A escolhida de Artemís
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Ademais, boa leitura.
Duas figuras incrivelmente elegantes conversavam em meio a um grande salão. O homem era grisalho e com uma barba grande e crespa, porém, arrumada. Vestia uma túnica branca aberta na parte superior e sem a manga direita, alcançando a altura dos joelhos. Possuía diversos ornamentos em dourado e prata lembrando a forma de um labirinto. Na cintura, usava um cinto de couso grande o qual ficava escondido pelas dobras da túnica. Por cima desta estava um pano azul claro que lhe caía por todo o lado esquerdo. Calçava um par de sandálias, também de couro.
A outra figura era uma mulher de beleza notável. Usava um vestido azul celeste que chegava até a altura de seus joelhos, com mangas que chegavam aos cotovelos. Estava descalças e matinha o andar impaciente. Carregava nas suas costas uma aljava de couro com detalhes de prata. Carregava trinta flechas altamente letais. Na mão direita, segurava seu arco de caça, uma peça magnífica feita de ouro, criada nas forjas divinas de Hefesto. Tinha cabelos castanhos e encaracolados atingindo os ombros, um olhar doce, mas atento e uma feição jovial.
O deus apresentava uma expressão séria atrás do rosto de meia idade. Com os olhos, seguia atentamente os passos da deusa presente ali com ele. As mãos em repouso nas costas demonstravam uma certa aflição com a cena. A moça por sua vez, parecia ignorar a presença dele e continuava sua caminhada frenética pelo salão principal do Olimpo. Após alguns minutos vendo aquela situação, Zeus, impaciente, desceu os degraus de mármore que ficavam logo a frente de seu trono e caminhou para o meio do salão lentamente.
Diante do movimento do pai, Artemís parou de se movimentar e antes de encarar Zeus, passou seus olhos mais uma vez pelo salão principal do Olimpo: tratava-se de uma construção estonteante. Diversas colunas coríntias, grossas, estavam dispostas em círculo pelo salão. O teto feito igualmente de mármore, tinha uma abertura considerável por onde Zeus e outros deuses admiravam a beleza do Universo. Oposta a entrada do salão, estavam treze tronos, um para cada um dos deuses e no meio deles, o imponente trono de Zeus. A iluminação do local era feita por diversas velas e tochas que estavam distribuídas pelo local, nos mais variados formatos e tamanhos.
Após admirar toda a beleza do local, Artemís descansou seu olhar nos olhos do pai, parado no meio do imenso salão:
-Por que esta impaciência toda, Artemís? — Indagou Zeus com uma voz firme, grossa e intimidadora.
-Por quê faz perguntas das quais já sabe a resposta? — Respondeu-lhe Artemís com a feição séria e a voz calma.
-Você pretende mesmo fazer isso? — Perguntou Zeus no mesmo tom de antes.
-Sim — disse Artemís — pretendo! — Completou após uma breve pausa.
-Já conversou com suas companheiras sobre isso? — Zeus perguntou em tom irônico.
A deusa apenas riu diante de tal pergunta.
-Por quê se importa tanto? Nunca se importou com minhas guerreiras… — A deusa retrucou fechando a cara.
-Porque sei exatamente o que vai acontecer… — Zeus começou a falar, mas Artemís o interrompeu:
-Então me diga, o que irá acontecer? — O tom de ironia foi total na fala da deusa.
-Ártemis, não ouse me desafiar. — A voz de Zeus se tornou forte e alta. A iluminação falhou momentaneamente no salão e Artemís sentiu o chão tremer levemente.
-Você gosta demais deles, não é mesmo? Então se você já sabe o que vai acontecer, não acha que é uma injustiça? Por quê não faz nada pra mudar isso?
Zeus refletiu por um momento, o que possibilitou tudo voltar ao normal. Deu alguns passos para trás e ficou de costas para a deusa, que apenas sorriu e abaixou a cabeça. O deus tentava se acalmar, para não deixar a raiva tomar conta de seu ser. Continuou andando até chegar o início da pequena escada que conduzia até seu trono, tornando a virar para Artemís. A deusa havia retomado seu andar descompassado e impaciente.
-Porque todos eles tem o livre arbítrio — gritou Zeus na direção de sua filha — por isso não interferirei! — A voz era novamente firme.
-E vais me proibir de fazer algo para salvar a vida da inocente mulher? — Artemís perguntou mantendo o passo impaciente e sem encarar a figura do deus.
-Ambos sabemos que proibindo-lhe ou não, você fará de qualquer maneira.
Zeus virou novamente de costas e subiu os seis degraus, parando diante de seu trono e fitando a deusa novamente. Artemís apenas riu da indagação do pai, ficou mais alguns segundos movimentando-se e parou de súbito. Neste momento o rosto de Zeus estremeceu e ele se pôs a descer os degraus novamente na direção da deusa.
-Tenho que ir, até logo papai! — Foi tudo o que a deusa disse antes de correr o mais rápido que podia na direção da saída do Olimpo.
-Artemís — gritou Zeus — não ouse… — Mas Artemís já havia feito sua decisão.
A deusa passou pelas gigantes portas do Olimpo em uma velocidade assustadora e, chegando ao fim da pequena varanda, se jogou na direção do solo, do alto do Monte Olimpo. Zeus parou no meio do salão com a raiva tomando seu corpo. Levou as mãos próximo ao rosto com ambos os punhos cerrados, virou-se na direção dos tronos e soltou um poderoso grito. A iluminação sibilou novamente, o chão tremeu! Os olhos do deus ficaram completamente brancos e de suas mãos fechadas, pequenos feixes de eletricidade saiam. Ao finalizar o grito, apontou as mãos para o teto, logo acima de seu trono e jogou seus braços para a frente.
De suas mãos saíram dois poderosos raios que, ao atingirem o mármore criaram um grande buraco. Blocos grandes voaram tanto para fora quanto para dentro do salão, atingindo tronos, alguns arbustos no local, bem como apetrechos de iluminação. Após a onda de fúria, Zeus de acalmou e tornou a se sentar em seu trono. O teto lentamente se reconstruía, sem a ajuda de ninguém, como se fosse mágica. Os pedaços de pedra caídos lentamente se dirigiam até seu local e em pouco tempo o buraco estava fechado. No trono, Zeus levou uma das mãos até o queixo, aonde apoiou-o. Fitou a porta por onde Artemís passará e assim ficou. Momentos antes de alcançar o chão, Artemís escutou um grande estrondo — o raio de Zeus — e esse barulho se fez ouvir por toda a Grécia.
A alguns quilômetros dali, na cidade de Eféso, cinco figuras se destacavam no meio da noite: uma mulher corria por entre as ruas da cidade seguida por quatro homens — um general e três soldados.
A mulher usava três diferentes panos para cobrir seu corpo na fria noite de Eféso: um branco, um amarelo e outro vermelho. Estava descalça e não usava nenhum outro ornamento a não ser uma pequena pochete presa a cintura onde carregava um pedaço de pão e alguns dracmas. Tinha cabelos crespos e pretos indo até a metade das costas, trazia a cara e os braços sujos. O olhar era de preocupação total. Carregava consigo algumas pedras que, quase sempre antes de fazer uma curva, jogava contra os soldados, tentando desacelerá-los.
O general estava vestido em armadura completa, com exceção do elmo. A camisa e a calça eram vermelhas; o colete de couro marrom claro; a armadura feita de prata cobrindo quase todos os locais visíveis do corpo. Carregava consigo na cintura uma espada feita de bronze, um pequeno punhal do lado oposto da espada e uma pequena bolsa, onde guardava alguns dracmas. Os soldados estavam vestidos da mesma maneira, com exceção da armadura cobrir menos espaços e a espada ser apenas de ferro fundido. Com exceção do general, os outros soldados estavam com as espadas em mãos, prontos para atacar quando tivessem a chance.
A mulher corria bem e tinha uma vantagem até considerável sobre os soldados e o general. Esses corriam em velocidade moderada, como se quisessem dar essa vantagem para a moça. Quando esta lhes atacava com uma pedra, eles apenas desviam do caminho com uma facilidade incrível.
“Pare e desista mulher”, “Você se cansará logo, é melhor parar”, “Se parar agora, talvez lhe deixaremos com vida” eram frases que o general proferia durante a perseguição, sempre arrancando gargalhadas de seus soldados. A mulher estava tomada por fúria, mas sabia que se os encarasse, seria sua perdição. Então, estava tomando o rumo do templo da cidade onde talvez pudesse encontrar uma saída dessa situação. Não tinha feito nada contra o Estado, não estava entendendo os motivos daquela perseguição.
Após muito correr, a mulher chegou na subida final, uma escadaria que dava acesso ao templo. Chegando na perístasis do templo, a mulher encontrou uma certa dificuldade para adentrar o resto da construção, pois muitos mendigos utilizavam aquele local para repouso. Chegando no pronaus, parou enfim de correr, olhou rapidamente para trás a viu os soldados no meio da escadaria de acesso ao templo avançando em trote. Sem hesitar, entrou no naos finalmente!
O templo era extremamente magnífico com colunas jônicas e coríntias por toda a extensão. Tochas iluminavam o local, provendo uma boa iluminação. A mulher avançou até se ajoelhar diante da estátua de pedra negra da deusa Artemís. A frente da estátua, havia uma bandeja de tamanho médio onde são depositadas as oferendas.
-Ó querida deusa — começou a mulher em um tom de súplica e desespero. Em meio a prece, seus olhos se dirigiam a entrada do templo, esperando para confrontar os soldados — não tenho nada de valioso para lhe oferecer, mas os detentores do poder desta cidade estão cometendo uma injustiça para comigo — fez uma breve pausa para retomar o fôlego, aproveitando para olhar novamente a entrada do templo — ofereço-lhe dois dracmas e um pedaço de pão pela sua ajuda, é tudo o que tenho. — retirou da pochete os dois dracmas e depositou na bandeja.
Assim que a prece fora finalizada, os soldados entraram no templo, ficando um na entrada, impedindo a saída da mulher, um por cada lado e o general indo diretamente de encontro a ela.
-Onde está o colar do de ouro que roubastes do mercado hoje cedo, mulher? — A voz do general soava firme e imponente, sinal da posição que ocupava.
-Que… Que colar, senhor general? — A mulher perguntou sem entender a situação. Não havia nem ido ao mercado naquele dia, pra falar a verdade, o alojamento público onde costumava ficar era do lado oposto ao mercado da cidade. Tinha algo grande por trás disto com certeza.
-O colar de ouro e rubis que a senhorita fez questão de roubar da loja de Ungur nesta manhã, ou você acha que seus crimes serão impunes?
O general sacou a espada e colocou no pescoço da mulher:
-Será sua última chance, mulher, onde está o colar?
Ao finalizar sua falar, uma flecha atravessou o pescoço daquele que guardava a porta. O corpo caiu inerte alguns metros de onde estava, com a flecha alojada em seu pescoço. Ao cair do corpo, a figura de uma mulher se revelou. Entrou no ambiente calmamente. Usava um vestido azul celeste, um arco dourado e uma aljava de flechas, apenas.
O general se virou para a entrada, encarando a figura ali parada:
-Entra em um templo armada de um arco, mata um de meus homens e nem mesmo usa uma armadura? Que espécie de arqueira tu és, mulher? Cuidarei primeiro de você, depois finalizo com essa traidora. — O general afirmou com um sorriso no rosto e se moveu na direção da mulher.
Os dois soldados ali hesitaram inicialmente, mas avançaram. A mulher calmamente sacou mais uma flecha da aljava e posicionou no arco. Encarou os três alvos e escolheu o que acertaria: o da direita. Em um movimento, apontou o arco para o soldado que, ao ver o arco apontado para si, realizou uma manobra evasiva. A mulher, devido a sua extrema habilidade, esperou o movimento ser finalizado e disparou a flecha, que atingiu o coração do soldado em cheio, perfurando a armadura. Ao liberar a flecha, a arqueira realizou um movimento evasivo para a direita, escapando de um golpe de espada do soldado a esquerda.
O general parou no meio do templo e passou apenas a analisar os movimentos da mulher que ali se encontrava, desafiando sua autoridade. Esta, por sua vez, usou as colunas do local em sua vantagem. Correu o mais rápido que pode pela lateral do templo e voltou para o centro do mesmo, pondo-se entre a mulher perseguida e o general. Armou outra flecha no arco e disparou na direção do general o qual desviou. Porém, acabou por acertar o outro soldado em cheio na região estomacal, fazendo-o cair desacordado.
-Você realmente tem talento mulher, mas é párea para um general? — O homem puxou sua espada e avançou lentamente na direção da deusa.
Ao se aproximar, tentou um golpe por cima de sua cabeça o qual foi parado pelo arco. Com a espada travada momentaneamente, o general recebeu um chute no meio da barriga, arremessando-o na direção de uma das colunas do templo. O general bateu na metade da coluna e caiu, deixando sua espada cair de sua mão no momento da queda. Rapidamente a mulher colocou outra flecha no arco e disparou contra o general, acertando em cheio a mão direita do general, prendendo-a ao chão.
O homem, mostrando uma cara de raiva e dor, arrancou a flecha de sua mão, empunhou a espada na mão esquerda e avançou novamente contra a mulher. Como sua mão dominante era a direita, o golpe de esquerda fora pouco efetivo. A mulher segurou o pulso do general com uma das mãos, parando o golpe e o atingiu no rosto com o arco, levando o homem ao chão novamente.
-O grande e temido general de Eféso levando uma surra de uma mulher, quem diria! — Debochou a arqueira.
E o deboche surtiu efeito. Em um movimento o general levantou com a espada na mão direita e desferiu um golpe que seria certeiro. A arqueira com certa dificuldade, deu dois passos para trás, desviando do golpe. Aproveitou para desferir um chute no peito do general. Este tentou uma manobra de defesa, mas o chute fora tão forte que ele foi arremessado novamente para trás, mas sem cair.
Rapidamente a mulher armou outra flecha e disparou, atingindo o peito do homem, no pulmão direito. Ele caiu de joelhos, mas calado. O orgulho estava ferido!
-Quem é você? — Perguntou o general, separado bem as palavras. A voz saira abafada devido a dor que estava sentindo.
-Eu sou a deusa Artemís e você, general, está sendo punido por todos esses anos de abuso de poder. Tem algum último desejo? — A voz da deusa era firme e impotente.
-Tenho sim — disse o general se levantando — desejo que você me acerte novamente, se for capaz! — Ao finalizar a frase, empunhou sua espada e correu na direção das colunas.
Artemís apenas ficou parada, esperando a investida do general. Ela veio pelo seu lado direito. A investida fora bem executada, sem nenhum som, a espada sendo segurada firmemente e passos firmes e compassados. Artemís, no último segundo, desviou da investida lateral. Assim que a lâmina passou por ela, a deusa segurou a mão do general, apontou a espada para o peito dele e cravou a espada o mais fundo que pôde, chutando-o de leve em seguida, apenas para derrubá-lo.
-Jamais desafie uma deusa, mortal! — Sacou um flecha da aljava, apontou para a cabeça do homem e a disparou.
Ao final da batalha, Artemís foi na direção da mulher que se escondia no outro lado da estátua, chegou perto dela e se ajoelhou.
-Thamires — indagou a deusa — você está bem?
A mulher fitou a deusa sem entender bem a situação.
-Co… Como você sabe meu nome?
-Eu sou uma deusa, tenho que saber. Estou aqui para atender ao seu pedido.
Artemís ajudou a mulher a se levantar.
-Obrigado querida deusa — a mulher agradeceu — eu não sabia se viria, mas não tinha pra quem suplicar.
Artemís esboçou um pequeno sorriso.
-Não tem pelo que agradecer, minha donzela. Vim aqui também para lhe fazer um convite. Venho lhe observando pelos últimos dois anos e notei em ti uma determinação e força que não noto há séculos em ninguém. Quero lhe convidar para fazer parte das caçadoras de Artemís.
A mulher ficou atônita. Tudo o que tinha ouvido sobre as caçadoras soube por histórias que lhe contavam enquanto criança, mas nunca teve a oportunidade de saber se eram reais, até esse momento. Tinha sofrido demais durante a sua vida e se tudo o que falaram sobre as caçadoras fosse verdade, talvez fosse o momento de descanso.
-Você terá inúmeros privilégios — retomou Artemís percebendo a indecisão da moça, mas também não querendo perder uma valiosa peça para sua organização — dentre eles, a imortalidade!
Após alguns segundos refletindo, a mulher tornou a falar:
-Por quê eu?
-Sofrestes a vida inteira minha flor — respondeu Artemís imediatamente — homens sempre lhe desprezaram, sempre te perseguiram! Você já foi usada, acusada injustamente, viajou muitos quilômetros a procura de um significado em sua vida. Agora eu estou lhe dando. Chega de correr e fugir, linda mulher, junte-se a mim!
As palavras tinham tocado o íntimo da mulher. Estava relutante, pois sabia que teria que renunciar a grande parte dos prazeres mortais, embora não tivesse se envolvido com nenhum homem… Por fim, concluiu que valia a pena.
-Eu aceito — Artemís se encheu de felicidade neste momento, pois tinha pretensões de torná-la a líder das caçadoras pela bravura que a mulher já expressará em sua vida — mas primeiro me responda: o que o general queria comigo?
Artemís tomou um breve fòlego e prosseguiu.
-Na semana passada, você vislumbrou o general saindo de um bar com um dos homens mais influentes da cidade. Um dia depois, viu o general saindo de um bordel com a mulher daquele mesmo homem — enquanto falava, Thamires se recordava das visões — então para encontrar um motivo para lhe matar e não contar um dos complôs dele, tudo que fez foi roubar um colar do homem, deixado por sua mãe, e lhe acusar. Por mais que ele fosse general, mortes em Eféso são divulgadas rapidamente, e ele certamente seria acusado caso houvesse lhe matado sem motivo.
As duas mulheres permaneceram ali conversando por mais alguns instantes e saíram, pouco antes do sol nascer. A jornada de Thamires, a escolhida de Artemís, acabará de começar.
Notas finais
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