A exceção
10 Capítulo 10.
Notas iniciais
Dormi apenas por duas horas essa noite. Apesar de ter dormido à tarde, me sinto cansada. Não consegui parar de pensar na mensagem. Passei as quatro primeiras aulas angustiada com a demora com que pareciam passar. Desde que mandei aquela mensagem para Marjorie, parece ter se passado dias.
Finalmente é a hora do intervalo. Sinceramente, eu nem sei mais por que anseio pelo intervalo. Nada de interessante acontece, nunca. Parte de mim acredita que é a hora de me resolver com a Marjorie, mas ela teria respondido minha mensagem se fosse o caso.
Avisto a Marjorie perto dos armários, sozinha. A manhã está quente, seu cabelo está preso em um rabo de cavalo. Sinceramente, não consigo decidir se gosto mais dele solto ou preso. Das duas formas, é perfeito. Não tem como melhorar.
Quando nossos olhares se encontram ela vem na minha direção. Torço que não seja para brigar, torço que ela me perdoe.
— Sobre o que queria conversar? – Pergunta ela, com um ar sério. Quase assustador.
— Eu sinto muito por ter parado de falar com você sem nem te explicar porquê. Sabe, eu também gosto de garotas. E, tive problemas em aceitar isso. Medo do preconceito. Estava me corroendo por dentro. Mas conversei com o meu irmão ontem e percebi que não posso viver assim, tenho de ser honesta comigo mesma. – Respiro fundo.
Antes que eu consiga retomar minha fala, ela sorri e diz:
— Tudo bem, eu sei como é difícil. Devia ter me contado, eu poderia ajudar!
— Devia mesmo.
— Daqui para frente, me conte as coisas. – Eu assinto.
Ela estica os braços, um pouco insegura. Aceito seu abraço. Ela ri e aperta os abraços na minha cintura, como se não fosse mais me soltar. Isso parece um abraço mais que amigável ou é impressão minha? Ah, estou viajando. De qualquer forma, ela provavelmente nem ao menos ligou o que eu falei agora com o fato de ter parado de falar com ela. Vou ter de ser mais direta.
Sou trazida bruscamente à realidade por uma voz. Então percebo que não somos só nós duas ali, claro, estamos no colégio, eu tinha esquecido. A voz que me incomodara era conhecida e geralmente trazia algo desagradável. Elisa. Mas não estou tão brava assim por ela ter atrapalhado dessa vez, quero dizer, eu precisava lembrar que ainda estou na escola.
— Marjorie!
— Ah, oi, Elisa! – Diz com um sorriso sem jeito, soltando-me.
— Eu estava te procurando.
— Bem, estou aqui, o que é? – Diz um pouco impaciente.
— Só queria passar o tempo com você. – Quando diz isso, segura uma das mãos de Marjorie. Eu tenho certeza de que ela faz isso só porque estou aqui. Senti o calor subir meu rosto. Não me orgulho disso, mas sinto muito ciúmes. Por isso, penso que é melhor eu sair antes de agir feito idiota.
— Eu... Vou procurar o Pedro. Nos falamos na saída? – Pergunto.
— Claro. – Responde Marjorie com um sorriso calmo. Elisa me olha com uma careta, mas eu não dou muita atenção. Não quero que ela tenha mais motivos para não gostar de mim.
Conforme me afasto, minha raiva vai se esvaindo e sendo substituída por uma enorme felicidade. Eu voltei a falar com a Marjorie! Já me sinto mais leve. Enquanto tento não criar expectativas, sou surpreendida.
— E então? – Diz Pedro. Não sei se ele surgiu de repente ou eu quem estava distraída demais.
— Que susto cara, faz isso não! – Digo, levando uma mão ao coração.
— Quem se assusta facilmente está aprontando.
— Francamente, pare de falar igual à minha mãe. – Resmungo.
Senti um calor subir ao meu rosto, mas dessa vez não era ciúmes, eram apenas minhas bochechas me entregando sobre meus sentimentos, provavelmente.
— Tá, se é o que quer ouvir, eu estava com ciúmes aquele dia, estou agora, e sou louca pela Marjorie. – Admito. Dizer meus sentimentos em voz alta assim, é um novo mundo para mim. Mas é uma sensação boa. – Por que está se importando?
— Pois é, ao contrário do que você pensa, eu me importo.
— Sabe, eu gosto de não ter vida social. Para não aturar dramas como esse, por exemplo. O que deu em você?
— Você quem falou que se tem alguém quem não se importa, esse alguém sou eu. – Ah, agora eu entendi tudo. Caramba, por que eu fui tão idiota?
— Está levando a sério demais para uma brincadeira idiota. Nós sempre zombamos um do outro. Está tudo bem?
— Está. Só que às vezes acho que você é minha amiga só por comodidade, você nem me respeita.
— Você que não me conhece, pelo visto.
— Ah, foda-se. Esquece isso. – Com isso, sua habitual inexpressividade volta a seu rosto.
Depois dessa estranha (conversa? Briga?) ficamos em silêncio. Penso que ele só deve estar de mau humor, então não adianta ficar discutindo. É raro ele estar de mau humor, deve ter um motivo.
Não passava outra coisa na minha cabeça a não ser “hora da saída, hora da saída, hora da saída”. Foi torturante saber que ainda tinham três tempos de química até estar livre. Logo química, que já passa devagar em dias comuns.
Eu arrebentei a linha tênue que dividia as emoções e as atitudes, e estava prestes a arrebentar a que separava os pensamentos das palavras. Queria desesperadamente estar com a Marjorie, dizer tudo o que eu tenho sentido. A amo como nunca amei uma pessoa antes. Posso ter gostado de alguns garotos, mas, eu tenho certeza que isso que estou sentindo agora nunca senti antes, certeza que isso é amor.
Passadas duas horas, estou finalmente liberta. Me despeço do Pedro e logo vejo a Marjorie saindo da sala ao lado. Assim que me vê, sorri e vem até mim. Vamos encontrar Mirian e conversamos um pouco. TInha esquecido desse "detalhe". Mirian. Ainda me sinto culpada. Sei que não devia se não estou fazendo nada de errado, mas, de tanto ouvir, na minha cabeça parece errado. Não sei explicar.
Pouco depois, Mirian e eu vamos para casa. Não falamos sobre nada no caminho também, imagino que não estou com uma expressão muito receptiva. Quando chegamos, deixo minhas sapatilhas na entrada, pego meu celular dentro da mochila e envio uma mensagem para Marjorie.
— Eu queria falar com você. Sem a Mirian ou a Elisa por perto, quero dizer, só nós duas. Pode chegar um pouco mais cedo no colégio amanhã? – Enviada 12h43.
Três longos minutos depois, ela responde.
— Tudo bem. Que horas?
— Seis e quarenta e cinco.
O primeiro horário começa às sete, mas, sempre que chego pouco antes, o colégio está praticamente vazio. É como se todo mundo surgisse de repente cinco minutos antes.
— Ok, eu estarei lá.
Hoje será um longo dia. Daqueles que eu quero dormir para passar logo, mas fico ansiosa demais para isso. E toda vez que olho o relógio é uma decepção, em que penso terem se passado três horas quando na verdade só trinta minutos se arrastaram.
Fale com o autor