A eterna arte de ser um ponto de luz num mundo

1 Baltazar, as pessoas são estúpidas!


12 de Outubro de 2016.

O porquê de eu ter escolhido narrar nesse diário exatamente como Eva Khatchadourian, nem eu sei. Mas ela estava narrando para Franklin, e não para um diário chamado Baltazar. Desculpe-me Baltazar, mas você não fala, nem tem vontade própria. Porém, talvez eu esteja sendo injusto com você. Sim, com certeza estou sendo injusto! Afinal, Franklin também não fala, pois está morto. Acho melhor parar de falar por aqui, porque quem quiser ler o livro primeiro, e não o filme, como eu fiz burramente, vai se decepcionar. Como se alguém fosse te ler, não é? Que piada!

Enfim, diário. Eu mal sei porque comecei essa bobagem novamente. Talvez seja simplesmente a minha vontade de que dê tudo certo falando mais alto, para variar. Na verdade, ela está gritando. Gritando com um megafone, bem perto do meu ouvido.

“Leônidas, presta atenção. Não vá estragar tudo de uma vez, entendeu, seu merdinha?” É isso que essa vaca está dizendo.

Vamos aos fatos. Ontem foi meu aniversário. Você deve estar se perguntando “Oras, você faz aniversário perto do dia das crianças, não é? Então deve ganhar mais presentes que todo mundo! Que legal!”

Pois então, meu caro. Não é nada disso! Parei de ganhar presente de dia das crianças muito antes, aos 11 anos. Porque meu pai não queria dar dois presentes, então logo depois da primeira década de vida, ele deu a desculpa.

“Você está muito grandinho! Chega de presentes de dia das crianças, ouviu? Eu que mando aqui!”

Parei de ganha-los no dia das crianças, mas ainda ganhava os de aniversário. Não era tão ruim, afinal. Me tiravam um, mas mantinham outro. É, não é tão ruim. Não, senhor!

De mamãe, ganhei um vídeo game. De Dulcinéia, um boneco do batman. Como se eu não fosse grandinho o suficiente. Vou brincar com ele de qualquer maneira e deixar a maturidade de lado em alguns momentos, que seja. Do meu pai... Talvez seja por isso que deixei isso para o final. Você vai se chocar de verdade, Baltazar! Ele me deu uma revista pornô. Uma revista pornô!! Minha mãe quase o matou, e meu cunhado, marido de Dulce, segurou a risada. Queria poder falar com ele sobre isso.

Sairia algo do tipo “Tudo bem, Bruno. Pode rir da minha desgraça, depois nós acertamos isso de alguma forma!”

E logo depois, ele riria, riria comigo. Seríamos amigos por um longo tempo. Mas Bruno nunca gostou de mim, e para ser sincero, ele estava rindo DE MIM! Nós nunca fomos, e nunca seremos amigos. Se nem minha família vem para meu aniversário, imagina meus amigos inexistentes que eu sempre quis ter, mas sempre estiveram apenas em minha memória. Ser estranho é uma maldição que atinge poucos, Baltazar! E eu não estou falando de uma estranheza comunzinha, do tipo que todo mundo tem. Como quando você pensa em gritar no meio da sala de aula, ou jogar alguém na linha do trem.

Estou falando de pessoas estranhas, desengonçadas, inconvenientes, que falam tudo o que pensam. E quando eu digo tudo, é tudo mesmo. Pessoas que falam estranho, andam estranho, respiram e fazem tudo tão estranhamente, que as pessoas que fingem ser estranhas logo pulam fora. Por favor, não fale “eu não sou normal” se você não for realmente. Carregar o autismo comigo não é fácil, cada dia é uma batalha diferente. Portanto, caia fora. Aqui não tem espaço para você. Na verdade, nem para ninguém.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.