A estrangeira

4 Dinâmica de casal


O resto do expediente foi estranhamente curto. fechei o caixa, desliguei o letreiro e girei a chave na porta da loja às oito da noite, Ingrid saiu do pequeno quartinho dos fundos, onde passou as últimas horas sentada em um caixote de papelão, lendo revistas velhas.

O trajeto de carro até a minha casa foi mergulhado em um silêncio tenso. O rádio baixo tocava uma música qualquer, mas nenhum de nós estava prestando atenção. Minhas mãos apertavam o volante enquanto eu repassava mentalmente o tamanho da burrice que eu estava cometendo.

Estacionei na entrada de cascalho. Desliguei o motor e olhei para a mulher no banco do carona. As luzes amareladas do poste da rua iluminavam metade do rosto dela.

— Chegamos — anunciei, destravando as portas.

Peguei as duas malas dela no porta-malas e caminhei até a varanda. Destranquei a porta da frente, empurrei com o ombro e acendi a luz da sala. Era uma casa simples, térrea, com móveis herdados e uma decoração que gritava "homem solteiro que não recebe visitas".

Deixei as malas no canto da sala e me virei para ela. Ingrid havia parado no tapete de entrada. Ela tirou os sapatos em silêncio e, com uma naturalidade que me chamou a atenção, pendurou o casaco exatamente no terceiro gancho do cabideiro de madeira — o único dos quatro que não estava com o parafuso frouxo. Pura sorte, presumi.

Apoiei as mãos na cintura e respirei fundo. O peso da realidade finalmente tinha me alcançado por completo.

— Sabe de uma coisa? — comecei, a voz soando alta demais no silêncio da casa. — Eu devo ter algum parafuso a menos. Eu deixei uma completa estranha entrar no meu carro e trouxe direto para a minha casa. Eu não sei de onde você veio. Não sei o seu sobrenome. Pelo amor de Deus, você pode muito bem esperar eu pegar no sono, me esfaquear no meio da noite e fugir com a minha caminhonete.

Ela terminou de ajeitar o casaco e se virou para mim. Não parecia ofendida. Na verdade, havia um traço de humor contido nos olhos escuros dela, uma paciência que não combinava com alguém que estava fugindo da deportação algumas horas antes.

— Robert — ela disse, a voz calma, quase suave. — Se eu fosse uma psicopata interessada na sua caminhonete, eu teria fugido com ela de manhã, quando você me deu as chaves para guardar as malas no porta-malas. Teria sido muito mais fácil do que passar o dia inteiro escondida no seu estoque.

A lógica era inegável. Soltei o ar pelo nariz, derrotado, e esfreguei a nuca.

— Justo. Mas você entende o meu ponto não é? Nós não sabemos nada um do outro. E se nós vamos ter que convencer os federais e a cidade de que somos casados e apaixonados... a gente precisa de muito mais do que apenas morar sob o mesmo teto. A gente precisa de uma história.

Apontei para a mesa da cozinha.

— Senta. Quer uma cerveja? Água?

— Uma cerveja seria ótimo — ela respondeu, puxando uma das cadeiras de madeira e se sentando.

Fui até a geladeira, peguei duas garrafas, abri na beirada da pia e coloquei uma na frente dela. Sentei do outro lado da mesa e puxei um bloco de notas amarelo e uma caneta que ficavam perto do telefone.

— Principio da verdade absoluta — eu disse, batendo a ponta da caneta no papel. — Se eles fizerem perguntas separadamente, nossas histórias precisam bater. Há quanto tempo estamos juntos?

Ela deu um gole na cerveja, pensou por um segundo e me olhou.

— Três anos. É tempo suficiente para justificar estarmos casados e estabilizados, mas recente o bastante para não termos filhos ou uma história longa demais espalhada pela cidade.

Anotei. Três anos.

— Como nos conhecemos? — perguntei, erguendo uma sobrancelha. — Porque eu não saio de Darnell tem um bom tempo.

— Você foi até Columbus, nossa cidade vizinha para comprar peças para a loja. Aquelas gondolas de metal pesado — ela disse de forma fluida, sem nem piscar. — Eu trabalhava numa lanchonete perto da loja de ferragens. Derramei café na sua camisa por acidente. Você ficou irritado, mas eu paguei a lavanderia e te convenci a jantar comigo para compensar.

Parei a caneta no ar e olhei para ela. Era uma história específica até demais. Tinha detalhes, tinha textura. Não parecia algo inventado no susto.

— Nada mal — murmurei, voltando a escrever. — É clichê, mas o governo adora clichês. Ninguém desconfia do comum.

— E como eu vim parar aqui? — ela perguntou, apoiando o queixo na mão, me testando para ver se eu conseguia improvisar também.

— Você se cansou da cidade grande. Nós mantivemos contato, eu fui te visitar algumas vezes. Um dia, você colocou tudo no carro e veio morar comigo. Casamos no cartório do condado vizinho há seis meses, sem festa, só nós dois. Por isso a cidade não ficou sabendo.

— Eu gosto disso — ela sorriu, e por um segundo, a luz da cozinha fez os olhos dela brilharem de um jeito que me causou um aperto estranho no peito. Um "déjà vu" fora de lugar. Balancei a cabeça, afastando o pensamento.

— Certo. História de origem definida. Agora, a dinâmica da casa — voltei ao tom prático, circulando o que já tínhamos escrito. — O quarto de hóspedes fica no fim do corredor. Você fica com ele. Eu durmo no meu. Se alguém bater na porta, ou se tivermos visitas surpresas, precisamos espalhar algumas coisas suas no meu quarto e no banheiro para parecer que dividimos o mesmo espaço.

— Concordo. Escova de dentes na mesma pia, roupas misturadas no cesto da lavanderia. O básico.

O jeito prático com que ela lidava com a situação me impressionava. Ela não tinha a hesitação que se espera de alguém invadindo a privacidade de um estranho. Era como se estivéssemos desenhando a planta de um projeto juntos, em sintonia fina.

Fechei o bloco de notas e tomei um gole longo da minha cerveja.

— Amanhã de manhã, vamos sair juntos. Eu te levo até a loja, andamos pela calçada principal. De mãos dadas. As pessoas precisam começar a ver a gente se comportando como um casal.

— De mãos dadas — ela repetiu, baixinho, os olhos focados no rótulo da garrafa.

— É. Você acha que consegue fingir que gosta de mim? — brinquei, tentando aliviar a tensão.

— Sinceramente Robert? Eu acho que essa vai ser a parte mais fácil de toda a mentira.

Me senti um pouco estranho com aquele comentario, comecei a suspeitar que eu era o único que ainda não tinha entendido todas as regras daquele jogo.