A eterna guerra contra si mesmo.
14 Arroz queimado.
Notas iniciais
Natasha acompanhava as notícias pelo celular. A cidade de Libertina nunca ficara tão famosa no meio nacional e internacional. A destruição parcial do shopping e agora de um campus inteiro da universidade federal era algo chamativo o bastante se você colocasse a lupa sobre o número de mortos. Todos especulavam o que estava acontecendo no pequeno município de não mais do que cem mil habitantes. Terroristas? Acidentes? Meteoros? Cada palpite ia para mais longe da realidade possível. O governo tentava manter a população calma, mas o envio de forças militares para aquela região só piorava a situação.
Diego havia chegado há horas e já a havia informado sobre os eventos que deixara a moça preocupada, ter tantos alados reunidos num só local ia contra o que estavam planejando. Aparentemente o líder da religião Verdadeira Libertação era um alvo ou no mínimo um holofote que levou os humanos de outro mundo direto a eles. Talvez Alector não estivesse tão errado em dizer que Egoinis estava abusando da sorte. Colocar um grupo para proteger o mascarado da seita fora uma jogada ruim, assim como se exporem num evento onde reuniriam várias pessoas.
O problema era... Ego realmente errou ou agiu de propósito? Ele sabia que estariam expostos e fez a jogada dessa mesma forma. Quantos dos seus “companheiros” morreram lá na faculdade?
Por isso quando viu Alector chegar a casa junto com um sujeito com um capuz preto na cabeça Natasha não soube reagir. Diego havia dito que o colega deles tinha ficado para trás para atrasar o agrupamento inimigo e depois de um dia inteiro de espera ela cogitou o obvio: Alector havia perecido também.
Imundo, machucado e com um olhar apático Alector seguiu direto para o banho depois de empurrar o sujeito misterioso para o sofá da sala.
— Um presente para você. – disse ele e se foi no meio do corredor em direção ao banheiro.
Natasha observou o sujeito esfarrapado e igualmente sujo ali a sua frente, e antes de perguntar quem era viu a faixa no braço direito igualmente imunda e seu coração teve um sobressalto. Ao retirar o capuz preto os olhos castanhos de Eren encontraram com o dela e por alguns segundos os dois se olharam sem dizer nada.
— Natasha? – perguntou Eren.
A mulher imediatamente o abraçou permitindo que o grande oceano de alívio se transformasse em lágrimas enquanto apertava o homem “crequento” e fedido sentado no sofá da sala de estar.
***
Diego estava escorado na parede da cozinha olhando para Natasha que mexia nas panelas sobre o fogão. Ambos estava veemente aliviados e felizes por ter Eren perto e seguro, mas o medo e a preocupação sobre a situação encobria tal momento alegre.
— Haviam dois generais. Dois. Ego disse que as generais de seu mundo são imensamente fortes a ponto de terem lutado por muitas guerras e mantido a posição de liderança. Eu mesmo as vi... e ainda sim Alector acabou com elas.
Natasha mexeu o arroz colocando uma pitada de sal.
— Isso não é bom? Alector é forte e está do nosso lado. Como diz o ditado: é melhor estar do lado do diabo do que no caminho dele.
— Isso que me preocupa. Quer dizer que Alector é mais forte que Ego?
Natasha ponderou sobre isso e deu de ombros.
— Não importa. Eles perderam um de seus líderes e o outro está totalmente desmoralizado. Talvez fosse parte do plano de Egoinis atrair as generais e o exército deles para cá a fim de destruí-los.
Diego abriu a geladeira e pegou uma lata de coca cola.
— Eles abriram fogo contra nós em público pouco se importando com os civis. Egoinis nos disse que teríamos de lutar numa guerra e que haveriam baixas, mas aquilo foi demais.
Natasha desligou o fogo das panelas e se virou para encarar Diego.
— Ego nos disse que não éramos obrigados a ajuda-lo, mas se decidirmos fazê-lo não poderíamos voltar atrás sob pena de punição de termos de voltar as trevas de antes em nossas mentes. Agora é tarde, Diego. Precisamos nos concentrar em vencer. Tendo Alector creio que será o suficiente. Ele não só enfrentou dois generais e um grande número deles como trouxe Eren vivo.
Diego bebeu um gole da coca ponderando sobre aquilo.
— E como ele está?
— Depois do banho simplesmente capotou na cama. Estava visivelmente abalado embora creio que seja o cansaço. Eren jamais se abalaria com algo como aquilo.
— Não – concordou Diego num tom sério – com certeza não.
Natasha então foi até o quarto de Alector avisar que o almoço estava pronto e quando abriu a porta ouviu a voz do rapaz, mas não o viu. Ela suspirou em desanimo olhando na direção da cama.
— Alector.
— Sim?
— Por que você faz isso?
Era um costume estranho – mais um do rapaz – ele usava os lençóis para cobrir as bordas e se enfiava debaixo da cama de forma que parecia um pequeno forte seguro de uma criança de cinco anos.
— Estou em uma conferência no momento – respondeu Alector – o que deseja?
— O almoço está pronto.
— Irei mais tarde. Deixou o fundo do arroz queimar?
— Deixei.
— Ótimo, obrigado Natasha.
A mulher balançou a cabeça na negativa e já ia fechando a porta quando Alector falou:
— E seu amigo?
Natasha comprimiu os lábios e voltou a arfar. Abriu a porta entrando no quarto e sentou-se sobre a cama.
— Ainda não te agradeci por isso. Obrigada. Foi incrível o que fez.
— Você é uma mortal que as vozes gostam, embora Afrodite ache que deveria se maquiar de vez em quando.
— Diga para Afrodite cuidar da vida dela.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos. Natasha olhou para o teto e disse:
— Você uma vez perguntou por que eu e Diego nos importamos com Eren.
Alector não disse nada então ela continuou.
— Algumas coisas aconteceram, mas posso resumir em dizer que antes de Egoinis aparecer Eren foi o primeiro a conseguir realmente me ajudar.
— Como assim?
— Bom... também não sei explicar. Durante anos fiz terapia e foi na sala de espera do psiquiatra que o conheci, bom, que eu e Diego o conhecemos. Com uma face apática e o braço direito enfaixado ele parecia só mais uma pessoa vulnerável que buscava ajuda de um profissional. No fim começamos a conversar e... sei lá, as coisas que ele falou e fez me mostraram que era possível sair do fundo da areia movediça em que me encontrava. Acho que foi a primeira vez em anos que tive uma perspectiva positiva.
Alector não respondeu de imediato como se estivesse pensando ou dormindo afinal Natasha estava sentada na cama e ele estava escondido debaixo dela.
— As vozes não gostam dele. – por fim falou – e eu concordo.
— E por que diz isso, vocês nem se falaram.
— Instinto, Natasha. As vozes dizem que seu amigo é... hã... como dizer... ele é o abismo do tártaros. Sua alma foi descartada em troca da escuridão intensa e invulnerável.
Natasha esfregou o rosto, impaciente com as loucuras do colega.
— Jura? E o que isso significa?
— Que ele se tornou invulnerável, forte. Descartou as próprias emoções em troca de tal maldição e por causa disso é um amaldiçoado nocivo e hostil. O mal, se formos resumir.
Natasha olhou para o colchão.
— Está errado. É verdade que Eren é perturbado, eu conheço a escuridão de sua mente e entendo seus traumas, mas saiba que ele foi a primeira pessoa que, mesmo sucumbido a ansiedade depressão e estresse, foi capaz de ajudar alguém. Nós tivemos a sorte de sermos abençoados por Egoinis usando Incipere e por causa disso fomos libertados de nossas mentes, mas ele ainda está preso.
Ela se levantou indo em direção a porta quando ouviu Alector:
— Provavelmente terei de matá-lo. Sabe disso, não sabe?
Natasha para na fresta da porta.
— Não, não vai. Se está preocupado com a ligação que ele fez com a general Ego já disse que pode ser desfeita.
A voz debaixo da cama respondeu:
— Não me refiro a isso. Seu amigo é como Egoinis, eles são egoístas. As trevas que carregam consigo os deixam invulneráveis e por causa disso não há medo em fazer nada. Não importa o quê, nem que o custar muito menos quem precise ser sacrificado. As vozes não gostam disso e nem eu. Veja o exemplo de Ego, ele deseja destruir as três generais e mudar a ordem de como os alados gerenciam os mundo humanos em diferentes sistemas. Ele quer revolucionar um sistema antigo, subsistindo por um novo. E planeja fazer isso aqui na Terra.
Natasha se vira para encarar a cama.
— Sim. Um mundo onde pessoas como nós não mais existam. Um mundo onde não precisamos ser martelados pela culpa do passado nem da ansiedade do futuro. Não me parece ruim.
— Esse é o problema. Egoinis quer mudar algo e agora tem o poder para isso. Infelizmente ele não possuí a capacidade de ver o futuro, irá entoar uma nova ordem derrubando uma dinastia angelical de milhões de anos... tem ideia de quantas pessoas morrerão no processo?
— O que quer dizer?
— O sistema dos alados é consolidado e funciona. Ego acredita que é um sistema falho, mas tal sistema existe há milhões ou bilhões de anos e se mantém. Nada falho dura tanto tempo. Ou seja, ele apenas arrumou uma desculpa para fazer as coisas do próprio jeito, porque, como eu disse, Egoinis é egoísta. O novo mundo que ele vai construir para salvar os humanos vai contra a maré do atual sistema... haverá resistência. Resistência não só física, como mental. Olhe para nós. Graças a Incipere nos libertamos de nossas mentes e como consequências ganhamos habilidade que não condizem com a realidade desse mundo. Imagine se Ego vencer e favorecer a raça humana com tais habilidades. Bilhões de seres humanos poderosos...
— Está dizendo que haverá caos e morte. Não. É o ego em nossas cabeças que provoca as brigas e a mesquinhez. Sem eles não haverá mais essa realidade nojenta onde as pessoas se matam por motivos fúteis.
— Exato. – concordou Alector – elas serão limpas de tais emoções negativas e como consequências viverão baseadas no que acreditam ser o certo, assim como Egoinis, eu, você e Diego. E como nós, para vivermos de acordo com o que acreditamos ser o certo iremos matar.
Natasha travou.
— Percebeu? – disse Alector – estamos livres da mesquinhez, do egoísmo e da culpa. Fazemos o que fazemos de consciência limpa, mesmo matando. Matamos porque a vida tem menor valor do que nossos ideais.
A mulher não conseguia responder. Nunca tinha pensado naquilo.
— Ego quer destruir a atual realidade e criar uma nova baseada no que ele acredita ser o certo. Já eu gosto dessa realidade. Gosto do nosso mundo onde desenvolvemos sorvete, batata frita, parque de diversões, arroz com fundo queimado. Posso não gostar das pessoas nesse planeta, muito menos me importar com elas, mas me importo bastante com o que produzem. Por isso eu já decidi que irei proteger esse mundo, vou proteger a humanidade.
Natasha sentiu um calafrio descer pela espinha.
— Do que está falando?
— Que minha colaboração com Egoinis vai até a morte dos três generais. Depois, será cada um por si e eu vou matá-lo. Não posso deixar alguém supérfluo como ele vivo ameaçando os bens de consumo que tanto amo. E dada a natureza do seu amigo Eren juntando o fato dele estar ligado a Liana é provável que irei eliminá-lo também.
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