A evacuação

1 O inferno na terra


Preciso sair daqui. Preciso me salvar. Eu até a ajudaria, mas não tenho tempo pra isso! Desde que a ordem de evacuação foi dada, a cidade se transformou num inferno, e sair desse lugar parece ser impossível. Ter que levar uma garota fraca por ai, nesse inferno, é assinar seu atestado do óbito. Preciso me concentrar, não posso ficar olhando pra carinha de desolação dessa menina, tem outras garotas por aí. Bom, ela não tem um corpão exagerado, mas as curvas são perfeitas. Olhos cinza-azulado-sei-lá-o-que maravilhosos. Rosto suave, pena que vai morrer junto com outros milhares de pessoas. Droga! Eu estou perdendo muito tempo aqui. Saio correndo, e ao passar paralelo a garota dou uma última olhada nela. Uma olhada longa demais, pois acabo batendo em cheio no poste. Merda!!

- K.. Kevin! — grita a menina com lágrimas nos olhos, que agora vem ao meu encontro. — Você está bem?! Não tinha te visto.

- Anh?! Droga! — vocifero levando a mão a cabeça. — Pera! Ela me reconheceu, quer dizer, ela me conhece? Diana é uma garota espetacular da classe vizinha a minha, a beleza dela é conhecida em toda escola. — Oi. Eh.. tá meio difícil andar por aqui. Tá uma confusão muito grande.

- Sim, eu... eu não sei o que fazer. — sua voz fica embargada — Minha família...

- Bom... — não sei o que dizer. Não tenho nada a ver com sua família! - Tem alguns bairros residenciais atravessando a avenida. Eles estão mais calmos, talvez vazios. Se a gente conseguisse chegar até lá dava pra sair da cidade com tempo de sobra.

- Serio? Você me levaria? Tipo... eu não iria te atrapalhar? — diz ela, me deixando confuso. Ela fala como se eu tivesse chamado... Ah! eu disse "a gente". O que eu digo? E se ela viesse comigo?

- Não. Dá. Certo. — Penso alto.

- Sério mesmo? Muita obrigada Kevin, você tá salvando minha vida — balbucia, com olhos cheios de lágrimas, entendendo errado o que eu disse. — Eu achei que você não se lembraria de mim.

- Como iria esquecer? — respondo automaticamente. Eu fico em duvido sobre levar ela ou não. É inútil meu esforço em abandona-la, eu quero leva-la. Droga, seu maldito! Não consegue resistir a uma maldita garota.

- Por onde nós vamos? – indaga ela, dubiamente.

Eu começo a andar e ela me segue. Nós estamos em uma rua bem calma do centro da cidade. Uma cidade bem mal planejada. Não entendo sobre isso, mas sair da cidade de carro é praticamente impossível, na verdade sempre foi complicado. Mas com todos os carros da cidade na rua, ao mesmo tempo, dificultou ainda mais, muito mais. O que eu sei: Se eu me afastar bem da avenida principal, em direção ao oeste, vou chegar a bairros residenciais vazios, atravessando-os chego ao contorno da cidade, uma avenida que vai para a avenida principal. Sim, devia estar lotada também, mas aconteceu um acidente feio, não vai haver ninguém lá. De lá, bom, eu tenho uma ideia do que fazer. Bom o problema principal é chegar lá e a tempo de escapar da radiação.

Nós caminhamos três quadras, e estamos chegando a uma avenida. Vai ser muito mais complicado do que eu pensei, mesmo ainda a duas quadras de distância, posso ouvir a confusão. Buzinas de carros, muitas pessoas gritando, vidros sendo quebrados, é o inferno na terra. Quando chegamos perto da esquina peço para ela esperar, eu avanço para dar uma olhada na situação. Tem muito mais gente fora dos carros do que dentro deles, os que estão buzinam para a multidão, que parece ignorar a presença dos automóveis. A maioria acha que pode chegar mais rápido a saída da cidade caminhando, acho que estão certos. Há outros que estão tentando e alguns que obtiveram sucesso em saquear as lojas. Bom, se eu vou morrer por que não roubar um notebook, afinal o inferno é um tedio! E ainda há alguns que choram e imploram por suas vidas. Inúteis! Nem a própria pele conseguem salvar. Então e me lembro de Diana, e olho para trás, e sinto uma torrente de arrependimento, ao ver que ela está chorando de novo. Acho que eu não teria problemas em passar por aqui sozinho, mas ela... bom, se ela se perder como pode ser culpa minha. Do nada, escuto um estrondo, não sei o que aconteceu, mas conseguiram abrir uma loja. Ao ouvir o alarme da loja todos se voltam a ela como se fossem zumbis, e apenas alguns poucos continuam na rota, o caminho fica praticamente limpo. Uma chance!

- Ei! Vem! – grito, e ela me olha confusa. – Rápido!! – E então ela vem correndo. Sem tempo para explicações, antes dela chegar até mim eu começo a correr a frente de carros que ainda buzinam. Quando estou perto de chegar a metade da avenida, outra manada desses porcos imundos avança, quando chegam até mim, não consigo mais prosseguir.

- Porcos imundos! Desgraçados, morram sozinhos! – grito, mas minha voz é consumida pelo grunhido coletivo. Quando sou arrastado passo perto de um carro e com esforço consigo subir nele. Agora sim! Os caros parecem caminhos de pedra num lago, ou num mar de corpos. Eu pulo em cima de outro teto, e minhas esperanças se acendem. Eu vou conseguir.

Depois de avançar mais dois carros, eu olho para trás e vejo que o volume de pessoas está diminuindo um pouco. E vejo também Diana agarrada a uma arvore, no canteiro que divide a avenida, ela está apavorada e chorando de novo. ...Ahh! ... Não, você não vai ir busca-la! Decido não ir, mas quando estou prestes a pular, eu vejo um grupo de caras chegando até ela. Eles conversam, uma conversa nada agradável pelo jeito. Um deles pega o braço dela, ela se livra dele, mas eu sei muito bem o que vai acontecer. Malditos pervertidos retardados! Eu admito que talvez me distraia um pouco demais com mulheres. Mas eu sou bem mais inteligente. Por exemplo, eu não vou perder minha vida por um par de seios... seios perfeitos... firmes e macios. Não vou atrás dela! Pulo em outro carro. Não vou! Pulo em outro. Não! Pulo mais dois. Não, não! Outro. Não!!

- Ei, matilha de porcos! Deixem ela em paz! – chamo a atenção do grupo quando pulo no carro mais próximo. Droga! Não acredito que eu vim.

- E o que você vai fazer, sua bichinha? – diz o que parece ser o líder.

- Chispa daqui, senão... – fico sem o que dizer...

- Senão o que? – me intimidam. O que eu faço?! Vasculho o lugar a procura de algo para usar como arma, mas não há nada. Pulo do carro. Péssima ideia, além de machucar meus pés, percebo que os caras são bem maiores que eu.

- Senão eu vou ser obrigado a contrariar meu sensei e lutar fora do tatame. – Eles olham com curiosidade, os outros dão espaço para o líder que já está com os punhos armados. Faço umas poses que lembro, ou penso ter visto em algum filme ou anime. – Se prepare... – digo e espero, rezo para que Diana perceba que estou falando com ela. – Corre!! – Agarro sua mão e saio correndo entre os carros e as pessoas. Quando estamos no meio do caminho, outra grande multidão está perto de nos alcançar, bem como eu havia esperado. Nós conseguimos atravessar antes, mas parece que a gangue que nos perseguia não teve a mesma sorte.

Continuamos a correr pelas ruas, até se cansar só por precaução. Quando paramos estamos ambos ofegantes, mas ela parece menos cansada que eu. Coloco as mãos nos joelhos, e então desabo no chão.

- Ah! ... Acho que a gente conseguiu – digo ainda sem folego.

- Muito... muito obrigada mesmo, eu... Eu não sei como agradecer... – diz, já completamente recuperada. Bem... Você poderia me dar... um beijo... ou me dar.

- Não se preocupe com isso. Vamos continuar, não podemos perder tempo. – me levanto, e dou uma olhada em volta, tentando identificar onde estamos. Ainda estamos no centro, claro, mas essas ruas estão completamente desertas, todos que estavam por aqui agora dever estar nas avenidas principais. Descubro por onde ir e recomeço a caminhada.

- Por onde nós vamos? Por que nós não seguimos com a multidão? Não seria o caminho mais rápido? – indaga dubiamente, típico dela.

- Bom tirando a possibilidade de ser pisoteado, acabar sendo estuprada, pode até ser uma boa opção. – uso de sarcasmo, mas não sei se ela nota – Bom, além do mais não acho que esses carros estão parados só por causa da multidão. Deve haver algo boqueando o caminho. Também, a rota que estamos tomando não é muito mais longa e bem mais livre.

- Ahh... Entendi. Muito esperto. – a vejo abrir um pequeno sorriso, sinto meu rosto corar um pouco. Avisto uma loja com vidros quebrados, ainda há alguns produtos, deixaram o que acham não ter valor. O que para mim vai valer nossas vidas. Bicicletas.

- Isso! – comemoro – Exatamente o que precisávamos. Uma moto seria melhor, mas eu não sei dirigir... – vamos até a loja, eu pego uma e aponto outra a ela.

Antes de subirmos nas bicicletas Diana me conta que pai a ensinou dirigir carros. Isso é ótimo, mas como nenhum de nós dois sabe fazer ligação direta, era preciso achar um carro abandonado com as chaves dentro, o que é muito improvável. Seguimos nosso caminho com as bicicletas em silêncio, por muito tempo. Longe do centro, finalmente chegamos ao primeiro bairro residencial, e nos deparamos com uma subida muito íngreme. Decidimos subir caminhando, e Diana resolve puxar conversa.

- Eu achei mesmo que você fosse lutar com aqueles brutamontes. – diz dando uma risadinha. Ah! Essa necessidade que o ser humano tem de jogar conversa fora. Não consigo entender isso!

- Eu? ... Eu nem sei lutar, e mesmo se soubesse não seria uma atitude muito inteligente. – falo, sem muito interesse em continuar o diálogo. Ela assente com a cabeça, e mesmo eu achando que o assunto tinha acabado ela volta a falar.

- Lembra quando a gente era pequenos? A gente brincava junto – fica sem jeito no meio da frase. Então ela se lembra... – Eu... meio que gostava de você naquele tempo. – sua cara enrubesce, fico surpreso, devo estar parecendo um idiota agora.

- Ah... eu... hm... – não sei o que dizer. Penso que talvez minha reação seja um pouco exagerada, ela só está falando sobre o passado, afinal. – Eu... – sou interrompido por um grito desesperado. Fico atento, imediatamente esqueço do que ia dizer e me concentro em identificar de onde vem o som. Outro grito. Bem próximo, próximo demais para meu gosto.

- Socorro!!! Me ajudem!! – a voz é aguda e feminina, vem de umas das casas da direita, talvez seja da rua ao lado, mas ainda assim é muito perto. Além dos gritos, e bem mais baixo consigo ouvir gargalhadas. Mas que merda é essa?! Nós precisamos dar o fora daqui.

Dessa vez, ouvimos o mais alto de todos os gritos, é cheio de dor e desespero. Diana larga a bicicleta e tenta correr até a origem dos choros. A impeço, explicando que não há nada que possamos fazer, ela resiste um pouco mas depois se acalma. Ainda seguro seus braços quando, os gritos e risadas cessam abruptamente. Fico branco de medo, arrasto ela para casa mais próxima o mais rápido que posso. Está trancada então precisamos pular o muro, a ajudo a subir, e em seguida eu vou. Assim que chego ao chão, ouço o portão de outra casa se abrir. Ouço o grupo, e reconheço uma das vozes, é aquele porco brutamontes que tentou agarrar Diana, poderia ser ela naquela casa se eu não tivesse voltado. Mas como eles chegaram até aqui tão rápido? E como se tivessem ouvido meus pensamentos, eles respondem.

- A moto. – diz um deles

- O que é que tem? E aliás, por que é que as motos não estão aqui? – indaga o líder com raiva.

- Elas... Bom, a gente deu uma vasculhada por aqui e deixou...

- Espera. – interrompe o outro – Eu não lembro de ter visto aquilo ali antes, será que tem alguém por aqui?

-Vamos ver – eles começam a bater palmas – Ô, de casa!! – gritam, e batem no portão. Na casa errada, mas logo eles passam para outras casas.

Chamo Diana e vamos para o fundo da casa, temos que pular um cercado. Do outro lado tem um cão enorme nos esperando, ele nos encara e não parece muito feliz por ter sido abandonado, ele move a boca como se estivesse latindo, porém não sai som algum, não sei dizer se por sorte ou azar. Calma aí cãozinho... Deus! O que eu te fiz Senhor, hein? O que?! Nos movemos lentamente, tentando chegar até o muro. Eu dou apoio e ela pula o muro, o cachorro corre na nossa direção, e saio correndo apenas depois que Diana chega do outro lado. Subo, mas o cão se agarra a minha calça, eu chuto e tentando de todo jeito me desvencilhar dele. Ele é muito forte, por sorte ele ainda está preso a corrente, a qual está no limite de sua extensão, jogo meu corpo por cima do muro e, com a ajuda da maravilhosa gravidade, caio do outro lado. No entanto, a maldita gravidade machuca meu pé para valer dessa vez.

Vou mancando até onde Diana caiu e ficou até agora, pergunto se está tudo bem. Não há resposta. Eu sacudo seu ombro, e ela não reage. Desisto e desabo do seu lado, a garota começa a chorar novamente, e eu não ligo, na verdade, eu entendo.

- Eu entendo. – digo, a envolvo em meus braços – O.k. Está tudo bem. – recebo um beijo. E durante o beijo me esqueço de tudo. Da explosão na Central. Da ordem de evacuação. Da dor, da morte, nada mais existe. Até que uma outra explosão me acorda.

- Outra explosão! – me levanto num pulo, esquecendo do meu pé machucado, quase volto ao chão, porém volto mesmo a realidade – Não temos tempo a perder! Espere aqui. – dou uma olhada na frente da casa, lá fora vejo duas motos, provavelmente daquela gangue de porcos.

Penso em esperar eles irem embora, mas volto e pergunto se ela sabe dirigir motos. A garota diz que só dirigiu algumas vezes em seu quintal, mas isso vai servir. Pegamos uma das motos rapidamente e logo estamos longe deles. Se eles nos seguiram não deve ter sido por muito tempo, ou talvez tomaram o caminho errado, pois não nos cruzamos mais com aqueles malditos. Nós rodamos muito até a gasolina acabar, mas paramos bem perto de nosso destino. Minha casa.

- Chegamos! – aponto a casa para ela, que parece um pouco confusa. – É aqui que eu moro! Antes de perder o sinal do celular, antes da explosão na Usina quando o raio de evacuação era apenas 20km. Eles já tinham se arrumado para dar o fora, só por precaução. Me ligaram. Nós usaríamos aquela estrada não asfaltada que fica na rodovia, a qual foi interditada ontem. Cortaríamos caminho para uma estrada secundaria.

- Bem esperto – fala sorrindo – A inteligência tá no sangue, então. – ela ri, mas não eu. Por que quando chego em casa e destranco o portão e vejo que tem mais do que inteligência no sangue da minha família. Egoísmo. Egoístas. Malditos egoístas!! A raiva toma conta de mim. Abro a porta, e vejo que deixaram uma refeição preparada, e coberta com guardanapos como se tivesse sido deixada para mim. Derrubo tudo no chão com violência.

- Ahh!!! Malditos egoístas! Como podem me abandonar assim?! Como?!! – levo as mãos à cabeça, caio de joelhos e continuo maldizendo aqueles desgraçados que atrevem a se chamar de família. Diana chega perto de mim e parece querer falar alguma coisa. – Me deixe sozinho! – grito.

- Sinto muito... – Ela diz prestes a chorar novamente, se vira e me deixa sozinho. Pensando em como eles tiveram coragem de me abandonar aqui, para morrer. Eu sinto que tem alguma coisa errada. Minha família não faria isso. Não posso acreditar nisso, mas é o que parece. Diana logo volta, gritando alguma coisa.

- Kevin! – me chama animada – Olha! Um bilhete. – eu pego. “Não quero ver um arranhão, seu viado!” Fico um pouco confuso, ela me puxa, pedindo para eu ir até a garagem. Chegando eu vejo que estava muito equivocado. Meu irmão deixou seu carro, eles não me abandonaram, não completamente. Eu não sei dirigir, mas vou ignorar essa falha deles, por enquanto. Nós saímos como o carro, Diana dirigindo, claro.

- Por onde nós vamos? — indaga dubiamente, típico dela.

- Pra longe desse inferno. – respondo com lágrimas nos olhos e um sorriso no rosto.

Notas finais
Espero que tenha gostado da história. E muito obrigado a você que leu até aqui.
Se tiver alguma critica, por favor, faça, isso me ajuda a melhorar.
Se eu acho que um acidente dessas dimensões possa realmente acontecer? Claro que não!
Mas muitas pessoas morrem por puro despreparo. Não morram. kk
Obrigado por ler, isso significa muito pra mim. Mas se puder comentar seria invariavelmente melhor.
Vlw msm!

^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!