A estrada de grãos

1 A estrada de grãos


Isto não é uma autobiografia e meus dizeres são partes de uma verdade, ao sentar e mentalizar o que escreveria para uma plateia, procurei nos meus cafundós algo que tocasse, ainda que pelo meus egoísmo tudo dissesse que eu deveria falar por mim e não pelas pessoas, foi quando empunhei a pena e contrariei o esperado.

Desde muito cedo, estive intrigado pela razão das minhas dores e pela minha empatia colossal em relação aos sofredores desconhecidos. Quanto mais eles se fechavam, cerravam os olhos e a boca, meu eu procurava uma cura, uma solução. Não havia a consciência de que no estado verídico, minha busca se contemplava em achar um complemento, uma felicidade. Um sentido existencial.

Sentado num sofá sem molas para alavancar, vendo caos e mortes numa televisão barata, fiz uma jura mínima, nos meus anos pueris, que muitos chamam de infância, escolhi provar para todos que neste mundo não existe apenas dores, e que um coração é só um baú velho. Preferi venerar as rosas por mais que aparecessem os espinhos.

Através de baques, tragadas instantâneas, as constelações tentavam me provar o contrário, porém persisti. Pois, levei em conta que no meio de uma guerra, há crianças, e não há como sair ileso de um litígio de épocas, afinal, se não for atingido pelos disparos, os gritos te ensurdecerão... E ao olhar a ingenuidade na face de cada criança, pus-me a salvá-los, pois no âmago do fato, resgatava a juventude e os tempos imáculos de toda a humanidade.

Admito que antes de conhecer o Caminho, a Verdade e a Luz, realmente me entregava à volúpia mórbida do pessimismo. Todos os meus livros estruturaram diante disso. Demorei perceber que não era luxo algum morar numa fossa. A crosta que estava envolta de mim, a bolha impenetrável que colidida com outra numa fila de lotérica me forçava a abrir, exalava uma desarmonia inarrável, deturpada. Quando o garoto de cabelos loiros questionou: “Você gosta dela?”, eu devia ter respondido: “Sim, eu amo a vida”.

Foi quando conheci expoentes que sem pestanejar, tocaram-me, e diferente do belo fruto que ao ter a sua superfície ciscada se enclausura, paradoxalmente, abri-me, e aqui estou eu, vulnerável num mar de almas. Expurgando minha intimidade tantas vezes doentia e sublimando.

Constatei isto, num evento, que se encontra num passado nem tão remoto, ao terminar um certo sarau, corri para o dormitório e jogado aos lençóis escrevi num caderno: “é amor que estou sentindo, é amor!”. As lágrimas após formarem um playground na minha face, disseram que a minha missão era aquela, redescobrir o prazer de viver procurando as pessoas que estivessem dispostas a se conhecerem, e posso afirmar com tamanha felicidade, que aqui, agora, encontro muito mais que um dia eu pudera imaginar.

Agradeço a oportunidade de estar aqui, e lembrem-se, todas as dores, todos os sofrimentos, são o estado de purificação da alma, então aproveitem.

Se perguntarem se vocês amam a vida, digam que sim, digam por mim, digam por nós.

FIM

02/04/2015

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