil procurando enriquecer sua biblioteca de conhecimentos ou um policial sujo infiltrado. Existiam também algumas comunidades que se reuniam em mensageiros instantâneos antigos baseados em IRC para indicar bons sites, fóruns ou compartilhar conhecimentos, mas esses mensageiros estavam caindo em desuso visto que seus servidores estavam parando aos poucos por falta de manutenção. A outra maneira de compartilhamento de arquivos eram os dead drops. Os dead drops eram dispositivos de hardware espalhados por pontos estratégicos das cidades onde qualquer um que soubesse o ponto exato de onde estava o hardware e as senhas de acesso poderiam acessar suas informações. Geralmente eram escolhidos locais pouco suspeitos e com pouco trânsito de pessoas para instalar os dispositivos. Pontos isolados de universidades e becos eram os locais preferidos pelos usuários para instalá-los, tendo em vista o perfil de usuário. Eu cito acima que os dead drops eram perigosos por dois simples motivos. O primeiro é que o usuário estaria sujeito à contração de vírus e softwares que poderiam prejudicar o funcionamento de seus dispositivos. Era difícil achar um dead drop que fosse confiável e que possuísse informações e arquivos relevantes, já que muitas pessoas usavam tais dispositivos para compartilhar arquivos das mais variadas espécies. Desde jogos e músicas simples até mesmo pornografia infantil. Era comum também que agentes infiltrados dentre as redes sociais ocultas implantassem nos dead drops softwares de rastreamento, visando desarticular a rede usuária do “serviço”. Muitos amigos e conhecidos meus foram presos por usarem esses dispositivos. Em flagrante enquanto acessavam os arquivos nos drops ou através de mandados após minuciosas investigações. Esse era o segundo risco. Ser pego (ou descoberto) usando tais dispositivos era como assinar sua sentença de prisão. Voltando a história original, foi nessa época que conheci o “M4v3r1ck”. Ele era um engenhoso hacker que distribuía fontes de pesquisa e arquivos por diversos sites de compartilhamento na internet. Eu era um mero iniciante naquela época. Não era envolvido com “cybercrimes”. No máximo baixava uns jogos ilegais e uns álbuns dos meus artistas preferidos. Me envolvi com essas redes a princípio visando conteúdo confiável para o meu TCC. Não conheci o M4v3r1ck a princípio. Ingressei na rede “5933SM” por um amigo meu que gostava de se intitular “hacker”, mas que na verdade estava ali apenas fazendo papel de palhaço. Lembro que entrei através de um grande fórum anônimo que costumava frequentar para dar umas risadas de vez em quando, mas que não fazia ideia de que também era a porta de entrada para algo mais “profundo”.

M4v3r1ck na época era um usuário “ausente”. Lembro-me que ele dizia que não compartilhava mais conteúdo porque tinha de cuidar da irmã doente e ficava meio sem tempo para partilhar e procurar conteúdo confiável. Mas sempre que aparecia, indicava redes de arquivos em diversos sites que formavam geralmente documentos ligados a gastos do governo e operações militares nada éticas. Na verdade, criminosas. Lembro que era quando ele aparecia no fórum, um grande alvoroço se formava em seus tópicos. Os usuários sempre pediam mais e mais conteúdos. E muitas vezes ele passava apenas uma rede de arquivos incompleta. Com cinco ou seis links, quando para formar o arquivo completo, eram necessários dez links ou mais. Ele era uma espécie de Deus e diabo dos fóruns. Odiado, temido e admirado por todos que ali frequentavam. Em uma dessas aparições do usuário M4v3r1ck, resolvi me aventurar a decodificar e arranjar a informação completa. Dessa vez não era um gigantesco arquivo ou software upado. Era um texto de quinze laudas retirado de um ótimo artigo sobre engenharia social no século XXI. O texto falava basicamente sobre como o governo implantou uma “ditadura democrática” fragmentando a sociedade em pequenos grupos tidos como “oprimidos” e dando plenos poderes a eles, fazendo com que cada vez mais cidadãos se unissem a esses grupos e movimentos dando-lhes força e desorganizando sua causa principal/real. Basicamente criar uma guerra civil virtual de ideologias, sendo que a maioria não sabia a causa de estar lutando, e muitas vezes nem de que lado estava lutando. Fiquei fascinado com o fragmento do arquivo e procurei saber mais sobre ele, seu autor e a bibliografia do mesmo. Para meu infortúnio, não achei mais nada relacionado. Foi então que percebi o quão grave era a situação da ocultação de informação na internet naquela época.

Acho que esse foi o grande ponto que me fez cair de cabeça nesse mundo mais... “obscuro”. A informação limitada na internet quebra todo o seu princípio básico de democratização da rede, tornando possível o acesso a arquivos e documentos que não o seriam se a mesma não fosse tão evoluída e dissipada. M4v3r1ck costumava dizer que o período áureo da internet foi no início dos anos 2000, onde não existiam tantas políticas restritivas sobre a informação e o compartilhamento de dados. Exceto pela velocidade da conexão, a proposta da internet nasceu glorificada e sólida e, com o tempo, foi se liquefazendo e deteriorando por governantes medrosos, corruptos e um povo burro que faz questão de assumir um viés culturalmente desenvolvido. “Intelectuais de redes sociais”, como diziam. Como eu gostaria de ter conhecido mais a fundo esse tempo...

Notas finais
Espero que tenham gostado e que acompanhem o discorrer da estória.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.