A exceção
4 Capítulo 4.
Notas iniciais
Ontem eu fiz as mesmas coisas de sempre. Aquilo sobre a perfeição das tardes tediosas. Ficar deitada na cama, comendo algo que eu geralmente teria que dividir com a Mirian, mas tem vida social e por isso não estava em casa, e fico ouvindo somente a voz dos meus pensamentos. É uma ótima forma de tomar decisões, mas eu não tenho nenhuma, não tenho nada que me preocupar agora, então aproveitei para ouvir um pouco de música.
E hoje foi um dia comum no colégio, também. As aulas não tiveram nada de diferente, e no intervalo eu não quis ver Marjorie com a Elisa, então fiquei apenas escondida na biblioteca com o meu bom e silencioso amigo, Pedro. Tivemos um breve diálogo. Ele me perguntou se eu estava bem, eu disse sim e então voltamos a ficar em silêncio. Outra pessoa insistiria até eu dizer o motivo do meu mau humor, mas Pedro sabe que eu não gostaria disso e direi se quiser conversar.
Cheguei em casa, almocei e fui desenhar. Eu não sou profissional, só desenho um pouco bem. De repente percebi que estava desenhando uma garota parecida com Marjorie. Não foi minha intenção de início, mas ficou bom, então pensei que eu poderia aperfeiçoar e escrever algo legal então entregar a ela, mas depois achei que seria meio estranho. Nisso, fiquei assistindo televisão, só porque é a melhor forma de se entediar e dormir logo, já que eu quero que chegue logo a hora da festa. Ver a Marjorie sem aquela garota nojenta vai ser difícil agora pelo visto, então esta é uma ótima oportunidade.
Acordei quinze para as sete, tomei um banho, e, depois de alguns bons minutos, consegui escolher alguma roupa. Uma blusa branca com letras pretas formando “Let it be”, um short jeans com algumas tachinhas e um par de sapatilhas preto com um laço grande na parte da frente. Deixei o cabelo solto (o que é raro) e pronto. Não uso maquiagem, tipo, nunca, porque sou alérgica, e, não faço muita questão mesmo.
Olho o relógio e já são sete e meia. Estou atrasada, a festa é meio longe e não conheço o lugar direito então peço carona ao meu pai, que não hesita nem por um segundo. No carro, ele pergunta sobre a festa e quem vai estar lá, e diz que eu devo tentar fazer amizades lá, e tal. Isso me deixa um pouco irritada, mas finjo que estou empolgada com a ideia. Tá, eu não diria empolgada, mas finjo estar pelo menos aceitando.
Quando toco a campanhia, Marjorie vem me atender, parecendo aliviada porém ainda consigo enxergar o resquício de tensão em seu rosto.
— Ah, você chegou! – Ela me surpreende com um abraço apertado. Apesar de eu saber o motivo disso, não pude conter um sorriso. Ela está usando um vestido azul escuro rodado marcado na cintura por um cinto, que serve perfeitamente nela e realça seus olhos.
— Pois é. – Respondo, meio sem jeito.
— Você fica mais bonita com o cabelo solto. – Diz ela. Eu sorrio. – Muito obrigada por vir, mesmo. Finalmente uma companhia agradável que não toma conta de cada detalhe da minha vida. – Ela me leva até uma mesa onde podemos conversar a sós.
— Então, o que queria me falar? – Pergunto.
— Não sei, qualquer coisa.
— Poderia ter simplesmente chamado a Elisa.
— Por que está falando assim comigo?
— Assim como?
— Você parece irritada.
— Desculpa, eu sou uma idiota. Esquece. Hã, como andam as coisas na escola?
— Continua tudo uma droga. Se lembra que eu falei sobre criarem rumores de mim?
— Claro, eu sempre presto atenção em tudo o que você diz. – Ela sorri. De onde veio isso, Nina?
— Então... É porque... Eu gosta de meninas. – Diz, muito apreensiva. Penso que talvez ela tinha medo que eu parasse de falar com ela.
— Ah, tudo bem. Isso não muda em nada nossa amizade. – Espera, é claro que muda! Senti alguma coisa. Não pode ser, não pode ser. Eu estou apaixonada por ela! Ela me abraça e ri.
— Venha cá. – O riso dela se transforma no sorriso de alguém que esconde um segredo. Um sorriso ainda mais apaixonante. Ela levanta, agarra minha mão e me leva para dentro da casa.
Chegamos em um cômodo pouco iluminado, a música está distante agora e há um certo conforto nisso.
— Uma garota estudava comigo no ano passado, ela gostava de meninas. E me fez descobrir que eu também gostava. – Ela faz uma pausa, como se fosse difícil conversar sobre isso.
"Um dia ela me beijou, e na frente de todos os alunos da nossa sala. Mas eu deixei-a continuar me beijando. Eu tentei consertar as coisas, disse que ela quem se atirou em mim. Ela chorou e gritou comigo, disse que eu havia gostado. Eu continuei negando e negando, chorando. Ela foi embora e ninguém nunca mais a viu. Continuo com um desfarce, mas as pessoas vez ou outra inventam ou fazem piadinhas com isso."
— Uau.
— Elisa é a única que não entra nessa. Por isso somos tão amigas.
— Hum, entendo.
— O que foi esse "hum"? Tem ciúmes dela?
— Não, não, de jeito nenhum. Ela é quem não gosta de mim.
— Eu acho que vocês só precisam se conhecer melhor. Tenho certeza de que se dariam bem. Às vezes as pessoas só começam com o pé errado. Você é um amorzinho! – Alguma coisa em Marjorie, talvez seu sorriso, talvez seu olhar, a deixava ainda mais radiante agora. Nós ficamos em silêncio, mas ela não parava de sorrir. De repente, começou a fazer carinho na minha bochecha, depois parou, desfez o sorriso e parece ter ficado constrangida.
Não tem mais como mentir para mim mesma. Então pensei em dizer para ela que gosto dela, e acho que existe alguma chance dela gostar de mim também.
Mas, eu lembrei dos meus pais. A conversa que eles tiveram. E refleti principalmente sobre a minha mãe. Ela tenta esconder de mim, mas eu sei que ela anda até tomando alguns remédios fortes, eu sei que ela não está bem. Se ela soubesse de algo assim, só ficaria pior. Eu não tenho um futuro promissor, minhas notas não são tão boas, não tenho muitos amigos, não saio de casa, e, agora, estou gostando de uma garota. A única coisa boa é que estou mantendo a tradição da letra “M”.
O que estou fazendo? Tenho que ir embora daqui. Me sinto enjoada, enjoo de mim mesma. O melhor era ter ficado em casa.
— Eu, vou ligar para o meu pai, quero ir embora. – Digo.
— Mas já? – Isso quase me faz querer ficar, mas aí me lembro do que tinha acabado de acontecer e a coisa dos meus pais.
— Não estou me sentindo muito bem. – E é verdade. Acho que vou vomitar. E é isso que acontece. Eu vou ao banheiro e vomito. É nojento, mas é assim quando eu fico muito tensa.
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